Na sequência da crónica anterior, e apenas como ilustração do vasto espólio da Literatura Medieval, não poderia deixar, tal como Amália não o pôde fazer, de falar do Rei Lavrador, ele também Poeta da nossa Literatura, esposo da Rainha Santa. Sobretudo porque, devemos por obrigação, conhecer o nosso passado, para melhor podermos situarmo-nos no presente, e um futuro maior poder alcançar.
Uma das lacunas do nosso ensino, é precisamente, a capacidade de sabermos gostar de nós próprios, apontar os erros cometidos, contudo, nunca deixar de falar daquilo que nos marcou pela positiva. Nisso, o Antigo Regime, com Salazar à cabeça, agiu de forma correcta, não deixando ao olvido, as nossas figuras máximas da Cultura. Eu sei que, paralelamente a esse "patriotismo" vigente, procurou-se manipular a História, em proveito próprio. Isso serão outros "quinhentos". "Abril", veio no entanto, e mal, justificando-se com tal facto, esquecer a nossa parte boa, aquela que nunca deveria ficar na prateleira. Até hoje, os sucessivos Ministérios da Educação, não tiveram a ombridade, de voltar a colocar as coisas na sua perfeita dimensão. Irónicamente, faltar-nos-á uma mente, como a do Professor José Hermano Saraiva, o melhor Ministro da Educação, que Portugal algum dia conheceu...
A lucidez de Amália, sobrepôs-se a todas as exaltações ideológicas, e tal como cantou o comunista Ary dos Santos, o socialista Manuel Alegre, cantou o supra sumo da Pátria, Luiz Vaz de Camões, e também El Rey Don Diniz. A Ela pouco importava as frisagens ideológicas. Importava sim, delinear uma identidade. Assumir uma Cultura. Festejá-la.
Cantiga de Amigo
" AH QUIZESSE DEUS "
NÃO SEI EU, AMIGO, DE QUEM PADECESSE
MÁGOAS QUE PADEÇO, E QUE NÃO MORRESSE,
SENÃO EU, COITADA, ANTES NÃO NASCESSE,
JÁ QUE NÃO VOS VEJO, COMO MERECIA !
AH QUIZESSE DEUS, QUE EU VOS ESQUECESSE,
AMIGO QUE VI, EM TÃO TRISTE DIA.
NÃO SEI EU, AMIGO, DE OUTRA QUE PENASSE
PENAS COMO EU PENO, E AS SUPORTASSE
E QUE NÃO MORRESSE OU DESESPERASSE,
JÁ QUE NÃO VOS VEJO, COMO MERECIA;
AH QUIZESSE DEUS, QUE EU VOS NÃO LEMBRASSE,
AMIGO QUE VI, EM TÃO TRISTE DIA.
NÃO SEI EU AMIGO, DE QUEM TAL SENTISSE,
E QUE ASSIM SENTINDO, O SOL ENCOBRISSE,
SENÃO EU, COITADA, A QUEM DEUS MALDISSE,
JÁ QUE NÃO VOS VEJO, COMO MERECIA;
AH QUIZESSE DEUS, QUE EU NUNCA VOS VISSE,
AMIGO QUE VI, EM TÃO TRISTE DIA.
El Rey Don Diniz
(Adaptação: Natália Correia/ Composição musical: Alain Oulman/ Interpretação: Amália Rodrigues)
De sublinhar, a excelente investigação do espólio musical medieval, por parte de Alain Oulman, que conseguiu nas suas composições para poemas Medievais, um entrosamento, uma aproximação e uma harmonia notáveis, fazendo-nos crer ser possivel, aquela musica, ter sido cantada numa qualquer festa da Côrte de D. Diniz.
As Cantigas de Amor, de Amigo, de Escárnio e Mal-Dizer, da Idade Média, são no fundo, os primeiros textos de Canções ou baladas , que mais tarde, tiveram continuidade no Fado. Alain Oulman , percebendo que a essência poética do Fado, repousava nessas Cantigas, tomou a iniciativa de pesquisar as linguagens musicais da época, e compôs expressamente algumas musicas, inspiradas em estruturas musicológicas desses tempos imemoriais. Natália Correia, juntou-se à equipe, adaptando os poemas para o Português actual, e Amália Rodrigues deu voz a esse trabalho.
Um dos trabalhos que teve edição discográfica, foi esta Cantiga de Amor, do poeta e trovador JOÃO GARCIA DE GUILHADE, que pela sua graça e mordacidade, assumindo palavras de sua amada, valerá a pena recordar:
..."E PEDE-ME AGORA O QUE NÃO DEVIA"
REPARASTES, DONAS, QUE NO OUTRO DIA
O MEU NAMORADO, COMIGO FALOU
COMO SE QUEIXAVA ? TANTO SE QUEIXOU
QUE LHE DEI O CINTO. DEI - LHE O QUE PODIA;
E PEDE-ME AGORA, O QUE NÃO DEVIA.
VISTES ( ANTES NUNCA TAL COISA SE VISSE ! )
QUE À FORÇA DE MUITO, MUITO SE QUEIXAR,
FEZ-ME DA CAMISA O CORDÃO TIRAR;
O CORDÃO LHE DEI ; NO QUE FIZ TOLICE;
E O QUE PEDE AGORA, ANTES NÃO PEDISSE.
DAS MINHAS OFERTAS, JOÃO DE GUILHADE,
ENQUANTO AS QUISER, NÃO O PRIVAREI,
QUE MUITAS E BOAS, JÁ DELE ALCANCEI;
NEM LHE NEGAREI, MINHA LEALDADE.
MAS... DE OUTRAS LOUCURAS, TEM ELE VONTADE !
João Garcia de Guilhade
Poeta e Trovador Medieval Português
Deliciosa Cantiga, não acham ?
O meu "Pequeno Concurso Literário", em homenagem a Amália Rodrigues, mui humilde tributo à " Voz de Todos Nós ", teve variadíssimas repercussões. Prova de que, Amália, continua viva e actuante, numa Cultura Portuguesa, que vive, no nosso inicio de século, sérias dificuldades. A Aluena, do blog SENDA DOCE , organizou um dossier "Amália", com webdesign e tudo, NO SEU SITE POÉTICO, "MAKTUB" , onde apresenta todas as participações do "Concurso". Mais uma prova, de que nem sempre a Morte, é sinónimo de esquecimento.
E lá por fora, esse esquecimento, no caso de Amália, não se faz presente. No ultimo numero, da reputada revista de musica, "Mojo", a conhecida cantora islandesa BJORK, afirma que AMÁLIA, se encontra entre as três melhores cantoras de sempre. Mais uma pequena achega, que no fundo, vem fazer prova, de que a nossa Amália, é realmente Universal. Revivo no meu espírito, um Concerto fabuloso a que assisti nos anos oitenta, em Reyquiavick, a capital do país da Bjork. Não sei se ela lá estava, mas as três mil pessoas que enchiam por completo o Auditorio, vibraram com a nossa Diva, oferendo-Lhe, no final, uma das maiores ovações, que algum dia, um artista poderá ter tido : Um aplauso interminável, que se repercutiu, na "obrigação" de cinco "encores", "exigidos" pelo entusiástico publico. Tudo no meu espírito é tão cheio de côr. A recordação é tão nítida...
Parece que foi ontem...
A Morte, é apenas uma ilusão de óptica...
Abro há dias, a minha caixa de comentários, e lá vejo uma participação, cujo nome me dizia algo, mas que no momento não conseguia descortinar. O seu autor, assinava TIAGO TORRES DA SILVA. Alguns segundos depois ,recordei-me logo, do conhecido autor e encenador do " music hall " da vedeta brasileira, Bibi Ferreira, sobre Amália Rodrigues, a que, eu havia assistido ,há já algum tempo, no Teatro da minha cidade, e autor de muitos poemas, interpretados por variadíssimos nomes da cena artística, como Maria João Quadros, Rita Ribeiro, Né Ladeiras, a brasileira Joanna, etc. Fiquei siderada. Uma pessoa como o Tiago Torres da Silva, dar-se ao trabalho de ler o meu pobre blog, e ainda por cima, comentá-lo ! Fiquei feliz. Não conhecia porém, o verdadeiro " arcaboiço " artístico do Tiago. Isto de viver, a uma hora e meia de avião da capital do meu país, tem que se lhe diga. Paga-se um pouco com o desconhecimento, a falta de "update" nas coisas da Cultura Nacional. E fiz uma " investigação " cibernética. E descobri tanta coisa, COMO ESTA MATÉRIA JORNALÍSTICA SOBRE UM DOS TRABALHOS DO TIAGO TORRES DA SILVA.
O seu blog, quanto a mim, extremamente interessante, dado que o seu autor, edita alguns poemas seus, juntamente com pequenas "estórias" deliciosas, referentes à sua produção cultural. Passei assim, a ter mais um blog obrigatório, na minha ronda de visitas virtuais : O blog " CANÇÕES DO TIAGO ".
Obrigada Tiago, pelas suas canções. Por existir.
1º LUGAR
Fernando, do blog CIDADÃO DO MUNDO
Amaliano
ESTE PAÍS JÁ FOI UMA CARAVELA
TRIPULADA POR SONHOS DE MENINO,
BOLINANDO À MERCÊ DO SEU DESTINO
CUMPRIDO EM VÃOS CAMINHOS DE CANELA.
JÁ TEVE ESTE PAÍS UMA CANCELA
ERGUIDA DO MAIS PURO DESATINO,
TORNANDO UM POVO - OUTRORA PEREGRINO -
REFÉM DA SUA PRÓPRIA CIDADELA.
MAS TU, DE LOUCAS ASAS DE GAIVOTA,
TRAÇASTE A VELHOS FADOS NOVA ROTA,
CONVERTENDO ESTA TERRA EM MAR FECUNDO
ESTRANHA , A FORMA DE VIDA EM QUE TE DESTE...
COM A VOZ QUE DEUS TE DEU TU DEVOLVESTE
UM NOVO PORTUGAL A UM VELHO MUNDO.
Fernando
Apreciação: "...traçaste a velhos fados nova rota...". Creio ser esta estrofe, a base de todo o soneto. Amália reinventou o Fado. Dignificou a Poesia. Provou ser possivel, a luz duma estrela, mesmo num Estado cinzento. Talvez por isso mesmo, alguma "intelligentsia" do Estado Novo, tenha tentado aproveitar-se dela. Natália Correia disse que "a poesia é para comer..." Amália fez sair os poetas das salazarentas bibliotecas,para deleite estéril da Sintaxe Universitária e elitista, e deu-lhes vida. Cantou também, dentro do Estado Totalitário, poemas de libertação. E para
"cheque-mate", o Fernando relembra que , ..."tu devolveste um novo Portugal a um velho mundo...". Amália fez surgir Portugal na rota da memória cultural e artística . Desde os Descobrimentos, que Portugal não trazia nada de novo ao Mundo. E não será por acaso que uniu a sua genialidade à genialidade de Luiz Vaz de Camões, e ao talento doutros grandes Poetas.
O P R É M I O : Receberá portanto ,o Amigo do blog "Cidadão do Mundo", o album "Semplicemente Il Meglio", que inclui uma recolha de textos da Literatura Dialectal Italiana : "Napoletano" (ex: Tarantella), "Siciliano" ( ex: Vitti' na crozza), "Dialetto Romagno"( ex: Sora Menica), assim como, algumas versões em Italiano, de êxitos seus, como "Barco Negro", e algumas canções italianas do seu reportório. O ultimo de três magnificos albuns em Italiano, da Diva Portuguesa, que grangearam os maiores prémios da Crítica, e atingiram a "Platina" nas suas vendas. Portugal nunca os editou. Agora, na compilação "Amália Universal", editada pelos Jornais Publico, DN e JN, foi incluida dois dos temas deste album : "La Casa in via del Campo", a versão italiana de "Vou dar de beber à dor", e "Tarantella", um texto napolitano de excepção, de Florimo e de Lauzieres, um poeta e compositor, da chamada "Cultura del Mezzogiorno Italiano", a cultura do Sul de Itália, o dialecto Napolitano. A "Canzone Per Te", é o unico tema conhecido dos Portugueses, incluído no album várias vezes "Platina", "Vou dar de beber à dor", de 1968.
................................CONSIDERAÇÕES FINAIS..........................................
OBRIGADA A TODOS, POR HAVEREM RECORDADO AMÁLIA. ACREDITEM QUE ELA MERECEU - NÃO SÓ A ARTISTA, MAS TAMBÉM A MULHER.
E APROVEITO PARA DENUNCIAR A TREMENDA CABALA QUE A GRANDE AMÁLIA ESTÁ SENDO VÍTIMA. A VONTADE DOS MORTOS DEVE SER RESPEITADA. O CONTÉUDO DO TESTAMENTO DE AMÁLIA RODRIGUES ,AINDA NÃO FOI RESPEITADO, COM EXCEPÇÃO DA ABERTURA AO PUBLICO DA SUA CASA, DA RUA DE SÃO BENTO.
ONDE ESTÁ A CONCRETIZAÇÃO DOS OUTROS DESEJOS DE AMÁLIA ? O CENTRO DE SAÚDE EM ANADIA, O CENTRO DE DIA, NA ZONA ONDE TINHA A SUA CASA DE CAMPO, NO BREJÃO ?
PORQUE ESTÁ A "QUINTA DE AMÁLIA" NO BREJÃO, ABANDONADA ? (`A ESPERA DO ESQUECIMENTO PUBLICO, PARA DEPOIS SER VENDIDA SUBREPTICIAMENTE ? )
AMÁLIA RODRIGUES DEIXOU UMA FORTUNA AVALIADA NA TOTALIDADE, EM TRÊS MILHÕES DE CONTOS.
OS "ROYALTIES" DOS SEUS DISCOS, FICARAM POR DESEJO SEU, PARA A POUCA FAMÍLIA QUE AINDA POSSUI.
TUDO O RESTO, FOI DESIGNADO POR AMÁLIA, PARA FINS DE SOLIDARIEDADE.
O UNICO DESEJO DE AMÁLIA CONCRETIZADO, FOI A " FUNDAÇÃO AMÁLIA - CASA MUSEU ".
CINCO ANOS PASSADOS, "CADÊ" O RESTO ?
QUEM TERÁ A CORAGEM DE VILIPENDIAR AMÁLIA, MESMO DEPOIS DE SEPULTADA EM PEDRA FRIA ?
O ESTADO PORTUGUÊS, DEVERIA VER-SE OBRIGADO, A DEFENDER A ULTIMA VONTADE, DAQUELA QUE MELHOR O REPRESENTOU NO SÉCULO XX.
QUEM ESTÁ A OFENDER A MEMÓRIA DE AMÁLIA ?
2º LUGAR - MENÇÃO ESPECIAL
Zeca Telhado, do blog TÁ DE CHUVA
CINCO ANOS DE SAUDADE
RECORDO A TUA PARTIDA
NÃO QUIZ CRER QUE ERA VERDADE
" QUE ESTRANHA FORMA DE VIDA ".
CANTASTE COMO NINGUÉM
TODOS TE RECORDARÃO,
SÓ O GRANDE AMOR DE MÃE
" TEM ESSE TEU CORAÇÃO ".
CHORAM OS QUE AMAM O FADO
JAMAIS SERÁ ESQUECIDA,
MAIS TEU CORAÇÃO AMADO
" VIVO DE VIDA PERDIDA ".
AMÁLIA, NOME SINGELO
ÉS, E SERÁS SEMPRE QUERIDA
OUÇO AQUELE FADO TÃO BELO
" ESTRANHA FORMA DE VIDA ".
Zeca Telhado
Apreciação: Uma forma original de construção poética, usando no final uma estrofe dum poema de Amália. Aqui, o seu uso não é gratuito, mas sim complementar às formas-pensamento que o Zeca utilizou. O "encaixe" é perfeito. " Não quiz crer que era verdade..." é uma afirmação "fadista", muito na linha dos poetas populares do Fado, como Linhares Barbosa e Jerónimo Bragança. Trata-se duma evocação, onde a simplicidade é directamente proporcional à emoção. Gostei muito.
... CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR É CONVOSCO, BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES, BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE, JESUS.
SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR NÓS PECADORES, AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE, AMÉN. ( A Oração Mariana, neste dia 13 de Outubro, para quem acreditar...)
No final dos anos quarenta, Gabriel de Oliveira, poeta popular lisboeta, autor do famoso clássico, "Há festa na Mouraria", escreveu para Amália, uma "Avé Maria Fadista", que a Diva cantou com musica de Francisco Viana. Ei-la:
AVÉ MARIA SAGRADA
CHEIA DE GRAÇA DIVINA,
ORAÇÃO TÃO PEQUENINA
DUMA BELEZA ELEVADA.
NOSSA SENHORA É CONVOSCO
BENDITA SOIS VÓS MARIA,
NASCEU VOSSO FILHO UM DIA,
NUM PALHEIRO HUMILDE E TOSCO.
ENTRE AS MULHERES BENDITA,
BENDITO É O FRUTO, A LUZ
DO VOSSO VENTRE, JESUS
AMOR E GRAÇA INFINITA.
SANTA MARIA DAS DORES
MÃE DE DEUS, SE FÔR PECADO
TOCAR, E CANTAR O FADO,
ROGAI POR NÓS PECADORES.
NENHUM FADISTA TEM SORTE,
ROGAI POR NÓS, VIRGEM MÃE.
AGORA, SEMPRE E TAMBÉM,
NA HORA DA NOSSA MORTE.
2º LUGAR, ex-aequo (Continuação)
Francisco Nunes, do blog PLANÍCIE HEROICA
TEM AINDA PORTUGAL NO CORAÇÃO
UMA IDA DIVA SEM PAR:
QUE DA SUA MEMÓRIA SINGULAR
NÃO PERCAMOS A RECORDAÇÃO.
OUTRA DIVA. NA BLOGOSFERA LUSA
A PARTIR DA MADEIRA PERSISTE:
QUER CANTAR ENQUANTO EXISTE
A MEMÓRIA DA LUSITANA MUSA.
MANTENHAMOS SEMPRE NO CORAÇÃO
DA AMALIA, A SUA MEMÓRIA
CONTINUE A NOSSA AMIGA VALERIA
COM FORÇA E MUITA CONVICÇÃO
NÃO É CONJURA, NÃO É POR CONVÉNIO
TEVE PORTUGAL MUITA SORTE
POR TER VISTO NASCER
QUEM AO TEMPO NEGOU A MORTE:
POR VER AQUI CRESCER
UMA MULHER DE GÉNIO
ESTAS RIMAS NÃO ESTÃO BRILHANTES
NÃO HONRAM A QUALIDADE DE AMALIA
PRETENDEM, MUITO MODESTAMENTE
DAR UMAS CONCHAS, A QUEM NOS DEU DIAMANTES.
Francisco Nunes
Apreciação: À parte os meus agradecimentos pela desmerecida alusão ao meu nome, a sua estrofe: "...não percamos a recordação..." afigura-se-me importante, pela genialidade duma artista unica, que terá de ser mantida viva, no conhecimento das novas gerações. .... ....................................................................................................
Antonino Botelho, do blog HAMMER
Amália e o Pranto
AGORA, ELA JÁ NÃO CANTA
SE OUVISSE,DAVA UM RECADO
PEDIA-LHE, VÁ LÁ, ENCANTA
COM ESSA TUA VOZ DE FADO !
TUDO É TÃO PASSAGEIRO
TAL COMO UM BEIJO DADO
A QUEM CANTASTE PRIMEIRO,
QUAL FOI TEU PRIMEIRO FADO ?
NASCESTE COMO UMA AVE
QUE CANTA UMA MELODIA
E ESPALHA CANTO SUAVE
QUENTE, AO SOL DO MEIO-DIA
E A AVE QUE CANTAVA BEM
QUE FAZIA DO CANTAR, ESPANTO
PERDEU O SEU MAIOR BEM
FOI-SE A VIDA,NASCEU O PRANTO !
Antonino Botelho
Apreciação:"...Quente ao sol do meio-dia.." Amália era efectivamente uma voz/alma de extremos. Ora o pico do meio-dia, ora a negritude da lucidez da meia-noite. Ainda a lucidez da diva, retratada pelo seu verso " ..tudo é tão passageiro", "como um beijo dado". Gostei.
.................................................................................................................... Gin, do blog O GIN TÓNICO
NO FRÁGIL BARCO VELEIRO
ONDE EU UM DIA
DEIXEI PRESA A MINHA ALMA,
A MINHA VOZ PROCURA
O SEU PROPRIO LAMENTO.
NÃO VI COLCHAS COM BARRAS
NEM VIOLAS NEM GUITARRAS.
APENAS O AMOR SEM ROSTO
PÁSSARO PEQUENO, HORA
DE CHEGAR A LUGAR NENHUM.
UM ESPAÇO ROUBADO À MÁGOA
ENQUANTO AO DIZER ADEUS À VIDA
TE PROCURO, NAS PONTES DA TRISTEZA.
EU NÃO TE ACOMPANHO MAIS
PORQUE HABITO O SOL, DENTRO DE MIM,
DESCUBRO A TERRA, APRENDO O MAR,
E DEIXO BOIAR LEVES,DESATENTOS
OS MEUS PENSAMENTOS DE MÁGOA
DO QUE FOSTE TENHO SEDE.
SEDE DA TUA SOMBRA TRISTE,
ENCOSTADA A UMA PAREDE,
ENCOSTADO AO MEU SILÊNCIO.
MAS NUNCA SE DÓI SÓ.
DÓI-ME O POVO ESQUECIDO
E MORRO DE TERNURA POR ESTAS COISAS
VESTINDO PEQUENOS NADAS
POR ESTA MÁGOA, BREVE TÉDIO.
O TEU NOME PRÓPRIO: AMÁLIA
QUE CHEIRA A SAUDADE, A POVO,
QUE CHEIRA A SOLIDÃO
A SILÊNCIO MAGOADO
DISSE-TE ADEUS E MORRI,
E O CAIS VAZIO DE TI...
Gin
Apreciação: Poder-se-ia à primeira vista classificar de "plágio" estes "seus" versos. Mas, poderá também ser considerado um estudo poético sobre o reportório de Amália, os seus proprios versos, e os versos dos grandes Poetas. O autor deste trabalho, prova antes de tudo, conhecer o reportorio de quem homenageia. Pela conjugação das "figuras poéticas", considero pois este texto, de original, e sentido.
....................................................................................................................
Aluena, dos blogs SENDA DOCE, e BICA
SENDO ROSA, SENDO DOR E PENSAMENTO.
NA TERNURA, NA MAGIA DO MOMENTO,
A SAUDADE É MAIS ALMA, E ESTÁ DOENDO,
ÉS AMÁLIA, A RAINHA DO FADO,
ENCANTAMENTO.
Aluena
Apreciação:A simplicidade pode ser o maior Tributo. "Encantamento"-confissão de sentimento. Bonito!
.................................................................................................................
Carlos Farinha (não possui site)
" ADEUS, VIDA QUE TANTO DURAS...VEM MORTE QUE TANTO TARDAS".
E NESSE DIA ,A MORTE VEIO, E LEVOU CONSIGO AMÁLIA RODRIGUES. PORÉM AMÁLIA PERMANECE PARA SEMPRE NO MEU, E NO CORAÇÃO DE MUITOS QUE FORAM TOCADOS PELA SUA ARTE.
PARA ALÉM DUMA ARTISTA EXCEPCIONAL, AMÁLIA CARREGAVA EM SI O SENTIDO DO FADO. UM FATAL DESTINO DE AMARGURA E SOLIDÃO.
"FOI POR VONTADE DE DEUS", QUE AMÁLIA DESDE CEDO EMOCIONOU MULTIDÕES : DESDE AS VIELAS DE ALFAMA. AOS PALCOS DE PARIS. MAIS QUE TUDO, AMÁLIA VIVE EM CADA CORAÇÃO DE PORTUGAL. É PARTE DA NOSSA HISTÓRIA. É PARTE DE NÓS.
AMÁLIA, "SE EU SOUBESSE QUE MORRENDO, TU ME HAVIAS DE CHORAR... POR UMA LÁGRIMA TUA, QUE ALEGRIA, ME DEIXARIA MATAR ". "POVO, POVO...EU TE PERTENÇO".
AMÁLIA É DE TODOS NÓS. ENTREGOU-SE A PORTUGAL E AO MUNDO, E DEDICOU-NOS TODA UMA VIDA DE MAL-FADADA. A ANGUSTIA DE QUEM TEM POR CASTIGO O FADO, E DELE FAZ UMA ARTE QUE NOS ENCANTA.
CINCO ANOS PASSADOS SOBRE A SUA MORTE, E UMA CERTEZA ABSOLUTA DE QUE, NÃO SÓ MARCOU A NOSSA HISTÓRIA, COMO A VIDA DE MUITOS.
OBRIGADO, AMÁLIA.
OBRIGADO A QUEM AINDA FAZ POR TE MANTER VIVA.
POR MUITOS ANOS SENTIREI A TUA FALTA, MAS AINDA ASSIM... " EU SEI, MEU AMOR, QUE NEM CHEGASTE A PARTIR, POIS TUDO AO MEU REDOR, ME DIZ QUE ESTÁS SEMPRE...COMIGO!"
Carlos Farinha
Apreciação:Um texto em prosa, saído do cristal da emoçâo. Só um Amaliano o poderia ter escrito.
...................................................................................................................... ( CONTINUA...)
Antes de tudo, queria agradecer, a todos os intervenientes nesta singela homenagem a Amália. Depois, gostaria de sublinhar que não sou alguém com formação adequada, para "classificar" qualquer tipo de produção literária. A minha formação académica em Portugal, terminou no 11º ano. Segui depois o ensino superior, bem longe das terras lusas, o que acentua ainda mais, a minha pouca capacidade de "lidar" com a Lingua Portuguesa. Portanto, os resultados que apresentarei, serão o fruto do impeto de coração, e não ajuizam, de todo, da qualidade literária dos trabalhos apresentados.
3º LUGAR: Não existem terceiros lugares. A sinceridade, a profundidade, e a verdade das palavras de todos os concorrentes, não o justifica. Viva AMÁLIA ! Sempre !
2º LUGAR, ex-aequo:
Débora Santos ( não possui site )
AQUI TÃO LONGE EU VIVO
COM A SAUDADE DOS MEUS
O TEU FADO ESTÁ COMIGO
FOI POR VONTADE DE DEUS
AO OUVIR A TUA VOZ
AMÁLIA, FAZES-ME UM BEM
E SÓZINHA CANTO UM FADO
TEU, E LOGO A SAUDADE VEM
Débora Santos, de Londres.
Apreciação: "Amália, fazes-me um bem"... A Saudade só pode ser inteiramente compreendida, por pessoas como você, Débora, que cumprem Portugal no Mundo.
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Orca, do blog SETE MARES
AMÁLIA NÃO É ADEUS
AMÁLIA NÃO FOI PERDIDA
A AMÁLIA QUE VIVE EM NÓS
DEU-NOS A VOZ DE UMA VIDA
E VIVE EM NÓS, NA MEMÓRIA
QUE NESTA VIDA LEVAMOS
A VIDA E A VOZ DEU AMÁLIA
SOMOS NÓS QUE A CANTAMOS
SOMOS POVO DE POETAS
A QUEM FALTA AQUELE ENLACE
DE HAVER TÃO BOAS LETRAS
SEM HAVER QUEM AS ABRACE
E DAR AO POVO UMA VOZ
UM SENTIR, UM CORAÇÃO
NÃO NOS DEIXA SENTIR SÓS
FAZ-NOS VER O NOSSO IRMÃO
TERÁ SIDO ESSA TALVEZ
DELA EM NÓS A MAIOR GLÓRIA
É POR ISSO QUE NOS FEZ
VIVE EM NÓS A VOZ DE AMÁLIA
Orca
Apreciação: "Sem haver quem as abrace..." Não há duvida que o Orca usou este tributo, para fazer uma crítica que a propria Amália fazia. Não faz sentido, num país de Poetas, haver tanta má qualidade, em muitos textos que se cantam, na musica portuguesa. A Amália, ao tornar-se mito, tornou-se efectivamente numa espécie de "Vestal" dum povo. Por isso, é bonito o seu ultimo verso:"vive em nós, a voz de Amália".
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Morfeu, do blog ANOMALIAS
FOI UM DEUS MAGOADO
EM DOR, SOFRIMENTO E PRANTO
QUE ESTRANHA VIDA E VOZ ME DEU
DEU TAMBÉM AOS OLHOS A LUZ
E ÀS ROSAS PERFUME
AO SOL A LUA
AO OIRO A PRATA
UM ROSÁRIO DE ESTRELAS
QUE NO CÉU O DESFIAM
AO PEITO O NEGRO E AS ASAS
DA ANDORINHA
VENTURA, TERNURA E CANTO
AINDA O AMOR QUE PELO DESGOSTO CONHEÇO
E O LAMENTO QUE SE TRANSFORMA EM PRANTO
DEUS, O VENTO E O FIRMAMENTO
COM AS ONDAS, O AZUL DO MAR
DAS PENAS CHORANDO O AMOR
COM A VOZ DE ROUXINOL.
Morfeu
Apreciação:Versos inspirados no fado "Foi Deus", cujo sentimento é vivido pelo autor. "O lamento que se transforma em pranto"-Só quem é lucido, é que transforma o lamento em pranto. A alusão às' penas ', "cantadas" por Guerra Junqueiro , o primeiro Poeta a sério que Amália cantou, incluindo-o no seu primeiro disco, gravado no Brasil, aos 24 anos de idade.
.................................................................................................................
(CONTINUA...)
No palco, quatro musicos.
Uma mulher de negro e vermelho, qual stendhaliana aparição, faz esvoaçar o seu xaile, a " Lágrima " verte dor e pranto. Provoca-nos espanto. Dir-se-ia, estarmos presentes a uma Vestal. Deusa de Portugal, Sacerdotiza do Mundo, " por vontade de Deus ", cantando ao "Povo que lava(s) no rio ", ansiando "...ir a Viana ", num canto simples de Afife.
A Mulher, ora triste ora alegre, num 'nonsense' genial, confessa-nos, que foi " ao mar buscar sardinhas ", para dar ao seu amor, e jocosamente pergunta: "É ou não é ? ". Saindo deste encarnado alegrete, recorda-se dos infindáveis mistérios da Morte, pede-nos " Silencio. Do Silencio faz-se um grito...deixai-me chorar um pouco. " Do Grito ao espanto, a Vestal avança. Agora é Mãe, daqui a pouco menina, cantando uma cantiga de roda, saltitando pelos prados verdes. Pureza. E logo transfigura-se. Surge-nos uma velhinha, com 'estórias' mil para contar, como aquela " Carmencita, a cigana mais bonita, do que um sonho, uma visão ". Depois, a velhinha desfia-nos a sua vetusta sabedoria, lembrando-nos carinhosamente que " breve desfaz-se uma vida honrada e boa, ninguém sabe quando nasce, pr' ó que nasce uma pessoa." E aconselha, qual doce avózinha que, "o preciso é ser-se forte, ser-se forte e não ter medo, porque na verdade a Sorte, como a Morte, chega sempre tarde ou cedo ". E de novo, a alquimia da Deusa faz a Magia, e num ápice, revela-se Mulher no Verão da vida, sensual, voluptuosa, apaixonada e voluntariosa, uma varina, com " movimentos de gato ", trazendo " na canastra, a caravela, no coração a fragata ". E já no fim da linha, a voluptuosidade, dá lugar à lucidez. Pergunta subitamente " ao vento que passa, notícias " do seu País. "O vento, cala a desgraça, o vento nada " lhe diz. E, como a desventura não pode, nem deve ser alimento, regressa a rapariga gaiata,de pés descalços, bailando o Malhão, convidando as gentes, a " comer e beber, ó trintintim passear na rua ".
O Povo, acabada a Aula de Vida, perspassadas as alegrias, as desventuras, a negritude da Lucidez, insiste em não querer apartar-se da Sua presença . No intimo de cada um, uma pergunta assome ao espírito. O que fará correr aquela Mulher sem idade, o que fará cantar aquela Voz, de Todos Nós ?
Sem que ninguém lhe houvera perguntado, a Vestal responde-nos : " Foi Deus. "
vALÉRIA mENDEZ " Impressões de uma Noite com AMÁLIA, no COLISEU DOS RECREIOS, LISBOA "
(ESTE SERIA O TEXTO QUE EU APRESENTARIA AO PEQUENO CONCURSO, NÃO FORA EU A AUTORA DA IDEIA.)
PRAZO DE RECEPÇÃO DAS PARTICIPAÇÕES: DIA 10 DE OUTUBRO(Inclusivé)
(AGRADEÇO A TODOS A SUA DIVULGAÇÃO.)
NO PRÓXIMO DIA 6 DE OUTUBRO, COMEMORA-SE A PASSAGEM DE AMÁLIA RODRIGUES, PARA O PLANO ESPIRITUAL.
DESAFIO ASSIM, TODOS AQUELES QUE QUEIRAM, NA CAIXA DE COMENTÁRIOS, DEIXAR UM PEQUENO TEXTO, EM PROSA OU POESIA, SOBRE A GRANDE AMÁLIA.
NO FINAL, HAVERÁ UM PRÉMIO. UM DISCO DE AMÁLIA RODRIGUES, NUNCA EDITADO EM PORTUGAL ( Quando viajo, um dos meus prazeres é procurar discos raros de Amália. E quase sempre encontro. Trata-se pois, do album " Semplicemente il meglio ", um dos albuns em Italiano , da Nossa Diva. O prémio, será assim, para aqueles que gostam de Amália, mais apetecido, dado tratar-se duma obra, que foi premiada em Itália, mas que Portugal desconhece. Daí o seu interesse, creio eu.)
É EVIDENTE QUE NÃO HAVERÁ UM JURI. SEREI EU, A ANALISAR OS VOSSOS TEXTOS, E SEREI EU, A DECIDIR QUAL O PREMIADO. ( Afinal, fui eu que comprei o disco. Por isso, atrevo-me a esta pequena prepotência... eh eh eh !!!)
DEPOIS DE ANUNCIADO O NOME DO VENCEDOR, ESTE, POR 'EMAIL', ENVIAR-ME-Á O ENDEREÇO, PARA O QUAL DEVEREI EXPEDIR O DISCO.
TUDO ISTO AFINAL, NÃO PASSA DUMA MANEIRA SINGELA, PORÉM SENTIDA, QUE ENCONTREI, DE HOMENAGEAR A MULHER PORTUGUESA MAIS CÉLEBRE DO SÉCULO XX.
Obrigada pela colaboração
Valéria Mendez
Há momentos na vida de qualquer artista, que por distracção ou alheamento, se tornam momentos hilariantes. Ridiculos. Cómicos. Ainda hoje, choro a rir de alguns que "passaram por mim". Este é um deles:
Encontrava-me no palco do Centro Português de Caracas. Duas mil pessoas, ouviam em silêncio o trinar das guitarras, e as palavras por mim cantadas, dum grande Poeta Português : Alexandre O'Neil.
Era um Fado do reportório de Amália, denso, profundo, rico em imagens poéticas, e por vezes, o meu braço esquerdo entrava numa coreografia sem plano, à deriva. Ora a mão se abria e apontava para o céu, ora estava quieta, como que à espera do tal grito, da tal nota, que a faria de novo bailar.
Eu cantava:
" Que perfeito coração,
no meu peito bateria..."
E foi então que o caldo se entornou. Precisamente, na melismática da palavra "...bateria", tive aquele impulso breve, porém firme, de levantar o braço, mão aberta, frente para o publico, de costas para a cara do... guitarrista. Que acabava de levar, perante duas mil pessoas, uma valente e ruidosa bofetada, fazendo-o quase tombar para trás, tudo isto, claro está, amplificado pelo microfone, que "servia" a guitarra do "pobre" musico. Os outros musicos continuavam a tocar, e eu, perante uma assistência em delírio, rindo-se desalmadamente, tive de encontrar uma saída para aquela desgraça. Disparei :"Olhem, foi uma cena fadista, resolvida à bofetada". Vejam como é verdade. Depois na segunda parte eu canto a "Gaivota" do O'Neil outra vez..."
E lá continuei com o fado tradicional, que rezava assim:
" Amo o homem a meu jeito
Valente, como os que são
Tem tatuagem no peito,
e lá dentro um coração...
...Dizem porque me bateu
o seu amor é postiço,
Bate naquilo que é seu
Ninguém tem nada com isso !"
Normalmente, não canto este fado. A letra é horrível. Mas há gente que gosta. E foi assim, que acabei por "remediar" a cena hilariante que provoquei. Diz o musico, que ainda hoje, sente o "encaixe" daquela bofetada...
Percalços do palco...