setembro 28, 2005

O Fantasma do 'Castello' (3)

Aquele banho de imersão, com imensos paus de canela e flores de jasmim, transportava-me quase a um sono letárgico, depois da 'serata' musical. O 'Castello', punha sempre à disposição dos seus hóspedes, umas saquetas para banhos de aromaterapia, para cada dia da semana. Havia saquetas com pétalas de rosas, de alecrim e eucalipto, enfim, cada dia da semana era um banho diferente, original, delicioso.
Estávamos no dia da canela e do jasmim. Dizia o prospecto , que este banho favoreceria a 'limpeza espiritual', de quem eventualmente tivesse 'caminhos fechados' para o bom discernimento nos negócios e na comunicação em geral. As rosas eram para 'abrir caminhos' no amor, e o alecrim era o mais indicado para a cura do chamado 'male d'occhio', o famoso mau olhado, muito tradicional também no nosso país.
No meio da letargia a que me tinha submetido, a minha mente começara a lembrar-se da estória do fantasma, que me houvera sido narrada pelo circunspecto mordomo do castelo. O amor clandestino entre a serva e o seu amo, terminado abruptamente, pelo crime duma duqueza enfurecida pelo despeito. De olhos fechados, porventura sugestionada pelo dramatismo da lenda, via claramente a figura de alguém muito jovem, de cabelos louros compridos, muito lisos, caindo em cascata sobre as costas, emoldurando uma face de tez muito clara.
Perturbada, abri os olhos. A visão desaparecera. Sorri, troçando de mim mesma, e voltei a mergulhar naquele umbral de sono. A figura da jovem mulher regressara, agora mais nítida, tendo como pano de fundo, as grades da janela do quarto. Via-a de perfil, ostentando uma rosa vermelha na mão. Pareceu-me ouvir um soluço. Inquietei-me. Abri os olhos de novo. " Mas que raio, Valéria, como podes ser tão sugestionável?", murmurei entre dentes.
Decidira pôr termo ao banho de canela e jsmim. Ainda meio atordoada com a 'visão' que tivera durante o banho, levantei-me, coloquei uma toalha à volta do corpo, e outra na cabeça, saí da casa de banho, e dirigi-me ao quarto. Olhei a janela, que minutos antes, servira de moldura da 'assombração', que os mecanismos da minha mente haviam fabricado. Sentei-me no leito. Pensei cá para os meus botões, que tudo não passara duma construção mental. Afinal, quando lemos um livro, se o autor tiver o talento necessário, conseguimos imaginar pela narração, paisagens e quadros de vida, com uma nitidez impressionante. Fôra por certo, o que se passara.
Ainda embrenhada no turbilhão de pensamentos, e com os traços do rosto da jovem na minha mente, apercebi-me então duma coisa extraordinária. O cheiro. O perfume suave e inebriante a rosas, invadiam o meu quarto. Olhei em redor. Não havia rosas em nenhuma jarra. E no entanto, eu acabava de tomar um banho de canela e jasmim. Era mais do que natural que o cheiro da canela inundasse o aposento. Levantei-me. Dirigi-me de novo à casa de banho. A água de canela e jasmim ainda lá estava. Não a houvera despejado. E não obstante isso, o descomcertante olor a rosas inundava também o pequeno compartimento. O inusitado da situação inquietava-me o espirito. Baralhava-me. De onde viria, aquele suave perfume, que pareceria querer cobrir o meu corpo, e todos os meus sentidos ?
Abri a porta do quarto, que dava para um longo corredor, e espreitei. Por debaixo de alguns quadros nas paredes brancas, pequenas luzes mortiças colocadas sobre mesas enfeitadas com estatuetas de santos. Nem uma jarra com rosas. Um pouco mais além, descortinei um arranjo de flores secas.
Voltei a fechar a porta. Agarrei nos meus cigarros, acendi um, e dirigi-me à janela. Lá fora, o néon do pequeno lago, emprestava à paisagem do jardim desenhado com mestria, canteiros de formas circulares, e pequenas alamedas circundantes, que faziam as delicias de quem passeava por entre as plantas cuidadas com esmero. Ao sentar-me de novo sobre a cama, e ainda um pouco atordoada com o mistério do suave perfume a rosas, apercebo-me de que agora, do meu corpo exala o perfume a canela e jasmim. Levanto-me atabalhoadamente, dou uns passos pelo quarto, e só o olor a canela preenche os meus sentidos. Abro a porta da casa de banho. Ainda é mais forte, o olor a canela com um travo a jasmim. Quase a correr, retorno ao quarto, e é sempre a canela e o jasmim que preenchem a atmosfera da divisão. O suave olor a rosas desaparecera. Como que por magia. Estava agora, quase zangada comigo mesma. Mas, como poderia eu ter sentido aquele perfume a rosas? Ou então, de onde houvera surgido ? E se surgiu, como desaparecera abruptamente ?
Escorreguei sob os lençois de seda, tentando perceber racionalmente o sucedido.
Sem conseguir uma explicação plausível que me acalmasse, estendi a mão até à mesa de cabeceira, liguei a televisão. Já eram quatro da manhã. A RAI emitia um velho recital da célebre Ornella Vanoni.
Recordo-me ainda de, antes de adormecer, ouvir já numa longínqua matriz, a voz de Ornella ,cantando uma belissima balada. "...uno solo di noi due..."
(FIM)

Publicado por Valéria Mendez em 08:25 PM | Comentários (12)

setembro 20, 2005

O Fantasma do 'Castello' (2)

..." Mio amor' mio amor',
mio corpo in morimento
mia voce perduta,
nel suo triste lamento..."
Meu Amor, Meu Amor, Mio Amor'
Ary dos Santos, Pallavicini,Alain
Oulman

Fixara-me nos olhos duma velha senhora, de porte distinto, que me escutava neste fado, em versão italiana, como se o soubesse de cor. Por vezes, os seus lábios acompanhavam-me nos versos do Ary, vertidos para Italiano. Eu sabia que, naquele momento, cantava para ela. No final, os aplausos da senhora de porte distinto, confirmaram-me a suspeita. Esta seria, por certo, uma das canções da sua vida. Fazia parte do segundo e ultimo album cantado em Italiano, da grande Amália. Gravado em 1977.
Era o primeiro trecho com musica de Alain Oulman, que cantara nessa noite. E a importancia do nome, justificava dois ou três bis.
Continuei o alinhamento previsto. Alceste já entoava a melodia seguinte, enquanto eu apresentava o tema que se seguiria:
" Sabem, nos anos sessenta, Amália Rodrigues num concerto em Roma, falava do que têm os Portugueses: A melancolia, o sentido aventureiro das Descobertas, a sublimação da tristeza pelo canto do Fado, grandes Poetas, Camões, Régio, Pessoa...e também, a alegria simples e genuína das festas dos Santos Populares. A certa altura, alguém da plateia gritou : ' E Salazar!!! '
E rematou Amália: ' E siamo tristi...'
Por essa altura, o seu maior compositor, Alain Oulman, fôra preso pela policia secreta do estado, acusado de actividades subversivas. O disco de Amália ' Abandono ', caíra nas garras da censura. Amália não se calou. Moveu mundos e fundos, e conseguiu que libertassem Alain. E sublinhou que não compreendia que houvessem proibido o ' Abandono '- um lindo fado de amor. Amor pela Liberdade. Que diz mais ou menos isto : ' Per il tuo libero pensiero / lontan' ti furono apprigionar'...' E soava mais ou menos assim:"

' Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar
tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar...
E apenas ouves o vento
e apenas ouves o mar. '
Abandono
David Mourão-Ferreira, Alain Oulman

Outra melodia do célebre compositor se seguiria, desta feita para um poema da brasileira Cecília Meirelles.
"Le mani che vi porto, As mãos que trago. Sono sempre le stesse mani che portono tristezza, passione, amore, e son quelle stesse mani, che ti diranno se vengono da funerali, oppure di feste... que te dirão se vêm de mortes ou de festas"- procurei explicar aos presentes, o contéudo do poema, enquanto o piano viajava pela melodia inebriante de Oulman.

"...As mãos que trago
as mãos são estas,
elas sózinhas te dirão
se vêm de mortes, ou de festas,
Meu coração, meu coração.
Tal como sou,não te convido
a ires para onde eu fôr.
Tudo o que eu tenho é,
haver sofrido,
pelo meu sonho alto e perdido
e o encantamento arrependido
de meu amor, de meu amor. "
As mãos que trago
Cecília Meirelles, Alain Oulman

A 'serata' estava perto do fim. Depois de passear-me pelo ' Ay mourir pour toi', que Charles Aznavour escreveu para Amália, e depois de me aventurar pela simplicidade díficil da escrita da grande Diva, em títulos como ' Estranha forma de vida ' ou ' O Fado chora-se bem '. Deste ultimo, não pude deixar de narrar um episódio por mim vivido numa rádio da Palestina, e que teve como 'protagonistas', este mesmo fado de Amália, e o sentimento de tristeza e de solidão duma mulher palestiniana, sofrida de dor( Leia, p.f. AQUI e ainda AQUI ), que sem saber a tradução do poema de Amália, expressou-se, tal qual Ela,ao lhe perguntarem como se sentia :
Moro "numa rua escura,
de tristeza e amargura,
de angustia e solidão"

Fôra mais uma 'serata' por mim vivida, bebida, amada. Mais um ,dos poucos momentos felizes da minha vida, que isto de ser feliz é coisa utópica. A felicidade mede-se pela quantidade de momentos felizes que creditamos na conta da nossa Memória. E creio que, será o somatório desses créditos, a unica coisa palpável e importante, que levaremos desta vida, quando 'da lei da morte' nos libertarmos...
Estava cansada. Quase exausta. Contudo, era um cansaço bom, um cansaço acompanhado duma certa euforia por haverem tido a amabilidade de gostarem de mim.
Despedi-me da velha senhora de porte distinto, que já sabia ser duma tradicional familia de produtores de vinho "Chianti", e que simpáticamente me contara que assistira a sete recitais de Amália Rodrigues, e que ainda guardava religiosamente o album em vinil, que incluía o 'Mio Amor', Mio Amor', o seu tema preferido do reportório 'della Regina del Fado'.
Estes momentos de conversa depois dos espectáculos, são sempre muito especiais para mim. E dão-me sempre um subido prazer. É tão bom, falar com gente , que é gente...
Agora, esperava-me um banho de canela e jasmim. Para relaxar. E pensar na noite que Deus me houvera oferecido.
E, inusitadamente, fruto de sugestão , da Fé, ou da evidência, esperava-me também, de alguma maneira, o fantasma do 'Castello'...
( Continua )

Publicado por Valéria Mendez em 01:37 AM | Comentários (7)

setembro 13, 2005

O Fantasma do 'Castello' (1)

O Alfa Romeo Spider do Alceste, rodava deliciosamente por entre o verde profundo, da estrada que serpenteia a montanha que aninha há séculos o 'Castello dell' Oscano' , hoje transformado em estância turística de Perugia, a cidade etrusca da província de Umbria , o lugar onde vivi aquilo que está mais perto da felicidade.
E o 'Castello' ali estava, imperturbável, sereno, cheio de mistérios e de encantamento. Sempre gentil, Alceste, pegou na minha pequena mala, e lá nos dirigimos à recepção. O tempo havia parado. À porta, o 'maggiordomo' impecávelmente aprumado, esboçou desta vez um sorriso, contrastando com a rigidez do nosso primeiro encontro.
" Tomei a liberdade de lhe reservar o mesmo quarto do ano passado, lembra-se ? " - anunciou o mordomo, mesmo antes de ter tempo de lhe retribuir a 'buona sera'.
Olhei para o Alceste, fixei os olhos impenetráveis do misterioso mordomo, e disparei: " Ah , 'grazie mille', pelo menos agora, estarei prevenida ", retorqui-lhe sarcásticamente, lembrando-me da 'estória' que ele me havia narrado, mesmo à hora da partida, aquando da minha ultima estadia no 'Castello'. Disse-me o desconcertante mordomo, que ali vivera uma criada, que fôra assassinada pela duqueza, sua ama, que houvera descoberto o 'affair' entre o duque, seu esposo, e a formosa serva. E reza a lenda que, ainda hoje, o fantasma da serva ali permanece, olhando pela janela, os jardins, onde vivera momentos de paixão arrebatadora com o jovem duque.
Alceste, o pianista da casa, meu amigo há longos anos, que quase sempre, fez o favor de me acompanhar nos espectáculos que fiz em Itália ( artista pobre não tem hipótese de se fazer acompanhar pela sua banda privativa ), não deixou de dar uma sonora gargalhada. "Lá estão vocês com essa 'storietta' de fantasmas e almas penadas!"
E lá subi as escadas, 'vigiada' pelas expressões de mistério, dos quadros que ornamentavam as paredes, e ao cimo, quase que jurava que os lábios do duque,desenhados com mestria por um pintor da época, se haviam quase imperceptívelmente mexido, esboçando um irónico sorriso. Meneei a cabeça,pensei cá para mim que estava a 'variar',olhei para o mordomo que seguia à minha frente, e lá entrei no quarto da serva assassinada.
Tinha de me apressar. Alceste esperava-me para o ensaio geral, onde definiriamos o alinhamento dos concertos, que teriam lugar na sala 'da pranzo' Turandot, precisamente durante o Jantar dos próximos seis dias.
Alceste conhecia o meu reportório, que era, sem tirar nem pôr, alguns dos 'hits' de Amália Rodrigues, que eu fazia sempre questão de interpretar, com a particularidade de o fazer, sem a presença da guitarra portuguesa, e sim, com o acompanhamento unico do 'pianoforte' de Alceste, exímio musico, e especial admirador de Amália.

Tudo ficara pré-delineado. A audiência era geralmente composta por gente duma certa classe social, apreciadora da boa musica, conhecedores e frequentadores assíduos de grandes concertos em Viena, Salzburgo, Milão ou Florença. Eu não podia falhar. Sobretudo, porque não sei cantar. Limito-me a dizer, cantando, os poemas, numa linha de musica. Valer-me-iam, as harmonias do Alceste, e uma certa nostalgia que Amália Rodrigues deixara na mente daquelas pessoas...
Havia, no dia anterior, actuado em Florença, no 'Centro Lorenzo de' Medici', igualmente acompanhada pelo Alceste, e a plateia jovem, composta por estudantes universitários que frequentavam cursos de Verão, tinha sido generosamente receptiva ao meu espectáculo de 45 minutos, tendo em conta que, no ultimo fim de semana, tinham estado perante uma cantora lírica do Conservatório de Florença.(...)
( Continua )

Publicado por Valéria Mendez em 01:06 PM | Comentários (7)

setembro 12, 2005

O Fantasma do Castelo

Estive em 2004, no 'Castello dell'Oscano', na Umbria Italiana. Regressei ao 'Castello', muito recentemente.

Leia brevemente, a continuação da pequena 'estória' da minha estadia no castelo. Se acredita em fantasmas, faça o favor de ler a minha próxima crónica, e se não acredita, faça-me igualmente o favor de a ler, e de sorrir, com as 'estórias' vividas, duma obscura artista insular.

"Grazie Mille", pela fidelidade dos meus queridos amigos e leitores. Até Amanhã !

Publicado por Valéria Mendez em 09:08 PM | Comentários (0)