De vez em quando, e muito raramente, a musica traz-nos magia pura. O novo album de Dulce Pontes ,experimenta a acústica com a arquitectura, e leva-nos em viagem pelo fado, pela canção étnica e medieval portuguesas. Usar a Igreja de Santa Maria de Óbidos, e distintos espaços do Convento de Cristo em Tomar, fundado pelos Templários, património cultural da Humanidade, transporta-nos a um sentir unico e jamais escutado.
São assim os grandes artistas.
Essa viagem pelo folclore, trouxe-nos à memória, os trabalhos de Amália, nesse domínio, três albuns gravados nos finais dos anos 60 e inicio dos 70, trabalhos esses, que a levaram repetidas vezes ao Lincoln Center, dirigida pelo grande maestro André Kostelanetz, em programas culturais dirigidos unicamente à musica clássica e experimental. A canção medieval, também Amália no-la desvendou, mostrando ao mundo, a graça e a profundidade dum Don Diniz, dum João de Guillade ou dum Pêro de Viviães. E tudo isso, apresentado com o rigor e a criatividade, de quem sabe interpretar a alma colectiva.
Dulce Pontes não copiou sistemas, nem recriou processos. Apresenta um trabalho unico, e ao mesmo tempo, pleno de referências, sem cair no ridiculo do "cover", a via fácil para um imediato marketing musical. Na "Tendinha", criação da grande Hermínia Silva, pressente-se o carinho, a admiração e o respeito pelo "dono" da obra criativa, nunca descambando numa patética tentativa de se apropriar do sucesso melódico e temático, dum trecho que está na memória colectiva, mas sim fazendo-o seguir outro caminho, sem contudo se desviar um milímetro da essência.
São assim os grandes criadores.
Ouvir ( e ver ) Dulce Pontes neste disco, é uma aventura que transpõe o óbvio, e nos embala e arrasta a um plano metafísico do sentir. A cantora, qual bruxa, mulher de virtude e de poderes ocultos, numa melismática sem Tempo, transfigura-se ela própria num regaço da Mãe-Natureza, pura e bravia, ora mãe-colo ou mulher volúpia, ora menina descalça à descoberta dos sonhos, ou sabedoria sublimada por muitas vidas vividas.
Dulce Pontes não é neste trabalho, apenas a Dulce. Até porque a cantora, não é mais do que uma centelha profunda de todos nós. Assim saibamos ( e queiremos ) escutá- La !
Assim, talvez um dia, a mereceremos ...