Desta vez, o meu amigo Nawzad, do Al Fatah, havia pedido ao Manuel Kleidman, fotógrafo e artista plástico judeu, que fez a dificil opção para um israelita, de se colocar publicamente, contra a politica de Sharon, para vir esperar-me ao aeroporto Ben Gurion, de Tel Aviv. As determinações politico-militares, impediam Nawzad de se deslocar a Tel Aviv, sob pena de ter sérios problemas, pelo facto de ser palestiniano, e também activista da Causa Palestiniana.
Eu já conhecia Kleidman. Ele pertencia, há longa data, à mesma organização que eu, e em 1990, havia vindo de propósito a Lisboa, para assistir a um Concerto de Amália Rodrigues, no Coliseu. Essa "doença" amaliana, confesso, fui eu quem lha contagiou, apesar dele já ter tido, no passado, a benção, de ter assistido a recitais da Amália, em Tel Aviv. Contudo, sei que, os discos que lhe ofereci, as conversas que tive com ele, agudizaram a "amalite" do querido Manuel, fazendo-o voar até Lisboa, só para poder vê-la e cumprimentá-la, pela ocasião da comemoração dos seus cinquenta anos de carreira.
Depois dum enfadonho processo de interrogatório, levado a cabo por um guarda com cara de poucos amigos, no Aeroporto Israelita, confesso que fiquei com a ideia, pelas perguntas feitas, que possivelmente até teria ficha na "Mossad". E depois, pensando melhor, se calhar até não. Quem sou eu, para ter a "honra", de ser investigada por tão "nobre" agência secreta ?
No fim, lá me devolveram o passaporte, com a recomendação e o aviso, de que era expressamente proibido "envolver-me" com terroristas. Sorri, pensando que se assim fosse, a "conversa" tida com o sionista, não deveria ter tido lugar.
Já pelo caminho, Kleidman explicava-me que o ambiente estava cada vez mais persecutório, e que ele próprio, era muitas vezes incomodado a meio da noite, por militares à procura, deste ou daquele suposto terrorista. O trajecto Tel Aviv - Jerusalém, era-me já muito familiar, e ressuscitava em mim, aquele sentimento especial, aquela alegria misturada com uma adrenalina peculiar, um misto de receios e esperanças, de incertezas e de mistérios. A chegada a Jerusalém, depois daquela curva, em que ao longe já se vê o cimo da mesquita Al Aqsa, e mais além, o Monte das Oliveiras, é qualquer coisa de sempre novo, intemporal.
E depois, ter de aturar um "check-point", mesmo junto às portas de Damasco, e prosseguir até ao Hotel St Georges, na parte oriental da cidade, passando por inumeros carros-patrulha de Israel, dava a sensação da verdadeira situação daquele povo, vivendo sempre "on the edge", só porque reafirmam, a par e passo, o seu direito à Liberdade.
As caras na recepção do Hotel, todas muito familiares, receberam-me com um grande sorriso. A Layla, uma palestiniana que fala sete linguas, amante de Fernando Pessoa (pasmem-se !), e ferrenha activista do Al Fatah, grande admiradora de Mário Soares (pasmem-se outra vez !), apoiante incondicional de Arafat, Public Relations do Hotel, ofereceu-me uma bandeirinha da Palestina, com um forte abraço.
Na tarde do dia seguinte, haveria o Concerto, seguido duma conferência-debate, sobre os direitos dos estudantes palestinianos, cada vez mais impedidos de frequentar as Universidades. Antes de recolher-me, ainda abracei demoradamente Nawzad, o meu querido Amigo, o meu Amor Platónico, "compagnon de route" de tantas aventuras. Ele estava igual, bonito e forte, o cabelo sempre à escovinha, preto, asa de corvo, muito moreno, musculado, uns olhos dum verde escuro penetrante, revelador de muitos dramas, de lutas, e também de ódios incontidos, plenamente justificados. Viessem um dia, tirar-me a casa de meus avós, apropriarem-se de tudo, e "recambiarem" os velhos, para um campo de refugiados, também eu, me consumiria de ódio. Concerteza, muito mais que Nawzad...
O alaúde de Mohamed Bhar, um artista tunisino convidado, já entoava no palco, uma melodia dolente. Tinha de me apressar. A indumentária que usaria em cena aberta, seria muito simples - um manto preto, e na cabeça , um "kafieh" palestino, igual ao de Arafat. Eu gostava de me apresentar assim. Quando estive, há um ano, no programa de Herman José, na SIC, lembrei-me de vestir-me assim. Mas depois, temi pela minha segurança. Porventura, já não regressaria à Madeira. Teriam-me, quiçá, metido no "Julio de Matos"...
Nawzad, bateu à porta do meu camarim. Era chegada a minha vez.
Alguém no palco, pronuncia as palavras "Valéria", e "Portugal". Era a minha "deixa". Tive uma sensaçâo de vergonha. Lembrar-se-iam da posição de Durão Barroso, face à guerra do Iraque ?
O playback instrumental (sou uma artista pobre, nem sempre há dinheiro para musicos ao vivo), começou a "entoar" as primeiras notas dum fado de Amália, musica de Alain Oulman. A minha voz grave (demasiado grave! ), avançou em Português:
Foram montanhas, foram mares
foram os numeros, não sei
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei, não te encontrei...
A plateia, maioritáriamente constituida por jovens, em silêncio e sem nada entender, acompanhava a "fonética" do poema da brasileira Cecília Meirelles, que era desfiado no meu Canto. Expliquei-lhes no fim, em inglês e francês, que cantara uma canção de Amália, com versos duma brasileira, e musica dum luso-francês. Uma verdadeira obra transatlântica. Depois, o silencio fez-se maior. No écran junto ao palco, apareceram os meus versos , e respectiva tradução para árabe - a minha maneira de celebrar a Intifada. Ouviram-me num silêncio sepulcral. Pairava no ar a angustia, o sofrimento, a revolta. No final, a casa quase veio abaixo. Depois daquilo, só o céu...pensei eu. Eu sei que aqueles fortes aplausos, não eram para a cantora, mas para a Causa. Mas, é sempre bom sentirmos aquela energia especial..Tudo de pé, empunhando bandeiras palestinas, e um grupo de mulheres idosas, a beijarem-me as mãos... Sinto um arrepio, quando me recordo daquele momento. Não consigo evitar uma lágrima...Um velho, acercou-se de mim, e em francês, sussurrou-me ao ouvido : " N'oubliez jamais nos larmes."
Saí do palco, martirizada de pranto, rasa dum sentimento tão negro que ... improvisamente, quase me vi, coberta de dinamite, correndo e gritando aquele Fado de Revolta...despedaçando-me...e despedaçando dezenas de corpos sionistas, num qualquer comício do Likud.
Depois, a bonança invadiu lentamente o meu corpo, o meu espírito, aspirei vorazmente o ar, sentei-me, e ... chorei.
A minha vingança tem de ser outra. Não essa. Só poderei ajudar, falando...escrevendo, como o faço agora, celebrando a luta, trabalhando para angariar alguns fundos, para que um ou dois meninos da Intifada, possam ter alguns cuidados médicos, algum lápis de côr, para exorcizarem a sua raiva, num desenho qualquer...
Essa, é a minha arma. Para além desta voz. Quase inutil... Quase gasta...Quase morta.