Afinal, este circunspecto bloguísta, já compôs uma musica, dedicada a Amália Rodrigues, para o TEATRO DE REVISTA PORTUGUÊS. Obrigada Fernando, por seres quem és!
Aqui está o poema que foi musicado por ele
O carro rodava, pelas vetustas ruelas da velha Jerusalém, em direcção ao bonito Teatro Al Hakawathi, o Teatro Nacional Palestiniano. Nawzad, tinha vindo buscar-me ao hotel. Ele, era um dos operacionais do Al Fatah. Rapaz lindo, maravilhoso, originário de Gaza, muito moreno, cabelo curto, preto, asa de corvo, vestido com jeans e T shirt branca, deixando antever uns bicepes estonteantes. Nawzad, era meu conhecido de longa data, já tinhamos atravessado o deserto do Neguev, com destino à Jordânia, e eu, já conhecia a sua comovente "estória" - os pais possuiam uma propriedade agrícola, que fora confiscada pelo estado de Israel, e agora, viviam pobremente, numa casa em Gaza, com os seus dois irmãos mais novos. Ele havia, desde os 16 anos de idade, frequentado as escolas do Al Fatah, falava fluentemente Inglês e Francês, e (infelizmente) sabia mais de armas que um general português. Era um moço franco, muito puro de coração, e nós, já haviamos tido longas conversas sobre a vida, e os mistérios da existência. Tinhamos uma espécie de romance platónico, eu, deliciada pela sua pureza e beleza física, e ele, porventura envolvido pela minha capacidade de ouvir, e de compreender. A Vida deu-me isso - uma disponibilidade imensa para ouvir o outro, e entender o intimo de cada um. Isso, creio que aprendi com Amália, nas longas noites de tertúlia, ouvindo-a, e Ela, escutando o desfiar do meu rosário de penas. Amália, mais que ninguém, entendia lucidamente, todas as dissonâncias do Espírito. No grupo do Al Fatah, e por brincadeira, referiam-se a mim e ao Nawzad, como "amigos especiais", mas como a moral vigente é muito rigorosa, todo o mundo sabia, que eramos simplesmente muito amigos. E quantas aventuras houveramos passado juntos !
Com estas deambulações, eis-nos chegados ao Teatro. Faltava pouco para o espectáculo. Nele, participariam a vedeta francesa Collette Magny, Sarah Alexander, uma cantora judia, que havia feito questão, em manifestar-se contra a política do seu governo, o Grupo de Danças e Cantares Etnicos da Palestina, o cantor argelino Mohamed Bhar, um grupo coral de crianças palestinianas, e eu.
Dirigi-me ao camarim, arrumei-me eu própria, vesti uma tunica preta, pus o lenço palestino ao pescoço, e uma hora depois, encontrava-me no palco, interpretando dois fados de Amália, e um tema de minha autoria, dedicado à Palestina, cuja tradução para árabe, aparecia no plasma atrás de mim. Foi, perdoem-me a imodéstia, um sucesso. Recebi, sem sombra de dúvida, a maior ovação da minha vida. Chorei em cena aberta, e mandei um recado ( em inglês, pois não sei falar hebraico, nem árabe ) aos senhores de Israel - ..." que pena que alguns dos nossos irmãos judeus, não tenham aprendido a lição de História, e agora, repitam tristemente os mesmos processos, de que foram vítimas, nos tempos de Hitler. O Homem só evolui, quando compreende a História, e não repete os seus erros !" Dito isto, mais uma chuva de palmas, encheu o velho teatro Al Hakawathi, de Jerusalém Oriental.
Eu sei, que aquela gente aplaudiu a activista, e não a artista, mas de qualquer forma, senti-me nessa noite, uma pequena vedeta.
Já no camarim, dava uma entrevista para uma Rádio Jordana, onde tentei sempre simplificar todo este "imbroglio" político, repetindo que os homens, não têm o direito, de serem senhores dos seus semelhantes, e que o problema palestiniano só será resolvido, não só quando pararem as acções de guerrilha e de luta, mas também quando os USA e Israel, se capacitarem que, a Ocupação vigente é ilegal, quer do ponto de vista do Direito Internacional, quer do ponto de vista do "bom senso", pois afinal, esta política de hipocrisia, só está "fabricando" mais ódios, e maior insegurança a nível mundial. Hoje, chego à conclusão de que, chegou-se ao tempo, em que o Ocidente, deverá questionar-se sobre as razões dos atentados terroristas, e do ódio que é preciso "mastigar", para planificar atentados como o 11 de Setembro. Se o Mundo se debruçar sobre isso, depressa a Paz, será palavra vivida, naquela sangrenta terra do Médio-Oriente.
Ficou sobejamente provado, não há muito , que certa "intelligentsia" portuguesa, está bem longe de ser inteligente, quando alguns dos seus representantes - julgando representar o proprio Povo - tentaram crucificar ou marginalizar Amália, num sumário e grotesco "processo", de que só eles sairam ridicularizados.
Sem ter tido sequer necessidade de reagir ou defender-se, Amália renasceu incólume das próprias cinzas, em que esses apressados coveiros do talento e do mérito, pretendiam enterrá-la. E eis a sua voz, incomparável como sempre, mais vibrante e comovedora do que nunca, fiel a si própria e aos Poetas que tem cantado, triunfando do silêncio a que quizeram remetê-la, e sugerindo incansávelmente, através da harmonia que a caracteriza, a superioridade da alegria de quanto nos une, sobre a mágoa de quanto nos divide...
1977, DAVID MOURÃO-FERREIRA
...Escrever sobre Amália, já é mais do que escrever sobre uma Grande Voz, ou uma Grande Artista. É escrever sobre nós próprios. Sobre a nossa grandeza, e sobre a nossa pequenez, sobre o nosso riso, e sobre as nossas lágrimas, sobre a nossa terra e sobre a nossa gente. É por isso que, quando Amália canta o que nós escrevemos, transforma os versos deitados no papel, numa explosão de vida e de força interior, que deslumbra, até, quem os escreveu. É por isso que, para o Poeta que Ela cante, escrever sobre Amália, é dizer-lhe obrigado.
1977, JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
...Há quem extraia significados à musica. Amália Rodrigues, extrai musica aos significados. É, a essa musica, extraída de tudo, ou até do nada, que devemos abrir a nossa sensibilidade... É ridiculo pensar que ela sofre quando canta. Estou convencido de que, na verdade, apenas sofre calada...Por isso, os sons e as palavras ainda rescendem a dor do silêncio, em que foram geradas... Ninguém se poderá abrigar à sua sombra, nem ela roubará o sol, a ninguém. Querer imitá-la é grotesco.O homem que imita as ondas, dá cambalhotas.
1973, ANTÓNIO VITORINO DE ALMEIDA
...O que é um milagre? É quando, numa só silaba, se pronunciam num mesmo tempo, a nascença e a velhice do mundo. É esta voz. Agora, é menina descalça, a correr pelos prados; depois é mulher nua, a correr os dedos pelo cabelo; senhora branca a correr com a escuridão da alma; ou velhinha negra, a correr as cortinas duma varanda de andorinhas...Amália, mima-nos como uma mãe, e faz-nos filhos, amantes, maridos, pais, irmãos. Faz de nós o que quer, o que nós queremos que ela faça. Faz-nos chorar, rir, saudade, amor...Porque é que a minha ignóbil geração a perde tanto, perdendo tanto tempo ,com perdigotos e perdigueiros, roufenhos e roqueiros, quando há a Amália para ganhar? Não a merecemos, não. Isto embora, como geração apenas, nunca a pudessemos merecer, por muito bem que a quizéssemos e trouxéssemos dentro de nós. Porque a unica coisa que merece Amália, é Portugal-todo, oitocentos anos para trás e para a frente. E nós, na piquena parcela que nos calhou dessa infinita temporada, apenas podemos chorar a alegria de poder tê-la. Tal como ela, lá dentro, na voz, nos tem a todos nós...
1982, MIGUEL ESTEVES CARDOSO
Amália Rodrigues, Edith Piaf e Oum Koulthoum, são sem duvida, aquelas que ultrapassaram o estatuto de grandes estrelas, para se tornarem em mitos, que perdurarão na memória do planeta...
1989, LE MONDE
O Fado, está presente no diálogo de Amália. No palco do Teatro Romano, outro dia, queria explicar ao publico ,( " o contacto com o publico condiciona-me, é-me necessário...até posso não cantar se sinto que o publico não me segue...", e o diálogo com os romanos foi formidável) o que era este fado, porque são tristes os portugueses. " Não se compreende" dizia. "Sim, somos um povo pobre, mas temos um mar magnífico, belíssimas cidades, e somos tristes..." Alguem gritou da plateia: "... e Salazar ! " "...e somos tristes", continuou ela. Foi o recital da minha vida. Tenho a impressão de que estive junto de alguém, cujo talento ultrapassa o entendimento humano. Estive na presença de uma Deusa...
1968, ALBERTO BELINI-"Paese Sera"
Foram algumas transcrições de textos escritos sobre a DIVA. Muitas mais poderia editar. Servirão estes textos, apenas para recordá-LA. Porque são mais infelizes, aqueles a quem a memória atraiçoa...
Aos dezanove anos de idade, quiz Deus e o meu engenho, que me transferisse para a belíssima Côte d`Azur, mais própriamente para a cidade de Nice. Nunca havia estado em França, e depois de haver passado dois anos na vetusta cidade etrusca de Perugia, esperava-me outras peripécias, às quais nem por um segundo suspeitaria. Cheguei a Nice, num voo via Paris, desde a Madeira, onde havia passado, os três meses de férias do Verão, na velha casa de meus avós, a centenária Casa dos Morgados da Grade, na Ponta do Pargo. Era uma velha casa senhorial, situada num magnífico pequeno vale, todo verde, tendo como unico fundo sonoro, as águas da ribeirinha, que atravessava a propriedade. Grandes tardes contemplativas, e de leitura, foram vividas no terraço, de onde se vislumbrava ao longe, o azul do mar, por entre o verde, que o meu olhar, nunca se cansou de observar. Ali, passaram por mim, Eça, Garrett, Nietsche, Manzoni, Agatha Christie, Shopenhauer, e tantos outros fazedores de sonhos, e companheiros de questionáveis condições humanas. Não era, agora sei, uma vida muito saudável , para quem não tinha ainda vinte anos de idade, mas tinha sido sempre assim. Sentia-me protegida dos dramas e tragédias da vida, desde que estivesse só com os meus livros, os meus discos, os meus pensamentos. Na Madeira, refugiava-me. Lá fora, adorava falar com os outros, conviver, passear; sabia que me não fariam perguntas, às quais, nem eu própria, poderia responder. Havia todavia, uma sede de vida, nesse contraste, entre a bucólica Ponta do Pargo, e o ambiente efervescente duma cidade universitária e cosmopolita, como Perugia.
Em todos os espelhos da casa de meus avós, haviam amigos invisíveis, que me ofereciam companhia, no frondoso cedro do quintal, habitavam fadas e duendes, que me fortaleciam em momentos de abandono. Os meus pais sabiam disso. Por isso, deixavam-me tranquila na casa, sem perguntas desnecessárias, nem psicologias baratas. Agora, surgia na minha vida, uma nova etapa, e estava ansiosa, por conhecer o sítio onde iria passar os meus próximos dois anos de vida.
Cheguei de táxi, à Residence de l `Université de Nice. Era tão diferente de Perugia, onde cada pedrinha contava uma história. Aqui , era tudo muito moderno e funcional, e parecia fruto, duma mente tipo Taveira, muita luz natural, e a cantina, era digna dum Neyemayer, dado que parecia uma nave espacial redonda, com um acesso por escadas em caracol, para o piso do restaurante, enorme, circular, pleno de vidrados, que nos dava uma vista soberba, dos quatro pontos cardeais. O meu quarto, dava para a baia da cidade , vislumbrando-se ali mesmo, tão perto, a deslumbrante PROMENADE DES ANGLAIS, uma avenida à beira mar, que tem quase o comprimento da cidade. Esta seria portanto, o Corso Vannucci de Nice, onde os passeios pela tardinha, viriam a ser religiosamente dados, por todos os estudantes.
Nice, é uma cidade longitudinal ao mar, pouco invasiva a norte, pelo que é impossivel, alguém perder o seu sentido de orientação. Se nos perdemos, é só descer até à Promenade des Anglais, e situarmo-nos novamente. Calcorreei a pé esta cidade, que ainda hoje, não necessito da habitual carta geográfica, para descobrir seja o que fôr. No quarto ao lado do meu, estava Per, um rapaz sueco da Universidade de Upsalla, e à esquerda, Ada, uma italiana já de meia idade, que havia decidido estudar outra vez. Encetamos algumas palavras, na primeira refeição. Já nos tinhamos encontrado, à saída ou entrada, nos nossos quartos, e só haviamos esboçado um timido sorriso. Vimo-nos no restaurante, e tácitamente, sentámo-nos na mesma mesa. Per, era um rapaz atraente, louríssimo, altíssimo, magro e de tez clara, cabelos longos repartidos ao meio, muito lisos, e uns olhos verde-mar lindíssimos. Ada, era uma italiana de 51 anos, oriunda de Reggio Calabria, gorda, porém bonita, olhos negros enormes, bronzeadíssima, cabelos castanhos escuros, muito cuidados, com largos caracois que lhe embelezavam o rosto sorridente. Ela ficou surpresa, quando quebrei a regra, que estava enfáticamente exposta, em tudo quanto era parede do restaurante e da universidade: " PARLEZ EN FRANÇAIS, S.V.P.", e comecei a falar no dialecto italiano calabrese. Em Itália, os dialectos que possuem estatuto de escrita, são estudados numa cadeira específica, pelo que era fácil para mim, expressar-me nesses sub-idiomas. Ada ficou encantada. Dizia ela ,"complimenti!", quando me saía uma expressão mais rebuscada. Breve, nos apercebemos que Per sorria ingénuamente, e regressámos à francofonia, para que ele, não se sentisse excluído. Per, falava bem o francês, o inglês, o dinamarquês, e claro está, a sua lingua materna. Era filho dum executivo da Volvo, e Ada era professora de "Storia dell`Arte", e também pintora. Possuia igualmente na sua cidade natal, uma pequena "Galleria d`Arte", da qual falava com muito carinho. Era solteira, e havia deixado uma irmã, a tomar conta dos negócios, e aventurou-se até França, para, segundo ela, reviver a juventude ,outra vez. A conversa estendeu-se de tal forma, que o almoço tocou o lanche, fazendo rir a empregada do bar, que nos observava de vez em quando. A verdade é que, Per e Ada, foram os meus principais companheiros, durante toda a minha estadia na bela cidade de NICE, a capital da "Côte d`Azur".
Ficaram para recordar, os nossos passeios na Promenade des Anglais, os " marrons-glacés ", da esplanada em frente ao NEGRESCO, o mais célebre Grand Hotel da Riviera francesa, o dia em que vimos Brigitte Bardot, a entrar no mesmo, as nossas imensas visitas à magia do celebérrimo MUSÉE HENRI MATISSE,o dia em que, tivemos de arranjar à pressa, uma vestimenta mais clássica, para irmos ver JULIETTE GRÉCO a Montecarlo, que alcançamos, em pouco menos de uma hora, num 2CV alugado, e as aulas soberbas , de alguns professores na moderna UNIVERSITÉ DE NICE.
Anos mais tarde, em Upsalla, na Suécia, encontrámo-nos os três, na sala acolhedora de Per, e passámos uma noite à lareira, até às sete da manhã, revivendo esses momentos inolvidáveis. Ada, a nossa doce amiga "calabrese", já passou para a dimensão do espírito. Há cerca de quatro anos, um terrível acidente de viação, nos arredores da cidade de Bari, roubou-lhe o soberbo brilho do seu olhar, e a sua contagiante alegria de viver. Coisas do nosso insondável destino. Por ela, eu, o Per, e a irmã de Ada, já nos abraçamos e choramos, junto à sua morada eterna, no Cemitério de Reggio Calabria, no sul de Itália. Oh Ada, " tante grazie", pela tua amizade, pelo teu humor, pela bela companhia que foste, ao longo destes anos...
No ultimo HermanSic, onde também estive ,no ano transacto, como artista convidada, JOÃO FERREIRA ROSA, veio homenagear outro enorme cantador de Fado, que o destino levou, no Verão da Vida- CARLOS ZEL, que tive a honra de conhecer pessoalmete. João Ferreira Rosa, é um dos fadistas míticos da cena artística portuguesa, homem de fortes convicções, duma pureza de espírito, que só os grandes possuem. E falou de Portugal. Com propriedade e sem artifícios. Falou sobre a Republica, e aquilo que ela nos trouxe, desde 1910. Classificou os sucessivos governos de incompetentes, de ladrões, de bando de malfeitores. Referiu-se, sem preocupações do "politicamente correcto", ao despesismo das sucessivas eleições presidênciais. Exaltou a Monarquia. Pelo sentido de pertença, pela nacionalidade, pelo seu sentido moral. E dei por mim, a pensar, nas palavras, politicamente incorrectas, do meu colega João Ferreira Rosa ( permita-me ,e dê-me a honra de assim o tratar !). Essas palavras, encontraram um eco insuspeitado dentro de mim, encontraram um caminho fechado para uma argumentação válida, no sentido oposto. Dei por mim, a "ver" a auto-estima que os espanhois possuem, dei por mim, a observar com maior acuidade, as vivências dos países monárquicos da Europa. Dei por mim, a constatar que, todos nós precisamos duma relação emotiva, de amizade, com aqueles que nos representam. E realmente , a Republica, não nos pode facultar essa matriz...Não sei não, mas a minha desconhecida costela monárquica, parece estar a (re)nascer. Será ?
Esta pequena "estória", remonta ao inicio dos anos noventa. Encontrava-me no Libano, e à noite, num quarto de Hotel , em Beirute, tentava adormecer ao som dum programa da Televisão local, que transmitia um concerto de uma das grandes divas da musica árabe, a celebérrima cantora libanesa FAIROUZ, uma autêntica instituição naquele país. Subitamente, os meus ouvidos detectaram uma melodia ,que me era muito familiar, "travestida" por uma orquestração típicamente árabe, mas que não deixava margem para dúvidas. A orquestra de Fairouz, entoava as primeiras notas do Fado "Coimbra" ( Abril em Portugal). Dei um salto da cama, aproximei-me do televisor, incrédula. A cantora , pronunciava umas palavras no seu idioma, que para mim eram imperceptíveis. De todo o discurso, consegui perceber, as palavras " Portugal " , e " Amália Rodrigues ". A cantora inicia a canção, numa versão em árabe, e para meu espanto, chegada ao refrão, o publico acampanha-a num " lá-lá-lá " delicioso. Eu sabia que Amália Rodrigues, era muito conhecida no Líbano, e que , havia sido agraciada, nos anos setenta, com a "Ordem dos Cedros do Libano", a condecoração máxima do governo daquele país. Contudo, estando eu ali, tão longe, e ouvir a vedeta máxima daquelas paragens, interpretando uma canção tão portuguesa, fez-me tombar num pranto quase convulsivo. Visto à distância, parece-me até ridicula a minha reacção. Mas foi o que aconteceu, ao ouvir aquela melodia de Raul Ferrão, porventura a mais internacional do nosso país, e por certo a mais cantada. Vem todas estas recordações, a propósito dum fabuloso disco, intitulado " Coimbra " , editado pela "Tradisom", que reune 24 interpretações do "recantado" tema, por artistas das mais variadas proveniências e estilos, de Amália a Louis Armstrong, passando por Caetano Veloso, Yvette Giraud ou Vic Damone. Ouvido o disco, quiz contar a José Moças, o homem da "Tradisom", responsável pela edição, este episódio. Curiosamente, eu não lhe estava a dar novidade nenhuma. Ele sabia da existência dessa versão da diva libanesa, mas não havia conseguido a sua inclusão neste disco. Amália Rodrigues, curiosamente, nesta compilação, interpreta uma versão italiana, do velho fado " Coimbra ", gravado num album de 1974, para o mercado italiano. Uma preciosidade a não perder.
TODOS OS DIAS OS MEUS OLHOS POUSAVAM NESTAS OBRAS DE ARTE
Em quase todas as cidades, há uma rua emblemática, porém Perugia, na Umbria Italiana, onde frequentei os dois primeiros anos de Universidade, existe uma rua, que constitui uma autêntica montra da vida social da cidade. Para alcançá-la, era necessário passar debaixo duma arcada etrusca, subiamos uma rampa, e virando à direita, lá estava o CORSO VANNUCCI, sumptuoso, com um só sentido automóvel, cheio de bares, trattorie, pequenas esplanadas, lojas famosas de grandes costureiros, o Teatro, e lá no fim, a Fontana Maggiore e a Catedral, o DUOMO,com seus interiores parcamente iluminados,que estranhamente, todos os domingos, me impelia à célebre Missa do Meio Dia, momento esse indispensável para mim, pela envolvência do interior da Catedral, pela Arte, pelo italiano cantado do padre, pelas pessoas que enchiam a igreja, todas muito bem vestidas, que no final do ritual , enchiam as esplanadas , com a sua alegria ruidosa, tipicamente italiana. Nunca saberei porque, religiosamente, a minha presença nessa Missa me era tão cara. ( Regressada a Portugal, tenho assistido, muito poucas vezes a uma missa, a ultima a que me lembro de ter ido, foi em memória de Amália ! )
Perugia, é uma cidade próspera, cheia de gente parecendo sair dum desfile de Valentino, com seus Ferraris, Alfas Romeos e Maseratti topos de gama, estacionados aqui e ali. E depois há a população estudantil, bastante numerosa, a maioria , vinda doutros pontos de Itália e do estrangeiro, que empresta um colorido especial às esplanadas do Corso Vannucci, que por entre um gellatto e uma amena cavaqueira, passam assim os seus finais de tarde. Junto à Fontana Maggiore, ou numa esplanada, não era raro vermos, um grupo de estudantes, cantando melodias italianas, à volta dum tocador de guitarra. Os estrangeiros, puxavam os galões do seu orgulho patriótico, e cantavam temas dos seus países de origem, sendo aqueles convívios, autenticos espectáculos de World Music, onde eu, também não faltava com um Fado ou dois, sobretudo depois de havermos assistido a um recital de Amália no Teatro da cidade. Tinha eu 17 anos, quando vi Amália pela primeira vez. Foi quando me senti "vedeta", junto dos meus colegas, que entusiásticamente, me faziam perguntas curiosas e interessadas sobre Amália, " e la sua musica strana". Afinal, eu era a unica alma lusa, em toda a Universidade. Quando alguém decidia, meter uma moeda no juke box do bar da Faculdade, que incluia um single em vinil, com o "Barco Negro" e o "Il mare é amico mio", havia sempre alguém que me pedia a tradução daquela musica "strana" ,que tinha o titulo de Barco Negro. Como recordo, os momentos em que tive a sorte de ver, saindo dum bonito hotel de fim de século, rodeados de jornalistas e fotógrafos, figuras do meu imaginário, como Sophia Loren, Elton John, Mina, e a propria Amália, no dia seguinte ao seu concerto. Belos tempos ,os da minha "giovinnezza". Apesar dos pesares....
...O SENHOR É CONVOSCO,BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES, BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE, JESUS. SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR NÓS PECADORES, AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE, AMEN.
13 DE MAIO- Uma data feliz para Portugal. Fátima, é um dos chakras da Humanidade. Vendo os peregrinos de Fátima, chego à conclusão que, nada está perdido, para este Portugal. O Mistério de Fátima, é a prova cabal de que o Homem, tem um caminho espiritual a percorrer. E fico tão feliz, ao ver nos rostos dos peregrinos, a Fé, estampada nas suas almas. Não importa que na India,as preces sejam para Buda ou Sheeva, que no Brasil sejam para Iémanjá, ou que em Meca, sejam para Maomet, profeta de Allah. Ou ainda , que numa qualquer tribo da América Latina profunda, sejam para a divindade da Lua. Não existem razões válidas para duvidarmos de Fátima. Nossa Senhora, Mãe Suprema, Espirito de Luz, desceu à Terra naquele 13 de Maio, e escolheu para protagonistas, três almas puras. O melhor que existe em cada um de nós, está na fé daqueles pastorinhos, verdadeiros herois do Portugal do século XX. No fundo, todos nós somos os seus pastorinhos. Todos nós possuimos, se quizermos, a pureza de espirito, o sentido da solidariedade, a alegria da Paz.Cabe pois, às novas gerações, esquecer as truculências das Religiões instituídas no planeta, para, finalmente, vivermos a Fé. Na sua essência. Essa, sim, indestructível nos corações dos Homens de Boa Vontade.
MEU AMOR É MARINHEIRO
E MORA NO ALTO MAR
SEUS BRAÇOS ,SÃO COMO O VENTO
NINGUÉM OS PODE AMARRAR
QUANDO CHEGA À MINHA BEIRA
TODO O MEU SANGUE É UM RIO
ONDE O MEU AMOR APORTA
SEU CORAÇÃO - UM NAVIO
MEU AMOR DISSE QUE EU TINHA
NA BOCA UM GOSTO A SAUDADE
E UNS CABELOS ONDE NASCEM
OS VENTOS ,E A LIBERDADE
MEU AMOR É MARINHEIRO
QUANDO CHEGA À MINHA BEIRA
ACENDE UM CRAVO NA BOCA
E CANTA DESTA MANEIRA
EU VIVO, LÁ LONGE, LONGE
ONDE MORAM OS NAVIOS
MAS UM DIA HEI-DE VOLTAR
ÀS ÁGUAS DOS NOSSOS RIOS
HEI-DE PASSAR NAS CIDADES
COMO O VENTO NAS AREIAS
E ABRIR TODAS AS JANELAS
E ABRIR TODAS AS CADEIAS
ASSIM FALOU MEU AMOR
ASSIM FALOU-ME ELE UM DIA
DESDE ENTÃO EU VIVO À ESPERA
QUE VOLTE, COMO DIZIA.
Poema de MANUEL ALEGRE,escrito para Amália Rodrigues, musicado por Alain Oulman.
Interpretado por Amália Rodrigues, no album de originais, " Cantigas numa Lingua Antiga ", de 1977, EMI- Valentim de Carvalho.
No dia de hoje o POETA cumpre mais um aniversário. Os meus votos de longa vida, e de muita felicidade. Parabens, Manuel Alegre. Obrigada por existires.
Havia pisado de novo, o aeroporto de Maiquetia. Desta vez, os meus tios e primos, tinham vindo receber-me ao Aeroporto Internacional de CARACAS. Deslocava-me pela enésima vez, àquele país sul-americano, desta feita, com uma colega, artista natural do Barreiro, a castiça fadista, Daniela Maria. Tinhamos agendados alguns espectáculos na capital bolivariana, para além de alguns convites de Centros Portugueses em Toromo, Maracay e Barquisimeto. Não podiamos também faltar, ao restaurante Auto Rancho de Caracas, que até tinha o luxo de possuir uma fadista residente, e dois guitarristas, a tempo inteiro, local muito "in" da capital venezuelana. Lá para o final da digressão, recebemos um convite dum conhecido "night-club", da Avenida Francisco Miranda, o " El Palacio Imperial ", um verdadeiro LIDO , à escala latino-americana, com um grupo de bailarinas, e uma pequena orquestra. Tudo muito AZUCAR, cheio de merengues e salsas, mas muito profissional, desde a qualidade dos camarins, ao serviço de cocktails, com uma clientela sofisticada, de naturais, e alguns ( pouquíssimos) turistas.
Como estávamos, eu e a Daniela Maria, hospedadas num hotel em Altamira, chamamos um táxi, e de sacola ao ombro, lá rumamos nós, no banco de trás duma banheira de fabrico americano, toda chinca-choça, de estofos rotos, uma porta metida a dentro que não abria, e um capot de cor diferente do resto do veículo, tudo muito condizente, com o retrato característico duma metropole sul-americana.
Iamos a meio da viagem quando, a minha colega interpelou-me ,a propósito do contéudo da nossa sacola, advertindo-me - "Oxalá não te tenhas esquecido do secador, sempre fazia jeito p`ra dar um jeitinho ao cabelo, com a escova." Acto contínuo, peguei na mala, abri-a,e apalpando o seu interior, lá dei com o secador de viagem, retirei-o, e empunhando-o na minha mão direita, mostrei-o à Daniela. Num ápice, o táxi trava violentamente no meio da estrada, eu e a minha colega, somos impelidas para a frente, batendo com a cabeça nos encostos dos bancos dianteiros, e quando olhamos para a frente, ainda vimos o nosso "taxi-driver", correndo desalmadamente, pela rua acima, o táxi parado a meio da via, de porta aberta, e nós, incrédulas, completamente parvas com a situação. Ainda dentro do táxi, gritamos - " Señor, por favor pare, que pasa con usted?" Como um raio de luz, e numa fracção de segundos, olhando para a minha mão, que ainda empunhava o bendito secador, a minha mente iluminou-se ! O secador era preto, pequeno, era noite, o homem se calhar pensou que era outra coisa. Saí do táxi, e mostrando o secador ao homem, aos gritos berrei- " Señor, por favor, esto es un secador de pelo. Por favor mire, mire ! " Já a uma considerável distância, o homem olha para trás, verifica porventura a veracidade do que lhe estou a gritar, e pouco a pouco, a medo,e muito lentamente retorna ao carro, olhando fixamente o secador. Por fim, a criatura viu que se havia enganado, rimos imenso, e lá andámos até o nosso destino, com o nosso motorista de táxi, a contar-nos episódios de " atracos", feitos por homens, mulheres, adolescentes...
Acabámos por fazer do nosso "chauffeur" de ocasião, nosso convidado especial no " El Palacio Imperial ", e em cena aberta, entre uma canção e um fado, contei aos presentes, a aventura de duas fadistas portuguesas, que, em plena Caracas, meteram tanto medo a um motorista de táxi, ao ponto dele fugir,e abandonar o seu instrumento de trabalho.
Foi um verdadeiro momento de humor e boa disposição. A verdade é que, sendo Caracas, uma das mais inseguras capitais do mundo, nunca fui, por graça Divina, vítima de violência ; todavia, cometi a proeza de assustar visceralmente um venezuelano de 54 anos, táxista há longo tempo, e habituado às vicissitudes da insegurança vigente na sua cidade.
Regressei a Portugal, interrogando-me, se não teria tido mais sucesso numa vida de "fora-da-lei", tal o " talento" que tive, em inadvertidamente, haver convencido alguém de que ,eu era , uma potencial agente do crime !? Há cá cada uma.... AHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHHA !!!
Numa das muitas memoráveis noites de tertúlia, que tive o prazer de passar em casa de AMÁLIA , a DIVA contou aos presentes, um episódio, que lhe fora narrado por António Ferro, envolvendo a própria Amália, a violoncelista Guilhermina Suggia, e o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar.
No fim da guerra espanhola, o Generalíssimo Franco, nomeou um novo Ministro dos Negócios Estrangeiros. Na sua primeira visita a Portugal, Salazar quiz agradar ao novo ministro, e incumbiu António Ferro ,de organizar uma festa em sua homenagem, no S. Carlos, fazendo questão, que se convidasse a melhor "prata da casa"- Amália Rodrigues, Guilhermina Suggia, e o grupo folclórico Verde Gaio. Na véspera do evento, António Ferro, embaraçado, confrontou Salazar, com o facto ,de Guilhermina Suggia exigir 40 contos, pela sua actuação. Salazar, pensativo, retorquiu: " Realmente, 40 contos por meia hora, se tanto, é puxado". E continuou: "Olhe lá ó Ferro, você sabe tocar rabeca ? " António Ferro, atónito, abanou a cabeça. Salazar adiantou: " Eu também não ! Não há outro remédio senão pagar-lhe os 40 contos. E a Amália, aceitou a nossa proposta ?" Ferro ,disse que sim. Salazar rematou: " A Amália é boa rapariga !"
Passagem para Aman (1)- Ver Arquivo, 13 de Novembro de 2003.
Havia actuado numa conferência para universitários jordanos. Georges Moustaki fora vedeta. A minha presença devia-se unicamente ao facto, de haver sido voluntária num campo de refugiados palestinianos,e claro está, de pertencer ao Comité Francês para a Libertação da Palestina. É na Jordânia onde existem um maior numero de refugiados palestinianos. Mais de 50% da população é de origem palestiniana. É também um país islamico, com uma saudável convivência com o Ocidente. Afinal, a Jordânia teve uma Rainha americana. Com tudo o que daí pode advir. Existe, claro está, uma vivência tradicionalista, sem contudo se cair nos exageros "talibânicos". Não há porém, a tentação de se imitar as democracias ocidentais. Essa fórmula, não cabe na quadratura sociológica das civilizações árabes. Só quem não conheça o mundo árabe, é que pode gratuitamente, querer que sejam implantadas democracias do tipo europeu. O que não significa ,que se deva apoiar ditaduras. Não vislumbro para um futuro próximo, a separação total, entre a crença religiosa e o Estado. Mesmo sendo o Estado laico, este não poderá ( nem deverá) ignorar a religião. Sob pena de simplesmente, os governos não funcionarem.
Na penultima noite da minha estada em Aman, foi-nos sugerido, conhecermos a animação cultural da cidade. E segundo os nossos anfitriões, tinhamos uma bela oportunidade de assistir a um recital de uma diva, que apesar de ser natural da Argélia, houvera-se tornado numa vedeta muito respeitada, em todo o mundo árabe. Milhões de discos vendidos, concertos esgotados desde a sua terra natal ao Qatar, e até o Olympia de Paris já a havia consagrado vedeta do music hall árabe. Aceitamos, entusiamados, a sugestão.
A sala estava repleta de homens e mulheres, vestidos sumptuosamente com trajes de cerimónia. As mulheres então, eram duma sofisticação incrível, algumas com véus transparentes, debroados a ouro ou prata. Um autêntico cenário das mil e uma noites. No palco, sem qualquer apresentação surge-nos uma orquestra com vários alaúdes, um piano, vários violinos, instrumentos de percussão, entoando uma lenta melodia. Silêncio absoluto. A harmonia da musica árabe é qualquer coisa de transcendente. Mil imagens perspassam o meu espírito. Georges Moustaki, a dois lugares afastado de mim, está em transe. De olhos fechados. Sem que possamos adivinhar, surge-nos a voz de W A R D A. Velada. Um foco de luz ilumina uma bela mulher, vestida de rôxo, que avança lentamente para a boca de cena. A voz ,torna-se pouco a pouco ,vibrante. Forte. Requebrada. O requebro vai do grave ao agudo, duma forma a que a composição musical ocidental, desconhece o caminho. Depois há um grito. Como que movidos por uma mola, a plateia levanta-se em furor. Aplaude. Lança palavras que não entendo. A voz torna-se doce, vai devagar percorrendo um caminho descendente, até terminar num sussurro. A cançâo termina. Novamente a plateia é invadida por uma corrente eléctrica, que as impele ao aplauso. Há mulheres que choram. Há homens que abençoam a cantora em nome de Allah. O delírio. E nós, atordoados, olhamo-nos e olhamos aquela mulher- majestade, que agradece silenciosamente. O espectáculo foi todo assim. A cantora, ao efectuar uma variação melismática, era sempre interrompida pelos gritos e aplausos da assistência. Passada a surpresa, nós também já pareciamos pertencer àquela cultura. No fim, o respeito da diva para com a diva maior. Percebo que anuncia que vai cantar um tema de OUM KOULTHOUM, a diva das divas, a mãe de todos os cantores árabes ( Ver por favor a minha crónica sobre Oum Koulthoum, no Arquivo de 21 de Setembro de 2003).
A voz entoa "Al Atlal" da diva das divas. Warda, é interrompida pelos aplausos ainda mais delirantes. Há quem se ajoelhe, e agradeça a Allah a benção de ouvir uma canção da DIVA DAS DIVAS. E, surpreendentemente, no fim ,há o silêncio. Absoluto. Intemporal. Percebo que Warda reza por Oum Koulthoum. Fecha-se o pano. A orquestra entoa baixinho o refrão da ultima melodia. Warda desaparece de cena. Sem aplausos. O recital terminou. Não fomos capazes de nos levantarmos da poltrona. Ficamos ali, como que a digerir o que houveramos presenciado. Moustaki olhou para mim, e sentenciou: " Acabamos de assistir a um momento mágico." Eu, só pude esboçar um sorriso.
Não poderiamos ter comemorado o 1º de Maio, se não fossem os herois de Abril. Este, é o meu heroi favorito. Escrevi-lhe, há uns anos, um Fado. Ei-lo:
TRAZ A TUA FORÇA, AMIGO
TRAZ TAMBÉM O CORAÇÃO
QUE NÓS ESTAMOS CONTIGO
P`RA CUMPRIR A REVOLUÇÃO
TRAZ TAMBÉM TEUS OLHOS VERDES
LUZ DUMA ESPERANÇA CALADA
TRAZ TAMBÉM A TUA AURA
DE HOMEM PURO, MADRUGADA
MEU AMOR, LIVRO DE HISTÓRIA
NOBRE RAIZ DE IMBONDEIRO
TRAZES NO FUNDO DO PEITO
O GRITO DA LIBERDADE, SALGUEIRO
MAIA, DUM MAIO MADURO
FRUTO DE ABRIL CONQUISTADO
MAIA, PASSO DE CORAGEM
DUM PORTUGAL BEM FADADO.
(Letra e Musica- Valéria Mendez)
Na minha mala, quase de cartão, viajaram comigo uma mão cheia de "masters" de playbacks instrumentais, ( artista pobre não tem direito a musicos ao vivo !) outra mão cheia de "slides" fotográficos de nomes sonantes da nossa terra, Amália, Zeca Afonso, Ary, David Mourão-Ferreira,Manuel Alegre, Salgueiro Maia, etc, e uma grande fotografia da manhã de Abril, mostrando os soldados "valerosos" ,empunhando as suas espingardas, com cravos vermelhos em riste. Uma imagem que por si só, descreve o nosso Abril, sem necessitar de grandes prosas.
A viagem, essa, era-me já muito familiar. Caracas estava igual a si mesma. Flamejante, descoordenada, apaixonada, plena de vida. Agora, muito mais em polvorosa, devido ao momento político que atravessa. O meu concerto, numa Universidade privada, seria uma forma ,e a minha oportunidade, de falar e cantar o Abril Português...A Revolução. A sala estava repleta de estudantes da área do Direito, das Literaturas, da História, das Filosofias e Sociologias. Gente jovem, na maioria habitantes da cidade de Caracas, mas também muitos colombianos, radicados na Venezuela. Alguns luso-descendentes ( muito poucos), também. Na véspera ,eu havia "conferenciado" com o unico técnico de som/ iluminação/ multimédia , que me era destinado. Havia combinado com ele, a projecção dos slides, à medida que o espectáculo ia avançando. O alinhamento estava feito, e agora, era só desejar-me a mim própria ,"muita merda",e avante ! Para tentar fazer uma certa pedagogia, começo o recital com um poema de Manuel Alegre. Falei que havia sido escrito no tempo da ditadura. "Pergunto, ao vento que passa/ Notícias do meu país / O vento cala a desgraça / O vento, nada me diz...No grande écran uma imagem de Manuel Alegre. Outros trechos se lhe seguiram, sempre com a mesma linha de apresentação. No palco, e no écran, desfilaram poemas e musicas do Portugal Liberto. A ante-penultima canção, falava de Salgueiro Maia. A sua imagem surgiu à plateia, a preto e branco, aquele homem lindo, corajoso, que encarna na perfeição, o nosso Abril . Umas breves palavras, antecederam a interpretação do Fado Salgueiro Maia, de minha autoria. Lembrei-me do filme de Maria de Medeiros, e falei-lhes dele. Um forte aplauso encheu a sala. Eram palmas, não para mim, mas para o capitão de Abril. O penultimo trecho, como não podia deixar de ser, foi para Amália. No grande écran desfilaram algumas fotografias da Diva de Portugal. Pelos aplausos imediatos, verificava-se que a maior parte dos presentes ,sabia de quem se tratava. Viria a ter de cantar um "encore" no final, a pedido do publico. O Fado "Coimbra", popularizado pela cantora. Agradeci a Deus, o facto de ter levado comigo o playback instrumental do tema. E agradeci também ao técnico, o facto de não se ter enganado no CD. Felizmente. Detesto esse tipo de "barracas". A ultima canção do alinhamento, foi porém, o ponto mais emocionante da tarde. Foi colocada no plasma, uma foto de Zeca Afonso,e mesmo ao lado, a transcrição em português de Grândola Vila Morena. Pedi-lhes para cantar. E tive mesmo de, por momentos, parar de cantar, só para ouvir a "Grândola", entoada por cerca de quinhentos estudantes sul-americanos, que de Portugal, sabiam bem pouco. Borrei o raio do rimel. "Bolas, p`ra que fui eu `mascarar-me`?", pensava eu, ao terminar o refrão do hino de Abril. No final, muita gente quiz falar comigo, queriam saber ainda mais sobre aquele Abril tão lindo. Um colombiano, a quem a guerra entre as FARC e o Estado, havia-lhe roubado um irmão, apertou-me a mão, e disse-me esta frase, que por si só, valeu a minha viagem ao continente sul-americano. "Que bonito fue la revolucion de su pais. Sin plantos de sangre. A nosotros, nos falta esa humanidad !"
E lá vim eu, toda orgulhosa, toda feliz, por ter no meu passaporte, a palavra Portugal. O Portugal de Abril. O Portugal de Salgueiro Maia. O Portugal da Liberdade. Por isso, a luta continua.Para que não desmereçamos a coragem dos herois de Abril. Para que Abril se cumpra ...