julho 23, 2005

SAUDADES de AMÁLIA no "OLYMPIA" de PARIS


Muitos foram, os recitais de Amália Rodrigues,a que assisti no mítico "Olympia" de Paris, nos tempos em que o "Olympia" era sinónimo de prestígio internacional, no tempo em que não era possível, como o é hoje, qualquer um, alugar a sala por uma "soirée", e assim, poder gritar aos quatro ventos, que foi "vedette de l'Olympia".

Amália apresentava-se no célebre espaço de Bruno Coquatrix, em temporadas sucessivas.Cada temporada incluia no mínimo, cinco concertos seguidos, e no máximo oito. Nos anos 60, sei que chegou a fazer quinze 'soirées exceptionnelles'. Só Edith Piaf havia conseguido tal proeza.
Estive, entre outras, nas temporadas de 85 e 87, e assisti só nessas duas, a quatorze concertos de Madame Amália Rodrigues.
A primeira vez, em Setembro de 1985, foi para mim, a mais especial, pela expectactiva que criara do histórico teatro, e pelo que havia lido sobre as actuações da Diva naquele específico palco, que em 1957, a catapultara para a ribalta da fama internacional. Eu já havia visto Amália em vários palcos, de várias cidades: Perugia, Florença, Lisboa, Funchal, Beirute, Nice..., mas desta vez, era ... o "Olympia" de Paris!

Fui para a esplanada ao lado do célebre "Music Hall", umas boas três horas antes do recital. Aos poucos, grupos e mais grupos de pessoas iam-se apinhando junto ao teatro, e outras aproveitavam para fazer o mesmo que eu: Comer ou beber alguma coisa antes do concerto. Eu, muito mais do que comer ou beber, deliciava-me com a fauna cosmopolita, heterogénea, de idades díspares. Aquele, era o publico parisiense de Amália. Lentamente, fui-me apercebendo dos diferentes grupos, e houve um, que me catapultou para um estado inquietante. Fiquei preocupada. Tratava-se dum conjunto de pessoas, de cabelo espetado, pintado de azul ou de bordeaux, outros com grandes madeixas pretas ou louras contrastantes, fatos em cabedal ou imitações do mesmo. "Punks", pensei eu. "Mas que farão eles aqui"?
A inquietação tomou conta de mim. Amália não tinha aquele publico. Temia pelo recital e pela propria Amália. Levantei-me de sopetão, e dirigi-me à porta de serviço do teatro. (Amália, muito gentilmente, havia pedido ao 'bureau' do "Olympia", um "passe-partout' para mim: Assim eu podia ter acesso aos bastidores, e até ao camarim da Diva). Entrei, atabalhoadamente, no corredor onde se encontram os camarins e o bar de apoio aos artistas e pessoal técnico, e procurei alguém, do 'staff' da Amália. Queria ver se encontrava a Lili ou a Estrela. Queria exprimir-lhes o meu receio. Temia pelo sucesso de Amália naquela noite. Ao passar por uma porta entreaberta,ouvi um gemer de guitarra. Espreitei. Era o CARLOS GONÇALVES a ensaiar. Pedi licença, e quase sem respirar, perguntei-lhe: "O Carlos já viu as pessoas que estão na porta do teatro"? - perguntei de rompante. "Como assim?", questionou-me o autor da musica do célebre hit amaliano, "Lágrima".
"Então, aqueles punks todos... A temporada da Tina Turner foi na semana passada. Será que eles se enganaram?" inquirí nervosamente. Carlos Gonçalves pousou a guitarra, levantou-se, e sorrindo, disse-me: "Não se preocupe. Espere e verá!"
Insatisfeita, regressei à entrada do teatro. A essa altura, já haviam aberto as portas, e no hall, senhoras saídas da capa da "Vogue", distintos cavalheiros, jovens punks, alguns árabes, e um grupo de portugueses, falavam animadamente, alguns no bar do teatro, outros junto aos 'placards' interiores, onde estava patente uma exposição fotográfica sobre Amália Rodrigues. E eu, a olhar para todos eles, qual boi num palácio...

Os quatro musicos de Amália já entoavam a variaçâo inicial. Havia um silêncio que roçava o religioso. No final, aplausos. Lentamente, a figura duma mulher vestida de negro e vermelho, microfone na mão, cabelos ondulados entre o louro escuro e o castanho dourado, avança. Quiz parecer-me que se pudesse, fugiria para bem longe dali. As guitarras arrancam as primeiras notas dum fado. Arrastado. A mulher chega quase à boca de cena. Olha, por uma fracção de segundos para trás, e da sua boca surge a melodia e a palavra em português. Aos poucos, a sua voz torna-se mais segura, mais vibrante, os seus gestos tornam-se mais alargados, mais presentes. O final é retumbante. Temos Amália! Mais uma vez. A minha primeira vez no celebrado "Olympia".
Esquecera-me dos punks. Porém, ao soar as primeiras notas de "Barco Negro", voltei a lembrar-me deles. Entusiasmados, levantavam-se e batiam palmas ao som da melodia. E eu, atónita. Quase não olhava para o palco. Espantavam-me aqueles jovens, tâo diferentes de mim, ali, comungando a mesma paixão que eu.
No final de "Incha'Allah" um árabe gritou alto da plateia: "Allah ak bhar!"(Alá é grande!), aplaudindo frenéticamente a Voz de Portugal. A meio do fado "Povo que lavas no rio" , surgiam aplausos e gritos de alguns portugueses : "Ah grande Amália!" , "Ah fadista!". Na primeira fila, Charles Aznavour, a quem Amália, de repente lhe pede desculpa pelo seu "mauvais français", antes de interpretar a canção que o artista escreveu para ela: "Ay Mourir pour toi". Pouco a pouco, fui reconhecendo as figuras das duas primeiras filas: Os Condes de Paris, Jack Lang, Georges Moustaki, Linda de Suza, Marguerite Yourcenar, Juliette Gréco, Stéphanie do Monaco,alguns membros da família Rotschild, Farah Diba, Cargaleiro, Vieira da Silva, Alain Oulman, que de vez em quando, fechava os olhos, como que a deliciar-se pelas novas formas melismáticas, que Amália emprestava à sua "Gaivota"(poema de O'Neil), ao seu "Alfama"(poema de Ary), ou à sua "Maria Lisboa"(poema de D.Mourâo Ferreira).

O jornal "Le Monde", no dia seguinte afirmava na primeira página: "...Como Amália Rodrigues só existiram neste século outras duas vozes : Edith Piaf e Oum Kulthum."
Estava tudo dito!

Já nos bastidores, com o corredor cheio de admiradores da Diva, fazendo fila para entrar no seu camarim, e lhe oferecer flores ou pedir-lhe um autografo, dou de caras com o Carlos Gonçalves.
"Então, já lhe passou o nervoso?", perguntou-me o célebre musico e compositor.
O preconceito, mais uma vez, tinha-me toldado o discernimento. Amália, era uma artista universal. Amália não tinha um publico alvo. O publico amaliano afinal, era constituído por todos os que amam a musica. A Musica Verdade. A Arte Maior de Amália.

Hoje, dia 23 de Julho, é o dia oficial do nascimento da Diva, em 1920. Sabemos todos que ela não nasceu neste dia. O seu nascimento, ..."de tão pouco importante que foi, ninguém se lembra do dia exacto. Sei que foi no tempo das cerejas...", declarou uma vez Amália. Esse dia, continua no segredo dos Deuses. Um Segredo duma Deusa, que só os Deuses conhecem...
Parabens, minha querida Amália!
Todos os dias, eu me lembro de ti.
Todos os dias, a tua Voz preenche o meu viver.
E eu, tal como Tu, Amália, só Te posso dizer:
Muit'obrigada....muit'obrigadaa...obrigadaaa...
Até sempre!
Até já!

Publicado por Valéria Mendez em 04:26 PM | Comentários (22)

julho 16, 2005

Voltando ao Fado e aos seus ícones: BERTA CARDOSO

Existe em Portugal, um doentio esquecimento ou falta de memória, em relação a muitos artistas, pintores, poetas, escritores, que constituem uma mais valia para o nosso engrandecimento, enquanto Povo e Civilização.
Uma das figuras, injustamente olvidadas pela 'intelligentsia' publica e cultural deste país, é sem sombra de dúvida, a fadista BERTA CARDOSO, um nome, que paralelamente a Alfredo Marceneiro, Ercília Costa, Hermínia Silva, Armandinho, Joaquim Campos, Jaime Santos, Maria Alice, e poucos mais, determinaram o processo da essencia musicológica do Fado Tradicional, tal qual hoje, nós o conhecemos. O Fado pré-Amaliano, que serviu igualmente Amália durante a primeira década da sua carreira, e foi vida fora, sublimado sucessivamente pelas palavras dum Pedro Homem de Mello ou dum Luís de Macedo, reinventado pela voz de Amália, merecia outra atenção e outro destaque, na memória colectiva de todos nós, e em especial, nos amantes da Canção Nacional. Não pode haver continuidade sem passado, e muito menos futuro, quando se ignora voluntáriamente a construção basilar, a essencia do que quer que seja.
Tendo em conta as premissas atrás explanadas, sugiro a consulta detalhada do fantástico site, criado recentemente, e que vem colocar BERTA CARDOSO no mapa indispensável da História do Fado.
O meu muito obrigada à editora do blog FADO CRAVO que em boa hora, decidiu criar o site sobre essa figura incontornável da nossa Canção.

Publicado por Valéria Mendez em 08:58 PM | Comentários (14)

julho 06, 2005

"PRECISO SUICIDAR-ME"

Há três anos, estive em Paris para uma série de espectáculos em bares, associações culturais, 'cafés-concerts', o circuito habitual dos artistas sem nome. Um desses concertos (o que me deixou melhor recordação), foi num conhecido night-club 'gay' da noite parisiense, a que já fiz referência num 'post' anterior .
Iniciei o recital, conforme se pode ler no texto em arquivo, com "Meia noite e uma guitarra", sucesso de Amália, gravado em 1968, no triplo platina "Vou dar de beber à dor".
As coincidências quase subliminares sempre me impressionaram, e diria que, cabalísticamente, até poderão eventualmente serem passíveis dum estudo dos 'experts' na matéria. Efectivamente, o tema que referi, da autoria de Álvaro Duarte Simões, autor de meia duzia de êxitos de Amália Rodrigues,seria coincidentemente, um presságio para o que se passou posteriormente. É que Álvaro Duarte Simões, a meio duma vida por viver, decidiu pôr termo à angustia que o consumia. Nunca se soube a razão efectiva do acto. Alguns afirmaram na altura, ter que ver com a sua homossexualidade, vivida numa época em que o estigma era ainda superior ao que se vive nos nossos dias.
Ainda em conformidade com o que já escrevi, assisti no final do meu espectáculo, a uma conversa entre duas pessoas, visando o suicidio, e impressionada fiquei, com a declaração despudorada de alguém que afirmava veementemente : "Preciso suicidar-me..."

Chegou-me ontem a notícia via 'email', que um dos sócios-gerentes do local, o Eric, que me havia convidado para lá cantar por três vezes, adiantou-se a Deus e ao Destino, e da lei da morte se auto-libertou.
Nada me faria supôr que o Eric, na casa dos quarenta, homem da noite de Paris, aparentemente sem problemas de maior, de boa situação financeira e saúde de ferro, cometeria tal acto de coragem ou cobardia, segundo as diversas opiniões vigentes. Ao primeiro olhar, Eric não tinha problemas. Era um homossexual assumido, empresário de sucesso, e vivia numa cidade onde a homofobia e a discriminação são, creio eu, quasí inexistentes.
Eu não conhecia muito bem o Eric. Só tive espaço para dois dedos de conversa no final dos meus concertos, mas pelo que constatei, nada me faria prever esse final trágico. Homem bonito, sempre bem vestido, de trato fino e duma cultura geral interessante, aparentemente de bem com a vida.
Fiquei triste. Nunca mais me servirás um 'champagne', ao redor duma boa conversa. E eu , que amei ter cantado nos teus domínios.
"Au revoir", Eric.
Possívelmente já estarás ao lado da Edith Piaf, que tanto idolatravas...



Sobre a temática da solidão e do suicidio, o poeta Reinaldo Ferreira ( filho do conhecido "Reporter X", autor do célebre hit de Amália,"Casa Portuguesa") escreveu estas palavras, que Alain Oulman musicou, e Amália cantou, em 1966:

"QUEM DORME À NOITE COMIGO
É MEU SEGREDO,
MAS SE INSISTIREM LHES DIGO,
O MEDO MORA COMIGO,
MAS SÓ O MEDO, MAS SÓ O MEDO.

E CEDO PORQUE ME EMBALA
NUM VAI-VEM DE SOLIDÃO,
É COM SILÊNCIO QUE FALA.
COM VOZ DE MÓVEL QUE ESTALA
E NOS PERTURBA A RAZÃO.

GRITAR, QUEM PODE SALVAR-ME
DO QUE ESTÁ DENTRO DE MIM,
GOSTAVA ATÉ DE MATAR-ME,
MAS EU SEI, QUE ELE HÁ-DE ESPERAR-ME,
AO PÉ DA PONTE DO FIM."

"Medo", Reinaldo Ferreira
(in: cd "Segredo", Amália Rodrigues, EMI)

Sobressai-me sempre a terrível dúvida, até hoje sem resposta: Será o suicidio um acto de coragem, ou pelo contrário, apenas revelará fraqueza de espírito, ou até mesmo, cobardia?
Que responda quem souber!
Eu creio que nunca o poderei dizer...

Publicado por Valéria Mendez em 01:25 PM | Comentários (18)