Já conhecia da TV e do disco, a fadista Katia Guerreiro. Há tempos, tive o prazer de a ver ao vivo, e confirmaram-se as minhas suspeitas. Katia Guerreiro dá ao Fado, a dimensão que ele deve ter: uma Canção da distancia da alma... Algo que é muito mais importante do que parece. Ela dá ao Fado a verdade, vestida com a melhor toalha da actualidade: uma voz feita para o degustar das palavras, uma tessitura unica, inimitável, e não
pretendendo imitar ninguém.
Katia Guerreiro é, a meu ver, a fadista deste Tempo, a voz da continuidade, que reune, pelo enorme respeito que demonstra ter pelas referências obvias do Fado, pela melismática da sua voz, pela honestidade de processos e pela interpretação das palavras dos Poetas, condições para garantir ao Fado, uma sequencia normal e lógica de garantias de perpétualidade. O Fado, corre o risco de se descaracterizar, e desaparecer como Canção-Estilo, com a furiosa entrada no seu mundo, das técnicas do marketing, que tudo divulga e tudo vende, e que coloca ao mesmo nível, a musica e o McDonalds, a Arte e um novo modelo de télemóvel. Infelizmente, esse cancro já chegou ao Fado, produzindo umas poucas fadistas de plástico, bem produzidas e bem divulgadas, "plastificadas" com o vestidinho certo do estilistazinho da moda, penteado a condizer, quais Britney Spears do Fado. E quem, lá fora consuma, e desconheça a cultura portuguesa na sua essencia, "compra" a ideia, e mais tarde, é capaz de lá ir dar o seu dinheirinho para assistir a um recital, que acreditam eles, ser do melhor que há, mas que não passa dum chorrilho de "covers" desafinados, de Fados que foram celebrizados por Amália, Herminia, Marceneiro ou Fernando Maurício... Mal não viria ao mundo pelo desafinado, porém já tudo muda de figura, quando desonestamente, se apresentam os temas como obra sua, e não, fazendo cultura, e pedagógicamente ir referindo os autores e os criadores, até para uma maior compreensão da importancia do Fado, enquanto canção resistente aos avanços duma globalização capitalista desenfreada.
Ser fadista, é ser voz intrínseca dos Poetas, e por arrastamento, da sensibilidade do Povo. Afinal as palavras dos Poetas, não são mais do que as emanações dos sentires da humanidade, e das culturas que os representam. Alberto Janes, no seu trecho, "Ao Poeta Perguntei" ( CD-1973 "Oiça Lá Ó Sr.Vinho"-Amalia Rodrigues), explica magistralmente a essencia de tudo isto, remetendo à simplicidade das emoções a compreensão popular de algo, que aparentemente, seria complicado para o povo genuino e simples. Contudo, não é raro ver-se, no mercado do Bolhão ou na Praça da Figueira, uma qualquer vendedeira, com palavras de Pedro Homem de Mello ou de David Mourão Ferreira, na boca... e no coração.
Kátia Guerreiro é - ditosa voz - a interprete verdade para todo esse manancial do sentir luso, pela sua falta de processos - honestidade da sua postura - pela qualidade da côr da sua voz e pela inteligencia da sua interpretação. Ouvir, por exemplo, um qualquer fado de Amália na voz de Katia Guerreiro, não é estar-se perante uma desonesta apropriação da obra, e consequente desvalorização artística, mas sim, descobrir um outro olhar, um outro processo interpretativo, sem no entanto, deixar de nos fazer sentir a verdadeira e intemporal mensagem do Poeta.
Para que precisará Portugal e o Fado, de fadistas fabricadas a metro, torpes imitações, roufenhas prostitutas da Arte, se temos ( felizmente, entre algumas outras ) uma Katia Guerreiro a ganhar?
Gostei...
Interessante.
Continua...
Também gosto da Katia, para mim e juntamente com Rodrigo da Costa Felix os fadistas MAIS da nova geracao.Valeria-aqui na nossa comunidade em Londres estao muitas pessoas desgostosas com a tua decisAO de abandonar os palcos.TEMOS SAUDADES DE TI!!!
Uma vez mais, obrigada pelas suas palavras.
Concordo em absoluto.
Um abraço
Ana