setembro 28, 2007

AMÁLIA RODRIGUES, GARDEL e a NIÑA DE LOS PEINES- ícones indispensáveis de tronco comum. E agora? O que se passa com o Fado?

Poder-se-ia acrescentar no titulo já por demais longo, os nomes de outros ícones da musica mundial, que a intelligentsia musical decidiu colocar par a par, numa espécie de galarim dos eleitos do século XX. E aí, caberiam, sem a mais leve hesitação, uma Ella Fitzgerald, um Sinatra, uma Edith Piaf, uma Oum Koulthoum ou um Jacques Brel, não fôra a necessidade de, por via das evidentes transversalidades,juntar o Fado, o Tango e o Flamenco, numa categoria explícita de latinidades originais, com um tronco comum de raiz.

Se o Tango, teve internacionalmente seguidores tradicionais da essência, que o fez evoluir para uma linguagem mais compreensível a povos de culturas diferentes, com a acção renovatória duma Susana Rinaldi ou dum Astor Piazzolla, sem no entanto se desviarem dum entendimento da essência, se o Flamenco, riquíssimo na diversidade vertical, digo, na diversidade sem fugir da essência, sendo para o comum dos mortais muito fácil de identificar o estilo, o mesmo não poderemos dizer para o Fado.

O Fado,tal como linguagem exposta ao mundo, foi, e ainda é...Amália Rodrigues. Passo a dissecar a premissa.
Internacionalmente, o triangulo do Fado, Amália-Hermínia-Marceneiro, vertices estilisticos distintos, que ainda hoje produz "escola", nos jovens fadistas; dir-se-ia que, só para dar dois exemplos de cada vértice, a escola amaliana tem como seguidores Kátia Guerreiro e Gonçalo Salgueiro, a escola herminiana tem sem duvida Raquel Tavares e Alice Pires, e a escola marceneirista, a mais tradicional, da linha dura, tem como seguidores incontestáveis, Ricardo Ribeiro e Aldina Duarte;não conseguiu vingar, tal como sucedeu com os diferentes intérpretes de Tango ou de Flamenco, que atingiram um estatuto especial de criadores,entrando para a galeria das grandes vedetas mundiais. La Niña de los Peines terá sido a alma mater, mas uma Imperio Argentina, uma Lola Flores chegaram à consagração, em caminhos diferentes, porém verticais, isto é, essenciais, na primitiva acepção do termo.

Então,que se passou, e o que se passa com o Fado?
Só Amália Rodrigues conseguiu sair para o Mundo. No tempo em que o Scala de Milão era só para as Callas e os Pavarottis, Amália entrou fulgurante. No tempo em que só grandes monstros do Music Hall podiam pisar o consagrado palco do Olympia de Paris da era de Bruno Coquatrix, o Olympia dos Sinatras e das Piafs, o Olympia em que não seria possível colocar "en affiche" um Tony Carreira, por muito publico que tivesse, no tempo em que um Carnegie Hall, quando não tinha vedetas, fechava as portas,ou organizava Concertos de Musica Clássica. Foi nesse tempo, no tempo do Sinatra, no tempo da Piaf, no tempo da Callas, que Amália Rodrigues foi vedeta. Hoje, tudo se esbateu, o interesse do capital tornou-se preponderante, o nível da apreciação musical e artística declinou perigosamente, o mastiga e deita fora fez lei.
E só Amália conseguiu esse estatuto, mano a mano,com uma Oum Kalthoum,ou com um Sinatra, pela excepcionalidade da sua Voz, pela inteligência da sua Interpretação, e pela capacidade de evoluir drásticamente, sem perder a linha fadista essencial.
Ora, com uma tão forte influencia, mesmo aqueles mais jovens fadistas que se aventuraram a uns quantos concertos no estrangeiro, e porventura também admiradores e seguidores marceneiristas ou herminianos, ou ainda,outros mais alternativos, como Paulo Bragança ou Cristina Branco, não puderam fugir da garra amaliana, e lá está, nos deus discos, nos seus concertos, o reportório clássico da Amália, o reportório de musicas de Alain Oulman, que toda a gente sabe,SÓ compôs para Amália, abrindo uma unica excepção para Juliette Gréco, uma diva de França, intemporal. Até Carlos do Carmo, porventura o fadista com um maior numero de originais feitos para ele, ou pesquisados, repescados por ele, sucumbiu à tentação amaliana, fosse qual fosse a intenção, e incluiu ad eternum nos seus concertos, o Gaivota,de ONeil e Oulman, e a recantada Estranha Forma De Vida, de Amália e Marceneiro. Com tantas letras, tanto poema,para cantar o Fado Bailado, mas a verdade é que Carlos do Carmo o adoptou, como o fizeram, digo eu, quase todos os fadistas portugueses, de 1962 até à actualidade.
E basta, um breve olhar à contracapa dos discos, e ao alinhamento dos concertos das mais praticantes fadistas de reportório original, como Mafalda Arnauth ou Mísia, e lá está,Amália, impávida, perene, como se fora aquele fado, acabado de sair da pauta e da pena de algum jovem compositor ou poeta insatisfeito. Excusado será procurar nos alinhamentos duma Mariza, dum Gonçalo Salgueiro, duma Katia Guerreiro, duma Maria Ana Bobone, etc,vestigios de Amália. Nesses, Amália está omnipresente, ora guardiã, ora inspiração, ora imitação de plástico, ora evasão... E afinal tudo isso é entendível. O que não é entendível, o que é grave, é ir-se para um Royal Albert Hall ou outro sítio qualquer, e apresentar os velhos temas de Amália, como se de originais se tratassem, pedantemente rotulando de Novo Fado...um Primavera, de David Mourão-Ferreira e Pedro Rodrigues, ou um Sr Vinho de Alberto Janes, respectivamente de 1953 e 1973!!! Um Fado Novo, cantado e tocado com o mesmo ritmo, as mesmas suspensões, e até vergonhosamente os mesmos melismas dos disquinhos de vinil passados a CD da grande Amália Rodrigues. Fadistas de plástico à parte, a era do marketing e da economia invasiva, é a nossa era, e essas técnicas, as mesmas usadas para os MacDonalds, para os fogões e frigoríficos e para outros tantos objectos de consumo imediato, também já chegou ao Fado. Infelizmente. E digo infelizmente, porque assim, o novo publico do Fado, aquele que não viu a Amália e a Hermínia, aquele que nem sabe quem é Marceneiro ou Beatriz da Conceição, esse vasto publico duma comunidade global, que vai da Holanda à Argentina, e que, oops!!!, até está na Madeira ou na Picheleira, ou mesmo no Bairro Alto...tomará como Fado exponencial esse pseudo Novo Fado ou Fado Novo, até que um dia, quiçá passeando-se pelas prateleiras duma qualquer Music Store globalizada, encontre lá muito escondidinho um CD da Amália, com o tal Sr Vinho de 1973, e a tal Primavera, de 1953! E ao escutá-los, maravilhar-se-á com essa Voz de Portugal Oitocentos Anos para Trás e para a Frente, e escandalizar-se-á , no mínimo, com a pretensão do tal Fado Novo, "fotocopiado" até ao tutano, com um simples, mas definitivo senão: a voz que faz tudo igual, pára onde a Diva Maior pára, faz o pianinho onde a Voz Superior decidiu...é tudo igual.
Menos a voz. Menos o talento. Menos a autenticidade. Menos a verdade. Menos a elasticidade. Menos a inteligencia interpretativa... Menos tudo!!!
E viva a geração pimba do Fado. ( Afinal, não é em vão, que muitos historiadores e sociologos, retratam os inicios de século com provas evidentes de decadencia socio-cultural)
Se calhar é isso. Esperemos por melhores dias...

Publicado por Valéria Mendez em setembro 28, 2007 04:23 PM | TrackBack
Comentários

Muita dura....

Teresa de Noronha, Lucilia do Carmo, foram grandes interpretes.

Aldina Duarte é de todos os que cita, a mais verdadeira, só que esquece o Camané, a novel Ana Moura, a até num estilo muito pessoal, a Misia.

Em suma há fado antes da Amalia, e haverá fado depois de Amalia.

Amalia foi uma grande interprete inovou, mas não foi única, e há muitos novos valores a despontar , assim os queiramos ouvir.

Falar de Sinatra sem falar de Tony Bennett ou de Nat King Kole, e actualmente de Michael Buble, é o mesmo tipo de erro.

Desculpe lá o aarrozado, mas foi ao correr do teclado.

Afixado por: a.pacheco em setembro 28, 2007 11:39 PM

Claro que Lucília do Carmo,etc foram, e são importantes.E claro que Sinatra não é unico, e há que considerar o Bennett,etc.E claro que há outros nomes do fado actual...não é isso que est
a em causa.Apenas me limitei a dar alguns exemplos, que ajudassem o leitor a compreender o meu ponto de vista.
A editora do blog

Afixado por: valeria em setembro 29, 2007 04:52 PM

Muito bem escrito e explanado!Assino em baixo.

Afixado por: Debora Santos em setembro 29, 2007 05:53 PM

Apoiado! Mil vezes apoiado! É exactamente isso que se passa!

Afixado por: Okawa Ryuko em setembro 30, 2007 08:42 PM

a valeria tem razao, o michael buble canta as coisas do sinatra,etc, mas tem a sua propria orquestracao,uma interpretacao nao copiada...
muito bem valeria.um optimo cronica de critica musical

Afixado por: renate em outubro 1, 2007 03:57 PM

Um texto que pode ser um ensaio sobre Fado.Uma analise muito bem fundamentada.Acrescentaria talvez à Nina de los Peines, a figura de Lola Flores um nome que internacionalizou o flamenco puro.

Afixado por: M.José Amado em outubro 9, 2007 06:25 PM

Absolutamente de acordo com tudo o que foi escrito.
É vergonhosa a postura mercenária e oportunista de Mariza. Uma vez fui ao site da dita e escrevi um comentário, no meio dos que lá estavam que só lhe teciam loas como convém, e fiz a denúncia do roubo descarado. Claro que passados alguns minutos o meu comentário foi apagado.

Afixado por: Paulo Veríssimo em novembro 17, 2007 01:33 PM

Cara Valeria, dall'Italia e da Italiano studioso del Fado voglio dirti che appoggio pienamente la tua battaglia. Come Amalia nessuna potrà esserlo mai. Amalia è stata la somma e l'apice del Fado e non può essere paragonata a nessun altro grande cantante del mondo.Perchè Amalia non è stata una cantante ma è stata IL FADO. Mentre Maria Callas era una grande cantante lirica, Sinatra era un cantante di swing/Jazz e Pavarotti un grande tenore, nessuno di loro ha unito, nella propria espressione artistica, quello che il Fado esprime e che Amalia ha unito: musica, poesia, filosofia della vita, anima.Tutto in una sola persona.E' questo che fa la differenza, Amalia non è neppure comparabile con nessuna delle nuove cantanti che si affacciano al Fado dopo la sua morte e che cercano disperataqmente di occupare il suo posto e prendere ala sua eredità. Ma Amalia non è morta,perchè non è morta la sua immensa arte,così come non è morto Leonardo da Vinci o Michelangelo, o Van Gogh): Il Fado, nella sua suprema bellezza e verità, richiede perfetta umiltà e sincerità, come umile e sincera fu Amalia, e quindi non si può recitare, o piangere a comando come ha fatto Mariza a Belem (con l'orchestra pronta a fare la pausa!) e neppure "soffrire" davanti alla telecamera, come Cristina Branco in Olanda. Non si può neppure passare dal Fado alla musica pop e cantare con i Rolling Stones come ha fatto Ana Moura. Il fado richiede dedizione assoluta, purezza di animo, grande cultura, perchè è l'unica musica al mondo che unisce filosofia, poesia e musica ai massimi livelli ed esprime l'anima di un grande popolo: quello Portoghese. Questo non lo fanno altre forme musicali come il Blues, che pure è una grande espressione del popolo nero americano, nè altre forme musicali che mancano sempre di qualcuno di questi elementi fondamentali che solo il Fado possiede.Io dico sempre che il Fado è la sublimazione della rinuncia (sublimaçao da renùncia), accettazione del destino il quale non è sempre avverso. Ho conosciuto Amalia che nella "guitarra portuguesa" che ho comprato ad Evora, consigliato da lei, quando è venuta per un concerto in Sardegna nel 1993 mi ha scritto una dedica: "quando os outros te baitem beijote eu". Come si può dimenticare una così immensa artista? La strada per mantenere il Fado ai vertici della musica popolare più importante e colta del mondo è lunga, ed i nuovo artisti dovranno sempre imparare la lezione di Amalia Rodrigues. Essere veri, essere Portoghesi, essere grandi. Ti chiedo scusa se ha scritto in Italiano ma il mio Portoghese è ancora molto debole e volevo dirti bene quello che ho scritto. Abraços Fadistas. Jacopo

Afixado por: jACOPO em maio 7, 2008 01:05 PM

Cara Valeria, dall'Italia e da Italiano studioso del Fado voglio dirti che appoggio pienamente la tua battaglia. Come Amalia nessuna potrà esserlo mai. Amalia è stata la somma e l'apice del Fado e non può essere paragonata a nessun altro grande cantante del mondo.Perchè Amalia non è stata una cantante ma è stata IL FADO. Mentre Maria Callas era una grande cantante lirica, Sinatra era un cantante di swing/Jazz e Pavarotti un grande tenore, nessuno di loro ha unito, nella propria espressione artistica, quello che il Fado esprime e che Amalia ha unito: musica, poesia, filosofia della vita, anima.Tutto in una sola persona.E' questo che fa la differenza, Amalia non è neppure comparabile con nessuna delle nuove cantanti che si affacciano al Fado dopo la sua morte e che cercano disperataqmente di occupare il suo posto e prendere ala sua eredità. Ma Amalia non è morta,perchè non è morta la sua immensa arte,così come non è morto Leonardo da Vinci o Michelangelo, o Van Gogh): Il Fado, nella sua suprema bellezza e verità, richiede perfetta umiltà e sincerità, come umile e sincera fu Amalia, e quindi non si può recitare, o piangere a comando come ha fatto Mariza a Belem (con l'orchestra pronta a fare la pausa!) e neppure "soffrire" davanti alla telecamera, come Cristina Branco in Olanda. Non si può neppure passare dal Fado alla musica pop e cantare con i Rolling Stones come ha fatto Ana Moura. Il fado richiede dedizione assoluta, purezza di animo, grande cultura, perchè è l'unica musica al mondo che unisce filosofia, poesia e musica ai massimi livelli ed esprime l'anima di un grande popolo: quello Portoghese. Questo non lo fanno altre forme musicali come il Blues, che pure è una grande espressione del popolo nero americano, nè altre forme musicali che mancano sempre di qualcuno di questi elementi fondamentali che solo il Fado possiede.Io dico sempre che il Fado è la sublimazione della rinuncia (sublimaçao da renùncia), accettazione del destino il quale non è sempre avverso. Ho conosciuto Amalia che nella "guitarra portuguesa" che ho comprato ad Evora, consigliato da lei, quando è venuta per un concerto in Sardegna nel 1993 mi ha scritto una dedica: "quando os outros te baitem beijote eu". Come si può dimenticare una così immensa artista? La strada per mantenere il Fado ai vertici della musica popolare più importante e colta del mondo è lunga, ed i nuovo artisti dovranno sempre imparare la lezione di Amalia Rodrigues. Essere veri, essere Portoghesi, essere grandi. Ti chiedo scusa se ha scritto in Italiano ma il mio Portoghese è ancora molto debole e volevo dirti bene quello che ho scritto. Abraços Fadistas. Jacopo

Afixado por: jACOPO em maio 7, 2008 01:06 PM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?