agosto 12, 2009

AMÁLIA- Primeiro album conceptual sem concessões

Nuno Rodrigues, da Companhia Nacional de Musica, apresenta a reedição do primeiro album conceptual de Amália Rodrigues. O primeiro, depois de muitos singles, editado nos USA em 54, e especialmente concebido com as premissas do que hoje se define como album, seja apresentado em vinil ou em CD. Neste seu primeiro trabalho conceptual, a Diva apresenta-se em Português e em Espanhol, uma fórmula que manteria, em especial nos concertos ao vivo, até ao fim da sua carreira. Sem concessões de gosto, concepção ou pressões comerciais, Amália já em 53, num programa do Eddie Fisher patrocinado pela Coca Cola, apresenta o fado "Coimbra"(April in Portugal ), iniciando-o com um verso em inglês, e terminando o resto do trecho na lingua de Camões, para uma audiência a nível nacional, num país onde o português era um idioma quase extraterrestre. O mesmo passava-se nos recitais de Amália no célebre night club, LA VIE EN ROSE , onde a cantora portuguesa alternava sucessos,com a grande Piaf, e a já endeuzada Marlène Dietrich. Um sucesso que a lógica comum não explica, tendo em conta o tipo de publico sofisticado e cosmopolita no novaiorquino espaço de music hall, habituado ao inglês e a nomes contemporâneos de Amália, tais como Sinatra, Ella ou Armstrong. Consciente disso, Amália continuou impávida e inabalável, fazendo sucesso sem fazer qualquer concessão ao publico. E a verdade é que, quando Amália se apresentava por uma semana no LA VIE EN ROSE de Nova Iorque, acabava por ter de prolongar a sua permanência em cartaz, por mais uma, duas, ou três semanas, chegando a ter de ficar três meses em cartaz, um facto inédito naquele espaço nocturno. Não será pois por acaso, que Frank Sinatra só editaria o seu primeiro album, um ano depois de Amália.
E tudo isto, sem concessões, sem se sujeitar a pressões de ordem comercial, gravando sempre o que quer, com quem quer, defenindo sempre os parâmetros dos seus discos,sem quaisquer influencias. Um só album em inglês, dois em francês e dois em italiano, foram os seus unicos desvios da Ibérica cultura, com que Amália sempre brindou o publico internacional, e mesmo quando cantou na lingua de Sartre ou no idioma de Dante, Amália interpretou sempre o que quiz, com as orquestrações que quiz, sem olhar a modas ou modinhas, e tendo (quase) sempre colocado a guitarra portuguesa em primeiro plano, mesmo quando não se esperaria escutá-la, num tema como o L'important c'est la Rose, do Bécaud, ou o Vitti´na crozza, um trecho de recolha do folclore da Sicilia.
Amália foi assim. Um portento. Uma Artista que ultrapassou a Arte, sem recorrer a processos, concessões ou artimanhas, que ainda em vida, atingiu o estatuto de Mito. Intemporal.

Publicado por Valéria Mendez em agosto 12, 2009 10:45 PM | TrackBack
Comentários

amalia dez anos depois da sua morte ainda consegue surpreender-me

Afixado por: beatriz ferro em agosto 14, 2009 08:00 PM

Exceptional description of a unique phenomenon: The Artist transcending the Art, still alive, reaching the status of myth. Timeless!

I’d liked to have the chance to meet you this summer when I religiously visited Lisbon for the very first time just for sensing the energy of her footsteps. What footprints! What amazingly living energy! Do you know about the international project “AMÁLIA-BEYOND CULTURAL HERITAGE” meant to restitute the known and unknown complexity of this UNIQUENESS?

Afixado por: celtxty em setembro 1, 2009 08:37 AM
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