fevereiro 26, 2007

Carta de Maxi de La Peña a Valeria Mendez

(Nota explicativa: Na sequencia do meu anterior post de análise crítica ao ultimo album de Dulce Pontes, estabeleceu-se um dialogo entre vários dos meus leitores, donde se destacou o grande jornalista espanhol Maxi de la Peña, conhecido crítico, ensaista e entrevistador, que me deu a honra de me ter brindado com as suas visitas a esta humilde página cibernética. Honrada também fiquei, quando vi o meu texto traduzido para espanhol , na secção "Blog Dulce Pontes", da página ofícial da cantora , sabendo eu de antemão, que sobre a famosa artista, já escreveram os maiores e subidos nomes da crítica mundial. O ultimo comentário, em forma de carta aberta, que Maxi de la Peña escreveu neste blog, merece-me, pela sinceridade e pela coragem, que eu o transforme em post destacado. Ei-lo !)


" Estimada Valéria

A sua dignidade como pessoa, reconcilia-me com esta merda de mundo.
Conheço a sua trajectória, através do seu blog, e tive ocasião de vê-la numa entrevista na RTP Internacional. Consta-me que você é uma mulher integra, e dir-lhe-ei que isso é dificil de encontrar hoje em dia. Digo-lhe como jornalista com experiência de vinte anos de profissão, e sobretudo como ser humano, já que nos conhecemos ( assim o entendo pela sua atenta resposta aos meus escritos ), explicarei algumas coisas que insinuei nos meus textos. Amália considerava Carlos do Carmo uma pessoa falsa e hipócrita. De pouco se fiar. Assim foi. Agora mostra-se derretido por Mariza. Oportunista.
Amália comentou a Dulce Pontes naquela ceia, que não se deveria preocupar com as críticas negativas contra o disco de Dulce, "Lágrimas", pois que a ela, nos primeiros anos, criticaram-na com idêntica dureza. Diziam que cantava com estilo de flamenco, que "aquilo" era tudo menos fado. (...)
A Dulce, com a qual mantenho uma amizade pessoal há dez anos, apenas me contou poucas coisas mais daquela noite "tu cá-tu lá" com Amália. Que tomaram chá até às cinco ou seis da madrugada, que respeitava muito Teresa Salgueiro. Recordo-me bem.
Quando Amália faleceu, em Outubro de 99, Dulce estava em Barcelona, e dedicou-lhe um minuto de silêncio em cena aberta. Escreveu um poema em sua homenagem, que enviou à comunicação social portuguesa e espanhola. Mísia, artista que não admiro por motivos que agora não vêem ao caso, fez um breve artigo de opinião no jornal El Mundo, em que a homenageada era ela própria. Falava-nos do seu êxito fora de Portugal, que estava em Londres onde ia actuar nessa noite (...). De Amália, limitou-se a dizer que não se identificava com as suas ideias ( políticas?), mas que como artista era a melhor do Fado ( um forte lugar-comum!). (...) O artigo deu que falar. A intelectual Mísia, ficou retratada como uma egocêntrica. Quando em 1996 a entrevistei na minha cidade - Santander - não me agradou a sua arrogancia.
Agora, duas pinceladas sobre a Mariza, superstar. Nesta vida há de tudo, há os que nascem com uma estrela ( é o caso de Mariza ), e há os que nascem estrelados ( poderia estar pensando em Dulce Pontes ). Valéria, não sei se saberá que Dulce Pontes fez uma tournée em Portugal, no Verão de 2000, por lugares históricos ( Conímbriga, Alcobaça...), para apresentar o seu album " O Primeiro Canto". Sabe quem esteve em todos os concertos ? Mariza! Mariza visitava Dulce nos camarins. Mariza estava estudando a estratégia a seguir : Como derrubar a estrela portuguesa do momento. A questão era ser a nova Dulce, "dando-se bem com os media portugueses, arrastando-se para ter protagonismo no programa do Herman José. Está-me a seguir, Valéria ? E o Herman deu-lhe conselhos de como a Dulce se conectava com o publico, qual era a chave do seu carisma: a humildade. Herman José já não voltou a convidar Dulce para os seus programas. Mariza ganhou o favor da crítica quando editou o "Fado em Mim", uma crítica manipulada e estranha, com jornalistas como Fernando Magalhães ou Nuno Galopim. Ela estava no caminho "certo", estava começando a derrubar Dulce Pontes, quando esta ultima, abandona os palcos um ano, por via da sua maternidade. Logo, um bom promotor internacional, consegue convencer a BBC-3 (cuidado que é um canal minoritário, tipo o Rádio 3 da Radio Nacional de España!), para que entre a Mariza no "star system" da World Music. Há que colocar Portugal no mapa, e em concreto o Fado. E dão-lhe o prémio para a melhor artista europeia em World Music. Em Portugal vendeu-se a estória, como se ela tivesse sido designada a melhor artista europeia.Ponto. Manipulou-se uma vez mais a opinião publica. Logo, entrou a EMI e o marketing desmesurado. (...)
Ao Correio da Manhã, Mariza afirma que o pior que lhe haviam dito, era que gritava tanto como a Dulce Pontes. Sem comentários...
Dulce Pontes, hoje, não existe nos media portugueses, e se existe, é em termos negativos. Ennio Morricone, que foi a Portugal fazer um concerto com a Dulce, e assim, engrandecê-la, ficou assustado com a ignorancia dos jornalistas portugueses.
" O Coração Tem Três Portas " não toca nas rádios. A sua distribuidora, a Zona Musica ( Dulce neste disco,editou-se a ela própria, independentizou-se da industria musical ), rendeu-se rápidamente. Porém, passam-se coisas estranhas. Como é possivel que este album esteja distribuído clandestinamente na Holanda e na Bélgica, sem que nada nem ninguém, negociasse com Dulce Pontes ?
Menos mal, Valéria, que aqui do outro lado da fronteira, fica a Espanha. Aqui, respeitam-na.
Espero não te ter aborrecido, e isto foi só um pequeno apontamento.
Obrigado Valéria por abrires as tuas portas, o teu coração. E muito obrigado por existirem pessoas como tu.

MAXI DE LA PEÑA "

Meu Caro Maxi
Obrigada a Ti por existires.
E em relação ao que te contou Dulce sobre as diversas opiniões de
Amália, elas correspondem rigorosamente à verdade. Posso
testemunhar, porque Amália também as expressou (entre muitas
outras) a mim, por mais de uma vez.
Valéria

Publicado por Valéria Mendez em 02:19 PM | Comentários (7) | TrackBack