(Nota explicativa: Na sequencia do meu anterior post de análise crítica ao ultimo album de Dulce Pontes, estabeleceu-se um dialogo entre vários dos meus leitores, donde se destacou o grande jornalista espanhol Maxi de la Peña, conhecido crítico, ensaista e entrevistador, que me deu a honra de me ter brindado com as suas visitas a esta humilde página cibernética. Honrada também fiquei, quando vi o meu texto traduzido para espanhol , na secção "Blog Dulce Pontes", da página ofícial da cantora , sabendo eu de antemão, que sobre a famosa artista, já escreveram os maiores e subidos nomes da crítica mundial. O ultimo comentário, em forma de carta aberta, que Maxi de la Peña escreveu neste blog, merece-me, pela sinceridade e pela coragem, que eu o transforme em post destacado. Ei-lo !)
" Estimada Valéria
A sua dignidade como pessoa, reconcilia-me com esta merda de mundo.
Conheço a sua trajectória, através do seu blog, e tive ocasião de vê-la numa entrevista na RTP Internacional. Consta-me que você é uma mulher integra, e dir-lhe-ei que isso é dificil de encontrar hoje em dia. Digo-lhe como jornalista com experiência de vinte anos de profissão, e sobretudo como ser humano, já que nos conhecemos ( assim o entendo pela sua atenta resposta aos meus escritos ), explicarei algumas coisas que insinuei nos meus textos. Amália considerava Carlos do Carmo uma pessoa falsa e hipócrita. De pouco se fiar. Assim foi. Agora mostra-se derretido por Mariza. Oportunista.
Amália comentou a Dulce Pontes naquela ceia, que não se deveria preocupar com as críticas negativas contra o disco de Dulce, "Lágrimas", pois que a ela, nos primeiros anos, criticaram-na com idêntica dureza. Diziam que cantava com estilo de flamenco, que "aquilo" era tudo menos fado. (...)
A Dulce, com a qual mantenho uma amizade pessoal há dez anos, apenas me contou poucas coisas mais daquela noite "tu cá-tu lá" com Amália. Que tomaram chá até às cinco ou seis da madrugada, que respeitava muito Teresa Salgueiro. Recordo-me bem.
Quando Amália faleceu, em Outubro de 99, Dulce estava em Barcelona, e dedicou-lhe um minuto de silêncio em cena aberta. Escreveu um poema em sua homenagem, que enviou à comunicação social portuguesa e espanhola. Mísia, artista que não admiro por motivos que agora não vêem ao caso, fez um breve artigo de opinião no jornal El Mundo, em que a homenageada era ela própria. Falava-nos do seu êxito fora de Portugal, que estava em Londres onde ia actuar nessa noite (...). De Amália, limitou-se a dizer que não se identificava com as suas ideias ( políticas?), mas que como artista era a melhor do Fado ( um forte lugar-comum!). (...) O artigo deu que falar. A intelectual Mísia, ficou retratada como uma egocêntrica. Quando em 1996 a entrevistei na minha cidade - Santander - não me agradou a sua arrogancia.
Agora, duas pinceladas sobre a Mariza, superstar. Nesta vida há de tudo, há os que nascem com uma estrela ( é o caso de Mariza ), e há os que nascem estrelados ( poderia estar pensando em Dulce Pontes ). Valéria, não sei se saberá que Dulce Pontes fez uma tournée em Portugal, no Verão de 2000, por lugares históricos ( Conímbriga, Alcobaça...), para apresentar o seu album " O Primeiro Canto". Sabe quem esteve em todos os concertos ? Mariza! Mariza visitava Dulce nos camarins. Mariza estava estudando a estratégia a seguir : Como derrubar a estrela portuguesa do momento. A questão era ser a nova Dulce, "dando-se bem com os media portugueses, arrastando-se para ter protagonismo no programa do Herman José. Está-me a seguir, Valéria ? E o Herman deu-lhe conselhos de como a Dulce se conectava com o publico, qual era a chave do seu carisma: a humildade. Herman José já não voltou a convidar Dulce para os seus programas. Mariza ganhou o favor da crítica quando editou o "Fado em Mim", uma crítica manipulada e estranha, com jornalistas como Fernando Magalhães ou Nuno Galopim. Ela estava no caminho "certo", estava começando a derrubar Dulce Pontes, quando esta ultima, abandona os palcos um ano, por via da sua maternidade. Logo, um bom promotor internacional, consegue convencer a BBC-3 (cuidado que é um canal minoritário, tipo o Rádio 3 da Radio Nacional de España!), para que entre a Mariza no "star system" da World Music. Há que colocar Portugal no mapa, e em concreto o Fado. E dão-lhe o prémio para a melhor artista europeia em World Music. Em Portugal vendeu-se a estória, como se ela tivesse sido designada a melhor artista europeia.Ponto. Manipulou-se uma vez mais a opinião publica. Logo, entrou a EMI e o marketing desmesurado. (...)
Ao Correio da Manhã, Mariza afirma que o pior que lhe haviam dito, era que gritava tanto como a Dulce Pontes. Sem comentários...
Dulce Pontes, hoje, não existe nos media portugueses, e se existe, é em termos negativos. Ennio Morricone, que foi a Portugal fazer um concerto com a Dulce, e assim, engrandecê-la, ficou assustado com a ignorancia dos jornalistas portugueses.
" O Coração Tem Três Portas " não toca nas rádios. A sua distribuidora, a Zona Musica ( Dulce neste disco,editou-se a ela própria, independentizou-se da industria musical ), rendeu-se rápidamente. Porém, passam-se coisas estranhas. Como é possivel que este album esteja distribuído clandestinamente na Holanda e na Bélgica, sem que nada nem ninguém, negociasse com Dulce Pontes ?
Menos mal, Valéria, que aqui do outro lado da fronteira, fica a Espanha. Aqui, respeitam-na.
Espero não te ter aborrecido, e isto foi só um pequeno apontamento.
Obrigado Valéria por abrires as tuas portas, o teu coração. E muito obrigado por existirem pessoas como tu.
MAXI DE LA PEÑA "
Meu Caro Maxi
Obrigada a Ti por existires.
E em relação ao que te contou Dulce sobre as diversas opiniões de
Amália, elas correspondem rigorosamente à verdade. Posso
testemunhar, porque Amália também as expressou (entre muitas
outras) a mim, por mais de uma vez.
Valéria
Cara Valéria:
Muito obrigado. No tengo palabras.
Sí, en cambio, te envío el artículo que escribí en mi periódico, cuando Amália Rodrígues murió. EL DIARIO MONTAÑÉS (7 de octubre de 1999). Con los maestros no se compite, siempre se aprende.
OBITUARIO/MUSICA
Lágrimas por Amália
A Amália Rodrigues le tocó vivir un tiempo de silencio, un tiempo gris, un tiempo sin libertad, en definitiva, un tiempo de necios. Portugal, esa nostálgica fachada al Atlántico de la Pensínsula Ibérica, vivió una larga dictadura desde 1926 a 1974. Sin los traumas derivados de una contienda civil como en la vecina España, pero con lastres tan espantosos como las guerras coloniales en Africa. El desmembramiento del Quinto Imperio. Este fue el origen de la Revolución de los Claveles, la razón que alzó a los militares liberales contra el decrépito sistema autoritario, conservador y católico que gestionaba Marcelo Caetano, los restos del ideario salazarista.
Durante años, la única luz que brilló en un Portugal crepuscular tenía nombre de fadista: Amália Rodrigues. Pero también se convirtió en el único escaparate digno en el mundo, alguien del que se podía sentir orgulloso el portugués peninsular y el de la inmigración. Amália era el último eslabón de las pasadas grandezas de un país aislado, pobre y enfermo de saudade. Es cierto, a partir de la década de los sesenta se empezaron a escuchar las voces críticas de José Afonso (que vivió dos exilios en Angola y Mozambique), Cardoso Pires, Lobo Antunes, y tantos otros. Amália Rodrigues era utilizada por el régimen salazarista, pero jamás se inmiscuyó en la política, ni como falsamamente se ha dicho, colaboró con la policía del régimen. ¡Cómo iba a hacerlo si era amiga de poetas como Manuel Alegre o José Carlos Ary dos Santos, a quiénes cantó y amó! Su magisterio ha sido indiscutible. Elevó el fado a unos niveles de calidad inéditos. Paseó el nombre de Portugal por medio mundo y fue el prototipo de antidiva: una mujer del pueblo, de origen muy humilde, hecha a sí misma. Si hubiera nacido en Estados Unidos... ¡Mierda para los yanquis! No tiene nada que envidiar a las grandes cantantes americanas: Bessie Smith, Billy Holliday, Ella Fitzgerald. A mí me emocionaba, me emociona y me emocionará más que ellas.
En su país, fue una artista bajo sospecha a partir de 1974, acusada de colaboracionismo con el régimen de Salazar. Se tuvo que retirar una temporada, pero el tiempo puso las cosas en su sitio. «Yo sólo soy una cantante de fados», decía abatida. ¿Por qué esa persecución? Los promotores tienen nombres y apellidos, casi todos viven. Ahora lloran lágrimas de cocodrilo. ¡Hipócritas!. Mi alma está contigo. Hoy mis lágrimas son por Amália.
Obrigada Valeria por existires.
Gracias Maxi por existir.
Fortuna che nel mondo ci sono persone come voi.
e nós que nos continuamos a encontrar nestes sitios. Ainda bem.
Maxi ainda não nos conhecemos mas a sua entrega ao bem de amar a Dulce é de tal forma total que quase que nos conhecemos apenas por isso. Também fui assim há um tempo, até pensar que o que realmente importa fica connosco e não precisa ser dito. É uma luta que corroi devagarinho. E quando nos deparamos com realidades paralelas tão mais importantes, aquela sujidade perde qualquer importância. Até porque sempre existiu e a Dulce sempre passou por ela. Denunciar cansa. Melhor é esperar pelas bofetadas de realidade que estão sempre a chegar pelas mãos e vidas dos fãs-amigos...
Como eu disse no anterior comment que fiz, a Mariza desapontou-me,e realmente e verdade que a BBC Radio3 nao tem um grande impacto.Muito corajoso o sr. Maxi, que se atreveu a dizer coisas que parecem que sao tabu em Portugal.
Valéria, já tenho o disco da Dulce, é engracado ver que a versao dela das Maos que trago, a nivel de orchestration line,e muito parecida com a tua versao.Vou a Madeira em Junho, tenho um mes de ferias, e espero encontrar-te. Kisses
ASSUNTO: Encontro de blogs FAMAFEST2007
Bom dia, trabalho na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, e gostaria de saber o endereço de e-mail deste blog. Tem uma certa urgência...
Pode responder para nunotinoco@vilanovadefamalicao.org
Muito Obrigado
Caro Maxi
Apesar de não estar muito de acordo com esse tal cinzentismo muito acentuado que dizes ter existido no tempo de Salazar( o teatro, a musica,as artes em geral estavam muito mais vivas nesse tempo, até porque a censura servia de estimulo para os criadores! vê por exemplo a qualidade dos festivais da Canção desse tempo, e os de agora!!!), o teu texto sobre Amalia comoveu-me.
E como me agradeces por "aguantarme", digo-te que eu não te "aguanto".Eu QUERO que pessoas como Tu, me dêem sempre a honra de se exprimirem no meu humilde espaço cibernético.
Abraço
Valéria
Cara Valéria:
Sólo una puntualización. Una dictadura es un tiempo gris, o como escribió el escritor español Luis Martín Santos un 'Tiempo de silencio' que reflejaba la España de posguerra con una historia cotidiana, y en el que el protagonista era un investigador, un científico. La novela remarca un mundo absurdo, donde la gente no quería ser consciente de lo que pasaba a su alrededor. Es cierto que la censura agudiza el ingenio, pero no es menos cierto que la libertad individual (otra cosa es el globalismo económico) es determinante en la creación. Los dictadores son enemigos del arte en libertad. Un abrazo.
Afixado por: maxi de la peña em março 15, 2007 08:50 PM