setembro 29, 2007

DESDE O PANTEÃO NACIONAL, AINDA É AMÁLIA QUE LIDERA, ou " Tratado sobre o Acto de Aplaudir, de Jerusalém a Londres ", ou ainda " Desonestidades Fadistas"

O cenário ,é o das velhas Muralhas de Jerusalém. Porta de Damasco. Um palco gigantesco ergue-se perante mais de dez mil pessoas-israelitas, palestinianos, europeus, alguns americanos. Estudantes, jornalistas,políticos, professores, advogados, juizes, médicos, religiosos,agricultores,enfim... gente de todas as idades e de muitos credos. Outros ateus. Um laço comum os une: São Pacifistas, reunidos pela PEACE NOW, dando a cara ,e emprestando o seu grito pela Paz ,no Médio-Oriente. Um cenário bíblico. Fabuloso. No palco, discursaram várias indidualidades, da Cultura à Política. De ambos os lados. Gente inteligente. Gente que conhece as razões dos ódios. Gente que sabe também que esses ódios, não são o CAMINHO. Depois das palavras de ordem, vem a vez dos Artistas. Que empenharam o seu nome pela causa unica da Paz- Collette Magny, Georges Moustaki, a israelita Sarah Alexander, o tunisino Mohammed Bhar, a libanesa Fairouz,um verdadeiro caso sério de popularidade no mundo árabe,uma espécie de Diva. Estupenda. Ainda ,um grupo de musica etnográfica da Palestina, e um outro israelita, composto por jovens universitários. No meio disto tudo, eu, a Valéria Mendez. Uma completa desconhecida, não-mediática, uma "mendiga" no meio de vedetas. Não obstante, uma Pacifista, Activista pela Causa Palestiniana. Uma pessoa com opinião. De repente, o meu ignoto nome, seguido do nome do meu País, ecoa na cidade velha. As primeiras notas do meu "playback" instrumental (Infelizmente não havia dinheiro para trazer musicos de Portugal), insinuam a melodia de " Coimbra"( Abril em Portugal). Os meus sentidos tremem com a ovação fenomenal, vibrante, entusiasta, ruidosa...o sonho de qualquer Homem ou Mulher de Palco. No final, entoa-se o "Lá Lá Lá "do refrão. Um banho imenso de aplausos... Dir-se-ia, que acabara de ouvir-se uma vedeta cintilante. Uma "star". Uma Diva... ... ... Qual quê! Claro que eu sei a razão de tal recepção. Eu acabara de interpretar um "hit" internacional da AMÁLIA RODRIGUES. A ovação, só reflectiu, até onde o "polvo" de talento da Diva ,havia chegado. Os aplausos não eram para mim. Eu havia sido um instrumento de "recordação". Nada mais. Por isso mesmo, no final,fiz questão em dizer umas palavras, sobre a Cantora Maior de Portugal... ... ...

Muito mais recentemente, uma outra fadista, no Royal Albert Hall de Londres, é ovacionada da mesma forma ( mas por muito menos pessoas!), quando inicia a sua interpretação de Barco Negro, um outro "hit "mundial de AMÁLIA. Seguiram-se outros temas criados pela nossa Cantora Maior. Lá pelo meio, dois inéditos. Nem uma palavra sobre AMÁLIA. Para os mais jovens ou mais distraídos, dir-se-ia, que aquela jovem fadista, possuia um reportório fantástico. No dia seguinte, os jornais e TV Portugueses, e um matutino inglês, anunciam a retumbante recepção dos londrinos, face a essa fadista. Que sucesso ! Que fama extraordinária tem aquela jovem artista ! Pois é. Se eu também tivesse tido a mesma "pouca-vergonha",a mesma desonestidade,e a tal máquina promocional atrás,e me filmassem a receber tamanhos aplausos, junto às vetustas Muralhas de Jerusalém, também eu, se calhar, seria logo uma vedeta. Quiçá premiada pela BBC Radio. Porventura honrada, por ter levado o nome do meu País, a distantes paragens. Mas não. Há que possuir bom-senso. Há que ser honesto. Há que ter os pés assentes no chão. Mesmo na "loucura" criativa. Sobretudo. No fim de contas, sejamos realistas: No que concerne ao Fado, a verdade é esta,e não vale a pena tentar ocultá-la, para benefícios egocêntricos e aspirações a vedetismos de plástico - AMÁLIA, NO SEU SONO ÉTEREO, EM CAMA DE PEDRA FRIA NO PANTEÃO NACIONAL, É QUEM CONTINUA A DITAR OS CAMINHOS DO FADO, A LIDERAR . A ACERTAR AS AGULHAS AO FADO. Resta-nos esperar, que surjam em Portugal, mais uma mão cheia de Teresas Salgueiros, coadjuvadas por compositores da fibra de Frederico Valério ou Alain Oulman. Então sim, Amália passará a ser A REFERÊNCIA. Por enquanto, continua a intervir. Directamente. Pelos meios menos honestos. Não por culpa DELA, obviamente. Por culpa, talvez do "facilitismo" e da mediocridade, que rege este País, nos tristes dias de hoje... ... ... Jack Lang, ex- Ministro Francês da Cultura, dizia, no Le Monde, por ocasião da Comemoração Anual da morte de EDITH PIAF - "...Se alguém canta "La vie en rose",e se ao iniciar o tema, o publico aplaude, fá-lo, não ao recriador, mas neste caso, aplaude EDITH PIAF. É inevitável..." Espantoso é , haver artistas em Portugal, que, enchidos pela auto-sublimação torpe e desonesta, cegos pela ambição, ainda não tenham compreendido isso. Só poderei lamentar... E denunciar.

Publicado por Valéria Mendez em 05:51 PM | Comentários (18) | TrackBack

setembro 28, 2007

AMÁLIA RODRIGUES, GARDEL e a NIÑA DE LOS PEINES- ícones indispensáveis de tronco comum. E agora? O que se passa com o Fado?

Poder-se-ia acrescentar no titulo já por demais longo, os nomes de outros ícones da musica mundial, que a intelligentsia musical decidiu colocar par a par, numa espécie de galarim dos eleitos do século XX. E aí, caberiam, sem a mais leve hesitação, uma Ella Fitzgerald, um Sinatra, uma Edith Piaf, uma Oum Koulthoum ou um Jacques Brel, não fôra a necessidade de, por via das evidentes transversalidades,juntar o Fado, o Tango e o Flamenco, numa categoria explícita de latinidades originais, com um tronco comum de raiz.

Se o Tango, teve internacionalmente seguidores tradicionais da essência, que o fez evoluir para uma linguagem mais compreensível a povos de culturas diferentes, com a acção renovatória duma Susana Rinaldi ou dum Astor Piazzolla, sem no entanto se desviarem dum entendimento da essência, se o Flamenco, riquíssimo na diversidade vertical, digo, na diversidade sem fugir da essência, sendo para o comum dos mortais muito fácil de identificar o estilo, o mesmo não poderemos dizer para o Fado.

O Fado,tal como linguagem exposta ao mundo, foi, e ainda é...Amália Rodrigues. Passo a dissecar a premissa.
Internacionalmente, o triangulo do Fado, Amália-Hermínia-Marceneiro, vertices estilisticos distintos, que ainda hoje produz "escola", nos jovens fadistas; dir-se-ia que, só para dar dois exemplos de cada vértice, a escola amaliana tem como seguidores Kátia Guerreiro e Gonçalo Salgueiro, a escola herminiana tem sem duvida Raquel Tavares e Alice Pires, e a escola marceneirista, a mais tradicional, da linha dura, tem como seguidores incontestáveis, Ricardo Ribeiro e Aldina Duarte;não conseguiu vingar, tal como sucedeu com os diferentes intérpretes de Tango ou de Flamenco, que atingiram um estatuto especial de criadores,entrando para a galeria das grandes vedetas mundiais. La Niña de los Peines terá sido a alma mater, mas uma Imperio Argentina, uma Lola Flores chegaram à consagração, em caminhos diferentes, porém verticais, isto é, essenciais, na primitiva acepção do termo.

Então,que se passou, e o que se passa com o Fado?
Só Amália Rodrigues conseguiu sair para o Mundo. No tempo em que o Scala de Milão era só para as Callas e os Pavarottis, Amália entrou fulgurante. No tempo em que só grandes monstros do Music Hall podiam pisar o consagrado palco do Olympia de Paris da era de Bruno Coquatrix, o Olympia dos Sinatras e das Piafs, o Olympia em que não seria possível colocar "en affiche" um Tony Carreira, por muito publico que tivesse, no tempo em que um Carnegie Hall, quando não tinha vedetas, fechava as portas,ou organizava Concertos de Musica Clássica. Foi nesse tempo, no tempo do Sinatra, no tempo da Piaf, no tempo da Callas, que Amália Rodrigues foi vedeta. Hoje, tudo se esbateu, o interesse do capital tornou-se preponderante, o nível da apreciação musical e artística declinou perigosamente, o mastiga e deita fora fez lei.
E só Amália conseguiu esse estatuto, mano a mano,com uma Oum Kalthoum,ou com um Sinatra, pela excepcionalidade da sua Voz, pela inteligência da sua Interpretação, e pela capacidade de evoluir drásticamente, sem perder a linha fadista essencial.
Ora, com uma tão forte influencia, mesmo aqueles mais jovens fadistas que se aventuraram a uns quantos concertos no estrangeiro, e porventura também admiradores e seguidores marceneiristas ou herminianos, ou ainda,outros mais alternativos, como Paulo Bragança ou Cristina Branco, não puderam fugir da garra amaliana, e lá está, nos deus discos, nos seus concertos, o reportório clássico da Amália, o reportório de musicas de Alain Oulman, que toda a gente sabe,SÓ compôs para Amália, abrindo uma unica excepção para Juliette Gréco, uma diva de França, intemporal. Até Carlos do Carmo, porventura o fadista com um maior numero de originais feitos para ele, ou pesquisados, repescados por ele, sucumbiu à tentação amaliana, fosse qual fosse a intenção, e incluiu ad eternum nos seus concertos, o Gaivota,de ONeil e Oulman, e a recantada Estranha Forma De Vida, de Amália e Marceneiro. Com tantas letras, tanto poema,para cantar o Fado Bailado, mas a verdade é que Carlos do Carmo o adoptou, como o fizeram, digo eu, quase todos os fadistas portugueses, de 1962 até à actualidade.
E basta, um breve olhar à contracapa dos discos, e ao alinhamento dos concertos das mais praticantes fadistas de reportório original, como Mafalda Arnauth ou Mísia, e lá está,Amália, impávida, perene, como se fora aquele fado, acabado de sair da pauta e da pena de algum jovem compositor ou poeta insatisfeito. Excusado será procurar nos alinhamentos duma Mariza, dum Gonçalo Salgueiro, duma Katia Guerreiro, duma Maria Ana Bobone, etc,vestigios de Amália. Nesses, Amália está omnipresente, ora guardiã, ora inspiração, ora imitação de plástico, ora evasão... E afinal tudo isso é entendível. O que não é entendível, o que é grave, é ir-se para um Royal Albert Hall ou outro sítio qualquer, e apresentar os velhos temas de Amália, como se de originais se tratassem, pedantemente rotulando de Novo Fado...um Primavera, de David Mourão-Ferreira e Pedro Rodrigues, ou um Sr Vinho de Alberto Janes, respectivamente de 1953 e 1973!!! Um Fado Novo, cantado e tocado com o mesmo ritmo, as mesmas suspensões, e até vergonhosamente os mesmos melismas dos disquinhos de vinil passados a CD da grande Amália Rodrigues. Fadistas de plástico à parte, a era do marketing e da economia invasiva, é a nossa era, e essas técnicas, as mesmas usadas para os MacDonalds, para os fogões e frigoríficos e para outros tantos objectos de consumo imediato, também já chegou ao Fado. Infelizmente. E digo infelizmente, porque assim, o novo publico do Fado, aquele que não viu a Amália e a Hermínia, aquele que nem sabe quem é Marceneiro ou Beatriz da Conceição, esse vasto publico duma comunidade global, que vai da Holanda à Argentina, e que, oops!!!, até está na Madeira ou na Picheleira, ou mesmo no Bairro Alto...tomará como Fado exponencial esse pseudo Novo Fado ou Fado Novo, até que um dia, quiçá passeando-se pelas prateleiras duma qualquer Music Store globalizada, encontre lá muito escondidinho um CD da Amália, com o tal Sr Vinho de 1973, e a tal Primavera, de 1953! E ao escutá-los, maravilhar-se-á com essa Voz de Portugal Oitocentos Anos para Trás e para a Frente, e escandalizar-se-á , no mínimo, com a pretensão do tal Fado Novo, "fotocopiado" até ao tutano, com um simples, mas definitivo senão: a voz que faz tudo igual, pára onde a Diva Maior pára, faz o pianinho onde a Voz Superior decidiu...é tudo igual.
Menos a voz. Menos o talento. Menos a autenticidade. Menos a verdade. Menos a elasticidade. Menos a inteligencia interpretativa... Menos tudo!!!
E viva a geração pimba do Fado. ( Afinal, não é em vão, que muitos historiadores e sociologos, retratam os inicios de século com provas evidentes de decadencia socio-cultural)
Se calhar é isso. Esperemos por melhores dias...

Publicado por Valéria Mendez em 04:23 PM | Comentários (9) | TrackBack