Corria o ano de 1985. Amália já havia recuperado do infortunio da proximidade da morte, por via de um cancro, que acabou por ser debelado. O célebre concerto no Coliseu marcara o seu regresso triunfal, depois de um 1984 para olvidar. Eu havia tido a honra de assistir a esse soberbo concerto, e ainda melhor, houvera recebido luz verde para um encontro em casa de Amália, que culminaria com a minha primeira entrevista de Amália para o Jornal da Madeira.
À hora marcada, lá subi os degraus do nº 193 da rua de São Bento, carregada de flores da Madeira ,dum bolo de mel e duma garrafa de licor de anona. No hall, um retrato de Amália, da autoria de Maluda, anunciava o momento mágico. O meu encontro com Amália. O primeiro em sua casa. No salão, algumas pessoas conversavam animadamente. A Estrela e a Lili, amávelmente, iam-me apresentando: O Dr David Mourão-Ferreira, o Belchior Viegas, o Carlos Gonçalves, o Guy, um francês amaliano, que tinha vindo a Lisboa para o concerto, uma prima afastada de Amália, poetisa Maria de Lourdes Agapito,a cunhada Filipina e o irmão Vicente, e ao fundo, junto a um televisor, uma anciã numa cadeira de rodas - a mãe de Amália.
Minutos passados, a Lili irrompe na sala, com a Diva. Imponente. Altiva. Distinta. De olhos ternos. Não resisti a um abraço demorado. Amália era ( é ), o meu idolo. Depois de uma hora de impagável convívio, e dum chá a preceito, a Estrela pede-me para acompanhar Amália até outra divisão da casa, para a entrevista. O gravador tremia nas minhas mãos. A porta fechou-se. E ali estava eu, finalmente, frente a frente, a sós com a mulher portuguesa mais célebre do século XX. Poderia ter escrito uma tese de mestrado sobre esta nossa 'conversa'. Do Fado ao Niilismo, de Camões a Régio, de Caravaggio a Maluda, dos concertos no Japão, no Libano e Israel, em Itália ou na Turquia, do seu entusiamo pela cultura portuguesa, do seu amor pelas canções do folclore português, daquele Malhão de S. Simão, que punha toda a gente a vibrar, de Viana a Buenos Aires... Contei-lhe como eu A havia descoberto, aos 17 anos, na cidade italiana de Perugia, quando uma manhã, ao sair da "Casa dello Studente", para as aulas na " Università", esbugalharam-se-me os olhos ao ver a cara de Amália, estampada em inumeros outdoors, anunciando um concerto. Contei a Amália, do entusiasmo dos meus colegas de faculdade, a quererem saber tudo sobre Ela, a combinarem a nossa ida ao concerto, e eu, espantada, porque não sabia que Amália era assim tão conhecida, e sobretudo apreciada. Foi nesse dia que A descobri. Foi nesse concerto, que virei amaliana. Lembrei-me da minha amiga e colega Tijen, uma turca que estudava comigo, e que não descansou enquanto não lhe explicasse o sentido das palavras de Barco Negro e do Povo que Lavas no Rio, que ela cantava fonéticamente do princípio ao fim... Nesses dias, dizia eu a Amália, "fui vedeta à Sua conta, junto de colegas e professores da faculdade, que queriam saber coisas sobre Si, pois eu era a unica alma portuguesa do Curso, pelo menos nesse ano." Lembrei a Amália daquele grupo grande de estudantes e três professores universitários, que chegaram à fala com Ela, no final do espectáculo, e do Seu espanto quando me ouviu falar em Português... Fora um quase fugaz encontro, mas... para meu estupor, Amália lembrava-se do episódio...
Ontem, fui ver "Amália, O Filme". Chorei, sorri algumas vezes, e numa só ocasião, pareceu-me mesmo ver a Amália: os gestos, o muit`óbrigada profundo, sentido... SANDRA BARATA BELO, foi nalgumas cenas, uma revelação. Noutras, pouco convincente. Estranhamente , nas cenas da Amália na casa dos vinte. PEDRO MARTA e JOÃO TORDO, pecaram por não terem conseguido, no seu guião, retratar ou pelo menos trazer mais à superfície, os sentidos da tristeza existencial de Amália, as razões para os momentos felizes, o humor sagaz e mordaz da Amália. Foi um guião que passou por Amália, qual salto de gato fugidio, sobre as brasas da Vida da Deusa. Como também faltou, um enfoque sobre a carreira - nem uma palavra sobre "a loucura italiana", o êxito no Japão e na Coreia, nem sequer uma menção(bastaria uma para ilustrar inovações, evoluções...) sobre os grandes concertos com André Kostelanetz, a experiência com Don Byas, o Aznavour, os albuns italianos, as recolhas do folclore...
Genial a inclusão de "Aranjuez" e de "The Nearness ot You", nos tracks sonoros do filme. Geniais as cenas com ANTÓNIO PEDRO CERDEIRA ( Dr Ricardo Espirito Santo). Genial o retrato que o filme nos deu, sobre a finura, distinção e lucidez de Amália. Menos bom o retrato do humor da Amália, manifestamente inferior à sagacidade e à mordacidade de Amália, sublimes. Menos bom aquela Amália no Coliseu, em termos plásticos e interpretativos. Realista, a abordagem dos guionistas, sobre a família de Amália. Que porventura poderia ser levada a maiores tessituras... Amália, era realmente uma extraterrestre naquela família. Até no porte. Uma data de pendurados, para não dizer em calão, o que realmente me apetecia. Genial a clara distinção que nos dá o filme, entre a sinceridade, a classe e o desprendimento de Amália, face a uma Celeste interesseira e invejosa, e a uma Detinha ainda pior que a outra, e a uma mãe, que se houvera sido minha, não terminaria a vida no conforto do 193 da rua de S.Bento. É que, eu não tenho a nobreza da Amália...
Uma Realização com R grande. Uma Fotografia excelente.
No compito geral, gostei do filme, se bem que as expectativas fossem superiores...e diferentes. Talvez porque em toda a minha vida, tivesse assistido a 54 concertos de Amália, talvez porque vivi umas cinco ou seis tertúlias, noite dentro, em casa de Amália, os momentos que considero terem sido os mais felizes de toda a minha vida vivida.
E no entanto, amanhã, planeio sentar-me no cinema do Forum, e ver o filme mais uma vez...