setembro 28, 2004

"FADISTA"

ABSINTHE SLEW MY ABSTINENCE,
AND MY APPETITES THEY FOLLOWED,

ONCE YOU'VE USED YOUR FORBIDDEN TEETH
ALL BITTERNESS SEEMS HOLLOW.

CHEW IT UP, TO SPIT IT OUT
JUST LIKE THERE'S NO TOMORROW,
BEAUTY'S TAKEN A BEATING ROUND HERE
EVER SINCE, THE DEATH OF " FADO "

FROM THIS SHORE, I SEEK GOOD TIDES
I CAN SEE ALL THE WAY TO JERSEY

I'M AT THE EDGE, OF THE THINGS I FIND
BUT MY SOLITUDE IS NOT WORRIED.

YOU COULD BE MY INVISIBLE STAR
OUR MYSTERIOUS LADY OF ALL SORROWS,
BUT I WILL NOT BUILD A SHRINE TO YOU,
OF ALL THE DUST I'VE SWALLOWED.

THE SILVER'S ALL BEEN EMPTIED OUT
FROM THE VAULTS OF OLD " CHIADO "
BEAUTY'S TAKEN A BEATING ROUND HERE
SINCE THE LONG, SLOW DEATH OF " FADO ".

ON THE STREET, THAT NIGHT I HEARD HER SING,
HER ARMS WRAPPED ROUND HER BOOMBOX.

STOOD WITH SUNGLASSES AND BLACK HAIR
TWO MEN, HER SENTRIES SILENT.

THE SONG WAS OF A RIVER TOWN
AND THE BLIND " FADISTA" 'S HONOUR
BEAUTY'S TAKEN A BACKSEAT TO PAIN
EVER SINCE THE DEATH OF " FADO ".

BUT I TRUST, YOU WILL CHOOSE BEAUTY AGAIN,
JUST LIKE THERE'S NO TOMORROW.

SHERYL CROW

Uma belíssima homenagem aos Fadistas. Pela parte que me toca, obrigada, Sheryl !

Publicado por Valéria Mendez em 07:20 PM | Comentários (6)

setembro 25, 2004

AU REVOIR, FRANÇOISE...

Morreu FRANÇOISE SAGAN, um dos nomes sonantes da Literatura Francesa Contemporânea.

Vi-a pessoalmente uma vez, a entrar no camarim de AMALIA RODRIGUES, no OLYMPIA de Paris. Alguém se apressou logo a dizer-me, que se tratava da célebre escritora, que no final de mais um concerto da Diva portuguesa, fazia questão em cumprimentá-la.
Ainda hoje, retenho a sua figura, num tailleur elegantíssimo, em tons de cinzento, tendo ao pescoço , uma unica nota de côr - violeta - no lenço que trazia.

Ficará para sempre na minha mente, o seu "BONJOUR TRISTESSE", o "LE LIT DÉFAIT", ou ainda o seu mais recente livro, "LE MIROIR ÉGARÉ".
AU REVOIR, FRANÇOISE...
et MERCI !

Publicado por Valéria Mendez em 02:52 AM | Comentários (15)

setembro 22, 2004

E se a Presidência dos USA se preocupasse com as aberrações internas ?

Pois é. Li, estupefacta, num site oficial duma organização americana, esta advertência:

DISCLAIMER: "...Se nâo é de raça branca, este site não é para si!...O IKA odeia panascas, hispânicos,judeus e negros. Este é um direito que nos foi dado por Deus..."

E verifico, que estou perante uma organizaçâo oficial, livre para angariar jovens nas escolas, com rádios e jornais patenteados. E ainda por cima, afirma-se CRISTÃ.
Estou perante uma das muitas defecações, da grande nação que é a América, estou perante o site oficial do KU KLUX KLAN.
.................................................................................................................... Depois, acedo a uma página que me é mais familiar, igualmente bastante contestada, "condenada" pela "intelligentsia" americana, de terrorista. Entre estas duas páginas, há uma só coisa em comum: O ódio declarado aos Judeus. Contudo aqui explica-se a razâo do ódio, que nada tem a ver com etnicidades.
Há uma ocupação ilegal perpetrada por Israel. Condenada pela ONU. O ódio não é racial. O ódio existe, porque há uma história de morte, de humilhação, de bárbara ocupação. E no entanto, esta organização é constantemente visada pelos israelitas e americanos - Matam-lhes os filhos, os líderes religiosos, matam-lhes a esperança. Que mãe não seria capaz de apertar o gatilho, perante o assassino do seu filho-criança ? Não será humano, querer causar sofrimento, aos que nos matam e oprimem ? Será moralmente errado, mas humanamente compreensível. Foi tudo isso, que constatei pessoalmente, nas minhas incursões em organizações como o HAMAS, um dos alvos a abater pela "intelligentsia" americana.
....................................................................................................................
E PORQUE RAIO OS "ILUMINADOS" AMERICANOS, NÃO SE PREOCUPAM COM O TERRORISMO QUE POR LÁ GRASSA ?
É que, segundo um recente programa da CBS, na maioria das escolas de vários estados americanos, há um crescente aumento de células do ku Klux Klan, que neste momento, está a criar mais e mais ódio racial. Sem motivações políticas. Sem justificações históricas. Unicamente, pela supremacia do WHITE POWER.

E, dadas todas estas premissas, termino com esta frase, porventura mais universal: LONG LIVE THE HAMAS !!!
( Lá vou eu agora, ser acusada de terrorista. Mas, como já afirmei numa crónica passada, se me entrassem casa dentro, herdada de meus avós, e de lá me expulsassem, e ainda no decorrer do processo, me matassem um filho, eu, Valeria Mendez, pobre cantadora de Fados e Canções, não hesitaria, nem por um segundo, em premir o gatilho , junto à cabeça dos meus opressores. É assim que eu vejo o HAMAS, O HEZBOLLAH, e os seus Mártires Suicidas. É assim que eu os vejo. E ninguém me poderá convencer do contrário...)

Publicado por Valéria Mendez em 04:10 AM | Comentários (17)

setembro 15, 2004

Retalhos do País dos Cedros

Libano. Quase 11.000 Km2 de superfície, alguns roubados por Israel na parte sul do país. Quatro milhões de habitantes. Um autentico cadinho multi-racial e multi-religioso. Lado a lado, mesquitas e igrejas católicas, mulheres cobertas da cabeça aos pés, e meninas de mini saia, óculos escuros, sapatos de salto alto. Não as diferenciamos daquelas que vemos em pleno Champs Elysées de Paris. Apesar do anti americanismo vigente, podemos ver, atónitos, em plena capital, a grande Universidade Americana. Com professores americanos. Alunos libaneses. Há contudo um discernimento. "Da América, chega-nos muita coisa boa. A sua Politica é que é vergonhosa" - afirma qualquer libanês, ocidentalizado ou não. Islamico ou não.
BEIRUTE, oscila entre a MODERNIDADE, e uma ARQUITECTURA CLÁSSICA, bem conservada. Antes da Guerra com Israel, Beirute era considerada a "Paris" do Médio Oriente, conforme ainda se pode observar em pormenores, como as pequenas ESPLANADAS DE RUA, de inspiração parisiense, recuperadas duma guerra insana e desigual.
Contudo, o Libano não é só Beirute. Existem cidades mágicas, como SAIDA ( Sidon) e BALLBECK , porventura a cidade mais emblemática do País, devido às majestosas edificações romanas como, o fabuloso TEMPLO DE JUPITER , ou o magnífico TEMPLO DE BACO , erigidos pelo Império Romano. Aliás, Baalbeck possui vestígios de ocupação humana, desde o Terceiro Milénio Antes de Cristo. Origináriamente foi chamada de Héliopolis, em homenagem ao Deus Sol. Curiosamente, para além do turismo Histórico, e do turismo de Verão, promovido pelo já célebre Festival de Musica de Baalbeck, que atrai milhares de viajantes ocidentais, pela multiplicidade cultural que apresenta, existem ainda os turistas esotéricos, seguidores do Paganismo, que efectuam estranhos rituais, junto das vetustas colunas do Templo de Jupiter, sob o olhar atento dos vigilantes contractados pelo Estado Libanês. Tudo no máximo respeito pela liberdade de crença. Estamos num país muçulmano. E misterioso. Entre os muitos Museus, existe um, muito especial, aonde fui, acompanhada por um enorme grupo de pessoas, também elas, um pouco especiais. Não me sinto com direito à Crítica. Só posso descrevê-lo, como Surreal - Estranho lugar aquele. Um sítio, onde se podem ver fotografias de mortos, mochilas cravadas de balas, ainda sujas de sangue, pinturas d' Arte, representando a dor, o grito de revolta, o semblante de crianças mutiladas. Um local de glória, para os Comandos Suicidas. A glorificação dos Mártires de Allah, a evocação da Intifada: O MUSEU DO HEZBOLLAH - local muito visitado, onde se organizam diversas actividades, que não me cabe, neste contexto, apontar. O Mundo Arabe, não tem as mesmas premissas da Lógica Ocidental. Há que primeiro compreendê-lo. Uma coisa é certa. Nunca foram eles os primeiros, a usar a violencia. Sempre houve alguém disposto, cá no Ocidente, a exercer a provocação. Afinal, foram os Católicos, na era D.C. , a darem o pontapé de saida, no conceito de fundamentalismo. Quem não se lembra, da História de Portugal e das Conquistas aos Mouros, e das Cruzadas contra os Infieis. Poderá o Ocidente queixar-se do Mundo Islamico ? Uma boa questão, mas não para agora. Neste momento, deixo-vos com uma cena banal, de rua, na cidade de Baalbeck. Eu andei por entre esta gente. Vi muitos franceses, muitos italianos, alemães, gregos, turcos, japoneses... Comemos, bebemos, cantámos, falámos com essa gente. Misturámo-nos com declarados militantes do Hamas, do Hezbollah. Ninguém levou um tiro.
Deram-me um galho de Cedro.
Eu aceitei, E cantei uma Canção, empunhando-o, como se empunhasse uma bandeira.
Afinal, o Líbano é o País dos Cedros. A Condecoração máxima do Estado, é a "Ordem dos Cedros". Já a concederam a uma Portuguesa. Que por sinal, foi ( é ) , uma minha Grande Amiga. ( Dou um doce a quem souber...)
.

Publicado por Valéria Mendez em 05:10 AM | Comentários (22)

setembro 08, 2004

PEDRO HOMEM DE MELLO

COMEMOROU-SE, A 6 DE SETEMBRO, O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE PEDRO HOMEM DE MELLO. UM NOME INCONTORNÁVEL NA POESIA PORTUGUESA DO SECULO XX. UM DOS POETAS DE AMÁLIA.

Não pretendendo arvorar-me em "ensaísta", terei no entanto, de apontar algumas das palavras do Poeta, e de analisá-las a meu modo, tal qual, eu o vejo, e sinto.

Portugal, durante a maior parte da vida do Poeta, apresentava-se com laivos de negro. O cinzento da saudade dos emigrantes que partiam, a negritude das vidas povoadas de mágoas, pela morte, ou pela ausência dum filho, partido para uma guerra sem sentido, em terras da Mãe África. Pelo exílio de outros, que eram castigados pelo seu livre pensamento. No poema "Gondarém", Pedro Homem de Mello, cantava assim:

"...NUMA BANDA A ESPANHA MORTA,
NOUTRA PORTUGAL SOMBRIO
ENTR' AMBOS GALOPA UM RIO
QUE NÃO PÁRA À MINHA PORTA.
E GRITO, GRITO:ACUDI-ME,
GANHEI DOR. BUSQUEI PRAZER
E SINTO QUE VOU MORRER
NA PRÓPRIA PÁTRIA DO CRIME..."
(musicado por Alain Oulman, Album: "Cantigas Numa Língua Antiga", Amália Rodrigues)


O amor profundo à terra, às tradições populares, o Poeta cantou com enlevo. Um amor puro aos rios, aos prados, às gentes. Vemo-lo, em "Havemos de ir a Viana":

"...SE O MEU SANGUE NÃO ME ENGANA,
COMO ENGANA A FANTASIA,
HAVEMOS DE IR A VIANA,
OH MEU AMOR DE ALGUM DIA...
PARTAMOS DE FLOR AO PEITO,
QUE O AMOR É COMO O VENTO
QUEM PÁRA, PERDE-LHE O JEITO,
E MORRE A TODO O MOMENTO...
CIGANOS VERDES CIGANOS,
DEIXAI-ME COM ESTA CRENÇA:
OS PECADOS TÊM VINTE ANOS,
E O REMORSO TEM OITENTA..."
(musicado por Alain Oulman, Album "Com que voz", Amália Rodrigues)

E ainda, fazendo uma ode, à cultura popular, transbordante de amor à Terra e às Gentes, em "Canção de Viana":

"...VIREI COSTAS À GALIZA,
VOLTEI-ME ANTES PARA O MAR
SANTA MARTA,SAIAS NEGRAS,
TEM VIDRILHOS DE LUAR.
DANCEI A GOTA EM CARREÇO,
O VERDE GAIO, EM AFIFE,
DANCEI-O, DEVAGARINHO,
COMO A LEI MANDA BAILAR,
COMO A LEI MANDA BAILAR,
DANCEI EM VILA, A TIRANA,
E DANCEI EM TODO O MINHO,
E QUEM DIZ MINHO,DIZ VIANA..."
(musicado por Alain Oulman, Album "Cantigas Numa Lingua Antiga", Amália Rodrigues)

O Povo, essa entidade tão amada pelo Poeta. A lucidez porém, da rigidez, da austeridade, um amor para além da razão. Um sentimento de pertença.

"POVO QUE LAVAS NO RIO,
QUE TALHAS COM O TEU MACHADO,
AS TÁBUAS DO MEU CAIXÃO...
AROMAS, DE URZE E DE LAMA
DORMI COM ELES NA CAMA,
TIVE A MESMA CONDIÇÃO...
POVO, POVO, EU TE PERTENÇO
DESTE-ME ALTURAS DE INCENSO
MAS A TUA VIDA, NÃO!..."
(adaptado por Amália, à musica do Fado Tradicional, conhecido por " Fado Vitória ", composto pelo antigo fadista, Joaquim Campos, Albuns: "Abandono" / "Encontro-Amália e Don Byas", Amália Rodrigues)

A Solidão do Poeta. O retrato de alguém que, apesar da sua altíssima formação académica, dos seus convívios cosmopolitas, com gente das Artes e das Letras, mantém uma certa " ruralidade " e " isolacionismo ", perante a urbe, que amedronta e atrai. A Pureza dos versos de " Fria Claridade ", retrata-nos esse homem, só, no meio de tanta gente.

"...NO MEIO DA CLARIDADE,
DAQUELE TÃO TRISTE DIA,
GRANDE,GRANDE, ERA A CIDADE
E NINGUÉM ME CONHECIA..."

(Adaptado por Amália, a uma musica do Fado Tradicional, composto por José Marques do Amaral, Album " Maldição ", Amália Rodrigues)

O Medo do desterro. O Pavor de perder o Amor das Gentes. O Poeta faz uma "Prece":

"...TALVEZ QUE EU MORRA NA RUA
INVIA POR MIM, DE REPENTE
EM NOITE FRIA E SEM LUA
IRMÃ DAS PEDRAS DA RUA,
PISADAS, POR TODA A GENTE.
TALVEZ QUE EU MORRA ENTRE GRADES,
NO MEIO DUMA PRISÃO,
E QUE O MUNDO, ALÉM DAS GRADES
VENHA ESQUECER AS SAUDADES
QUE ROEM, MEU CORAÇÃO..."

Contudo, e apesar dos pesares, a Magnânimidade do Poeta, perante a sociedade que o envolve. O amor do Poeta, sem condição, rendido, prostrado aos pés do seu país. O seu ultimo desejo. Mesmo que essa Pátria lhe tenha sido adversa. Sombria. Inferimo-lo, no mesmo poema.

"...TALVEZ QUE EU MORRA NO LEITO,
ONDE A MORTE É NATURAL
AS MÃOS EM CRUZ, SOBRE O PEITO.
DAS MÃOS DE DEUS, TUDO ACEITO,
MAS QUE EU MORRA, EM PORTUGAL !"
(musicado por Alain Oulman, ultimo Poema de Pedro Homem de Mello, gravado por Amália, em 1991, no seu derradeiro album de originais: "Obsessão")

Pedro Homem de Mello foi isto. É isto.
Resta-me apenas recordar que, o Poeta, ao ouvir alguém na sua terra natal, cantar o "Fria Claridade", acompanhando Amália pela rádio, declarou publicamente, sentir-se feliz e honrado por, a sua poesia, " ter finalmente, subido ao Povo. "
Por vezes, quando cometo a insanidade do atrevimento que me acolhe, de cantar os versos deste sublime Poeta, uma lágrima teimosa, persiste em sair das algemas do meu olhar. Obrigada, Pedro Homem de Mello. E Obrigada, Amália, que contribuiste para a sua maior visibilidade.
Os dois estarão, neste momento, em tertulias mil, por entre uma "Canção de Viana" ou um "Cuidei que tinha morrido", cantado por Amália ao rigoroso, quiçá acompanhada pela guitarra do Armandinho, que tal como quando ouviu a Diva, pela primeira vez no Retiro da Severa, exclamará atónito: "Mas que linda voz!"

A Morte, essa terrível e inefável fronteira, não me parece assim tão tenebrosa, quando penso na possibilidade de juntar-me a essas tertulias mil, na Eternidade da Alma...
Apetece-me cantar:
"... Ciganos verdes, ciganos
Deixai-me com esta crença
Os pecados têm vinte anos,
e o remorso tem oitenta."
Proféticamente ou não, Amália morreria aos 79 anos. Sem chegar aos oitenta. Sem " Remorso". Creio mesmo firmemente, sem quaisquer razões para o sentir.

Publicado por Valéria Mendez em 03:18 AM | Comentários (27) | TrackBack

setembro 01, 2004

"Antes que o Sol se vá..."

De regresso à Ilha onde nasci e resido, castrante e apaixonante, viciante e desconcertante, já sinto saudades de certos momentos vividos com alma. Ineperadamente, essas saudades surgiam também, lá longe, mesmo enlevada com a transcendência dum "Duomo", da cidade de Florença, ou da beleza duma tarde de "chiacchiere" ( "bilhardice") numa esplanada do "Corso Vannucci", com alguns ex-colegas da minha longinqua juventude, passada na Universidade de Perugia, a bela cidade etrusca. Saudades dos pinheiros da minha Ilha, saudades dos meus solitários passeios pelas Levadas da Madeira, onde a cada canto, o Canto dum pássaro, ou o verde duma planta, nos surpreende, e fala connosco.
A "Saudade", esse velho sentimento português, que foi capaz de "inventar" uma Canção. O Cansaço de querermos sempre, o que não está ali mesmo à mão. Já sinto saudades de Florença, de Perugia...Já sinto saudades dos meus amigos, já sinto saudades das sonoras gargalhadas da Tijen, uma turca que se tornou Condessa, casando com um nobre siciliano. Agora tenho, aqui mesmo à mão, os pinheiros, a Levada...E tenho saudades de Itália, de falar italiano. De respirar as pedras da sua memória.

No salão do Centro Lorenzo dei Medici, estavam umas trezentas pessoas apinhadas, para ouvirem cantar o Fado. Eu era ,uma das convidadas do Centro, no que concerne às actividades do "Estate Musicale"( Verão Musical ). No palco, uma foto de Amália, a preto e branco, caracteriza o que ali se vai passar.
Os musicos, tocam uma variação. A Sala está calada. De repente, o crescendo do final da variação, alerta-me que agora sou eu. Sózinha. Com o meu Fado. Ou melhor, com o Fado que eles conhecem - o Fado de Amália.
Entro, a entoar as primeiras notas dum clássico do Marceneiro. Arrastado. Perdido. Truncado. Procuro pronunciar bem (talvez demais !), as palavras da Amália, da sua "Estranha forma de vida". Há umas vinte pessoas que aplaudem o inicio. Vê-se que reconheceram o trecho. As outras vão atrás.
Depois, surge a poetisa brasileira Cecilia Meirelles. Numa musica de Alain Oulman. Apenas um foco de luz branca, incide sobre o pequeno palco. A musica excelsa de Oulman, parece ter a magia do encantamento. Dou sinal aos dois musicos que me acompanham, para repetirem a introdução. É tão bela ! E a minha voz rouca, procura rezar:

"Soledad
Antes que o Sol se vá
Como um pássaro perdido
Também te direi adeus,
Soledad...Soledad
Também te direi adeus
Soledad.... ..."

E chegam, as palavras de Pessoa, no Fado Menor. Uma ideia minha. E, para meu gáudio, todo o mundo conhece Pessoa. Pelo menos, aquele publico.

"O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
A dor, que deveras sente..."

E chega também, o meu desejo de cantar em Italiano. Explico que o Italiano, para mim, significa "giovinnezza". E canto uns versos, que dizem:

" C'é chi dice l'amor non é bello
certo que quello, l'amor' non sa fare..."

O publico canta alegremente o refrão. Há um perfume de flores no ar. Há uma leveza. Não quero parar. E lá vou seguindo, não deixando de fazer uma incursão na lingua francesa, num só poema de Moustaki, cantado numa musica de Fado.

"Ma liberté,
longtemps je t'ai gardé
comme une perle rare..."

Explico-lhes, que cantei pela primeira vez essas palavras, há mais de uma década, junto às vetustas muralhas da velha Jerusalém, clamando junto a mais de quarenta mil pessoas, o desejo de Paz. O direito à auto-determinação dum Povo.

No final, o recinto tornou-se numa grande tertulia, foram quase duas horas, a responder a questões curiosas sobre Amália e o Fado, sobre a minha forma de ver o problema palestiniano, sobre Salazar, sobre Pessoa. Enfim... Fui dando largas ao meu Italiano, contente, por ter diante de mim, um grupo de pessoas que adora conviver, que gosta de conversar. Um momento de Ouro, na minha vida. Indisponível em DVD. Não diria, um momento de Ouro na minha "carreira", porque não tenho propriamente uma "carreira". Deixo isso para quem tem o marketing a servi-lo. Para quem tem acesso aos DVDs, às grandes produções, e, às críticas do "Guardian". Aos prémios da BBC.
Eu só me tenho a mim, a servir-me. E tenho Amália, os Poetas, os Compositores, as minhas Causas. Não vendi nenhum disco, naquela noite. Se o tivesse, teria vendido trezentos. Tantos, mo pediram...

E chego aqui, pensando que, talvez deva sair desta minha preguiça, desta minha inactividade, em tudo o que represente "trabalho", em vez do prazer. Tenho vivido do "prazer", tudo gira na minha vida, em termos do que "apetece" ou "não apetece". Talvez, como diz Cecília Meirelles no seu poema, eu deva começar a trabalhar, ..."antes que o Sol se vá."
É que, dentro de dias, farei os malfadados 40 anos. O principio do fim.

Publicado por Valéria Mendez em 08:17 PM | Comentários (24)