junho 29, 2004

"MORAM NUMA RUA ESCURA, A TRISTEZA E A AMARGURA, A ANGUSTIA E A SOLIDÃO..." ( ou, NUMA RÁDIO CLANDESTINA DA PALESTINA ) ( 2 )

...Debaixo do braço, levava um unico disco - o album "Lágrima", de Amália. Depois duma entrevista em Inglês, que era traduzida em simultâneo para Árabe, foram lidos, pequenos depoimentos, de familiares de presos políticos, e de militantes assassinados, pelas tropas judaicas. Num deles, uma mulher dizia, numa prosa algo poética, traduzida para Inglês, pelo animador radiofónico, uma frase, mais ou menos assim: "... Moro numa rua escura, de tristeza, de amargura, de solidão. Choro tanto o nosso destino..."
De olhos aguados,( e decididamente, não há coincidências!) peguei no disco de Amália, e pedi ao locutor, para passar a faixa, " O Fado chora-se bem ". Expliquei aos ouvintes, que no meu país, existira uma cantora, que escrevera um poema, que dizia exactamente o mesmo, que essa pobre mulher só...
Foi então que, numa rádio clandestina da Palestina, ouviu-se, pela primeira vez, a voz de Amália Rodrigues, cantando em especial para essa brava mulher, que se expressara, tal como a Diva Portuguesa, em relação à solidão. Ainda hoje, fico ceguinha de choro, quando me recordo deste episódio.

Moram numa rua escura
A tristeza e a amagura
a angustia, e a solidão.

No mesmo quarto fechado
Também lá mora, o meu fado
e mora o meu coração.

Tantos passos, temos dado
nós as três, de braço dado,
eu, a tristeza e a amargura...

(excerto de "O Fado chora-se bem")
Amália Rodrigues-Carlos Gonçalves
....................................................................................................................
Chegada a Lisboa, o Jornal "Correio da Manhã", dedicou uma página inteira,a esta minha deslocação ao Médio Oriente, e publicou cinco fotografias feitas por mim, ilustrativas da prepotência, e da miséria, que se vive naquelas paragens. Um dos objectivos da minha acção de "activista", cumprira-se - Alertar o Mundo, para a situação real, infrahumana, a que os políticos de Israel, e a hipocrisia dos Estados Unidos, votaram milhares de seres humanos, cujo unico pecado foi, o de quererem permanecer na sua terra, no cantinho que herdaram dos seus antepassados.
Obrigada ao CM, pelo apoio. Muito sentidamente.
(FIM)

Publicado por Valéria Mendez em 01:33 AM | Comentários (16)

junho 27, 2004

" MORAM NUMA RUA ESCURA, A TRISTEZA E A AMARGURA, A ANGUSTIA E A SOLIDÃO..." ( ou, NUMA RÁDIO CLANDESTINA DA PALESTINA ) ( 1 )

Naplous - Cidade palestiniana, ocupada por Israel.
Rua Mamouiff ( nome ficticio, por razões óbvias )
Instalações ad hoc, duma Rádio Clandestina, ao serviço da
Liberdade.

O meu amigo Nawzad, era o meu contacto. Encontrava-me no National Hotel, em Jerusalém Oriental. Havia, poucos dias antes, participado numa manifestação pela Libertação da Palestina, junto às vetustas muralhas da velha Jerusalém, que aglomerara milhares de pacifistas palestinianos e israelitas, e um forte grupo de europeus, de várias proveniências. Artistas, jornalistas, deputados, escritores, professores universitários, todos irmanados numa só Causa.
Já havia cantado o Fado, no final dessa manifestação, num grande palco improvisado, integrando um elenco de artistas " engagés ", tais como, Georges Moustaki, Collette Magny, Mohamed Bhar, Sarah Alexander, Zucchero, e a diva da musica árabe Fairouz, um autêntico caso sério de popularidade no mundo árabe, com actuações internacionais, em palcos tão prestigiados como o Olympia de Paris, ou o Scala de Milão.
Eu, simples portuguesa, da ilha da Madeira, completamente desconhecida daquela gente, dei voz a quatro trechos de Fado, em tão distantes paragens. Estranhamente, foi um sucesso. Até trautearam comigo, o Coimbra ( April in Portugal ). Mais uma vez, reminiscências do polvo de talento de Amália Rodrigues, que muitos anos antes, já havia conquistado aquela latitude. Eu havia acabado de ter , mais uma prova disso.
Nawzad, tinha vindo me buscar, para uma entrevista conjunta, com vários europeus, activistas pró-palestinianos, alguns jornalistas italianos e franceses, de publicações importantes, como o Le Monde, ou Il Manifesto. As instalações da Rádio, era segredo bem guardado. Sentia-me parte daquela gente. Confiavam em mim, assim como nos outros quatro, que me acompanhavam.
A nossa ida a Naplous, fôra uma verdadeira aventura, passáramos quatro "check points", e tinhamos sempre de arranjar uma convincente justificação, aos militares israelitas, que tinham um trato revoltante e asqueroso, para com Nawzad, o nosso " chauffeur " palestiniano. Num deles, tivémos mesmo de " puxar pelos galões " de cidadãos europeus, para que nos deixassem passar. Enfim...O importante era não descobrirem aonde iamos, e ao que iamos, de contrário, no mesmo minuto, um helicóptero, teria a ordem de lançar um raid, sobre o Edificio onde se encontrava a Rádio, sem se importarem mínimamente, se no mesmo prédio habitassem famílias, velhos ou crianças. Mas, a verdade é que, depois de episódios semelhantes, e da fuga às vias principais, por montes secos e áridos, num potente Range Rover, sempre chegáramos à Rádio Al Fajhr, afecta ao Al Fatah, que editava também um jornal, impresso na Jordânia, com o mesmo nome...
( CONTINUA )

Publicado por Valéria Mendez em 03:18 PM | Comentários (9)

junho 23, 2004

O HUMOR DO PROF. DR. OLIVEIRA SALAZAR

Como os meus queridos amigos leitores, por certo saberão, sempre que me deslocava a Lisboa, e sempre que Amália Rodrigues se encontrava em casa, e podia receber-me, lá ia eu, de ramo de flores na mão, e uns bolinhos de mel, para nos acompanhar madrugada fora, numa tertulia de conversas mil, regadas por inumeros chás exóticos...
Uma noite, Amália lembrou-se, de certos episódios que António Ferro, o homem da Propaganda Nacional, lhe contara sobre Salazar. Uma dessas "estórias", referia-se ao então célebre cantor lírico JOSÉ ROSA, que chegou a cantar na "Opéra", em Paris, que se dirigiu por carta, à Presidência do Conselho, pedindo um subsídio, no âmbito duma produção em que estaria envolvido. Instado Salazar, a pronunciar-se sobre o pedido, o Presidente do Conselho, disparou : " Eu não tenho dinheiro para os que choram, quanto mais para os que cantam ! "
Acrescentaria Amália, rindo - " É por estas e por outras, que nunca pedi nada ao Regime. Nem ao Velho, nem ao Novo ! "

Publicado por Valéria Mendez em 03:14 PM | Comentários (18)

junho 20, 2004

NO IÉMEN - SALVA POR UM CARTÃO ( 4 )

O velho Peugeot, rodava hábilmente, por entre ruas e ruelas, onde não raro, tinha de contornar os mais inverosímeis obstáculos, tais como, um grupo de homens sentados em circulo, conferenciando sobre, sabe Allah o quê, ou um camelo "estacionado", junto a uma porta, com um grande caixote sobre suas bossas. Eu havia entregue ao condutor, um papel, com a morada, em Árabe, da vivenda do meu amigo Karim, pedindo secretamente a Nossa Senhora de Fátima, que me estivessem realmente levando, ao meu destino.
Estranhei contudo, todos os locais por onde passávamos. Tinha a certeza que, não fora por aqueles caminhos, que houvera chegado ao mercado. Estava confusa, receosa, e respondia quase maquinalmente, às perguntas feitas pelo jovem, sobre a minha actividade como pacifista e activista pela Libertação da Palestina. Inquiria-me, sobre a opinião dos políticos do meu país, em relação à Causa, perguntava-me, o que pensava eu, do 11 de Setembro, o que pensava da política imperialista dos Estados Unidos, provando possuir um discernimento, e um conhecimento sobre o assunto, bastante razoáveis...
Súbitamente, saímos do emaranhado de ruelas, e entrámos numa avenida, que me era já familiar. Respirei fundo. A uns trezentos metros, já avistava o grande portão de ferro, da casa branca de Karim, de três pisos, cheia de arcos na varanda superior. O condutor , parou frente ao número 308, e buzinou ruidosamente...
Karim já havia regressado. Estavam todos, muito preocupados, com a minha ausência. Até haviam pensado em contactar a Polícia. A família em peso, assomou à porta de entrada da casa, e Karim, desceu até o portão. Notei que seus semblantes manifestavam surpresa e estupefacção, ao verem-me sair do carro dos jovens árabes. O meu amigo, aproximou-se da janela do condutor, proferiu algumas palavras, creio eu, de agradecimento; despedi-me dos meus " companheiros forçados " de viagem, e subi a escada de acesso à entrada da casa. Ao partirem, ainda ouvi a voz do jovem, gritar bem alto - " Bye, bye, and Thank you. Thank you for your love to Palestine ! " Voltei-me, acenei-lhes sorrindo, e exclamei - " Be happy, brother ! " O carro arrancou, deixando uma pequena nuvém de fumo, e desapareceu na avenida.
Bem...Levei ,uma "tareia verbal", de toda a família. " Sabe que a sua aventura, poderia ter acabado mal ? Mas como regressou a casa com eles ? Sabe que poderia ter sido feita refém, para servir de moeda de troca, para a libertãção de algum prisioneiro ? É o que fazem, a estrangeiros incautos como você !!! "- vociferava Karim, perante o olhar aprovador do resto do clã.
Desdramatizando, disparei: " Ah, não foi nada de mais. Já lhes conto. O que interessa é que eles não eram QIYARI. Estou aqui. Nada me aconteceu ! " Karim, muito sério, sentenciou: " Ah, NÃO ERAM QIYARI ? Oh minha cara amiga louca, e cantora, você, acaba de ter uma boleia, de dois jovens QIYARI, que habitam o bairro do mercado, a uns três quilómetros daqui !"
Deixei meu corpo cair, no grande sofá violeta da sala... Não consegui proferir uma palavra. Por entre os olhares reprovadores da família reunida, deu-me uma "pancada", e comecei a rir, a rir desalmadamente. Uma das esposas do irmão de Karim, não parava de repetir : " You are crazy, you are crazy..." E eu, ria... ria ...ria...
( FIM )

Publicado por Valéria Mendez em 03:02 AM | Comentários (25)

junho 18, 2004

NO IÉMEN - SALVA POR UM CARTÃO ( 3 )

Ia eu, qual Maria Madalena, escarnecida pela turba alienada, quando súbitamente, recordei-me que trazia comigo, o passaporte, e junto a ele, o B.I.,a carteira profissional de Artista, passada pelo SIARTE de Lisboa, e o cartão de Membro do Comité Francês para a Libertação da Palestina. Parei de repente. Da minha bolsa, retirei o passaporte e o referido cartão, e mostrei-o : "Olhem, esta sou eu !"- gritei, tirando toda a parafernália que me cobria a cabeça e o rosto. O cartão do Comité, continha logo abaixo do título em Francês, a respectiva tradução para o idioma do Profeta.
Tudo mudou. A expressão do rapaz iluminou-se, falou alto para os outros, mostrando o passaporte e o cartão, que passaram de mão em mão. Com um ar de arrependimento, o rapaz de mãos postas para o céu, repetia-me sem cessar : " Excuse me woman, excuse me, excuse me! " A mulher, tocava nas minhas mãos, com um ar constrangido, e o jovem gritava : "Ouve mulher: Tu és amiga. Tu defendes a Palestina!"
A esta altura, eu havia passado de "mulher perdida", a heroína. "Espera. Please!", ordenou-me o moço, correndo para uma porta, a uns cem metros do local onde nos encontrávamos. A mulher, afagava-me as mãos, e gritava qualquer coisa, que acabava em "phalestyn", fonética de "Palestina", em Árabe. Já de posse dos meus documentos, eu insistia em caminhar, porém a mulher e os outros, impediam-me, gesticulando para que esperasse.
Num ápice, um velho Peugeot 505 branco, acercou-se de mim. "Por favor, mulher, nós levamos-te onde queiras.Please, please ! "-gritavam o condutor e o rapaz que, momentos antes, me acusava de ser "uma mulher perdida". A mulher empurrava-me para o interior do carro, e eu, confusa, assaltada por um turbilhão de pensamentos, nem sabia como reagir...
"Bom, seja o que Deus quizer " , pensei eu, fazendo-lhes a vontade. " Oxalá não sejam QIYARI ! ", e entrei para o carro, num misto de medo, receio e esperança...
(CONTINUA)

Publicado por Valéria Mendez em 06:46 PM | Comentários (13)

junho 17, 2004

NO IÉMEN - SALVA POR UM CARTÃO ( 2 )

A mãe de Karim, era uma senhora muito doce. Nunca querera sair definitivamente de Sana`a, e ali vivia, com o irmão do meu amigo iémenita, casado oficialmente com três mulheres. Eu, era hóspede da casa. Respirava-se um ambiente harmónico. Cada mulher, tinha o seu quarto, e o marido das três, possuia também o seu aposento. No quarto dele, só entravam para fazer as lides domésticas. O marido, decidia, se dormiria só, ou se escolheria passar a noite, no quarto de uma de suas esposas. Nunca, sob hipótese alguma, a mulher, tomaria a iniciativa de dormir com o marido. Seria uma heresia.
O meu amigo Karim, iria ausentar-se durante todo o dia, para uma reunião importante de negócios. Eu ficaria em casa, com a sua mãe, e as três cunhadas. Mas, lá para depois do almoço, arranjei um pretexto, e decidi aventurar-me sózinha na cidade da Rainha de Sabá, não sem antes, ouvir um chorrilho de protestos, em Inglês, das mulheres : Que era perigoso uma estrangeira sózinha na rua, e loura, ainda por cima !
Tive então, uma brilhante ideia - Levaria umas vestes tradicionais, de cabeça e cara cobertas...
Havia já, cerca de duas horas, que passeava a pé, deslumbrada com o fervilhar da cidade. Passara por ruas e ruelas, tomara um chá de menta e incenso, num daqueles vendedores ambulantes, que serviam chá e bolos secos; e sem saber como, entrara num mercado popular, numa zona de edificações ancestrais, onde os sons do muézin, recitando o Corão, do alto de um minarete, as crianças brincando, o rodopio dos vendedores e compradores de bugigangas, tecidos, pães e bolos secos, incensos, mirras, vasos espantosos, estarreciam-me de prazer.
Um vendedor de tecidos, de repente, abordou-me, mostrando uma peça, dum verde que nunca tinha visto. Não sabendo expressar-me no seu idioma, tirei alguns rials iémenitas da carteira, o homem abanou a cabeça, falando, gesticulando, acenando que não; decidi então, dar-lhe mais uma nota, sem reparar na quantia. O homem, arregalou os olhos, deu-me, em vez duma, duas peças de tecido, e começou a falar com um camarada da banca ao lado, apontando para mim. Percebi que tinha dado dinheiro a mais. Lembrei-me que os Árabes, fazem do comércio, a arte da argumentação. Todo o cliente regateia, e o negociante argumenta. Faz parte do modus-vivendi. Eu não havia regateado. Era suspeito.
Nesta altura, uma mulher vestida como eu, toca-me no braço, e fala, movimenta os braços, sem que eu entendesse, fosse o que fosse. Comecei a ficar aflita. Não sabia o que dizer, como dizer, e o que fazer. Atrás da mulher, surgiram uns quatro ou cinco miudos, e outros dois rapazes, que acompanhavam a mulher, nas observações que faziam sobre mim...
Já agastada, sem saber ao certo, o que diziam e pretendiam, decidi, pôr cobro ao "tumulto", e falei em Inglês, que era estrangeira. Um dos adolescentes, num Inglês razoável, perguntou-me : " E o que faz uma estrangeira sózinha neste bairro ? Onde moras ? Estás num Hotel ? " - " Não, estou em casa dum amigo, vosso conterrâneo ", retorqui eu bem alto. "Amigo ? ", gritou o rapaz, sorrindo matreiramente. " E onde está ele ? Que queres tu daqui ? ", inquiria o jovem, com ar de poucos amigos. Entretanto, disse qualquer coisa aos outros, a mulher abriu os braços pr`ó céu, e o rapaz, com um dedo em riste para mim, gritava - " Que Allah te perdoe ! Tu és uma mulher perdida !"
Neste momento, já eu caminhava a passos largos, com a pequena turba atrás de mim...
(CONTINUA)

Publicado por Valéria Mendez em 03:57 AM | Comentários (16)

junho 16, 2004

NO IÉMEN - SALVA POR UM CARTÃO ( 1 )

Tenho a mania, de me aventurar, por sítios , que não os mais indicados pelas agências de turismo. Não me dá gozo nenhum, seguir um qualquer roteiro turístico programado. Encontrava-me em Sana`a, a capital do Iémen. Sana`a, é uma cidade sui-generis - Devido à unificação, em 1990, entre o Iémen do Norte, país islamico de linha dura, e o Iémen do Sul, de expressão socialista, sob protecção da ex- União Soviética, existe um autêntico "melting pot" sócio-cultural, que se repercutiu até, na nova Constituição da Republica. O Iémen, é o unico país islamico, onde as mulheres têm direito a voto, ocupam lugares de destaque na política e na sociedade. A unificação deveu-se, à queda do bloco soviético, e assim, os povos escolheram, por voto democrático, um Chefe de Estado do Norte, e um Primeiro Ministro do Sul. As tribos, ocupam um lugar importantíssimo no Parlamento, e para não fugir à regra do Médio-Oriente, os QIYARI, tribo muito poderosa, ocupa o lugar da oposição, desestabilizando o país, com raptos de estrangeiros, e algumas acções terroristas de intimidação. Em 2000, o Embaixador da Polónia, foi sequestrado, porém libertado a seguir , contudo no mesmo ano, o empresário norueguês Gubbrand Stuwe e o seu filho, foram feitos reféns dos Qiyari, havendo sido mortos durante uma tentativa de libertação, por parte da polícia de estado, em plena capital. Desde 1996, contam-se 38 raptos, envolvendo cerca de 147 estrangeiros.
É um país cheio de contrastes. Sessenta por cento da população é analfabeta, no entanto, existe um " Yemen Times ", com uma larga tiragem; o inglês é idioma compreendido por muita gente. Não se vislumbra todavia, a riqueza e o liberalismo dos países do Golfo, como o Qatar, ou os Emirados Árabes Unidos, mas respira-se um ar remotamente mais próximo da democracia, de que há memória num país muçulmano. Só o facto das mulheres terem direito ao voto, é muito significativo.
Ali me encontrava, com o meu amigo iémenita radicado em Paris, igualmente activista pela Causa Palestiniana, para participarmos numa conferência na Universidade de Sana`a, exactamente sobre o conflito israelo-árabe. Claro que Karim, o meu amigo iémenita, homem de negócios de múltiplos contactos, é que houvera "mexido os cordelinhos", e como sou artista, ficara também planeada, a minha participação no espectáculo, que se seguiria à Conferência, em que se tocaria o alaúde, cantar-se-ia a MOWASHAHA, considerada a Canção de Sana`a, uma espécie de canção nacional, tal qual o Fado, que floresceu em Al Andalous ( Espanha), no século III, e levada pelos árabes, que viriam a se estabelecer no que hoje é, a Républica do Iémen.
Expliquei-lhes que, a Canção que iria interpretar, era uma espécie de Mowashaha, mas de Portugal. Os cerca de dois mil estudantes presentes, ouviram tudo silenciosamente,e fiquei boquiaberta quando, no final do concerto, alguns deles se acercaram de mim, e referiram conhecer Amália Rodrigues, sabiam inclusivé, que tinha sido agraciada com a condecoração máxima do Estado Libanês, a Ordem dos Cedros. Erraram na nacionalidade. Acreditavam que Amália fosse espanhola, e que Portugal fosse, uma província do país do flamenco. Enfim,não podia ser tudo perfeito...
( CONTINUA )

Publicado por Valéria Mendez em 02:53 AM | Comentários (7)

junho 11, 2004

A ABRANGÊNCIA DA ARTE DE AMÁLIA RODRIGUES

Uma das características de AMÁLIA RODRIGUES, foi a sua versatilidade, e o seu amor pela guitarra portuguesa. Nos anos setenta, a Diva gravou um Album de recolha tradicional italiana, que lhe valeu vários prémios, em Itália. Amália, fazendo sucesso, com a musica popular italiana, recriada com mestria. Muito poucos estrangeiros ( com excepção de CAETANO VELOSO), terão tido o atrevimento de ombrear com os papas da musica popular italiana, como ROBERTO MUROLO, DOMENICO MODUGNO e GABRIELLA FERRI.
O album de Amália ," A una terra che amo "( recolha de musica popular nos vários dialectos italianos), é desde há muito objecto de estudo, em seminários de Musicologia, nas Universidades e Conservatórios italianos. Apreciemos pois, uma TARANTELLA napolitana, recriada por AMÁLIA RODRIGUES

Publicado por Valéria Mendez em 01:38 AM | Comentários (19)

junho 10, 2004

"...Ou queriam Camões, muito bem arrumadinho nas bibliotecas das universidades,para deleite estéril de professores sem coração ?" ( Carlos Barbosa de Carvalho)

E Porque CAMÕES é o POETA, escutemos pois as suas palavras
Soneto- DURA MEMÓRIA ( Faixa nº 14 )
Musica: Alain Oulman
Interpretação: Amália Rodrigues
1965

Publicado por Valéria Mendez em 05:52 AM | Comentários (4)

junho 07, 2004

O TRIÂNGULO DO FADO

NOTA PRÉVIA - Sentei-me ao computador para escrever outra coisa. Mas, pelos comentários que tenho no blog, e por mensagens electrónicas que tenho recebido, sobre a temática do Fado, lembrei-me de voltar a "postar" um texto editado por mim, em Setembro ultimo, e que é o produto dum estudo que fiz sobre o assunto, e que já constituíu apoio ,de algumas conferências que dei sobre FADO , devidamente ilustradas, com excertos musicais e passagens de videos alusivos, numa Universidade Italiana, e numa outra Francesa.

O Fado, como canção urbana, tem forçosamente influências diversas, que fazem dele, uma musica em constante evolução, adaptando-se às realidades da aculturação, sem no entanto, ter perdido a sua verdadeira essência. Não conheço, outra "Canção" urbana que, em permanente movimento, se mantenha tão fiel à sua raiz, retratando os sentires, década após década, sem desvirtuar a sua linha específica, como estilo musical. Dirão os "puristas", que não se altera Wagner ou Mozart. É evidente que não, contudo Wagner ou Mozart, ao compôrem as suas musicas, sofreram já eles, influências das suas aprendizagens emocionais e temporais. Não será portanto de bom tom, transformar Frederico Valério ou Alain Oulman, porque eles próprios, ao criarem as suas composições, já incluiram nas suas melodias, elementos de classicismo, até então de costas voltadas ao Fado.
Hoje,as suas pautas, são Fados Clássicos, indiscutíveis para qualquer estudioso. É evidente que o Fado Clássico tem uma base: o Fado "Menor", o "Corrido", o "Mouraria" e o "Dois Tons"; e a partir dessa base primária, surgiram outros trezentos fados, melodias de tradição, criadas a partir das premissas musicais dos quatro fados-base. Surgem então os guitarristas, os fadistas - tal como os musicos de Jazz - a reinventarem esses fados, dando-lhes um cunho pessoal. Não poderemos por exemplo, esquecer o contributo de guitarristas como Armandinho e Jaime Santos,e de fadistas, como Joaquim Campos ou Berta Cardoso, entre outros.
Há no entanto, um TRIÂNGULO FADISTA, que é o responsável máximo, pelo estadio, em que o Fado se encontra na actualidade: Trata-se de ALFREDO MARCENEIRO, HERMÍNIA SILVA e AMÁLIA RODRIGUES.
Alfredo Marceneiro, foi o grande "estilizador", aquele que, para além de fabulosas composições elaboradas ( Fado Bailado, Marcha do Alfredo,etc), a partir dos fados-base, trouxe para o Fado, a necessidade de "dividir" bem os versos, respeitando o contéudo do poema, e consequentemente, dando-lhe sentido. Com esta mais valia, Marceneiro contribuiu para um "achado" fenomenal no Fado - o poder que tem o intérprete, de criar novas linhas melódicas, sobre a mesma composição musical, sem desvirtuar as palavras dos poetas.
Outro "apport" importante, foi o legado de Hermínia Silva, aquela que, tirou o Fado das Casas Típicas dos bairros lisboetas, levando-o a audiências mais alargadas, como o Teatro de Revista, dando ao Fado, a possibilidade de se expandir, também ao nível musical, interpretando-o, acompanhada por grandes orquestras. Hermínia Silva, é a sacerdotiza de Lisboa. É a Canção Urbana, confinada ao "ghetto", transportada para o grande publico, e à necessidade duma criação mais elaborada, pelos maestros que compunham temas para o Teatro. Nasce com Ela, o Fado "musicado" ( Velha Tendinha, é um exemplo), aquele Fado composto por profissionais da musica, gente que sabia solfejo, compositores com formação musical. Curioso verificar que, mesmo nessas novas criações, o Fado continua a ser Fado, pela imposição da fadista, ao estilizar essas melodias, sem fugir às suas premissas-base. A guitarra portuguesa, assume aqui, um papel preponderante, fazendo parte do naipe das orquestras, "comandando" a melodia, ao lado dos violinos, contra-baixos, e do piano.
Surge-nos finalmente, o terceiro vértice do triângulo : Amália Rodrigues, que pegando na "estilização" do Marceneiro, e na abrangência da Hermínia, transforma o Fado na sua continuidade, nunca lhe subtraindo porém a sua essência. Amália, começa a fazer notar a evidência de certas influências distintas do Fado, integrando no seu estilizar, melismas, que aparentemente, na altura, nada teriam que ver com o Fado-Raiz. Mais tarde, veio-se a provar, que afinal, Amália teria razão, ao chamar para o Fado, reminiscências árabo-andaluzas, não fazendo mais do que realçar, determinadas passagens melódicas, até então, algo repetitivas e "quadradas", provando que o Fado, é uma Canção com um quadro "genético", uma canção da "alma", portanto, susceptível ao improviso. Tal qual os "Blues", o "Jazz" ou o "Tango".
Até então, as palavras cantadas, eram o fruto do talento dos Poetas Populares, de que Linhares Barbosa é exemplo. Amália viu, na densidade das musicas que interpretava, qualidade sufíciente para lhes trazer outras mensagens - Aquelas dos Poetas da Literatura, até então, unicamente dissecadas nas Universidades, ou lidas por uma minoria alfabetizada. Guerra Junqueiro, foi o primeiro, a que Amália adaptou a um Fado Tradicional ( o Fado do Bacalhau),e seguiu-se Pedro Homem de Mello, que a fadista adaptou a temas do Fado Tradicional, com muito engenho e Arte. Teimando na sua descoberta literária ( Portugal é dos países mais ricos em Literatura!), Amália precisava expandir-se musicalmente. Seria possivel, "encaixar" umas quadras no Fado Menor, ou umas sextilhas no Fado Franklim, mas já não acontecia o mesmo com os sonetos, por exemplo. Surgiram então, nomes como Frederico Valério, compositor que fez sucesso até na Broadway, homem culto e versátil. Ele trouxe para Amália, e para o Fado,uma maior elaboração, uma riqueza harmónica até então desconhecida, abrindo alas a novos compositores. Se, a nível da abrangência, Hermínia ,havia levado o Fado, para o vasto publico do Teatro, Amália, com o seu Fado Novo, abriu duas portas ainda maiores: o cinema, e a internacionalização. A partir dos anos 60, a história repetiu-se com Alain Oulman, compositor genial de formação clássica, e que inteligentemente trouxe a Amália (para quem compôs em exclusivo, abrindo uma só excepção para a francesa Juliette Gréco), os grandes Poetas, desde Camões a Manuel Alegre, passando por Bernardim Ribeiro, António Feliciano de Castilho, os Poetas Mediavais como Pêro de Viviães ou D. Diniz, e ainda José Régio, David Mourão-Ferreira, e muitos outros.
Nestas suas "novas" musicas, Amália podia finalmente "voar", na extensão vocal da sua musicalidade. Mais uma vez, os puristas, sentenciaram que "aquilo" não era Fado, porém a Diva, prova mais uma vez, que aquelas musicas, não só, são Fado, como possuem até elementos dos "Fados-base". Alexandre O`Neil, autor de "Gaivota", entre outros temas, disse um dia, que "Alain Oulman, ajudou a desfrizar o Fado, dando-lhe uma maior extensão e universalidade, sem o descaracterizar, na sua essência."
Efectivamente, é muito fácil adivinhar nas melodias de Oulman,elementos-base do Fado, na sua fraseologia musical, em que podemos fácilmente constatar, "cheirinhos" de Fado Menor em "Trova do Vento que Passa"(Manuel Alegre), "cheirinhos" de Fado Corrido, em "Maria Lisboa"(David Mourão-Ferreira), só para dar dois exemplos. Hoje, esses temas são considerados Fados Clássicos.
Quer nos debruçemos ,sobre o trabalho de João Braga, Carlos do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Beatriz da Conceição, Carlos Zel, passando para os chamados "fadistas da nova vaga", como Mísia ou Camané, a Escola de Marceneiro, Hermínia Silva e Amália Rodrigues, está omnipresente, quer na "bitola" de escolha dos respectivos reportórios, na técnica interpretativa,nos arranjos musicais, na composiçâo musical, e até na sua apresentação cénica. Cabe pois, à nova geraçâo, e aos vindouros, possuirem a inteligência, de continuarem a sina do Fado, sem cairem na aculturação fácil, correndo o risco de, daqui a vinte anos, o Fado desapareça, não como Canção, mas como a Joia de Coroa da Identidade Musical Portuguesa, nestes tempos de imediatismo e de globalização.

Publicado por Valéria Mendez em 03:26 AM | Comentários (10)

junho 06, 2004

Hoje, apeteceu-me HERMÍNIA SILVA

Para os mais distraídos, HERMÍNIA SILVA, era a segunda fadista portuguesa mais amada pelo publico.Amália dizia que ela era a maior, e Hermínia dizia que a maior, era Amália. Chegou-se a querer "fabricar" uma rivalidade entre elas. As duas, acabaram com isso, imediatamente. Aliás, Amália e Hermínia seguiram caminhos diferentes, na abordagem ao Fado: Hermínia é a sacerdotiza de Lisboa, aquela que levou o Fado ao Teatro. Aquela que ficou para sempre ligada à Lisboa da tradição. Amália, enveredou por um Fado inovado, sem contudo desligar-se das raízes. Hoje, ao acordar, só tinha Hermínia, a cantar na minha cabeça.Queria por isso, partilhar convosco este Fado ,da querida e saudosa Hermínia. Um dos poucos ícones do Portugal do séc. XX.

Publicado por Valéria Mendez em 09:45 AM | Comentários (11)

junho 03, 2004

DOIS MONSTROS

ANTHONY QUINN, passou para a dimensão do Espírito, a 3 de JUNHO de 2001. Contava 86 anos. Nascido no México, tornou-se num ícone do cinema, a nível mundial. Era muito amigo de AMÁLIA RODRIGUES. Em 1996, esteve em Lisboa, de propósito, para jantar com a diva. "Una mujer entera", foi assim que o actor se referiu a Amália, numa entrevista à Televisão. " Por vezes, encontramo-nos em Los Angeles, mas nós temos uma vida muito complicada. Às vezes, ela está a chegar, e eu estou logo de partida daí a um dia ou dois. Mas, falamos muito ao telefone.", acrescentou ainda o grande "Zorba" do cinema. Em 1967, Anthony Quinn entregou em Cannes, o Prémio "Midem" a Amália, que galardoava o cantor europeu, com maior numero de discos vendidos ( Lembrar-me que agora, fazem um estardalhaço em relação a Mariza, como se fosse ela a descobrir o Fado. Amália esteve no TOP de vendas na Europa. Não só em Portugal!).No ano seguinte, a diva viria a repetir a dose,com o album "Vou dar de beber à dor". Em Cannes, era hábito ver-se OS DOIS MONSTROS juntos, nas plateias do Festival de Cinema.

Publicado por Valéria Mendez em 02:20 PM | Comentários (16)

Localidade da Madeira, dividida entre a ALEGRIA e a VERGONHA

É verdade. Esta minha linda terra é assim. Uma freguesia da Madeira, vive, nestes dias, entre a alegria de ter uma Miss Portugal, e a vergonha assumida por ter outra "filha da terra", transexual já operada, e actualmente "estrela" do Big Brother Inglês
Eu tenho por convicção, de que as figuras publicas, têm o dever de utilizar essa condição, para tentarem exercer junto do publico, uma certa pedagogia. Por isso, eu mandei um recado à população dessa localidade, na esperança de que, as mentalidades madeirenses possam evoluir no seu sentido humano. Se houver, pelo menos uma pessoa, que deixe brotar de seu coração, um pingo de solidariedade, já darei por bem empregue, o meu esforço.

Publicado por Valéria Mendez em 03:43 AM | Comentários (12)