AMALIA EM XANGAI - 1950
Em 1950, o jornal satírico "Os Ridiculos", comentava a notícia sobre a actuação da já vedeta, Amália Rodrigues, em Xangai, a realizar-se dali a pouco tempo:
" ... A Xangai, à China, achamos francamente fantástico...a verdade porém é que achamos a China um país esquisito demais para o Fado...Vocês já pensaram por momentos, no que será um auditório de chineses, todos sentados no chão, a comer arroz com dois pauzinhos, e a Amália a cantar o fado ? "
Este, é o unico registo português, aludindo à actuação de Amália em Xangai. A notícia, foi de resto abafada. Nem os jornais da época,nem as biografias de Vitor Pavão dos Santos e de Jean Jacques Lafaye, mencionam tal facto. E Amália, também nunca falou publicamente no assunto.
Todavia, a nossa Diva Maior, actuou de facto em Xangai, em 1950, acompanhada por Jaime Santos e Santos Moreira. A Republica Popular da China havia sido proclamada no ano anterior, e Xangai fora o berço do Partido Comunista. Devido à fama de Amália, e igualmente devido à sua modestíssima condição social, Amália foi escolhida pelos chineses, como vedeta internacional dum Festival de Musica Folk.
O concerto decorreu muito bem, com fortes aplausos, e participação do publico nos trechos mais ritmados, com palmas e lá lá lás. E para o final, Amália havia preparado uma surpresa : Tinha decorado fonéticamente, com a ajuda dum tradutor, alguns versos do tema " Grão de Arroz ", de Belo Marques... Infeliz ideia !!! Grande manifestação de profissionalismo!
..." O meu amor é pequenino como um grão de arroz,
é tão discreto que ninguém sabe onde mora"...
" WO XIANG YILI MI SIDE TA DUOME JINSHEN,
MEI YOU REN ZHIDAO TA ZHU DE DIFANG"
Até aqui, tudo decorria fantásticamente, com os chineses a aplaudirem no inicio do fado, a Artista, pela atenção que tinha tido, em aprender um excerto do fado, na sua lingua. Porém, a situação sofreu um autentico revès, quando Amália cantou a ultima estrofe, preparada em chinês:
..." tem um palácio de ouro fino aonde Deus o pôs,
e aonde vou falar de amor a toda hora."
De rompante, um dos representantes dos camponeses do Partido Comunista presentes, levantou-se aos berros:
" Se tem um palácio de ouro, não foi Deus que lho deu, mas sim o sangue e o suor das classes trabalhadoras !!! "
Foi como um rastilho.
Perante a estupefacção de Amália e dos seus musicos, que não entendiam patavina do que se passava, a audiencia aplaudiu o representante dos camponeses, e começou a assobiar e a patear a pobre Amália que incrédula, e lavada em lágrimas, abandonou o palco, ladeada pelos seus guitarristas. No dia seguinte, partiu precipitadamente para Berlim, onde conheceria um retumbante êxito num dos espectáculos do Plano Marshall.
Mais tarde, explicaram à Amália o que se tinha passado, porque aquela reacção do publico no final , não era compatível com os aplausos entusiastas que recebera nos outros numeros. Apesar de tudo, este episódio foi abafado, por vontade de Amália, chegando mesmo a negar, haver cantado na China Popular.
No entanto, o Jornal de Xangai, de 21 de Setembro de 1950, que pode ser consultado na Biblioteca da cidade, pode-se ler a notícia intitulada :
" CANTORA BURGUESA APUPADA PELO POVO TRABALHADOR "
Agradecimento: Demanda do Dragão