Estava aflita. Havia conseguido um contracto, para um concerto integrado no Festival do Outono, no Funchal. Corria o ano de 1987. Em cada noite, havia uma grande vedeta: Amália Rodrigues, Linda de Suza, Paulo de Carvalho, Cliff Richard, Mário Viegas, Ivone Silva, o Ballet de Bolchoi...e eu, pela mão do saudoso Dr. José Maria Silva, o cérebro do Festival, tinha também uma noite só para mim. Era preciso não decepcionar. E Santos da casa não fazem milagres, ainda por cima...
Peguei no telefone, e falei com o também saudoso Alcino Frazão, nome grande da guitarra portuguesa. Ele já me havia feito o favor de me acompanhar, em várias ocasiões. Felizmente, a agenda dele permitiu-lhe dizer-me que sim. Respirei de alívio. Teria o grande Alcino Frazão no palco do Centro de Congressos da Madeira.
As variações soavam quase ameaçadoras, perante aquela plateia exigente do Festival de Outono. Na noite anterior, o Mário Viegas havia encantado a Madeira, com a sua Arte Maior.
O Alcino, fulgurante, dedilhava a guitarra, como se ela tivesse nascido agarrada às suas mãos. À sua Alma. Os aplausos soaram fortes. Era tempo de entrar em cena.
"As mãos que trago
as mãos são essas,
elas sózinhas te dirão,
se vêm de mortes, ou de festas..."
Iniciara o concerto com um poema da fabulosa Cecília Meirelles, musicado pelo enorme Alain Oulman, e que Amália havia cantado no seu grande album, "Com Que Voz"(1970). A guitarra do Alcino ensinava-me a cantar, empolgava-me a caminhos melismáticos nunca experimentados. Seguir-se-iam poemas do Ary, do Manuel Alegre, do Pessoa, do Antero e...da Amália, em "O Fado Chora-se Bem", com musica do grande Carlos Gonçalves, trecho incluído no célebre album,"Lagrima"(1983):
"Moram numa rua escura,
a tristeza e a amargura,
a angustia e a solidão..."
De quando em vez, olhava para trás, e sentia o olhar de aprovação do Alcino, qual Anjo Protector, como que a dizer-me: "Vais bem...força!". E era quando, a sua guitarra vibrava mais forte, ora pegando-me ao colo com carinho, ora desafiando-me a mais um grito, mais uma voltinha...
Os aplausos ecoaram ruidosos. Motivados. Sentia-me no céu...ali mesmo, a dez minutos de casa.
"... C'è chi dice l'amor' non é bello,
certo che quello, l'amor' non sa' far'..."
O génio do Alcino,permitia-me agora fugir um pouco do Fado, e aventurar-me pelas águas da musica italiana, uma canção típica napolitana, que Amália, anos antes, havia interpretado no seu album "A Una Terra Che Amo"(1975), dedicado à canção popular italiana, de diversas regiões, e cantado em vários dialectos: o Napolitano, o Romano,o Siciliano... Era para mim, o concretizar de um antigo desejo. Cantar o "Amor' dammi quel fazzollettino", com a qualidade daquele acompanhamento.
No final, um grupo de italianos manifestava-se. Entusiamados. Tivemos de voltar a cantar o refrão, com todo aquele grupo de vinte ou trinta italianos, de pé, bailando e cantando comigo...e com o Alcino, de olhos brilhantes, sorriso aberto, emprestando àquela musica, uma sonoridade inaudita, com o seu talento de excepção...
A terminar, ainda houve tempo para um fado do Max, e para o "Bailinho da Madeira", também da autoria do fabuloso madeirense Maximiano de Sousa, Max, para os amigos!
A noite tinha sido divinal... Saímos do palco, abençoados com aquela energia, aquela Luz, que só os Artistas conhecem.
Já no camarim, apertei a mão do Alcino, e disse-lhe: "Obrigada. Sem ti, isto não teria sido possível."
" Não digas isso...eu só toquei guitarra", retorquiu muito simplesmente, Alcino Frazão.
Os Grandes são assim. Directamente proporcionais à sua simplicidade.
As lágrimas teimam em visitar-me, ao recordar esta e outras grandes noites de Fado, com o grande Alcino.
Um Menino d' Oiro...que por tanto de oiro ser, Deus o quiz junto dele, qual James Dean da Guitarra Portuguesa. Um Marco Enorme para o Fado e para a Cultura Portuguesa do século XX.
E eu, pobre de Cristo, tive a honra de haver sido sua Amiga. Admiradora.
Mais uma vez...Alcino, um Até Já...
Logo que chegue a casa, vou adormecer com a musica brilhante da tua guitarra...
Mal posso esperar...
Um beijo.
Adorei! Descreve maravilhosamente a simbiose entre quem canta o fado e os instrumentistas, estes últimos, muitas vezes, tão grandes e discretos mas, infelizmente, tão injustamente esquecidos!
Afixado por: Okawa Ryuko em abril 11, 2007 08:09 PMRecordar é e continuará a ser, viver. E que entusiasmo empresta a esta recordação. Um abraço do Raul
Afixado por: rajodoas em abril 13, 2007 10:14 PMQuando é que torna presente este passado? Continuo à espera de poder ouvi-la cantar e, com estas crónicas, mais impaciente fico...
Já está na Madeira?
Um abraço
Fadocravo
Tens mérito, senão o grande guitarrista não te acompanharia, mas na maioria das vezes estes montros sagrados são injustiçados.
Afixado por: Manoel Carlos em abril 15, 2007 10:44 PMtenho pena nao ter visto esse concerto,mas eu tinha na altura uns doze anos!!!Mas lembro-me perfeitamente na altura o meu pai chegar a casa e dizer que havia um engarrafamento no Funchal,junto ao Savoy para verem passar a Amalia Rodrigues, creio que foi nessa epoca do Festival do Outono.belissimas recordacoes.
kisses
Debora
Olha a minha querida amiga Valéria!!!
Fico muito contente com o seu regresso.
Após um longo período sabático o Zecatelhado volta à “Nau”. Ora faça o favor de fazer uma visita à minha “casinha” porque a sua presença é sempre imprescindível.
Aquele @bração do
Zecatelhado
Agora em: www.marujinho.wordpress.com
Afixado por: Zecatelhado em abril 18, 2007 05:30 PMvim dar com o seu blogue numa pesquisa da google sobre fado, assunto que aprecio imenso e que constitui um hobby para mim.Adoraria ter estado no seu concerto, mas assisti a alguns espectaculos em que entrou o Alcino Frazão, nomeadamente a acompanhar o Paulo de Carvalho...e realmente era um enorme talento da nossa guitarra.
Afixado por: carlos nuno silvestre em abril 19, 2007 07:18 PMVim agradecer-lhe cara amiga o seu comentário, concordando com o mesmo, lembrando o excelente contributo que também tem dado a este espaço e que nos tem merecido a melhor atenção. Um abraço do Raul
Afixado por: rajodoas em abril 19, 2007 07:45 PM