Existem momentos na vida, em que urge, antes de tudo, olhar para dentro da alma. Descobrir quem somos, o que viemos aqui fazer, que caminhos seguir. E quando, nos deparamos com metade duma vida vivida, sem tempos para reflectir, desafiando as tristezas, ora unindo-nos a elas, ora escapando-lhes, qual enguia escorregadia, eis que chega a hora do arrumo. E quem tem a lucidez nas entranhas, tem de ver verdades, que outros porventura ignoram, ou comodamente querem ignorar.
Temo dizer que, no fundo, vivi estes anos com lucidez, contudo, sem o poder efectivo para mudar fosse o que fosse. E havia tanto a mudar. Tudo o que fiz, foi dar umas poucas aulas que adorei, e creio ter sido correspondida pelos meus receptores; foi cantar umas quantas cantigas de amor e revolta, que de nada serviram; foi ainda, conhecer uns quantos gritos de desespero em terras distantes de Allah, sem no entanto, ter podido aplacar aquela ira, aquele choro, aquela agrura. E bate-me a raiva, de nada ter podido fazer. Azar o meu.
Receio que, a ver pelos anos que passaram por mim, quais Ferraris em tarde de circuito - 40 anos - e parece que foi ontem que eu tinha 18, e descobria avidamente os misterios das pedras da velha cidade etrusca de Perugia, nos meus belos tempos de Faculdade,o futuro para mim, seja dois dias inuteis e insipidos, quanto foram os quarenta anos vividos.
Quizera ser James Dean, Marylin ou Cobain - Live fast and die young - e assim, nunca teria chegado ao estado do desencanto. A lucidez... essa inimiga da felicidade. Eu sei que nunca deixarei de ser lucida.
Azar o meu...
Stonehedge
E POUSEI O OLHAR SOBRE O CIRCULO
DE MISTERIOS, NOUTROS PLANOS DESVENDADOS.
TOQUEI A PEDRA QUE VEIO DO TEMPO,
A LUZ CRIOU A SOMBRA. QUE FADOS
SE ABRIGARAM, QUE DESTINOS TRISTES,
QUE PALAVRAS, QUE ENFADOS ?
O CIRCULO DAS PEDRAS RESISTE.
O ARQUIVO, LONGO E INTEMPORAL,
DESAFIA O NADA QUE PERSISTE.
AS PEDRAS FALARAM. EU ESCUTEI-AS.
E SEM LAMENTOS TROUXERAM,
NOS KARMAS, NOGENTAS TEIAS.
Valeria Mendez