Poder-se-ia acrescentar no titulo já por demais longo, os nomes de outros ícones da musica mundial, que a intelligentsia musical decidiu colocar par a par, numa espécie de galarim dos eleitos do século XX. E aí, caberiam, sem a mais leve hesitação, uma Ella Fitzgerald, um Sinatra, uma Edith Piaf, uma Oum Koulthoum ou um Jacques Brel, não fôra a necessidade de, por via das evidentes transversalidades,juntar o Fado, o Tango e o Flamenco, numa categoria explícita de latinidades originais, com um tronco comum de raiz.
Se o Tango, teve internacionalmente seguidores tradicionais da essência, que o fez evoluir para uma linguagem mais compreensível a povos de culturas diferentes, com a acção renovatória duma Susana Rinaldi ou dum Astor Piazzolla, sem no entanto se desviarem dum entendimento da essência, se o Flamenco, riquíssimo na diversidade vertical, digo, na diversidade sem fugir da essência, sendo para o comum dos mortais muito fácil de identificar o estilo, o mesmo não poderemos dizer para o Fado.
O Fado,tal como linguagem exposta ao mundo, foi, e ainda é...Amália Rodrigues. Passo a dissecar a premissa.
Internacionalmente, o triangulo do Fado, Amália-Hermínia-Marceneiro, vertices estilisticos distintos, que ainda hoje produz "escola", nos jovens fadistas; dir-se-ia que, só para dar dois exemplos de cada vértice, a escola amaliana tem como seguidores Kátia Guerreiro e Gonçalo Salgueiro, a escola herminiana tem sem duvida Raquel Tavares e Alice Pires, e a escola marceneirista, a mais tradicional, da linha dura, tem como seguidores incontestáveis, Ricardo Ribeiro e Aldina Duarte;não conseguiu vingar, tal como sucedeu com os diferentes intérpretes de Tango ou de Flamenco, que atingiram um estatuto especial de criadores,entrando para a galeria das grandes vedetas mundiais. La Niña de los Peines terá sido a alma mater, mas uma Imperio Argentina, uma Lola Flores chegaram à consagração, em caminhos diferentes, porém verticais, isto é, essenciais, na primitiva acepção do termo.
Então,que se passou, e o que se passa com o Fado?
Só Amália Rodrigues conseguiu sair para o Mundo. No tempo em que o Scala de Milão era só para as Callas e os Pavarottis, Amália entrou fulgurante. No tempo em que só grandes monstros do Music Hall podiam pisar o consagrado palco do Olympia de Paris da era de Bruno Coquatrix, o Olympia dos Sinatras e das Piafs, o Olympia em que não seria possível colocar "en affiche" um Tony Carreira, por muito publico que tivesse, no tempo em que um Carnegie Hall, quando não tinha vedetas, fechava as portas,ou organizava Concertos de Musica Clássica. Foi nesse tempo, no tempo do Sinatra, no tempo da Piaf, no tempo da Callas, que Amália Rodrigues foi vedeta. Hoje, tudo se esbateu, o interesse do capital tornou-se preponderante, o nível da apreciação musical e artística declinou perigosamente, o mastiga e deita fora fez lei.
E só Amália conseguiu esse estatuto, mano a mano,com uma Oum Kalthoum,ou com um Sinatra, pela excepcionalidade da sua Voz, pela inteligência da sua Interpretação, e pela capacidade de evoluir drásticamente, sem perder a linha fadista essencial.
Ora, com uma tão forte influencia, mesmo aqueles mais jovens fadistas que se aventuraram a uns quantos concertos no estrangeiro, e porventura também admiradores e seguidores marceneiristas ou herminianos, ou ainda,outros mais alternativos, como Paulo Bragança ou Cristina Branco, não puderam fugir da garra amaliana, e lá está, nos deus discos, nos seus concertos, o reportório clássico da Amália, o reportório de musicas de Alain Oulman, que toda a gente sabe,SÓ compôs para Amália, abrindo uma unica excepção para Juliette Gréco, uma diva de França, intemporal. Até Carlos do Carmo, porventura o fadista com um maior numero de originais feitos para ele, ou pesquisados, repescados por ele, sucumbiu à tentação amaliana, fosse qual fosse a intenção, e incluiu ad eternum nos seus concertos, o Gaivota,de ONeil e Oulman, e a recantada Estranha Forma De Vida, de Amália e Marceneiro. Com tantas letras, tanto poema,para cantar o Fado Bailado, mas a verdade é que Carlos do Carmo o adoptou, como o fizeram, digo eu, quase todos os fadistas portugueses, de 1962 até à actualidade.
E basta, um breve olhar à contracapa dos discos, e ao alinhamento dos concertos das mais praticantes fadistas de reportório original, como Mafalda Arnauth ou Mísia, e lá está,Amália, impávida, perene, como se fora aquele fado, acabado de sair da pauta e da pena de algum jovem compositor ou poeta insatisfeito. Excusado será procurar nos alinhamentos duma Mariza, dum Gonçalo Salgueiro, duma Katia Guerreiro, duma Maria Ana Bobone, etc,vestigios de Amália. Nesses, Amália está omnipresente, ora guardiã, ora inspiração, ora imitação de plástico, ora evasão... E afinal tudo isso é entendível. O que não é entendível, o que é grave, é a Mariza e mais alguns irem para um Royal Albert Hall ou outro sítio qualquer, e apresentar os velhos temas de Amália, como se de originais se tratassem, pedantemente rotulando de Novo Fado...um Primavera, de David Mourão-Ferreira e Pedro Rodrigues, ou um Sr Vinho de Alberto Janes, respectivamente de 1953 e 1973!!! Um Fado Novo, cantado e tocado com o mesmo ritmo, as mesmas suspensões, e até vergonhosamente os mesmos melismas dos disquinhos de vinil passados a CD da grande Amália Rodrigues,e outros fados tradicionais como o Fado Menor do Porto,cantados esquizofrénicamente aos berros,que só não são desgrenhados, porque a fadista em causa, quase não tem cabelo. Fadistas de plástico à parte, a era do marketing e da economia invasiva, é a nossa era, e essas técnicas, as mesmas usadas para os MacDonalds, para os fogões e frigoríficos e para outros tantos objectos de consumo imediato, também já chegou ao Fado. Infelizmente. E digo infelizmente, porque assim, o novo publico do Fado, aquele que não viu a Amália e a Hermínia, aquele que nem sabe quem é Marceneiro ou Beatriz da Conceição, esse vasto publico duma comunidade global, que vai da Holanda à Argentina, e que, oops!!!, até está na Madeira ou na Picheleira, ou mesmo no Bairro Alto...tomará como Fado exponencial esse pseudo Novo Fado ou Fado Novo, até que um dia, quiçá passeando-se pelas prateleiras duma qualquer Music Store globalizada, encontre lá muito escondidinho um CD da Amália, com o tal Sr Vinho de 1973, e a tal Primavera, de 1953! E ao escutá-los, maravilhar-se-á com essa Voz de Portugal Oitocentos Anos para Trás e para a Frente, e escandalizar-se-á , no mínimo, com a pretensão do tal Fado Novo, "fotocopiado" até ao tutano, com um simples, mas definitivo senão: a voz que faz tudo igual, pára onde a Diva Maior pára, faz o pianinho onde a Voz Superior decidiu...é tudo igual.
Menos a voz. Menos o talento. Menos a autenticidade. Menos a verdade. Menos a elasticidade. Menos a inteligencia interpretativa... Menos tudo!!!
E viva a geração pimba do Fado. ( Afinal, não é em vão, que muitos historiadores e sociologos, retratam os inicios de século com provas evidentes de decadencia socio-cultural)
Se calhar é isso. Esperemos por melhores dias...
Chegara a Tel Aviv, num voo via Paris, para mais um espectáculo seguido de colóquio entre estudantes universitários judeus e palestinianos.
Como sempre, Nawzad, um elemento das relações publicas do Al Fatah, esperava-me no aeroporto. Eu já conhecia Nawzad há longa data, desde os anos oitenta, e viveramos algumas aventuras, no tempo mais acutilante da Intifada. Já haviamos atravessado o deserto do Neghev, e este era mais um encontro entre dois amigos.
Nawzad estava o mesmo. Sempre ponderado na suas conversas, atencioso, culto. Já no carro, com direcção a Jerusalém Oriental, punhamos em dia os nossos desabafos, as nossas impressões... Dizia-me Nawzad num tom melancólico: "Oh minha amiga, parece que tudo o que fizémos, tudo o que Arafat estruturou, nos está escorregando pelas mãos fora. A situação piorou, e tudo devido a extremismos de parte a parte. E para extremar ainda mais a opinião publica, aqueles patifes do Al Qaeda, fizeram do ultimo 11 de Setembro, mais um pesadelo mundial."
"Assim é Nawzad", acrescentei eu, "São essas atitudes de árabes extremistas, que poêm em causa tudo, e prejudicam processos políticos de Paz, criando ódios e revoltas entre os povos", concluí.
"Oh Valéria, isso é terrível, e tu sabes, já foste ao Libano, viste a maravilhosa solidariedade do Hezzbollah, viste hospitais e escolas a funcionarem plenamente, e viste depois, no meio dessa capacidade de ser-se solidário, um grupo de extremistas, que, sem qualquer inteligência política, continuam a dizer que Israel tem de desaparecer do mapa, que dariam a sua vida para se vingarem dos judeus, enfim uma data de disparates que só prejudicam a Paz e o desenvolvimento. Sabes, eles levam tudo à letra, a religião, em vez de ser uma coisa positiva, transforma-se num pesadelo. Vocês, os católicos,é que têm sorte. Vocês lêm a Biblia, mas não vão logo a correr, matar um cordeiro, em sacrifício a Deus. Vocês sabem relativizar, sabem interpretar. Ao invès disso, muitos árabes, sem cultura, sem inteligência emocional, lêm o Corão à letra. E depois, é o que se tem visto"
"Felizmente, cada vez mais, os árabes em geral ,estão nas universidades, adquirem ferramentas para evoluirem", retorqui.
"Pois..., mas a verdade é que o ódio, a revolta, a cegueira, ainda impera, e depois, há os políticos desonestos que se aproveitam da ignorancia, do extremismo, dum Allah, que só nos traz sangue derramado", acrescentou gravemente, Nawzad.
"Your God is better than mine, Valéria "
"Nawzad, don't be foolish"
"I know, I know..."