Comentários: MARLÈNE DIETRICH E EU

Sem dúvida que este post é bem demonstrativo do
seu entusiasmo quando se refere às suas referências artistas, que, como aliás frisa, não
as dispensa a titulo nenhum. Senti-me quase que envolvido pelo calor com que narrou este episódio
de uma das tourneés da diva Amália ao Olympia. Fique com um abraço do Raul

Afixado por congeminações em fevereiro 12, 2005 10:44 AM

Olá, querida Valéria! Hoje, venho incomodá-la com mais questões sobre a nossa Amália. Há dias, reencontrei uma colega minha que, tal como a Amiga Valéria, é uma fã da Amália Rodrigues e grande especialista em fado. A respeito da nossa grande diva, essa minha colega contou-me, entre outras, duas coisas interessantes. Primeiro, as brilhantes actuações que Amália fazia no Bairro Alto, a título gracioso, em favor de crianças desprotegidas - o que, julgo eu, diz muito sobre a generoidade e carácter da fadista. Segundo, falou-me também de uma senhora chamada Helena Tavares, cujo talento suplantaria, na sua opinião, o da Amália, mas que foi injustamente esquecida. Gostaria de perguntar à Valéria se conhece essa Helena Tavares e se concorda com a opinião controversa da minha colega.

Beijinhos, Valéria!

RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ:
Conheço sim essa artista, a Helena Tavares, cujo principal exito foi "A rua dos meus ciumes" do maestro Frederico Valério. Era(é)-não sei se está viva ou não- uma grande fadista, mas temo não concordar com essa sua amiga, dado que a H. Tavares era uma fadista da linha tradicional do fado, se bem que tenha pontualmente feito alguma Revista no Parque Mayer, interpretando fados musicados. As fadistas da linha tradicional, por vontade ou impossibilidade proprias,quase nunca foram capazes de abordar o Fado nas suas diversas vertentes, incluindo a inovação da sua linha melódica e poética, e claro está, viveram enquadradas dentro dum estilo um tanto ou quanto espartano, do ponto de vista musical e poético.A Amália, era sobretudo uma cantora, que também cantava Fado, e para fazê-lo, teve de inovar o reportório, modificando os contéudos, imprimindo à guitarra portuguesa um caminho até então insuspeito.Lembro-lhe por exemplo, o grande escandalo no inicio dos anos 60, quando Amália decidu cantar Camões e outros poetas da chamada literatura clássica ou erudita.Certa "intelligentsia" criticou-a, porque o Fado, segundo eles, estava muito abaixo do nível dos poemas, e que portanto seria um sacrilégio, uma fadista cantar coisas mais elaboradas. Helena Tavares, ficou-se por esse fado menos "trabalhado",e Amália, porque a Voz o permitia, fez escola, e hoje, cantar-se O'Neil, Bernardim ou Camões, tendo como pano de fundo a guitarra portuguesa, é coisa banal entre a maioria dos fadistas. E depois, a Amália tinha uma extensão de voz, e uma sabedoria especial - provocada quiçá pelo convívio com intelectuais, sede de aprender, etc- que Helena Tavares nunca terá tido oportunidade de experimentar, se bem que considere que ela foi uma das vozes do Fado com especial distinção. Mas tivemos muitas, como o foram (e algumas ainda o são) Beatriz da Conceição, Argentina Santos, Fernanda Maria,Teresa Tarouca, Maria Teresa de Noronha,Maria da Fé, etc, que pelo seu talento, emprestaram ao Fado caminhos de qualidade e sucesso. Amália está para além delas. O Fado foi o seu veículo, mas a sua potencialidade artística levou-a para um outro fado- aquele que afinal singrou- o fado de linha amaliana. Se reparar, todas, mas todas as jovens fadistas, seguem o caminho amaliano, quer do ponto de vista da interpretação, da escolha de reportório, e até na apresentação cénica. O problema é que, algumas o estão conseguindo, outras, falta-lhes o essencial para iniciar a aventura-A Voz.
Sempre ao dispôr,
Valeria Mendez

Afixado por Flávio em fevereiro 12, 2005 01:34 PM

Bom, tenho de dizer duas coisas:
- Já lhe disse mas volto a dizer: A sua forma de escrever é muito cativante. Fico colado ao monitor e não bato lá com o nariz por milímetros, eh,eh,eh!

- Volta a revelar neste texto a sua alma de pessoa boa e sensível, coisa cada vez mais rara nos dias que correm.

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por zecatelhado em fevereiro 12, 2005 06:27 PM

Oi, amiga Valéria...
ESTOU TRISTE: o domingo era o dia de nos reunirmos em família...
BShell

Afixado por blueshell em fevereiro 13, 2005 12:24 PM

Experiências de vida que só vivendo se percebe, não é!? As coisas que parecem insignificantes têm um peso bem definido para cada um. Sei o que é gostar das coisas belas e simples da vida. Valha-nos essas pequenas " prendas" que ela nos dá.
um abraço!

Afixado por hammer em fevereiro 13, 2005 01:58 PM

Um apelo irresistível, que a conduziu até aquela casa, num gesto nobre e certamente despido de preconceitos. Uma vivência recheada de coisas simples que nos marcam para sempre.
É salutar ler estas histórias do seu quotidiano.

Afixado por jose gonçalves em fevereiro 13, 2005 07:13 PM

Já algumas vezes aconteceu ter deparado com referência a Valéria Mendez. Nunca calhou enviar qualquer comentário, o que faço agora, ao ler estes brilhantes relatos do convívio com Amália. Quero apenas informar que Helena Tavares faleceu há já bastantes anos, deixando contudo uma filha que interpretou já o papel de Maria Severa Onofriana no Teatro Maria Matos em Lisboa, tendo contracenado com Carlos Quintas e que é também ela cantora, dando pelo nome de Lena Coelho e sendo filha de um também grande actor de teatro português, que se distinguiu principalmente no Teatro de Revista e que se chamava Carlos Coelho.
Saudações fadistas
António Carlos

Afixado por António Maria em fevereiro 14, 2005 08:36 PM

Valéria, nós somos muito esquisitos.
Você convivia intimamente com um monstro sagrado e se emocionou tanto com um cartão de Marléne Dietrich, evidentemente outro monstro sagrado.
Você se dá conta de quantas pessoas teriam a mesma reação sua caso houvessem recebido um cartão de Amália Rodrigues?
Provavelmente a nortenha (que convivia com Dietrich) deve ter se emocionado em ver e jantar com Amália a ponto de relatar à patroa a noite maravilhosa que você lhe proporcionou, desencadeando a gentileza do agradecimento.

Afixado por Manoel Carlos em fevereiro 15, 2005 12:24 AM

um episodio cheio de glamour , Valeria.Adorei. Não conheço bem Marlene D. como cantora mas vou comprar algum CD para ouvir. Mais uma coisa que aprendi(vou aprender)

Afixado por Debora Santos em fevereiro 15, 2005 05:06 PM

Uma bonita estória...fostei que a tivesse partilhado connosco...
Um abraço do Morfeu

Afixado por morfeu em fevereiro 21, 2005 02:40 PM