fevereiro 25, 2004

"Fado para Património da Humanidade " é um disparate...

Quem o afirma, é DULCE PONTES , a um orgão de Comunicação Social. Ainda segundo a cantora, " ... concordaria se fosse o Folclore, que possui uma imensa documentação histórica..." . Dulce Pontes, põe ainda em causa, os nomes de Carlos do Carmo e de Mariza, "para darem a cara pelo projecto. Porquê eles,e não outros, agora que há tantos nomes novos a cantar o Fado?"- questionava a cantora no mesmo artigo. Esta posição, da nossa cantora de maior prestígio internacional da actualidade,merece-me algumas observações, se bem que a minha opinião sobre o assunto,não terá qualquer importância. Eu não passo duma artista com carteira profissional,mas que na prática ,não passa duma amadora, em todos os sentidos do termo. Sendo o Fado ,uma canção de folclore urbano, não será completamente despropositada a opinião de Dulce Pontes. Ao ser elevado o Folclore Português a Património Mundial, o Fado estaria representado e documentado, tal como o Canto Alentejano, o Malhão, o Vira ou o Fandango. O Fado, como expressão genuína a nível musical, não possui mais do que trezentas melodias, que constituem as variações aos Fados - base ( O Fado Menor, o Corrido, o Mouraria e o Dois Tons), que dariam depois origem aos outros, pelo talento empírico de guitarristas e interpretes do Fado, tais como Marceneiro,Armandinho ou Joaquim Campos, que a partir dessa base, "construiram" outras variações melódicas e harmónicas na guitarra portuguesa. ( Favor ler, ainda sobre este assunto,a minha crónica " O Triângulo do Fado",de 25 de Setembro.) Assim sendo ( e é-o, concerteza), o verdadeiro Fado Clássico tem como legado, cerca de trezentas variações melódico-harmónicas,vindas directamente ,dos quatro "Fados-base" que mencionei. Muitos até ,ficaram conhecidos, pelo nome dos seus "inventores",ou ainda por um nome escolhido pelos mesmos, daí que tenhamos o Fado Vitória, o Fado Puxavante,o Fado Triplicado, o Fado Raul Pinto, o Fado Pedro Rodrigues ou o Fado Pintadinho, entre outros. Daí que, qualquer Fadista, mesmo sem precisar de qualquer ensaio,possa chegar perto de um guitarrista ,e pedir ,por exemplo, o Fado Vitória ,em Sol ou em Lá, conforme a amplitude vocal de cada individuo. O guitarrista executa o Fado, que funciona como "cama", à capacidade improvisativa do Fadista. Por isso, o mesmo Fado ,é cantado por milhentos Fadistas e outros tantos versos diferentes, sendo mesmo possível, para um leigo, não ser capaz de distinguir, que ouviu a mesma musica, com versos diferentes. O proprio Fadista, dependendo da "luz" que o acompanha no momento,é capaz de cantar de maneira distinta,o mesmo Fado. Amália Rodrigues interpretou vezes sem conta, o "Povo que lavas no rio",e sempre diferente. Esse poema máximo de Pedro Homem de Mello, foi "metido" na musica do Fado Vitória,fado esse "inventado" por Joaquim Campos. Fernando Maurício, interpretaria o mesmo Fado, desta feita com uns versos lindíssimos de Gabriel de Oliveira, o "Igreja de Santo Estevão". Ao mais desatento,parecer-lhe-ia tratar-se de duas composições musicais diferentes. Não o são na realidade. Todas as outras composições, tais como o "Gaivota",do compositor Alain Oulman; o "Ai Mouraria", do maestro Frederico Valério, ou o "Vou dar de beber à dor" ,de Alberto Janes ,tornaram-se Fado pela imposição do artista que os interpretou à guitarra portuguesa, dando-lhes, na sua melismática vocal, determinadas "voltinhas" do Fado. Quando Amália gravou " Gaivota",e outros trechos de Alain Oulman, foi severamente criticada pelos "puristas", que a acusavam de estar a "desvirtuar" o Fado, ou a desviar-se dele. Anos mais tarde, o "Gaivota", viria a ser unânimente considerado um Fado. Consequentemente, seria por exemplo possível, transformar o "My Way" de Sinatra, num Fado. Caberia aqui ao guitarrista, adaptá-lo à linguagem musical da guitarra portuguesa,e ao Fadista, interpretá-lo, em tom de fado. Por isso, existe o chamado Fado Clássico , Tradicional ou Castiço, e o chamado Fado-Canção ou Fado-Musicado, aquele que é composto para determinado poema. Em relação à postura de Dulce Pontes, face à escolha dos nomes de Carlos do Carmo e de Mariza, só poderei dizer que realmente, em vez de Santana Lopes os ter escolhido,e como nenhum deles espelha o Fado na sua essência, seria muito mais lógico, apresentar a "OBRA" , nas suas duas vertentes,e aí, teria forçosamente de se incluir Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Hermínia Silva, Argentina Santos, Fernando Maurício, João Braga, D.Vicente da Câmara e Rodrigo,entre outros,e ainda, os nomes dos guitarristas, Armandinho, Artur Paredes, Carlos Paredes, Jaime Santos, José Nunes, Raul Néry, Fontes Rocha, Pedro Leal,Martinho d`Assunção e Carlos Gonçalves, no mínimo. Na capa do projecto, o nome de Amália Rodrigues, aquela que deu a conhecer ao Mundo o Fado, nas suas diversas vertentes. Realmente, colocar Carlos do Carmo e Mariza, na linha da frente de intérpretes vivos e no activo, será no mínimo redutor. Mariza,por exemplo tem só dois discos gravados e uma carreira de três anos. Eu,por exemplo, que só tenho um disco gravado,e daqueles em vinil, possuo um reportório muito mais vasto que o de Mariza, que, em disco e nos seus recitais, limitou-se a "recantar" o reportório de Amália e doutros fadistas. A percentagem de criaçâo de inéditos, é vergonhosamente infima, para quem aparece como "cara" de tal projecto. Já no caso de Carlos do Carmo, apesar de não ser considerado fadista pelos "puristas", justificar-se-ia a sua presença, pelo prestígio internacional que grangeou,e sobretudo pela utilização que sempre deu à guitarra portuguesa,e ao chamado "Fado-Canção" ou " Fado-Musicado", fomentando a criação musical,em nomes que nada tinham a ver com Fado,como Fernando Tordo, José Luís Tinoco,e até do proprio maestro António Vitorino de Almeida, para não falar dos poetas, parte integrante e indispensável do todo, que é o Fado, como Canção de Folclore Urbano. Não serei porventura ,tão fundamentalista como Dulce Pontes. Não direi que é disparate, propôr o Fado, a Património Mundial. Afinal de contas, o Fado, o Jazz, o Tango, o Samba, são estilos defenidos. E são, mesmo sem ser por decreto, um Património da Cultura Mundial.

Publicado por Valéria Mendez em 02:53 AM | Comentários (14)

fevereiro 23, 2004

ZECA AFONSO - Que Portugal te cumpra,pelo muito que te deve!

Existem no mundo, uma minoria de Artistas, que pela sua capacidade de comunicação, pela transversalidade do sentir a alma colectiva, pela qualidade do seu produto, e pelo talento irrepetível, tornam-se fieis representantes de todo um povo, de um estilo ou de uma geração. Em Portugal,o século XX apenas nos deu dois Artistas, que conseguem inserir-se nesta categoria de Monstros Sagrados, capazes de galvanizar todo um povo, atravessando na diagonal todos os estractos sociais, conseguindo ainda em vida, aquele raro estatuto de mito ou de bandeira, onde ,não raro, chegam a confundir-se com a propria cultura e o proprio país. Esses dois nomes- sinónimos de Portugal, são óbviamente AMÁLIA RODRIGUES E ZECA AFONSO. O primeiro, tive a honra e a felicidade de conhecer pessoalmente. O segundo, o destino não me fez merecedora de tal fado. O que me fez ainda mais, querer conhecer a sua obra,e tentar compreendê-la ,nas suas várias dimensões. Está a cumprir-se, mais um aniversário da sua passagem. ZECA AFONSO continua vivo. Na minha mente,e na mente de todos os Portugueses, mesmo daqueles que não apreciaram assim tanto, a palavra Liberdade. Até esses, curvaram-se perante a grandiosidade e a simplicidade do Artista. Não tive meios para honrar a sua memória. Encontrei apenas um - Ao Jantar, num Hotel , durante a minha sessão de Fado, interpretei "Grândola, Vila Morena" e "Natal dos Simples". Expliquei longamente aos turistas, quem foi este Cantor, Compositor, Poeta, fazedor de sonhos e cumpridor de utopias, que foi ZECA AFONSO. No final, dois franceses, um alemão e três ingleses, vieram perguntar-me, onde e se poderiam adquirir algum CD do trovador da Liberdade. Queriam ainda saber mais detalhes sobre o Homem e o Artista. E...à frente dum bloody mary com muito gelo, lá fui fazendo mais uma pequena conferência sobre ZECA AFONSO, à volta duma mesa de Jantar do restaurante dum Hotel de cinco estrelas. Não deixava de ser irónico...Mas, pelo menos, aqueles estrangeiros, sairiam daqui, conhecendo algo mais da Cultura Essencial do Portugal do século XX. Essa é, também, a função dum artista...

Publicado por Valéria Mendez em 05:53 AM | Comentários (9)

fevereiro 21, 2004

O Meu Grito Contra a Condenação à Morte de Mestre Tibetano

Fui alertada pela Casa do Tibete na Madeira,para a cruel e injusta condenação à morte do Mestre Tibetano TENZIN DELEK RINPOCHE , sentenciado à pena capital pela China,por praticar a religião budista,e por ser considerado activista pela libertação do Tibete. O Mestre Tibetano foi condenado à morte, em 2002,e deverá ser executado até Abril do corrente ano;contudo, nestes ultimos tempos,intensificaram-se as acções de luta ,dos defensores dos Direitos do Homem,e da Causa Tibetana. No mês transacto,em muitos países da Europa,USA e Canadá, realizaram-se várias manifestações na defesa deste tibetano, que o governo déspota da China condenou à morte, sem um julgamento formal. O site " Students For a Free Tibet", alerta-nos para a necessidade dos países livres,terem uma palavra a dizer sobre as ignomínias dum regime político, impensável no século XXI. A Fadista Valéria Mendez, humilde autora deste blog,ex-pedagoga, artista,pacifista, Activista da Causa Palestiniana,e sobretudo uma acérrima defensora da Liberdade, não pode deixar passar em branco,esta condenação por motivos óbviamente político-religiosos, que não deve ser ignorada, por todos quantos defendem a Paz e o Livre-Pensamento do Homem. Por isso Caros Leitores, toca a fazer algo pela Justiça. Escrevam um postal à Embaixada da China, repudiando este acto hediondo do seu Governo. Ao fazerem-no, estarão a fazer passar uma mensagem clara aos déspotas chineses-"The world is watching You !"

Publicado por Valéria Mendez em 01:52 PM | Comentários (2)

fevereiro 15, 2004

A primeira linha da "World Music" Italiana. Alessandra Belloni-a garantia da continuidade..

Existem alguns nomes da musica tradicional italiana, que no século passado, contribuiram para uma recolha e divulgação da "world music" italiana. Desde a mítica Miglionnetti, nascida no inicio do século XX, que Massimo Ranieri revisitou nos anos setenta, até Gabriella Ferri, ainda no activo, passando por Domenico Modugno e Roberto Murolo, este ultimo,recentemente falecido,responsável por uma grande parte da recolha das diversas canções, dos diferentes dialectos de Itália. Um dos ultimos trabalhos de Roberto Murolo,contou com a participação da portuguesa Amália Rodrigues ( "Anema e core",1994). Foi mesmo,a derradeira participação da grande Diva Portuguesa, em disco(Amália interromperia definitivamente a sua carreira em 1995,por motivos de saúde,vindo a falecer em 1999). O convite de Roberto Murolo à diva portuguesa, não foi de forma alguma gratuito. Nos anos 70, Amália, faria história, gravando um album inteiramente composto por trechos tradicionais das diferentes regiões italianas,cantados em dialectos como o "siciliano" e o "napoletano". Com a particularidade de serem revisitados num acompanhamento à guitarra portuguesa, tendo no entanto, a preocupação de manter a essência dos "estilos". Uma obra que lhe grangeou vários prémios,fazendo a fadista sucesso em Itália, com um reportório típico italiano. Um caso inédito em Itália.O album "A una terra che amo", é ainda hoje ,citado em Universidades, onde a Musicologia é estudada, como exemplo de recriação artística, para além de ter sido um êxito comercial para a EMI Italiana, que o editou. Vem toda esta "conversa",a propósito dum nome, que no século presente, continua na senda da divulgação da musica tradicional italiana digna de nota, pela qualidade,inovação e respeito pelos parâmetros essenciais dessa tradição . Trata-se de ALESSANDRA BELLONI, num album de 2003, " Tarantelle e canti d`amore", um disco obrigatório para quem se interesse pela "World Music" europeia. Curiosamente,esta é uma gravação efectuada nos USA, dado que a cantora vive permanentemente num pêndulo entre Nova Iorque e Itália. Um reportório fascinante,servido por uma voz de excepção.

Publicado por Valéria Mendez em 03:23 AM | Comentários (5)

fevereiro 14, 2004

Ia escrever outra coisa, mas... (ou, Um Obrigada ao "colega" bloguista GOLFINHU2)

Ia realmente, copiar para o blog, uma outra crónica,mas...eis que me deparo com um post do "colega" bloguista, em www.golfinhu2.weblog.com.pt, que me sensibilizou demais. E ,o que ele fez, não foi mais do que colocar no seu post, um link, para um artigo do Correio da Manhã. Só posso dizer um...Obrigada, pelo gesto de solidariedade. Tudo passou (a natureza tem os seus insondáveis mistérios). Tenho consciencia ,de que vivi muita coisa pela metade. Mas vivi...e vivo.Cada canção...Cada choro de menino...Cada suspiro de velho...Cada livro que leio...Cada poema que penso...Cada causa que abraço...E, cada abraço que me dão, virtuais ou não.

Publicado por Valéria Mendez em 01:19 PM | Comentários (2)

fevereiro 13, 2004

INTIMIDADES de Simone de Oliveira ( A minha análise)

Simone está a comemorar 45 anos de carreira. Outra figura do meu imaginário, que marca uma época, e contribui para a auto-estima,tão necessária nestes tempos de mediocridades,a todos os níveis. De Simone,tenho a memória de Ary dos Santos,porventura, a voz que melhor se "encaixou" nas palavras do poeta. Indiscutívelmente. Amália ,também cantou Ary.Mas,a meu ver, fê-lo com menos fulgor.Em Amália ,visita-se o drama, a angustia, o niilismo do ser,a saudade, a lucidez...mas nunca a raiva. E Simone,sabe cantar a paixão, a raiva, e a revolta,como ninguém neste país. Por isso,a cantora da Desfolhada, é a voz por excelência para as palavras de Ary. E Eugénio de Andrade.E Vasco de Lima Couto...Ouvir/ver Simone , é sempre uma aventura. De sentimentos,de contradições,de verdades, de raivas explicadas. A voz de Simone, tem o travo do real puro,tem a deliciosa técnica jazzistica ,que ninguém possui na sua geração. (Aonde foi Simone buscar esse caminho?) Só sei que, as soluções melismáticas de Simone são geniais.Em qualquer parte do mundo...(Oh Simone, mande o seu disco/DVD para a BBC! É prémio europeu pela certa! Acredite em mim.) Que pretensão a minha,falar em discurso directo para Simone.Ela,nem sabe que eu existo. Muito menos,este muito humilde espaço cibernético,onde escrevo coisas do meu viver. Se alguém a conhecer, que lhe passe a sugestão. O "Intimidades" da nossa Simone é, sem sombra de dúvida, uma obra de criação de alto gabarito. E eu, acreditem, já ouvi muita musica...

Publicado por Valéria Mendez em 11:23 AM | Comentários (9)

fevereiro 10, 2004

Saudades do Olympia de Paris em Portugal, ou Flores de AMÁLIA nos degraus de NOTRE-DAME.

Recordar os 54 concertos de Amália Rodrigues, a que tive a felicidade de assistir, desde os meus 17 anos de idade, é um manancial quase inesgotável de sensações, gestos, cores e cambiantes vocais, que dariam para milhentas páginas,e por certo, alguma coisa ficaria por dizer. Hoje, ao encontrar numa gaveta uma foto de Amália, tirada por mim, nos degraus da Catedral de Notre-Dame em Paris, as minhas memórias renasceram em turbilhão, a propósito dessa fotografia ,e de um dos 14 recitais de Amália no Olympia de Paris,a que tive o privilégio de assistir. Já havia estado na plateia do Olympia por diversas vezes ( Para recordar outro momemto de Amália no Olympia, por favor leia a minha crónica "Saudades do Olympia de Paris em Portugal", de 9 de Setembro),contudo este tinha sido muito especial. Na plateia, os Condes de Paris, Mitterrand, Jack Lang, Ira de Von Furstenberg, Carolina do Monaco, alguns membros do clã Rockefeller, Juliette Gréco, Georges Moustaki, Line Renaud, Cargaleiro e Linda de Suza, davam ainda um impacto com maior brilho, ao concerto de Madame Rodrigues. Como se não bastasse, toda uma bateria de jornalistas de várias nacionalidades,a TF1 ainda gravaria um excerto de trinta minutos do espectáculo,para ser incluido num talk-show da TV Francesa,a que Amália iria na semana seguinte. No camarim, Amália, sempre muito nervosa,e pondo nervosos, todos quantos a rodeavam, "alinhavava" com Carlos Gonçalves, o alinhamento possivel do concerto.Sabiamos todos ,que esse alinhamento seria mudado em cena, logo que chovessem da plateia, gritos deste ou daquele fado ou canção, requisitados pelo publico. Amália,desde que se lembrasse da letra, fazia sempre a vontade. Mas, havia certos trechos que Amália iria cantar obrigatóriamente,e esses mereciam da parte da diva,uma atenção especial. O "Ay mourir pour toi", que Aznavour compôs para Ela, e que em 1960 foi disco de platina ,em terras de Edith Piaf, o "Com que Voz" de Camões, tema que deu título ao disco mais premiado da Europa, em todo o século XX, o "Vitti`na crozza",tema incluído num album de recolha tradicional de Musica Italiana, que valeu a Amália diversos prémios em Itália ,e o já recantado "Povo que Lavas no rio", que Amália gravou com Don Byas, num album memorável, um dos melhores da Musica Portuguesa do século passado...No palco ,já se ouviam as variações dos quatro musicos,e a Estrela (secretária de Amália) advertia a Diva que deveria aproximar-se da boca de cena. Poucos segundos faltavam para terminarem as variações introdutórias. Amália levantou-se, qual Ana de Bolena caminhando para a Condenação. Parecia que iria fraquejar. Até nós, que já conheciamos aqueles "tremeliques" estávamos ansiosos. Desde o camarim até ao palco, a Diva "arrastava-se", murmurando palavras de receio, de medo. Houve alguém que lhe agarrou na mão e lhe disse: "Vá lá,lembre-se que você é a Amália"... Ela ficou só, esperando que as cortinas se abrissem. Soaram os aplausos. Estávamos todos apreensivos. Seria desta vez que Amália iria falhar? Lembro-me que rezei um Pai Nosso. Os aplausos fizeram-se mais vibrantes. As cortinas abriram devagar,as guitarras iniciavam uma marcha compassada, Amália entrava em cena, de braços abertos ao som dos gritos de "Amália! Amália!" do publico. Sem nada dizer, arranca com o Fadinho Serrano,saudando os presentes. As primeiras estrofes não foram lá grande coisa.A voz saía velada. Continuávamos apreensivos nos bastidores.Depois do lá-lá-lá do refrão ,a voz melhorou.Mas,ainda estava hesitante, pouco aberta. No final, o publico aplaudiu com entusiasmo,mas sem o brilho de outras vezes. De novo, as guitarras arrancaram,desta vez com "Estranha forma de vida",letra da própria artista. "Foi ... por vontade de Deus..." E aí, ao ouvirmos aquele grito, aquele "Foi...",interrompido pelos aplausos desta vez cheios de brilho e força, apeteceu-me bater na Amália. Eu pr`àli ,naquela aflição,e ela sai-se com aquela voz de sempre, maravilhosa,potente,cheia de côr. A Estrela respirou fundo e disse-nos: " Eu já ando há sufíciente tempo com Ela para saber daquelas fitas,mas desta vez, fiquei apreensiva. Afinal,temos Amália." Era verdade, tinhamos Amália. E que Amália! No final do espectáculo,a nossa Diva foi aplaudida durante 19 minutos( eu vi pelo relógio!),e voltou a interpretar mais cinco "encores", todos eles "disparados" pelo publico,completamente rendido à Voz! ... No dia seguinte, aí pelas 19 horas, a Amália, eu, a Estrela, a Lili e o Guy lá fomos até à Catedral de Notre Dame, depositar as dezenas e dezenas de "bouquets" de flores , que lhe haviam oferecido na véspera. Enchemos uma carrinha Mercedes completamente rasa de flores, e fomos noutro carro até Notre-Dame. Ao chegarmos lá,a catedral estava fechada. Amália decidiu prontamente."Não importa, o que interessa é que as flores vão para Nossa Senhora!" E lá estivemos a carregar as flores (incluindo a própria Amália!),colocando-as aos lados da porta principal da igreja,e depois nos degraus que lhe dá acesso. Passavam transeuntes, que muito admirados, paravam para nos observar. Quase uma hora depois, acabamos o "serviço".Eram 20 horas,e ali estávamos ainda. Amália voltaria a estar no palco do Olympia às 21,30. "Que loucura, D. Amália, ainda temos de chegar ao teatro,tem de se vestir,de se maquilhar,de pentear-se, oh meu Deus,eu disse-lhe que podiamos fazer isto sózinhos, eu avisei-lhe que já era tarde...", matraqueava a competente, e atenta secretária de Amália. A Estrela havia insistido que Amália ficasse. Amália, já dentro do carro, a rir, só pronunciou estas palavras: " Eu tinha de vir oferecer as flores.Ontem Nossa Senhora intercedeu por mim." Só sei que chegamos ao Olympia, já perto das nove horas. Amália lá tomou um cházinho, vestiu-se, foi maquilhada e penteada, e às 21,50 entrava no palco,desta vez sem tremeliques nem hesitação. "Foi Deus,que me pôs no peito...Foi Deus...Ai...E deu-me esta voz a mim." Se foi Deus ou não ... não sei. O que sei ,é que se contam pelos dedos de uma mão,os artistas como Amália Rodrigues. "SÓ DUAS CANTORAS SE PODERÃO COMPARAR A AMÁLIA RODRIGUES, PELA SUA FORÇA INTERPRETATIVA, PELA SUA VOZ E PELO SEU TALENTO: SÃO ELAS EDITH PIAF E OUM KOULTHOUM, QUE ATINGIRAM, TAL COMO MADAME RODRIGUES, O ESTATUTO DE MITO EM PLENA VIDA ARTÍSTICA."- in "Le Monde", Setembro de 1987.

Publicado por Valéria Mendez em 03:17 AM | Comentários (1)

fevereiro 07, 2004

Quem ou o quê, é responsável pela inexistência de valores?

O cenário, é o de uma escola secundária de Câmara de Lobos, ilha da Madeira. Um professor, tenta motivar os alunos para o estudo e o prazer do conhecimento. Tenta passar-lhes a mensagem de que, se estudarem, poderão viver melhor, ter um melhor futuro colectivo. De repente um aluno levanta-se, e sentencia: " O senhor professor estudou tanto, e só tem um Fiat Punto, eu tenho um vizinho que é pedreiro, e tem um Subaru Impreza !" Isto foi uma cena real. Bem ilustrativa das realidades desta sociedade, para quem o unico valor, é o dinheiro. Triste, não é?

Publicado por Valéria Mendez em 04:53 PM | Comentários (4)

fevereiro 06, 2004

Vamos lá redescobrir um ícone Português- HERMÍNIA SILVA.

Portugal sofre nos nossos dias ,de uma doença fatal para o seu desenvolvimento- a falta de auto-estima. Contráriamente ao que se passa com "nuestros hermanos", em Portugal ,remete-se sumáriamente ao esquecimento ,referências e valores, que contribuiram para o nosso bem estar mental e histórico. Vem a propósito, um personagem que, infelizmente não cheguei a conhecer pessoalmente, mas que é, sem dúvida, um dos ícones fundamentais de Lisboa e do nosso país: Hermínia Silva. ( Favor ler a minha crónica -"O Triângulo do Fado", de 25 de Setembro de 2003) A "sacerdotiza" de Lisboa, cantadeira de Fado dum talento e originalidade irrepetíveis, é infelizmente hoje, objecto de culto duma minoria conhecedora dos seus feitos artísticos,havendo mesmo, dentro do Fado, criado uma "escola",com seguidores ferrenhos como Beatriz da Conceição ou Alice Pires. Porque será que Portugal a perde tanto, com soluções fáceis de "pimbalhadas" popularuchas, havendo Hermínia Silva para ganhar ? Deixo a questão no ar, relembrando que, por exemplo, em Espanha, a memória dos seus ícones é perpétuada e cultivada, contribuindo para o orgulho nacional. Um amigo meu espanhol, de 24 anos, é capaz de se lembrar quem foi Império Argentina ou Carmen Amaya. Há dias, num convívio nocturno entre jovens portugueses de várias proveniências, falei de Hermínia Silva. Nem um se lembrava do nome. Interroguei-me então, sobre o papel das nossas radios e televisões, que por este caminho, contribuirão grandemente para o branqueamento cultural,e consequente perda da identidade portuguesa. Nesta época de uniões europeias e de globalização, políticas culturais sem preocupações da preservação da memória nacional, levarão inevitávelmente à aculturação,e por este andar, dentro de vinte anos, Portugal será na cabeça de muitos, um país sem referências. Quem não possui na sua discografia, um album de Hermínia Silva, está, pelo menos,a perder o contacto com um dos raros talentos inovadores da linguagem musical do século XX. Por isso, vamos lá ouvir, Hermínia Silva...

Publicado por Valéria Mendez em 01:46 PM | Comentários (4)