outubro 22, 2005

Chegaram as Dores da Solidão. Peço um Padre Nosso Por Mim


Nós pensávamos, eu e o Virgilio, que haviamos encontrado a fórmula mágica para o Amor.
Tanto ele como eu, necessitávamos do nosso espaço, de podermos acender a luz às quatro da manhã, para ouvirmos uma musica ou para continuarmos a ler aquele livro. Por isso, cada um de nós, arrumava os seus sapatos em sua casa, e então, chegava o Amor, e um de nós, qual adolescente namorado, corria, ora agora para a casa de um ou de outro, e viviamos a nossa noite, a nossa tarde, ou até, a nossa manhã de Amor. Um Amor tranquilo, que parecia não ter data limite. Um Amor vivido sem as discrepâncias 'normais' da comezinha discussão do 'deixaste a tampa da sanita com pingos de xixi'. Um Amor que acreditávamos, depois de treze anos de Plena Existência, sobreviveria até à nossa Morte. Porque não haveria o desgaste. A maçada de estar com o Outro. A discussão por causa das contas que chegam para pagar.
Mas, a verdade, é que a nossa profecia particular realizou-se. Só que, amargo é o destino, não pensávamos que tão cedo. Porque acreditávamos que Deus não nos roubasse o sucesso da nossa fórmula de Vida. Porque acreditávamos que o filho do Virgílio, tão amado, tão querido pelo pai, mereceria de Deus a ventura de ter um pai Vivo e presente, pelo menos por mais algum tempo. O divórcio dos pais, muito jovens, e logo após um ano de vida em comum, não havia traumatizado aquela linda criança, que por tudo e por nada estava a telefonar ao pai, e que por tudo e por nada, o pai e ele, faziam uma festa de arromba.
E nós, abençoados por Deus, acreditávamos que os nossos momentos estavam o mais próximo possível da felicidade. A Dor e a Tristeza não tinham porte pago nas nossas Vidas.
E eis que, ontem de manhãzinha, o toque absurdo do meu celular desperta-me do sono. Era a voz da mãe do Virgilio. Aflita. Incomensurávelmente perdida.
Corri como uma demente para o meu carro, e em cinco minutos estava na porta da casa dele. A ambulância já se preparava para sair.
Havia ultrapassado já a inefável fronteira da Morte, o meu Virgilio. Morrera na sua cama. Assim. Como um fruto que cai duma árvore. Sem aviso prévio. Sem ter tido tempo de pedir ajuda. Sem ter tido sequer o direito a uma suspeita, um pequeno alarme, de que o seu corpo padecesse de algum mal.
E terminara naquela manhã sem sol, o nosso Amor de treze anos. Venturoso. Cheio de aventuras e peripécias, como naquela noite em que decidiramos dormir na praia da Madalena, e acordáramos com o barulho ensurdecedor duma máquina escavadora, sob o olhar atónito e malicioso dos trabalhadores da Câmara.

Sinto-me num limbo. A minha vontade é a de conhecer o que está para além do Portal. Porque sei que, se o conhecer, talvez volte a ver o Virgilio com aquele seu bem humorado sorriso, sempre pronto a uma boa gargalhada, e a um desfiar infindável de anedotas...
Eu não conhecia esta Dor. Não sabia da sua côr. Do fel amargo do seu gosto...
E estou pr'áqui perdida... Sem força, sem ânimo, sem esperança, sem um fado que me possa sublimar esta dôr. E sem Amália para desabafar...
Já não tenho a minha melhor Amiga. Já nâo tenho o meu Amor. Lindo. Tranquilo. E o meu corpo, a minha mente, a minha alma, só respiram agora fealdade, intranquilidade, revolta, dôr. Deus não tinha o direito. E eu tenho tanta Fé. Contudo, neste momento, todos os livros que li, todas as convicções que tinha, todas as minhas certezas, não passam dum saco negro no fundo dum poço. Bem fundo.

Disse-vos uma vez, num dos meus escritos, que não tenho estaleca para ser artista, na total acepção da palavra. Um artista segue a máxima do ' show must go on '. Eu, acabo de cancelar por email, todos os meus compromissos artísticos. Não tenho Vontade. Não posso, impunemente, olhar de novo os céus de Paris, não posso respirar de novo, o ar frio de Estocolmo. Nem poderei pela enésima vez , fazer a Via Sacra na velha Jerusalém. Os três sítios agendados até ao fim do ano. Amanhã, supostamente, apresentar-me-ia durante um Jantar para turistas escandinavos. Impossivel. Seria mais fácil um camelo passar pelo orificio de uma agulha.

Já não posso cantar...já não posso sorrir...já não posso...já não posso...viver.
Se puderem, meus caros amigos leitores, que tantas alegrias me deram por se fazerem presentes na minha vida, apenas vos peço, tal qual Amália o fez num fado, um ' Padre Nosso por mim '.

Publicado por Valéria Mendez em 01:56 PM | Comentários (91)

outubro 16, 2005

Dissonâncias do Fado ou Fados do Fado ?

Há pouco, ao ler uma declaração do fadista Paulo Bragança, que considera Nick Cave um grande fadista, lembrei-me subitamente da eterna discussão, em relação ao Fado e à sua definição. Há os que afirmam que Fado é Fado, tal qual Mozart é Mozart, e não se pode, ou não se deve alterar. Dizem-no os puristas.
Contudo, se atentarmos ao facto de que o Fado é uma Canção Urbana, a Urbe, enquanto tal , está em constante transformação, e por arrastamento, tudo o que vive na Urbe, sofre as correspondentes alterações do Tempo.
Ninguém, na Argentina, contesta Piazzola por ter adicionado ao Tango, outros elementos musicais e harmónicos. Ninguém no Brasil, acusa Tom Jobim, de ter emprestado ao Samba, um certo 'swingar' jazzistico que lhe é característico. Assim como, ninguém em França, acusa Patricia Kaas, que ter desvirtuado a 'Chanson Française', muito estruturada ao estilo de Edith Piaf.
Sendo assim, terão os puristas do Fado razão para tanto alarde?
Vejamos então:
Amália Rodrigues, quando nos anos 40, apresenta as musicas de Frederico Valério como Fado, e acompanhadas à guitarra portuguesa, suscita logo nos seus colegas e alguns críticos, uma reacção de negação. "Aquilo é tudo menos Fado" - afirmavam os puristas. Já nos anos 60, surgem os novos temas de Amália, compostos por Alain Oulman, que provocaram um chorrilho de críticas, algumas delas vindas de certos sectores académicos. Dizia-se que Amália tinha abandonado o Fado definitivamente. Um soneto de Camões, um poema de O' Neil ou de Régio, musicados por Alain Oulman, era tudo menos Fado. Mesmo que a guitarra portuguesa assentasse como uma luva nessas criações. Nesta altura, já os temas de Frederico Valério, eram considerados unânimemente como Fado, e Amália surgia agora com uma dissonância de estilo. Debates na TV, artigos e crónicas de jornais, programas de rádio, debatiam este chamado 'novo fado' de Amália. Os velhos do Restelo imprimiam por essas ocasiões, todo o seu destilar de veneno contra a inovação. O Fado era Fado. Ponto e basta.
Passados todos estes anos, vejo (ouço) boquiaberta, alguns desses velhos do Restelo do sector profissional fadista, todos pimpões e muito frescos para a idade ( Graças a Deus! ), apresentarem-se nos mais variados programas de televisão, cantando "Gaivota" de O'Neil e Oulman, ou "Maria Lisboa" de David Mourão-Ferreira e Oulman, como se de fado puro se tratasse. Conclui-se portanto , que passado todo este tempo, já os temas de Alain merecem figurar na galeria do Fado. Então, em que ficamos?
O que acontece hoje, neste inicio de novo século, é que, o Fado que é Fado, e considerado enquanto tal, continua a ser o Fado de Amália. Não existe um novo Fado. Nem um Fado Novo. Existe Fado, que por vezes, e em certas épocas, foi abençoado com o talento de alguns. Nada mais.
No século XXI, porventura aparecerão outros Valérios, outros Oulmans, outros Alberto Janes, que porão sem qualquer dúvida os cabelos em pé aos puristas, mas que serão os responsáveis pelo futuro da Saudade. Se não aparecerem, resta-nos pois explorar o manancial de criatividade daqueles que, no século XX, emprestaram ao Fado um cartão de identidade, que é a identidade de toda uma Cultura, que passa, sem qualquer dúvida, pela Literatura Poética, de grande tradição na Lusofonia.
Pois cá para mim, Camões foi um grande fadista, tal qual a brasileira Cecília Meirelles o foi- E foram-no, porque tiveram Amália para viver neles. E o resto, o resto meus caros amigos, são cantigas... E que Cantigas!
Experimentem fazer este exercício simples de análise: Peguem nos textos que Sinatra, Piaf ou Ella cantaram. Chegarão sem dúvida à conclusão de que posssuem uma qualidade imensa. Agora, analisem bem os textos que Amália cantou. Vêm a diferença? Não há dúvida de que a Poesia foi o grande Motor do Fado. E de Amália. Um dos pratos fortes de Portugal. Para além da magia da guitarra portuguesa. Unica. Esta autenticidade, vivida em dissonancias de estilo, que Amália encarnou, só terá paralelo, no exemplo artístico de outra grande deusa. A dos árabes : Oum Koulthoum.

Publicado por Valéria Mendez em 09:12 PM | Comentários (6)

outubro 15, 2005

My blog in Silicon Valley ?

Pasmada fiquei.
Alguem citou o meu blog, numa conferência sobre o assunto, em Silicon Valley.
Thank You Beverly Trayner !

Publicado por Valéria Mendez em 05:47 PM | Comentários (3)

outubro 06, 2005

AMALIA - Seis Anos de Saudade

No ano transacto, por esta altura, este blog promoveu um pequeno concurso literário em homenagem a Amália Rodrigues, que foi largamente participado. Muitos bloguistas e não só, escreveram poemas e textos sobre Amália, muitos deles, dignos de figurarem num livro-tributo à Diva de Portugal. Este ano, por impossibilidade da editora deste blog, não foi possível promover outra iniciativa do género. Isso implicaria ter de dispender o tempo que a homenageada e os possíveis concorrentes mereceriam. Dada a falta desse tempo indispensável, por ocasião de mais um aniversário da morte de Amália, este blog limita-se a transcrever três poemas de três grandes poetas do século XX português, num tributo sentido à Cantora, à Poetisa, à Artista e à Mulher que foi, é, e sempre será, Amália Rodrigues. A personalidade de maior prestígio do Portugal do século XX.

AMALIA

Eu já não sei, quando te ouço,
se como caracóis ou mastigo alecrim,
se me derramo pelo amor,
ou por um banco de jardim.
Se a gaivota voa fora ou voa dentro de mim,
se, coisa cantante,um sentimento pode
apodrecer ao sol,
se o desgosto é gosto, ou o gosto é desgosto,
se hei-de ir a Viana ou derivar por Lisboa,
até onde a voz se faz mais rouca.

Eu já nâo sei, quando te ouço,
que pedrinhas atirar e a que janelas,
que caretas fazer às feias, quer dizer,
às menos belas,
que mãos beijar, trincar, devorar
e que anéis cuspir para as valetas.

Eu já não sei, quando te ouço,
se trepe a estilita ou mergulhe num poço.

Eu já não sei, Amália,
donde vem, para onde vai, a tua voz,
que rapaz, que rapariga
estão prometidos, ( e tão sós! ) , na tua voz.

ALEXANDRE O' NEIL


RETRATO DE AMÁLIA

És filha de Camões, filha de Inês
assassinada voz de portuguesa
cantando a nossa imensa pequenez
com laranjas e gomos de tristeza.

É no claro Mondego dos teus olhos
que se debruça o mal da nossa mágoa.
Ao Tejo, dos teus gestos que se acolhe
o nosso coração a pulsar água.

Cantando, desatada de saudade,
choras um povo, cantas a balada
mais bonita que soa na cidade
de Lisboa, por ti, apaixonada.

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS


AMÁLIA

Na tua voz há tudo o que não há,
há tudo o que se diz e não se diz.
Há os sítios da saudade em tua voz,
o passado, o futuro, o nunca, o já,
há as sílabas da alma, e há um país.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Na tua voz embarca-se e não mais,
não mais senão o mar e a despedida,
há um rastro de naufrágio em tua voz
onde há navios a sair do cais,
nessa voz por mil vozes repartida.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau,
a Gaivota de O'Neil e o rio Tejo,
saudade de saudade em tua voz,
um eco de Camões e o escravo Jau,
amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

MANUEL ALEGRE

Publicado por Valéria Mendez em 06:00 PM | Comentários (9)