março 20, 2005

REVIVENDO UMA TARDE SANGRENTA NA CIDADE DO SANTO SEPULCRO ( 2 )

O nosso instinto de sobrevivência, levou-nos a, não sei como, saltar um pequeno muro, que dava acesso a um jardim dum edifício. A polícia montada, sem qualquer respeito pela propriedade privada, saltava ela também para o mesmo recinto, desta feita a perseguir - pasmem-se - um rapazinho, que não teria mais do que onze ou doze anos. O seu pecado, seria porventura levar um lenço palestino ao pescoço. O bastão tombou sem dó nem piedade na cabeça do menino, enquanto um fotógrafo da France Press, escondido numa das portas, tirava a fotografia. Regozijei-me por isso. Nesse momento, lembrei-me da pequena máquina fotográfica que trazia no bolso do 'blazer'. Puxei-a, e fotografei também,a cena. Esta foto, mais tarde, seria uma das testemunhas dessa tarde sangrenta, para o publico português. O Jornal " Correio da Manhã " , publicou-a, juntamente com outras cinco, tanbém tiradas por mim, nesse dia. A minha camarada Sarah Alexander, judia, cantora de prestigio, muito apreciada nos circuitos culturais de Paris, opositora ao regime da Ocupação, ocupava-se em, desesperadamente, gritar em Hebraico, para os "bravos soldados defensores da Patria Israelita", palavras de protesto. Por momentos, tive a nítida impressão que o "cavaleiro" recuou a trajectória do bastão, que iria atingir Sarah. Dir-se-ia que, a reconhecera, e um pingo de respeito e solidariedade, se lhe aflorara ao espírito. O capacete "blindado", impediu-me de perscrutar os seus olhos - a janela da verdade - que me daria aperfeiçoada imagem do espírito, daquele "pau-mandado", da "intelligentsia" do governo de Israel.
Ao longe, enormes jactos de água, atingiam a população, enquanto que, algumas balas de borracha, feriam indiscriminadamente aquela gente que ali se reunira, para aclamar, apenas duas coisas: A Paz, e a auto-determinação dum Povo. Nada mais. Haviam milhares de palestinos naquela manifestação. Ninguém estava armado. Ninguém ripostou à ofensiva infame de Israel. Contudo, o jornal do Estado de Israel, descrevia no dia seguinte, aquela manifestação, de "... ingerência por parte de estrangeiros, na Politica de Israel, e conluio com os terroristas palestinianos..."
De repente, vimos dois jornalistas a correrem em direcção a uma porta do edifício, e nós, acometidos por uma estranha curiosidade, desafiando o perigo, corremos atrás também, quais autómatos, dominados - quiçá - pela adrenalina, que todo aquele caos nos provocava.
Caritativamente, alguém puxava para o interior do prédio, uma mulher loura, de aspecto ocidental, que sangrava imenso da cabeça. Os seus cabelos estavam como que, recriados por um estilista do horror, que lhe emprestara grossas madeixas carmim, ao seu cabelo dourado, côr do sol. O espectáculo era grotesco. Um jovem, gritando ser médico, aproximou-se da mulher, e começou a prestar-lhe a assistência possível, dadas as circunstâncias. De repente, Sarah, dá um grito, olha para nós, e questiona-nos: " Mas, não vêm ? Não conhecem esta mulher ? Não se lembram da deputada italiana que discursou? "
Olhei fixamente aquela cara, agora mais liberta do vermelho escarlate do sangue, e reconheço a mulher. Sarah Alexander, recorda-se do seu nome. " Marisa Manno, lembram-se ? " "Marisa Manno !" Ficámos todos atónitos. Aquela deputada italiana do Parlamento Europeu, havia vindo a Jerusalém, para "cavar" o seu infortunio.
Apesar de revoltada, ainda tive a presença de espírito de tirar uma fotografia, daquela mulher-coragem, prostrada no chão, com o olho esquerdo a sangrar, inanimada, indefesa. Vítima dos porcos judeus de memória curta. Vítima daqueles que, rápidamente, se esqueceram das perfídias de Hitler. Cometendo agora, algumas das atrocidades, a que outrora, foram também sujeitos.

Uma hora depois, tudo estava já mais calmo, e uma ambulância transportava Marisa Manno, a um hospital de Tel Aviv.
No dia seguinte, o veredicto: Marisa Manno havia perdido para sempre, a visão do seu olho direito. O Primeiro Ministro Italiano, apresentou um protesto ofícial, e todos, mas todos os estrangeiros (cerca de setecentos), que haviamos participado de alguma maneira, naquela manifestação, apresentámos uma queixa formal junto das nossas embaixadas, junto das embaixadas de Israel nos nossos respectivos países, e finalmente, junto dos nossos Ministérios dos Négócios Estrangeiros. Chegou mesmo a haver, um mal estar diplomático entre a Itália e Israel, e o Parlamento Europeu apresentou o seu protesto formal. De pouco, tudo isso serviu.
A reacção do governo israelita manifestou-se num lacónico pedido oficial de desculpas, ao governo Italiano e ao Parlamento Europeu.

Porque os Media se gerem pela lei do impacto, o assunto não foi muito ventilado e explorado, pelas televisões internacionais, precisamente porque, nessa mesma semana, todas as atenções estavam viradas para a execução "popular" de Ceausescu, na Roménia. O incidente não teve portanto o impacto que deveria ter tido. Mais uma vez, Israel, ficava imune ao castigo. Contudo, uma vez mais se provara o terrorismo de estado, perpetrado por Israel.
A fotografia da brava deputada, tirada por mim, apareceu nas páginas do CM. Deu-me vontade de rir, a observação do jornalista do Correio, que, olhando as fotografias, que por mim foram tiradas naquela sangrenta tarde, não se cansava de repetir : "Mas, você tem a certeza que quer continuar a cantar o Fado, e a dar aulas, na Madeira?"
Nem lhe respondi. Eu sabia que, no fundo, aquelas fotos eram apenas o resultado ocasional, da minha presença, como artista, numa grande manifestação pela Paz e pela Justiça, na cidade do Santo Sepulcro.

(FIM)

Publicado por Valéria Mendez em 03:18 PM | Comentários (32)

março 09, 2005

REVIVENDO UMA TARDE SANGRENTA NA CIDADE DO SANTO SEPULCRO ( 1 )

O episódio remonta a 1989, a minha primeira experiência no Médio-Oriente. Mal suspeitava eu, que aquela, seria a primeira, duma dezena de deslocações, a uma das mais conflituosas zonas do planeta.
Encontrava-me em Jerusalém, a convite do " Comité Français pour la Palestine ", e da " Association d' Amitié France-Palestine ", integrada num grande grupo europeu, de gente das mais variadas actividades : Jornalistas, professores universitários, artistas, deputados do Parlamento Europeu, juristas, escritores, fotógrafos, pintores, todos reunidos, para participar numa grande manifestação, antecedida dum evento politico-cultural, que reunira nomes sonantes, em defesa da Paz, e da auto-determinação do povo da Palestina.
A mole de gente era imensa, milhares e milhares de pessoas, concentradas junto às vetustas muralhas, da cidade velha de Jerusalem, ouvindo os oradores, gritando palavras de ordem, de liberdade e justiça. Havia uma hora antes, cantado o Fado, e tal como eu, outros artistas como Sarah Alexander, grande vedeta israelita, Collette Magny, a cantora francesa da " Chanson Engagée ", o célebérrimo Cat Stevens, e vários grupos de musica étnica palestina, haviam emprestado a sua voz, à Causa da Paz. À Causa da Liberdade.
As autoridades israelitas, mantinham a certa distância, uma poderosa força de intervenção, com polícias a cavalo, armados até aos dentes, e logo atrás, um forte contingente militar. Observavam impassivos, o desenrolar da manifestação.
Cobardemente, nesse mesmo dia,e nos dias precedentes, haviam impedido a entrada em Jerusalém, de palestinianos das aldeias e cidades circundantes, tentando assim, diminuir o "quorum" do evento.
Tudo decorria num ambiente de alto civismo. A certa altura, um dos oradores, referiu-se às proibições do estado judaico, classificando-as de fascistas, e impróprias dum estado que se dizia democrático. As críticas e palavras de ordem, iam subindo de tom, até que, passada uma meia hora, ouvia-se no recinto uma voz falando em árabe, hebraico e inglês, debitando pelos altifalantes dos militares israelitas, uma ordem para dispersar. A indignação agudizou-se. Da massa imensa de gente, soaram palavras de acusação ao governo de Israel: "Déspotas!" , "Imperialistas!"...
Súbitamente, ribombaram no ar alguns tiros, algumas pessoas era atingidas com balas de borracha, enquanto que fortes jactos de água, caíam sobre os manifestantes. A mole imensa , espalhou-se atabalhoadamente pelas ruas e praças, a anarquia era total. Quase sem me aperceber, completamente atordoada pelo acontecimento, corria em direcção a nenhures, procurando escapar à repressão. Comigo, estavam no momento, a israelita Sarah Alexander, um professor universitário sueco, e ainda dois activistas do " Al Fatah ". Enquanto corríamos desalmadamente, uma forte dor projectou-se no meu ombro esquerdo, olhei ao alto, e apenas pude ver o bastão dum "cavaleiro" judaico, voar em direcção à minha cabeça. Outro a meu lado, era também atingido. A raiva superou o medo, e desatamos a gritar palavras em inglês: "Fascist Pigs !","Killers!","Assholes!", ao mesmo tempo que Sarah Alexander gritava em hebraico, a sua indignação. Agora, eram judeus contra judeus. Tudo pela cobiça. Pela ambição...

(CONTINUA)

Publicado por Valéria Mendez em 06:04 PM | Comentários (16)

março 02, 2005

AMÉRICA 2000

QUERO LÁ SABER
SE POSSO OU NÃO TER
A RAZÃO DO MEU LADO.

QUERO É O MEU V12
CHEIO DO "PITRÓLEO"
E O RESTO É ENFADO,
E O RESTO É ENFADO.

QUERO É O "PILIM"
MESMO QUE NO FIM
O AR SEJA IMPRÓPRIO.

E SE QUEM MORRER,
MORRA SÓ PR'A EU
VIVER NO MEU ÓCIO,
VIVER NO MEU ÓCIO.

E QUEM REFILAR
BEM PODE ESPERAR,
ESPERAR BEM SENTADO.

NÃO HÁ QUE ENGANAR,
POSSO DECLARAR
GUERRA AO DESCARADO,
GUERRA AO DESCARADO.

NASCI PARA TER
O MUNDO A MEUS PÉS,
FICO SEMPRE BEM, NA FOTO.

MESMO QUANDO MATO,
ESFOLO E ATACO,
E CAGO PR'A KYOTO
E CAGO PR'A KYOTO.

(Letra e Musica - Valéria Mendez)

Publicado por Valéria Mendez em 05:58 PM | Comentários (11)