Contráriamente ao Prof. Turgal, que no programa de Maria Elisa, classificou esta votação de negativa,pelo empirismo das escolhas, reputo este programa de muito positivo, uma autentica pedrada no charco da mentalidade dos portugueses, completamente dopados pelas personalidades das revistas côr-de-rosa, dos jogadores de futebol, ou de alguns politicos menos transparentes. É extremamente importante que se volte a falar dum Magalhães, dum Zeca Afonso, duma Amália Rodrigues, dum Eça ou dum Salazar... Essa discussão, levará muitos portugueses a reverem os seus conhecimentos, e outros a descobrirem que afinal, Portugal não é só o país do Figo ou do vinho do Porto.
Como dizia, e com muita propriedade, esse outro grande português chamado José Hermano Saraiva, Portugal tem uma História invejável, e pejada de herois, que merecem esse epiteto. Infelizmente, nomes como Garrett, Luis Antonio Verney, Pessanha, Marquesa de Alorna...e até Camões, estão hoje arredados da alma colectiva deste Povo, que já deu que falar nos quatro cantos do globo.
Eu, como não podia votar em todos eles, escolhi AMÁLIA RODRIGUES, como o "meu" grande português: Afinal, não foi ela a tirar das bolorentas e salazarentas bibliotecas, os poemas do Camões, do Régio, do Antonio Feliciano de Castilho,do Guerra Junqueiro, do Pêro de Viviães, do D.Diniz, do O'Neil, do Ary,do Alegre,do Almada, ou do Pedro Homem de Mello...e os levou a todo o mundo, cantando-os em alta Voz? Amália resume pois, esta alma colectiva, dum povo que, por vezes apesar de analfabeto e ignorante, é capaz de trautear e compreender um "Perdigão" do Camões, e senti-lo como Camõs quisera que fosse sentido. Por isso, e por muito mais, eu votei AMALIA RODRIGUES.
...E como me têm faltado as Tuas palavras de compreensão e de amizade. Tu, que sempre foste, para além de seres o que ÉS, a minha psiquiatra. Nem que fossem duas noites por ano em Tua casa, naqueles serões, onde o humanismo, a poesia, o fado, a filosofia...eram os pratos fortes, e onde por vezes, lá entrava a política, e era uma discussão pegada, entre Ti e a Maluda, que lá amigas eram,mas de sensibilidades políticas opostas...
Revivo tudo, ouvindo-Te, neste momento, em "La Ville S' Eveille", de Pierre Cour e Alberto Janes, Revivo a necessidade que eu tinha da Tua Voz, ao vivo e a cores, das Tuas palavras sábias, do Teu sorriso, que abrangia toda a consciencia de quem sabe Tudo, e não precisa de muitas palavras para exprimi-lo. Tu, Amália, foste a minha psiquiatra, a unica. Nunca fui a um psicólogo ou a um psiquiatra. Só Tu me bastavas. E que falta me fazes, principalmente nestes ultimos tempos, em que a vontade de viver é menor, o prazer das coisas da vida está mais baço. Resta-me os Teus fados, os Teus poemas...Curiosamente, agora ouço o "Fado Chora-se Bem", com palavras Tuas e musica de Carlos Gonçalves. Recordo a estória que te contei, de uma vez, no inicio dos anos noventa, este mesmo fado ter sido tocado numa rádio clandestina da Palestina, na sequência duma entrevista a uma mulher, que havia perdido o gosto pela vida, pelo desaparecimento dos seus entes queridos, mortos pelo terrorismo do estado sionista. A mulher, expressara-se exactamente como Tu, Amália, dizendo as mesmas palavras que Tu havias escrito.
"Moram numa rua escura
a tristeza e a amargura,
a angustia e a solidão.
No mesmo quarto fechado,
também lá mora o meu fado,
e mora o meu coração,
e mora o meu coração.
Tantos passos, temos dado.
Nós as três de braço dado,
Eu, a Tristeza e a Amargura..."
Fascinada pela coincidência, pedi logo ao jornalista de serviço, que passasse esta faixa do album "Lágrima", que eu própria houvera trazido como regalo para a Rádio. Pedi-lhe para explicar aos ouvintes, que estranhamente, as palavras de desânimo, ditas por aquela mulher ao telefone, para a audiência palestiniana, eram textualmente as mesmas, que uma cantora do meu país havia escrito,dez anos antes.
Ai Amália como me faltas!
A falta que me faz, aquele grito do homem de turbante, em Baalbeck, implorando-Te que cantasses "Inch'Allah". Eram os conturbados finais dos anos setenta, Beirute estava como está hoje, e mesmo assim, Tu, Amália quizeste honrar o compromisso contratual, com o Festival de Baalbeck, a norte do Líbano. Afinal, o povo libanês havia-Te dado uma grande prova de carinho e admiração: A Ordem dos Cedros, a maior condecoração oficial libanesa.
E que final bíblico aquele, com quase toda a gente de joelhos, ouvindo-te, sem te perceber, em "Foi Deus". Por detrás de Ti, as muralhas do Templo de Jupiter, iluminadas por holofotes amarelos, as silhuetas negras dos Teus quatro musicos, e Tu, Amália, feita Vestal, cabeça deitada para trás, braço erguido, cabelos esvoaçando ao vento...
...."e deu-me, esta voz a mim!"
E foi o delírio. Aquela multidão de joelhos, agradecendo a Allah, por Te ter trazido às terras do Líbano. Eu, Amália, quase que não olhava para Ti. De olhos esbugalhados, não conseguia deixar de tirar os olhos daquela gente, que via em Ti, qualquer coisa mais do que uma cantora, qualquer coisa mais do que uma artista preferida.
Não sei de onde vieste Amália. Porque te amam assim, se nem sequer percebem metade daquilo que cantas? Em duas horas de concerto, recordo-me que interpretaste apenas três temas em Francês, idioma que os libaneses de uma forma geral dominam. Porque Te amam tanto?
Eu sei que para mim, foi fácil amar-Te. Entendo tudo aquilo que dizes e cantas. Deste-me a honra de ser minha Amiga. Recebeste-me muitas vezes, em Tua casa, no núcleo restricto dos Teus amigos. Como não poderia Te amar?
Ai Amália, que falta me fazes...