março 28, 2004

março 27, 2004

Permitam-me que homenageie um dos madeirenses mais importantes, dos ultimos 50 anos. ( Transcrição dum artigo publicado hoje, no Diário de Notícias/Madeira)

A morte,essa terrível e inefável fronteira, não cessa de nos surpreender e magoar. A notícia da passagem do Dr. José Maria Silva deixou-me triste. Não há muito tempo, havia-me cruzado com ele,e tivemos uma conversa breve. Parecera-me bem, o Dr. José Maria Silva, sempre motivado para as questões culturais, sempre inovador nas ideias, vibrante no seu discurso. Foi, durante anos, a unica personalidade, que tirou a Madeira do marasmo cultural. Os sucessivos eventos, a partir dos anos oitenta, que emprestaram à Madeira, um brilho especial, fizeram fervilhar de emoções e motivaram os madeirenses, para um "mundo" até aí inatingível para muitos, são inultrapassáveis. Não fora o Dr. José Maria Silva, muitas vezes acusado pelos velhos do Restelo locais, de megalómeno; os madeirenses nunca teriam tido oportunidade de ver ao vivo, um John Cage, uma Amália Rodrigues, ou os melhores grupos de Ballet da Russia. A abrangência da actividade de José Maria Slva, prova-nos a sua inteligência e sensibilidade superiores, trazendo também à Madeira, paralelamente com nomes sonantes da musica erudita, por exemplo, a Companhia de Teatro da saudosa Ivone Silva. O que sempre foi constante, na actividade do conhecido advogado e agente cultural, foi a extrema qualidade das suas realizações,e a preocupação de fazer chegar "cultura ",a um publico alargado, e não elitista. O ecletismo do Cine-Forum prova-o. Esse olhar atento, essa superior visão, olhava também para os artistas e "fazedores de cultura " regionais. O agente cultural José Maria Silva, era sobretudo um homem atento. Nunca poderei agradecer-lhe, a visibilidade que me proporcionou, como artista na área do Fado e da Canção Poética. Nunca poderei agradecer-lhe as oportunidades que me facultou, ao inserir, por exemplo, o meu nome, num " Festival de Outono", e ter a honra de aparecer nos cartazes do evento, ao lado dum Carlos do Carmo...Como madeirense, como artista natural e residente numa Região , que por vezes ignora os seus valores culturais, quero aqui deixar uma sentida homenagem a um dos homens mais importantes da Madeira, dos ultimos cinquenta anos. E sobretudo, o meu obrigada, por ter dado à Madeira um protagonismo e uma vivência, que, sem ele, teria muito menos luz. Um muito obrigada também, pelo facto de não ter sido autista perante os valores regionais, que apoiou e tornou visíveis, entre os quais, humildemente, me incluo. Que nessa vida paralela, onde se encontra, possa o Dr. José Maria Silva ,atingir a Paz. Porque a sua memória, terá sempre um lugar no meu altar de emoções. (Valéria Mendez)

Publicado por Valéria Mendez em 01:54 PM | Comentários (0)

março 24, 2004

"Mais do que um crime, foi um acto de estupidez"- afirma Uri Avnery, famoso escritor israelita.

É este o titulo de um texto, editado no site do Al Fatah- ALAQSA INTIFADA.org, assinado por um proeminente escritor judeu- Uri Avnery, reportando-se ao assassinato do lider espiritual do Hamas ,Sheikh Yassin. Que poderei eu acrescentar ? Agora, passou-se a ter no conflito israelo-palestiniano, o factor religioso, até agora completamente alheio. Uma situação, que poderia ter ainda, uma solução pacífica, de cariz político, passa a ter uma conotação perigosamente religiosa, numa parte do mundo,onde os lideres espirituais assumem um papel preponderante, na mente e nas acções dos povos. Aliás, se formos "espiolhar", as razões do assassinato de Ytzak Rabin, perpetrado por um judeu, chegaremos à conclusão lógica,e ao mesmo tempo aterradora: Os mesmos que mataram o político judeu ,que estava a alcançar um êxito sem precedentes,na resolução pacífica do problema, são precisamente aqueles que tiraram a vida a Yassin. Os motivos são por demais evidentes. A "intelligentsia" do Likud, demonstra assim, ser tanto ou mais fundamentalista que o próprio Hamas. Resta-me só dizer isto : Se eu fosse palestiniana, precisamente com a idade que tenho, e tivesse vivido toda a repressão, toda a "roubalheira" que os colonos judeus efectuaram nas aldeias palestinas, presenciado a ignomínia de ver os meus pais mortos, só porque estavam dentro da sua casa,e tivesse visto (como vi !) as costas de um menino, completamente esfaceladas com um ferro em brasa,castigo esse infligido pelos soldados israelitas, pelo crime de atirar pedras do alto dum muro, e tivesse chorado ( como chorei !),pela morte doutro menino sonhador, que estava no local errado,na hora errada; então creio que ,neste momento, estaria já imaginando-me, embrulhada em explosivos, num sitio qualquer de Tel Aviv, rebentando com uma data de judeus, para que sentissem na carne, e no mais profundo da alma, tudo aquilo que me haviam feito sentir. E eu não sou terrorista. Sou pacifista. Activista duma Causa. Imaginem só, se não o fosse !

Publicado por Valéria Mendez em 12:59 AM | Comentários (15)

março 22, 2004

O MEU CENTÉSIMO POST.

Neste blog de vivências pessoais, não houve até agora (só por ignorância informática! ), links, fotos, ilustrações ou design. Houve pura e simplesmente, a palavra escrita. Foram cem textos, crónicas de coisas vividas, opiniões e análises pessoais, que por si só, conseguiram uma proeza (de que não me sinto,de todo, merecedora)- Conseguir que alguém lesse, e se interessasse pelo que escrevi. Quando iniciei por brincadeira, esta página cibernética, nunca me passou pela cabeça, ter a quantidade de visitas que tive até hoje, e sobretudo, ter encontrado Amigos que, não os conhecendo pessoalmente, os sinto como tal. Um Muito Obrigada ,por se darem ao trabalho de "me visitarem", nesta "minha-vossa" casa.

Publicado por Valéria Mendez em 03:46 AM | Comentários (14)

março 15, 2004

Nuestros hermanos sabem dar lições...

Pois é. As eleições espanholas demonstraram uma coisa.Que a democracia funciona. Finalmente, começa-se a respirar um pouco melhor na Península Ibérica. Os soldados castelhanos no Iraque, vão regressar ao sítio de onde nunca deveriam ter saído. Força ZAPATERO! ARRIBA ESPAÑA !!! ( Agora fica o chernezinho sózinho. Que pena!)

Publicado por Valéria Mendez em 11:25 AM | Comentários (18)

março 14, 2004

Diva de Espanha

O Povo revê-se nos seus mitos. Uma maneira de homenajear todo um povo, é ouvir os seus cantores máximos. Espanha produziu no século XX, vários grandes nomes da Musica. Entre eles, está uma Diva. Uma mulher, que se tornou um mito vivo ,na Europa e América Latina. Na Holanda, os seus recitais enchem teatros.Na América Latina, a sua Voz é sinónimo de paixão. Vendeu, nos seus quase cinquenta anos de carreira, milhões de discos. Juan Manuel Serrat, Carlos Cano e outros grandes autores, compuseram para Ela, canções, que se tornaram verdadeiros hinos hispanos. Tive o prazer de, em 1989, na cidade de Caracas, Venezuela, haver assistido a um concerto desta maravilhosa Diva, que se tornou num ícone incontornável para Espanha e toda a América Latina. O seu nome é MARIA DOLORES PRADERA . Ouvindo a sua Voz, revisito esses momentos de Arte , que Maria Dolores Pradera me proporcionou. Nestes dias, tenho-a ouvido muito. Numa Rádio local, falei dela e da sua Arte Maior. Foi um singelo tributo ao povo espanhol, que hoje, sofre as incongruências das decisões de alguns. "No te mires en el rio..." , canta Maria Dolores Pradera, enquanto escrevo este pequeno texto. Y VIVA ESPAÑA!

Publicado por Valéria Mendez em 05:20 PM | Comentários (8)

março 13, 2004

Fundamentalismos p`ra todos os gostos e feitios...

O amigo Francisco Nunes, do PLANICIE HERÓICA da Weblog.com.pt, escreve no seu post de 13 de Março, uma coisa que verdadeiramente temos de conscientizar-nos, de uma vez por todas. As Religiões, são no seu todo, fundamentalistas e castradoras, umas mais ,outras menos, outras mais incisivas em determinados aspectos do viver, outras menos carcereiras dos sentires humanos. Não direi, isso não, que todas não almejem o bem, como objectivo.Percorrem, é estradas viciadas, para atingirem esse bem. Por isso, o ser humano evoluído e pensante, acaba por absorver os ensinamentos positivos,e acaba por relegar para segundo plano, um certo folclore, de que os tais fundamentalistas não abdicam. Senão vejamos: Os Estados Unidos, são governados actualmente por um homem evangélico, de fervor conhecido, até porque segundo se diz, atribui à sua Fé , a sua regeneração de uma toxicodependência bastante alastrada na Humanidade. Esse mesmo Presidente, é o mesmo que acredita piamente no APOCALIPSE, e que permanecerão na Terra, apenas aqueles que lutarem contra todos os que não seguiram a Cristo, tal qual O Mesmo é "interpretado" ,pelo culto a que pertence. Conclusão- Existirá alguém que realce diferenças entre este fundamentalista e outros que pululam no mundo árabe? É TUDO UMA QUESTÃO DE BOM SENSO. O Papa João Paulo II, homem de Letras e de Humanismos reconhecidos, ressalta a posição da Igreja, face aos homossexuais , retirando-lhes , por via da sua definição sexual ( opção aqui é uma palavra descabida; não há ninguém ,creio eu, que se torne homossexual por opção! Não será propriamente o mesmo do que decidir-Pronto, vou inscrever-me no CDS/PP !), direitos inalienáveis a todo o ser humano. Alguém dirá que esta ,não é uma atitude fundamentalista ? Por isso, a evolução do Homem, passa por uma espiritualidade sem filiação, uma espiritualidade pura e nobre, com o respeito pelo outro e pela Natureza,e consequentemente pelo Cosmos. Um dia, encontrei numa India analfabeta duma zona montanhosa da Venezuela profunda, que assumia o papel de "bruja mayor" da aldeia, uma sabedoria fulgurante. Dela, extraí, estou convicta, ensinamentos muito mais abrangentes e humanistas, do que todos os dogmas de Fé das religiões "oficiais" do planeta. Dias virão ,espero, nem que seja daqui a muitas reencarnações, em que o Homem viverá em consonância com o seu proprio Elemento,e em diálogo aberto e respeitoso com as Forças da Natureza. Aí sim, será o Paraíso. Aí sim. Nenhum ser vivo pensante ousará decepar qualquer tronco. Seja ele qual fôr...

Publicado por Valéria Mendez em 02:43 AM | Comentários (11)

março 12, 2004

Porque raio teremos nós que suportar estas dores ?

Não há palavras, em todo o universo do sentir, que possam exprimir o meu sentimento. Sangue derramado, lágrimas vertidas, olhos fechados. Até quando, o mundo estará sujeito às consequências das acções de uns poucos ? Até quando estaremos nós à mercê da raiva ? Até quando se fomentará o ódio ? Porque não aprendem com a História Universal, os políticos das Nações ? Porque raio, teremos nós, que suportar estas dores ?

Publicado por Valéria Mendez em 02:55 AM | Comentários (10)

Na TV do PERU- Dois Fados e uma "cancion" ( 2 )

Chegara à minha vez. Depois duma apresentação, cheia de inexactidões, lá entro eu com "Ai Palestina", um Fado com letra minha. No final, os aplausos foram moderados. Expliquei, em Castelhano, que se tratava duma homenagem ao povo palestiniano. Notei que conheciam o problema, mas muito vagamente. Já quando se iniciaram os acordes de "Coimbra" (April In Portugal), notei uma maior atenção e interesse. Até consegui que trauteassem o refrão. As luzes diminuiram ,e foi interessante ,ver peruanos a se bambolearem lentamente ao som do Fado. Os aplausos foram mais significativos. Expliquei-lhes que se tratava dum tema, que se tornou num "hit" internacional da maior voz portuguesa do século XX - Amália Rodrigues. Finalizei com uma canção da Venezuela,da autoria do autor-compositor Simon Diaz, "Caballo Viejo". Aí sim, confesso que as coisas animaram. Muitos cantavam comigo a canção, que se tornou numa espécie de "Povo que lavas no rio", venezuelano, interpretado por muitos artistas. Depois dum aplauso mais prolongado, Raul Romeno, levou-me até um sofá,onde "conversámos" um pouco. Comecei por delicadamente corrigir o que ele tinha dito na apresentação. Que eu não vivia na Venezuela, e que Portugal, era o meu país de origem,e não Espanha. Ele ainda insistiu- " Però usted ha dicho que era portuguesa." Retorqui, delicadamente -" Si, por supuesto. Soy Portuguesa, de Portugal. No tiene nada que ver con España. Tenemos nuestro idioma,nuestra cultura ,nuestro gobierno", ao que prontamente, o galã rematou-" Ah si, claro. Estaba pensando en una region autonoma de España." Sorri. Achei que era melhor não continuar por aí. Falámos da grande comunidade de Portugueses na Venezuela, da minha causa, a Palestina, e de Amália Rodrigues, enquanto no plasma passavam várias fotos da Diva, que eu havia levado, enquanto se ouvia em fundo musical o "Coimbra", cantado pela Fadista. A grande surpresa da tarde, para mim, foi a actuação do proprio apresentador. Estava à espera dum cantor "pimba" à moda do Peru, mas deparei-me com uma espécie de Rui Veloso à peruana. Gostei. Muita influencia do folclore peruano, uma baladas muito bem concebidas, e sem sombra de dúvida, uma enorme aceitação por parte do publico... Estava " ultrapassado " o meu empenho profissional em Lima, a capital do misterioso Peru. Agora, iria fazer o que me havia impelido a aceitar o convite. No dia seguinte, troquei o "cinco" estrelas,por um hotel mais modesto, e juntamente com Nari e Juan Bello, começamos a planear a minha visita a Macchu Pichu. Mas, essa narrativa ,dará "pano para mangas", para um futuro post, neste mui humilde blog. O que me surpreendeu, ainda em relação à minha presença no " Dos a Quatro ", foi a notoriedade do programa em todo o Peru. Fartei-me de ser reconhecida. Nos restaurantes, nos hoteis, até dias depois na cidade de Cuzco, um vendedor ambulante, acercou-se de mim, perguntando-me se eu não havia cantado, há dias ,na Televisão. Enfim..."fartei-me" de ser "vedeta". Coitada de mim...Eu que sou exactamente o oposto. Nem sequer tenho dinheiro para me vestir como tal...

Publicado por Valéria Mendez em 01:16 AM | Comentários (1)

março 10, 2004

Aquilo que sou, não sei

Trata-se de mais uns pobres versos meus, que a Sandra de http://www.void.weblog.com.pt ( O Abismo Negro de Sonhos Esquecidos), teve a gentileza de editar. Mais uma vez, um obrigada sentido, e um bem hajam, a todos quantos fizerem o favor de os ler. ( Edição-9 de Março)

Publicado por Valéria Mendez em 04:06 AM | Comentários (4)

Na TV do PERU - Dois Fados e uma "cancion"( 1 )

Caracas ficara para trás. Acabara de aterrar em Lima. O convite havia surgido de forma espontânea, por meio dum Grupo Etnico-Musical Peruano, que havia actuado em Caracas, num dos espectáculos em que eu tinha participado. Eram estudantes universitários de visita à Venezuela, e fazia parte das suas actividades, divulgarem a musica folclórica Peruana. Eram uma espécie de embaixada cultural. Ficaram encantados com o Fado. Não o conheciam. Haviam dois rapazes, que se lembravam do nome de Amália Rodrigues, porque tinham "visto na Televisão por Cabo, num canal chileno, um excerto dum concerto da portuguesa, em Santiago, há largos anos." Os outros não sabiam o que era o Fado. Houve ainda , uma "chica" ,que se lembrava igualmente de Amália, mas acreditava que era espanhola e cantora de flamenco. Desfiz todo o engano. Meses depois, recebia um convite da TV do Peru, por intermédio desse grupo de universitários, desafiando-me para actuar com eles na Televisão. Aceitei. Eu nunca houvera estado nos domínios dos Incas. E tinha um sonho- Visitar Macchu Pichu ! ... Reconheci logo a Nari e o Juan Bello, na área das chegadas. Acenei-lhes. Abraçamo-nos longamente. Houveramos ficado amigos. Tinham sido longas, as nossas conversas em Caracas. A Nari, era india. Juan Bello também. Morenos, de baixa estatura, olhos muito negros, reluzentes.Cabelos longos. Cheios de vida. Sedentos da novidade. Eu estava feliz por revê-los. Eles também... Bom, "ustedes", caros leitores, nem podem imaginar o que é o trânsito em Lima. Juan Bello, no seu Toyota, fazia uma espécie de dança, para ultrapassar. Ninguém respeita sinais, muito menos os semáforos. Olham rápidamente,e avançam. Se alguém tenta passar, buzina-se...e pronto. Para mudar de faixa, é só meter o "focinho" do carro, buzinar muito, meter-se e zás! Cheguei ao Hotel, mesmo frente aos Estudios da Televisão, lívida. E eu que pensava haver visto o pior trânsito na Venezuela. Aqui era extra-pior. Uma coisa de doidos. O Hotel era razoável, um cinco estrelas, que na Europa, receberia provavelmente só quatro, do Organismo que tutela o Turismo. Era todavia muito moderno e bem decorado, tinha TV no quarto, e um Bar mesmo à entrada no Hall da recepção, um lounge e um restaurante. No quarto, combinámos tudo. Eu seria a convidada estrangeira do programa, com direito a cantar três canções. Antes de mim, actuaria o grupo universitário (uma espécie de Tuna),e depois, por entre concursos, telefonemas dos telespectadores e um Ballet Moderno,seria entrevistada pelo apresentador. No final, actuaria Raul Romeno, um cantor famoso do Peru, que era, nem mais nem menos, o apresentador do programa. Não estranhei. Afinal, em Portugal também se utilizava essa fórmula. Marco Paulo já teve um programa na RTP... No dia seguinte, aí pelas treze horas, a Nari,e desta vez um "Public Relations" da Televisão, vieram apanhar-me ao Hotel. Já havia comido qualquer coisita . Pouco. Não queria cantar de barriga cheia. O programa intitulava-se "Dos a Quatro",e era mesmo das 14 às 16 horas. Entrámos no Estudio, não sem antes, haver passado por uma "oficina"(escritório) para assinar uns "papeles", segundo me disseram. Fui muito bem tratada. Como uma vedeta. ( Bem me podiam pagar melhor. Duzentos dólares foi o meu cachet. Uma pequena fortuna, em "soles" peruanos. Claro que tinham tido as despesas da viagem + estadia-3 dias apenas.) Eram já 13.30. Entramos no recinto. Muitas bailarinas, muita côr, um cenário tipo "Big Show Sic" de João Baião. Na plateia, o publico, maioritáriamente jovem , dialogava descontraídamente. Havia uma espécie de confusão geral. Cabos pelo chão, anotadoras a fazerem perguntas aos berros, o realizador a gesticular para os camera, enfim...uma casa de doidos. Subitamente, o Public Relations, apresenta-me Raul Romeno. Um tipo "assim que sabe que é idolatrado pelas chicas". Sorriso rasgado. "Ah Usted es la cantante venezolana!" Comecei a suar frio. "No señor.Se equivoca.Soy Portuguesa, Valeria Mendez, como està usted?"-retorqui. "Ah si me desculpe.Valeria.Encantado.Raul." O galã olha para uma anotadora ,e grita-"Mira, donde està el perfil de Valeria?" A anotadora, correndo, aguentando os óculos com uma mão e acenando com uns cartões na outra-"Aqui están. Me Desculpe". Depois, arregala os olhos para mim,e diz-me: "Ah, Me desculpe.Usted està arreglada?", ao que respondi que sim. Talvez me faltassem uns retoques de make-up, mas já tinha vindo "vestida" do Hotel. Aos berros, chamou outra moça, que me arrastou para a maquilhagem. Faltavam cinco minutos para as 14 horas. Não houve ensaio de som, nem nada. Menos mal que seria acompanhada por um playback instrumental. Ao menos esse ,não falharia...Era a primeira vez que estava feliz, por não ser acompanhada ao vivo. ( Continua)

Publicado por Valéria Mendez em 03:31 AM | Comentários (2)

março 05, 2004

Mas que raio de surdez...neste mundo português !

Oh pá,que se lixe...Eu sei que posso perder muita coisa ,com opiniões expressas assim ,publicamente. Mas, a revolta é maior do que o medo(É que já tive uma participação televisiva recusada,porque uma cara jovem colega sentenciou- ou ela,a Valéria da Madeira, ou Eu !). Que raio de surdez atingiu estes jornalistas,estes editores de musica, que inundam os jornais, com artigos sobre o Fado Novo,o Fado inovado,o Fado Moderno. E depois vai-se a ver...e são versões dos Fados da Amália, principalmente,e depois um ou outro tema, de outros famosos nomes fadistas. Pego num disco,e vejo o "Perdigão",de Camões,o "Rosa Vermelha" do Ary, que Amália gravou em 77. Pego noutro ,e lá está o recantado" Barco Negro",e a recantada" Primavera" que Amália gravou, ainda jovem.Ainda outro,e lá está "Maria Lisboa" de David Mourão-Ferreira, e" Oiça lá ó senhor vinho",de Alberto Janes, dois temas ,de dois albuns-platina ,de Amália Rodrigues. Etc.Etc.Etc. Depois, olho as críticas dos Jornais,e leio,abismada, que se "tratam de jovens Fadistas que estão a inovar o Fado". Será que esses senhores sabem o que é inovar? Não será certamente, pegar numa mão cheia de CDs da Amália,e depois,escolher um ou dois temas de cada album, gravá-los, com a mesma orquestração,a mesma harmonia,o mesmo ritmo, até mesmo com uma interpretação "colada" à de Amália. Escusado será dizer que, mesmo que tenham uma voz excepcional,ficam sempre a perder pela comparação...Depois, é só dar um titulo ao album (esse sim,original, valha-nos isso! Graças a Deus.), e toca a editá-lo ! Nunca foi tão fácil gravar um disco de Fado. É só querer, e poder gastar dinheiro nas gravações e na edição; ou para aqueles que arranjaram máquina promocional, é só lançar o disco...e toca a inovar o Fado ! Meu Deus, em que estado está a Cultura do meu país ! Por um lado, somos inundados pelas rádios a tocarem os "Afinal havia outra" e "Nós Pimba", por outro os jovens fadistas, afirmam-se em Portugal e no estrangeiro,como inovadores, copiando fielmente,"coisas" que têm 30, 40 ou 50 anos. Bom...do mal ou menos. Sempre prefiro ouvir ,a Dra. Kátia Guerreiro a cantar o "Perdigão",e a Mariza a gritar a "Primavera". Ao menos, deleitamo-nos com as palavras dos poetas,e com as composições superiores de tipos como o Alain Oulman, Pedro Rodrigues, etc. Mas,como recentemente afirmei que, quando posso ter um Caravaggio, não preciso de uma falsificação, como possuo os CDs de Amália ,cantando os originais, dei o meu dinheiro por mal gasto, nos discos dessas minhas jovens colegas. Serviu-me de lição...É que penso, que se pode realmente recriar uma canção. António Variações, Dulce Pontes, Simone, Quinteto Amalia,Cidália Moreira,Camané,Mísia, até mesmo Carlos do Carmo, já recriaram canções de Amália. Fizeram-no com honestidade. Apontaram um novo caminho. Isso é que é Arte. O resto são ... (adjective o leitor,se puder.)

Publicado por Valéria Mendez em 03:51 AM | Comentários (9)

março 04, 2004

As minhas "curtes" artísticas (2) Um Fadista cantar DAVID SYLVIAN ? Só se for louco, insano,inconsequente( dir-me-ão alguns...)

Toda a primeira parte, serviu eventualmente ,para se entender a razão destas minhas "curtes loucas", em relação à musica. Uma delas, apresentei em directo e ao vivo, no ano transacto, num programa de televisão, recriando precisamente um trecho amaliano, com letra de Cecília Meirelles e musica de Alain Oulman, procurando fazer uma nova leitura, sem no entanto desrespeitar a essência. Fi-lo, creio eu, com honestidade. A minha "curte" actual, é a de poder passar para uma linguagem diferente, dois trechos de David Sylvian: Não vos direi quais. Não sei se resultará. Vou "criando" e produzindo em estudio esta nova abordagem, nunca realizada por algum artista português. Só poderei dizer que existirão elementos de guitarra clássica, que darão, juntamente com a minha interpretação, uma visão diferente ou "louca", de duas das composições, do conhecido "cantautor". A razão da minha demência? -Encontrei paralelismos interessantes ,face aos espasmos existênciais de David Sylvian, e certa poesia do Fado. "Vagamundo"(1962), "Cuidei que tinha morrido"(1970) ou "Le premier jour du monde"(1969), temas que Amália Rodrigues canta/cantou, são, a meu ver, exemplos perfeitos. E se Amália, um dia, cometeu "loucuras" ao abordar duma forma totalmente diferente, trechos de Bécaud, Aznavour ou Gershwin, não me posso recriminar, por fazer o mesmo, com uma diferença marcante. É que não sei,se um dia, estas minhas "obnubilações" artísticas ,passarão para a posteridade, numa gravação discográfica... Entretanto, vou cantando ao vivo, onde e quando me quizerem ouvir...No fim de contas, a Arte é para mim,uma necessidade intrínseca. Preciso dela para me sentir viva. Mesmo fechada em quatro paredes.

Publicado por Valéria Mendez em 12:17 AM | Comentários (3)

março 02, 2004

As minhas "curtes" artísticas (1) Premissas para uma eventual compreensão do post seguinte

Certas "curtes" artísticas, que perspassam pela minha mente "experimentativa", farão os mais tradicionalistas, ordenar-me retirar o vocábulo " Fadista ", do título do meu blog. Mas, apesar de tudo, continuo a considerar-me Fadista. Mesmo quando não canto Fado, faço-o com uma intenção fadista. Serão porventura menos fadistas, aqueles que, arvorando-se em "inovadores", limitam-se a copiar. Costumo cantar muitas "coisas" do reportório de Amália Rodrigues. Contudo, são precisamente nesses trechos, que procuro "fugir" do registo e da fórmula amaliana, quer no aspecto melismático, quer no campo das orquestrações. " O homem que imita as ondas, dá cambalhotas ". Espanta-me pois, a pretensão de algumas das novas fadistas, apresentando-se como responsáveis pelo novo fôlego do Fado, quando ao ouvir os seus discos, e ao assistir a alguns dos seus espectáculos, encontro muitos dos "ex-libris" de Amália, "copiados" até à exaustão. Não deixará de ser outra espécie de plágio. Aquele que não entra ,nos cânones dos tribunais. Vemos uma "Primavera"( David Mourão Ferreira-Pedro Rodrigues), um "Perdigão"(Camões-Alain Oulman), ou um "Povo que lavas no rio"(Homem de Mello-Joaquim Campos), só para dar três exemplos, descaradamente apresentados, como reportório próprio, seguindo uma linha amaliana por demais evidente. Para os leitores menos atentos, a estes "atentados" intelectuais, apresento o exemplo inverso,o da interpretação e orquestração, que Dulce Pontes e António Variações fizeram do "Povo que lavas no rio". Duas recriações, que não cometem o pecado do referido plágio artístico,e que pelos caminhos alternativos encontrados, não ferem os nossos timpanos, com "cópias", que caem no ridiculo, face à inevitável comparação. Quem tem a sorte de ter um Caravaggio original, pr`a que quererá uma falsificação?

Publicado por Valéria Mendez em 12:46 AM | Comentários (6)