dezembro 21, 2003

Publicado por Valéria Mendez em 04:12 AM | Comentários (3)

dezembro 18, 2003

Album transe "samplado" com Amália Rodrigues

Trata-se dos DURUTTI COLUMN-banda britânica do guitarrista Vini Reilly, que em 1994, edita "Sex and Death",onde inclui uma faixa intitulada "Fado",toda ela "samplada" com a voz "à capella" de Amália Rodrigues.Interpretada pela vocalista da banda ,Ruth Ann Boyle, surge-nos de improviso os samples da artista portuguesa,"ilustrando" o contéudo musical e as palavras escritas por Vini Reilly, a "cara" deste grupo inglês da chamada musica alternativa. Não seria de admirar,o culto de muitos artistas estrangeiros,para com Amália. Já Eddie Fisher,Louis Armstrong,Gloria Lasso, Dalida,Milva, Julio Iglesias,Caetano Veloso,Line Renaud e Fafá de Belém incluiram na sua discografia,recriações de êxitos de Amália, dando assim mais uma "achega" à indiscutível popularidade da diva portuguesa,em todo o mundo. É contudo, em Sex and death dos Durutti Column , que nos apercebemos da dimensão planetária de Amália, perfeitamente "entrosada" num album transe,recorrendo a samples da voz da propria fadista. Para quem há tempos disse, que Mariza veio dar a conhecer a musica portuguesa ao publico britânico, eis aqui um exemplo que o desmente,não fora saber-se que a propria Amália gravou dez anos antes dos Beetles no célebre estudio da Abbey Road,um album para o mercado inglês, que atingiu o galardão de Disco de Ouro,num tempo em que a emigração portuguesa em Inglaterra era práticamente inexistente,e para já não falar do "Amália for your delight", também gravado no mesmo estudio nos anos sessenta ,e sómente editado em Inglaterra e USA, que só depois da morte da artista, conheceu uma edição portuguesa. Um apontamento para recordar: Amália não gostava muito de falar deste seu sample no album dos Durutti Column, porque não gostava do titulo "um bocado tétrico": Sex and Death.

Publicado por Valéria Mendez em 02:48 AM | Comentários (6)

dezembro 16, 2003

Correndo o risco de desagradar a alguns,eis o que me ocorre sobre CARLOS CRUZ

Pois é. Há muito que queria expressar aquilo que sinto em relação a Carlos Cruz. A prudência e o receio de estar a ser injusta para com o drama vivênciado pelas vítimas,impediam-mo-lo de o fazer. Estive portanto a remoer sobre o assunto,e eis que acho que,devo dizer aquilo que penso,em relação ao que sinto,não porque a minha opinião seja importante,mas porque o meu coração e a minha mente mo ordenam que o faça. Eu, sinceramente,e contráriamente às pessoas que afirmam que nenhum juiz o poria em prisão preventiva tanto tempo,sem ter fortes indícios de culpabilidade, acho Carlos Cruz inocente. E acho-o inocente,pela intuição que me transparece,das palavras daquele homem, do seu semblante digno,e do seu percurso de vida. As razões poderiam ser várias: Não desprezo a teoria da cabala,afinal Portugal é um país onde se cultua a inveja e a maledicência,e um homem com o background de Carlos Cruz,terá sem dúvida detractores poderosos. Não desprezo também a teoria mais simples, de que algum jovem motivado por alguma ganância,tenha visto em Carlos Cruz a "vítima" ideal para sacar uma choruda indemnização. Se fosse o "zé da esquina" o abusador,o que se conseguiria seria a prisão,sem o almejado dinheirito. Recordo-me dos textos de investigação jornalística do site "reporterX", em que se falava,com indicações que seriam dignas duma inquisição policial responsável. Esses textos porém , cairam num esquecimento impensável, em qualquer parte do mundo. Sublinho que,estas minhas linhas não pretendem nem por remota hipótese,desvalorizar o sofrimento das vítimas; e é precisamente pelo respeito à Justiça que as escrevo. Que se condenem os reais culpados,e que as verdadeiras vítimas sejam ressarcidas pelo drama em que foram envolvidas,se bem que creia ,não haver contrapartida justa possível ,para aplacar essas tragédias vividas. Por isso,e apesar de nunca ter encontrado pessoalmente o Carlos Cruz,em toda a minha vida, vejo-me em consciência ,obrigada a juntar-me aos seus amigos, que reclamam a sua inocência. Ao Rui Veloso, ao Fialho de Gouveia,à Maria José Valério,à Dulce Pontes, ao João Braga e a tantos outros, que não hesitaram a empenhar a sua credibilidade em defesa de Carlos Cruz, os meus respeitos. Eu também estou com vocês! Que me perdoem os outros, aqueles que pensam o contrário, mas...eu sou assim. Digo sempre o que penso. A palavra "hipócrisia" não entra no meu dicionário de emoções.

Publicado por Valéria Mendez em 01:09 AM | Comentários (4)

dezembro 15, 2003

MORREU A POETISA DA PALESTINA

Contráriamente ao que se passa em Portugal,onde a auto-estima está pelas horas da morte,na Palestina ,evoca-se em vida,o talento dos artistas,os feitos dos seus herois,a sensibilidade dos seus comunicadores. Habituei-me,nos meus périplos pela Palestina,a ouvir o nome de FADWA TOUKAN, uma espécie de Natália Correia ,aliada à força dum Manuel Alegre,e à garra desafiadora dum Ary dos Santos,até certo ponto,uma síntese palestiniana destes três portugueses, aclamada pelo seu povo,e valorizada pelas instâncias culturais da Autoridade Palestiniana. Recebi até,das mãos dum representante da Cultura,um livro em Inglês,com alguns dos seus textos traduzidos. Nesse momento,retribuí,como faço sempre,com um disco de Amália Rodrigues não editado naquelas paragens. É uma troca de orgulhos,um exercício assaz benéfico para a auto-estima de quem oferece... A grande poetisa FADWA TOUKAN, morreu ontem em sua casa,na cidade de Naplous,na Cisjordânia, aos 86 anos. Com a sua obra vertida para Inglês e Farsi, ficou conhecida como a "Poetisa da Palestina",por tratar na sua obra,dos sentimentos do povo palestino,nos territórios ocupados por Israel,e pela defesa ferrenha dos direitos da Mulher. Dois irmãos marcaram a sua educação. Um deles,obrigou-a a abandonar o Liceu,quando soube que ela possuia um "admirador platónico".Outro, Ibrahim Toukan,também poeta e escritor,percebeu o seu talento,e começou a emprestar-lhe os livros que conseguia. Essa sua "prisão" forçada ,pejada de lides domésticas, sem qualquer autorização de sair de casa, foi povoada pelos livros, que sorrateiramente o seu irmão lhe facultava. Aos 45 anos, mulher adulta,já plena poetisa com publicações regionais em Jornais e Revistas,e um ou outro folheto literário publicado, ingressa no primeiro ano da Universidade, em Oxford, na Inglaterra,onde se licencia. Regressa à Palestina, onde começa a leccionar, e a publicar algumas obras de sucesso, que fazem dela um autêntico ícone da Cultura Palestiniana do século XX. Vedetas da Canção do Mundo Árabe,pedem-lhe permissão para cantar alguns poemas seus. Fairouz,a célebre vedeta Libanesa gravou alguns textos da poetisa palestiniana.O mesmo se passou com Warda,uma argelina que atingiu o estatuto de vedeta em todos os países de expressão árabe. Os seus textos de intervenção,o seu talento como poetisa e escritora, fizeram dela um simbolo da Cultura Palestiniana,pelo que se tornou a autora favorita de Yasser Arafat, de todos os palestinianos,e duma grande maioria dos povos de expressão muçulmana... FADWA TOUKAN- Um nome das Letras a recordar.

Publicado por Valéria Mendez em 04:31 AM | Comentários (0)

O que diz o meu amigo curdo,sobre a PRISÃO DE SADDAM HUSSEIN

Estive cerca de uma hora,no "messenger",a falar com o meu amigo curdo, que vive na Holanda,e que conheci há já uns anos,num dos meus modestos "shows",no país das tulipas. Schwaninah estava particularmente excitado com as notícias,e quedamo-nos longamente a discorrer sobre as vicissitudes da sua família durante o regime de Saddam. O irmão fora morto num confronto militar, o pai havia falecido,era ele muito jovem,e a mãe vivia com uma irmã,em Bagdad. A mãe, foi bárbaramente atingida com um bloco de cimento,resultado da invasão do senhor(?) Bush,e a irmã, aterrorizada e trágicamente afectada pelo drama, conseguiu escapar para a Siria no final da guerra,onde foi ajudada pelo irmão,que se deslocara até aquele país,com o fito de a trazer para Amsterdam. Ela era professora de Inglês, num colégio secundário do sistema educacional do ditador. Era curda,vivia em Bagdad com a sua mãe,e as ajudas do irmão emigrante proporcionavam-lhes uma vida acima da média. Nutriam por Saddam, a raiva normal de haverem perdido um filho e um irmão, que corajosamente seguia a "utopia" dum Curdistão livre. O meu amigo curdo visitava a família regularmente,e lá seguiam as suas vidas, sem grandes sobressaltos. Eis que os USA resolvem invadir o Iraque,e a paz daquela pequena família, seria para sempre afectada. Certo é que viviam com o fantasma de Saddam,com uma liberdade de expressão política restricta,mas,o amor que os unia era mais forte que todas as contestações. Não se haviam esquecido dos milhares de curdos mortos,tal qual o membro mais jovem da sua família,mas haviam conseguido a tranquilidade possível. A irmã do meu amigo leccionava, de cara descoberta, tinham uma vida social,até de vez em quando iam ao teatro e assistiam a algum concerto, de alguma vedeta árabe preferida. Dizia o meu amigo curdo:"Não senti alegria nem tristeza ao ver Saddam naquele estado. Ele roubou-me o meu irmão,mas o Bush levou para sempre a minha mãe,que tanto amo." Não tive palavras para "consolar" o meu amigo. Apenas lhe desejei muitas felicidades no seu país de acolhimento ,junto com a sua irmã. Vem este pequeno "episódio",ilustrar o meu "utópico" ,porém veemente desejo de um dia,poder também ver na televisão,a imagem de um Bush barbudo,degradado e detido sob a acusação de "atentado contra a humanidade", pois tanto um como outro, são "farinha do mesmo saco". Nem mais,nem menos!

Publicado por Valéria Mendez em 02:17 AM | Comentários (7)

dezembro 12, 2003

Uma Noite em casa de AMÁLIA, com David Mourão-Ferreira

Subia as escadas do numero 193 da Rua de S.Bento,carregada com um ramo de flores da Madeira. A diva terminara há poucos dias mais uma das suas digressões que a tinham levado ao Japão, Coreia do Sul, Islândia, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Itália, Tunísia e Malta. Desta vez,não me tinha sido possivel deslocar-me a alguns destes países,para apreciar in loco,o talento da nossa melhor cantora. Esta,era mais uma daquelas memoráveis noites,em que Amália graciosamente recebia os seus amigos para mais um convivio,ou melhor para mais uma tertúlia. O salão de Amália continuava igual. O piano,a guitarra, o busto a um canto,os célebres quadros de valor incalculável. "Oh D. Amália, que saudade!",disse-lhe oferecendo-lhe as flores."Muito Obrigada por ter vindo",retorquiu humildemente a cantora."Olhe, quero apresentar-lhe um amigo:David Mourão-Ferreira, que me faz o favor de escrever para mim coisas muito bonitas",adiantou Amália. Os meus olhos esbugalharam-se. Já o conhecia da televisão e dos livros, dos poemas que tantas vezes A Voz cantava. Era a primeira vez que se dava a feliz coincidência,de finalmente encontrá-lo, em casa da nossa amiga comum. Daí a três minutos, já estávamos todos,eu,a Amália, o David,o produtor de Amália Belchior Viegas,a prima de Amália, Maria de Lourdes Agapito,o César,marido de Amália,com a sua habitual boa disposição e Silvana,uma italiana, que tal como eu,fazia parte dos Amalianos, e que já havia encontrado em diversas partes do mundo,em muitos dos recitais da nossa Amiga. A Lili e a Estrela,sempre atentas ao chá e aos bolos secos,encerravam o circulo dos presentes nessa noite. "Hoje está pouca gente",dizia Amália, no meio da conversa." Ontem estiveram cá a Maluda,a Rosinha, o Carlos Gonçalves e o Alain, que regressou esta tarde a Paris." Eram assim as noites em casa de Amália Rodrigues,quando decidia receber os seus amigos. Agora,só daí a dois meses,regressaria "à estrada",outra fabulosa tournée,que incluiria sete noites seguidas no Olympia de Paris,seguindo-se depois a Belgica,a Suiça,a Grécia,Israel e o Libano,dando depois um saltinho ao Brasil e à Argentina. Os presentes garantiram pelo menos a vontade de estar na plateia das sete "soirées" do Olympia de Paris. Fizemos projectos,e a verdade é que nenhum deles falhou a sua presença na temporada de Amália no Olympia. Eu fui um pouco mais longe,e segui a diva até o Libano e Israel.Foram vinte dias extraordinários. Um mês de Setembro fabuloso! A conversa,noite dentro,ia tomando a forma de tertúlia, com Amália sempre interessada nas nossas críticas,na nossa opinião sobre os seus versos,a querer saber o que pensávamos deste ou daquele disco,daquele espectáculo,daquele outro vestido,enfim,as nossas impressões sobre os mais recentes concertos a que haviamos assistido. Lembrei a Amália, que tinha saudades de ouvi-la cantar o reportório do seu premiado album em Italiano, o "A una terra che amo". Confessou-nos,que deveria ter uns "ensaios valentes",pois já se esquecera de parte das letras das canções. Aceitou no entanto ,a minha sugestão de incluir o "Vitti`na crozza",um tema popular siciliano, ao que Silvana anuiu,lembrando que aquele disco havia sido objecto de estudo em Universidades italianas,dado tratar-se duma recolha da musica tradicional italiana,cantada nos dialectos de origem.A crítica italiana não hesitou em considerar aquele album um dos três melhores de "recolha da musica tradicional",ao lado de dois nomes de peso da Musica Italiana: Gabriella Ferri e Roberto Murolo. Com a particularidade de Amália ser estrangeira,e estar incluida nos três melhores albuns de Musica Italiana. Um feito notável, afirmava David Mourão-Ferreira. Belchior Viegas adiantou-nos que inclusivé o disco grangeou dois prémios nos anos setenta,e o galardão de "Disco de Ouro" pelas vendas em território italiano.Dois meses depois,tive o prazer de ouvir esse trecho ao vivo,na temporada do Olympia. Amália era assim. A opinião dos amigos era sempre considerada. Gestos de uma humildade, directamente proporcional à sua grandeza. Senti-me honrada. O David Mourão-Ferreira lembrou-se dum poema,e pediu licença para declamá-lo. Soaram aplausos no 1ºandar do 193 da Rua de S. Bento. Eram já duas da manhã,e parecia que só ali estávamos há quinze minutos. Amália,sugestionada pelo poema do David,lembrou-se dum fado, que pensava incluir no seu próximo disco. A "Prece",de Pedro Homem de Mello. Brindou-nos com a sua interpretação "à capella". A sua voz potente inundava o salão,os seus melismas misturavam-se na noite. Estávamos todos siderados. Ali,não havia intervenção da técnica,era a voz pura de Amália, vibrante, profunda..."Meu Deus, como pode haver alguém que diga que esta mulher já não é o que era?"-interroguei-me mentalmente,desejando que esses (poucos) detractores,a estivessem ouvindo nos seus sessenta e sete anos de vida. Levantámo-nos todos para aplaudi-la. O David beijou as suas mãos. O marido de Amália, com o seu sotaque brasileiro,e a sua boa disposição,comparou Amália ao vinho do Porto, afirmando-se por isso "embriagado"por Amália, há trinta anos. Houve risota geral. As gargalhadas motivaram o César a uma mão cheia de anedotas,a Amália tambem nos brindou com duas. Eu era sempre o elo de ligação com Silvana,que por vezes não entendia o português,e lá ia eu traduzindo. E, por entre mais um chá e mais um bolinho seco,passavam já das quatro da madrugada, quando,um a um, nos despediamos da nossa Amiga, grande Senhora da Pátria de Camões.A Estrela,gentilmente ia chamando os taxis,para quem os necessitava,e lá iamos,alimentados na alma,aquecidos no coração,por mais uma noite memorável em casa de Amália.Ao despedir-me,disse-Lhe um até breve em Paris. Amália repetiu uns quantos "Muit`Obrigada" já habituais. "Eu é que Lhe agradeço,pela honra de me receber em Sua casa. Até breve! Até Paris!"

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dezembro 09, 2003

LOBO ANTUNES e o meu desejo...

Se há escritor que me faz pensar, esse é Lobo Antunes. É também objecto do meu desejo. Espero um dia poder concretizá-lo. Se não o fizer,a minha vida como artista,e quiçá como individuo pensante, ficará irremediávelmente incompleta. Só terei que esperar que o destino benfazejo me ponha no caminho alguém com sensibilidade sufíciente,e talento q.b.,para musicar um dos seus poemas.Eu jamais me atreveria a fazê-lo. Queria tanto poder cantar-te, António, para poder sentir-te,no âmago da tua alma,na sabedoria das tuas palavras...Lobo Antunes, numa entrevista dada à Sic Notícias, afirmou não ser poeta. Se és ou não poeta,será esse o factor de somenos importância.O que tu és, é um manancial da sabedoria da Nova Era,uma fonte de pistas para o destrinçar dos mistérios da alma humana. Comoveu-me a tua humildade, António, quando disseste ao entrevistador , "...quando estava em África, O MEU COLEGA FEITICEIRO tratava as maleitas mais invulgares com as ervinhas que colhia,sabedoria milenar...".Essa tua visão antropológica do homem,será, sem dúvida, parte das soluções para muitos males do planeta no futuro, se essa sabedoria dos teus "colegas feiticeiros", fôr devidamente valorizada,na sociedade dita "civilizada". Que tenham escutado os teus colegas médicos,essas tuas palavras de saber. Até qualquer dia, António, num qualquer poema teu, saído da minha voz,que já quase dói...

Publicado por Valéria Mendez em 03:59 AM | Comentários (2)

dezembro 07, 2003

Cantando " Lisboa Antiga " na Sicilia (3) - O Espectáculo

Às quatro da tarde do dia seguinte,depois de um lauto almoço,cheio de conversas interessantes,e as sempre bem humoradas tiradas da Condessa,uma carrinha veio buscar-me para o "ensaio de som", no Teatro Communale. A Gala,dividida em duas partes,tinha um alinhamento simples: Alternavam um Grupo de Folclore local,com um artista de nome Antonello Bendetti, conhecido "cantautore",duma linha muito paralela a um José Mario Branco português,uma intervenção a cargo da organização,falando das vivências diárias de uma Associação que dá apoio a crianças com SIDA,seguida da minha participação com dois temas,seguindo-se Alice,uma espécie de Adelaide Ferreira à italiana,vencedora de dois Festivais de San Remo,de novo outra participação local,um grupo de musica etnográfica de Catalnissetta,interpretando duas musicas tradicionais,e para terminar a primeira parte a presença dum artista muito querido em França,a segunda presença estrangeira,para além de mim, o francês Frank Brun,muito conhecido pelas suas canções de solidariedade em Festivais da Unicef.A segunda parte,para além duma intervenção do Presidente del Commune ( Câmara local),seria da total responsabilidade da atracção principal: Eros Ramazzotti ! O ensaio de som,no meu caso, não tinha nada que saber. Dadas as minhas parcas possibilidades para poder levar musicos desde Portugal, tinha de me socorrer de playbacks instrumentais de estudio, fazendo porém questão de cantar em directo, até porque todo o elenco o ia fazer... O anotador, havia-me já avisado de que entraria em cena,depois do discurso do Onorevole Giuliano D`Oreno,dirigente da Associação beneficiada. Havia , duas horas antes, sido penteada e maquilhada num ambiente muito espalhafatoso,por um conhecido maquilhador, muito excêntrico, que passou todo o tempo a contar-me anedotas picantes,no meio da algazarra de Alice,uma bem disposta figura,de voz rouca,e com um sentido de humor de ir às lágrimas. Escolhera um simples modelo preto/prata de duas peças,calças e tunica. Aliás, mesmo que quizesse mudar,não o poderia fazer, era o unico traje de cena que havia trazido desde Portugal. Dum canto dos bastidores,consegui ver a sala repleta do velho teatro,que escapara às vicissitudes de duas guerras mundiais. Na primeira fila, lá estavam os colunáveis,a Condessa e o casal Pietro e Tijen,e outras individualidades,para mim irreconhecíveis. Por momentos, tremeram-me as pernas, eu sabia que ali estava, só por ter sido colega de faculdade da nova Condessa,a turca que se havia tornado, nora da Condessa de Catalnissetta,uma das mulheres mais ricas da região. Nada mais. Seria o que Deus quizesse,e a minha voz ajudasse. Súbitamente, o apresentador anunciou: " È stata studente universitária in Italia, voce nata all`Isola di Madeira,Portogallo, seguitrice della mágica di Amália Rodrigues, Vi presento Valeria Mendez." Agora,já não podia fugir. Não havia outro remédio,senão avançar...Entrei ao som de "As mãos que trago",poema da brasileira Cecilia Meirelles, musicado pelo compositor de Amália, Alain Oulman, numa orquestração nova,diferente daquela de Amália, sem quaisquer rasgo de paralelismo. Cantar Amália, só se fôr assim. Se caímos na tentação do registo amaliano, por força que daremos algumas cambalhotas. Não se pode imitar um génio!..." FORAM MONTANHAS, FORAM MARES / FORAM OS NUMEROS,NÃO SEI/ POR MUITAS COISAS SINGULARES/ NÃO TE ENCONTREI,NÃO TE ENCONTREI..." No final,aplausos. A Tijen aproxima-se da boca de cena. Faz um aceno. Acerco-me da beira do palco. Pede-me o microfone. " Sapete una cosa? Valeria ed io, avevammo diciassette anni, quando abbiamo,per la prima volta, visto Amália Rodrigues a Perugia. Grazie di essere venuta!" Já de posse do microfone,retorqui: " Ti ricordi, Tijen, di questa canzone, Lisboa Antiga? È di Amália! Grazie a tutti,e arrivederci!". Neste momento, iniciava-se a melodia de Lisboa Antiga,musica de Raul Ferrão, que Amália, há mais de vinte anos, havia também cantado num velho teatro da cidade etrusca de Perugia, perante uma plateia, maioritáriamente constituída por jovens universitários, entre os quais, Tijen e eu. " LISBOA,VELHA CIDADE,CHEIA DE ENCANTO E BELEZA/ SEMPRE A SORRIR,TÃO FORMOSA,E NO VESTIR, SEMPRE AIROSA..." No fim, toda a sala, trauteava entusiásticamente o refrão, num lá lá lá aberto, harmónico, proprio de quem conhece a melodia.Aplausos.Uns quantos gritos de "Brava! Brava!", fez-me subir ao sétimo céu. Eu não sou uma pessoa feliz. De todo! As minhas angustias,os meus medos,as minhas frustrações parecem ser sempre mais fortes. Mas, há momentos, em que posso dizer, que "molhei o pé" nas águas da praia dourada da felicidade. E esse, era um deles... Terminara ali, o motivo da minha viagem à Sicilia... Daí a uma meia hora, transformava-me numa louca fan de Eros Ramazzotti... Que noite! E que pena, de Eros só ter trazido um disco autografado,e um beijinho na face. Enfim...São momentos como esse, que me fazem zangar com Deus, por não me ter concedido a "força" duma daquelas louras de arrasar, que param o trânsito em qualquer parte do mundo. Azar o meu. Ainda bem...Para a mulher dele! Claro.

Publicado por Valéria Mendez em 09:34 PM | Comentários (2)

dezembro 06, 2003

Cantando "Lisboa Antiga" na Sicilia ( 2 ) - Os Condes de Catalnissetta

Estávamos já a percorrer uma zona que me era muito familiar. Pelo celular de Lorenza, telefonei para o solar dos Condes, advertindo Tijen da minha chegada com Per,e uma amiga que nos acompanhava. Tijen havia catrapiscado o filho da Condessa, nos nossos tempos de estudante na Universidade de Perugia, ( Leiam-se as minhas crónicas " Corso Vannucci" de 31 de Agosto/03,e "A Condessa de Catalnissetta",de 26 de Outubro /03)em que o jovem Pietro ,no seu Ferrari vermelho, punha as meninas todas de cabeça tonta,com os seus caracois alourados. A amizade da rapariga turca, que se tornara numa herdeira milionária siciliana, nunca se esbatera. Aos dezassete anos de idade, haviamos partilhado momentos inesquecíveis,e eu própria, era um dos testemunhos mais antigos do florescimento do seu romance,e mais tarde seria igualmente testemunha in loco do seu fabuloso matrimónio. Agora, encontrava-me de novo em Catalnissetta, desta vez para participar numa Gala, a favor das Crianças com Sida, patrocinada exactamente pelos Condes de Catalnissetta. Fomos recebidos de forma familiar pela Tijen, pela velha Condessa, sempre bem disposta e excêntrica,e por Pietro,sempre muito gentil e atencioso. Expliquei-lhes a presença de Lorenza e de Per, que aproveitara a minha dica para fazer umas curtas férias em Itália,e logo com a gentileza que caracteriza aquela gente,exigiram que aceitassem a sua hospedagem. "Nem se discute,disse a velha Condessa. Vocês chegaram quase mesmo em cima do Jantar. Têm tempo para um banho,e daqui a uma hora quero-vos na sala de jantar", disparou logo a Condessa, em tom de comando. Agradecemos,e fomos logo encaminhados para os nossos aposentos. E de novo, senti o mesmo pulsar da "villa", cheia de História e tradição. Ali estava o quarto, com uma camilha do século XIX, donde pendiam muros de seda rosa pálido, que lentamente balançaram com a corrente de ar, quando abri a janela que dava para o fabuloso jardim da mansão... ( CONTINUA)

Publicado por Valéria Mendez em 02:05 AM | Comentários (3)

dezembro 05, 2003

Cantando "Lisboa Antiga" na Sicilia ( 1 ) - Passagem pelo Cemitério de Reggio Calabria

Tinha de ser. Antes de tomar a "nave-traghetto",em direcção à Sicilia,tinha de honrar uma velha promessa. O meu antigo colega de Faculdade, o sueco Per, também. Surgira agora a oportunidade. Para mim, de participar numa Gala de Beneficência na Sicilia,e para o Per, de tirar uns três diazinhos da sua actividade de docente, na Universidade de Upsalla. Por isso,eu e o Per,haviamos marcado encontro na Galeria de Arte que houvera pertencido a Ada(Leia-se a Crónica "Promenade des Anglais", 4 de Setembro/03),a nossa maravilhosa colega italiana,de Reggio Calabria, que da lei da vida se libertou, num acidente atroz,há quatro anos.A nova proprietária da Galeria, a sua irmã mais nova Lorenza,já nos esperava,emocionada pelo facto de nunca termos esquecido Ada. Eu cheguei de manhãzinha pelas 9 horas. O Per chegou duas horas depois. E, com os nossos olhos aguados, rumamos os três para o Cemitério "dell`Annunziata". Na mão, levava um bonito ramo de flores da Madeira, que penosamente transportara em sucessivos voos, até finalmente chegar ao extremo sul da "bota". As flores, acusavam já o cansaço. Representavam porém,o meu amor por Ada, a minha gratidão pelos belos momentos de tertúlia que viveramos há vinte anos, na cidade francesa de Nice. O Lancia Thesis ,de Lorenza abranda a marcha e, eis-nos chegados ao derradeiro reduto ,da sua bem amada irmã. Passeando por entre moradas etéreas impecávelmente decoradas,o olhar de Lorenza advertiu-nos que havíamos chegado ao nosso destino. E lá estava ela,numa fotografia a preto e branco. Sorriso franco de quem gostava da vida. Ali. Confinada às paredes do seu jazigo. Sentámo-nos no chão. Ofereci-lhe as flores. O Per depositou uns versos feitos por ele,em Francês,o idioma que nos tinha aproximado. Falámos com ela. De tantas coisas, dos tempos que passámos juntos na Côte d`Azur,das peripécias que vivemos, das célebres aulas de Literatura Comparada, da Professora Alice Planche, que tanto Ada apreciava. Sob o olhar um pouco atónito dalguns passantes, ali estávamos os três,como se fossemos quatro, sentados no chão, falando de, e com Ada. Duas horas depois, diziamos um "até breve" à doce amiga "calabrese". A Lorenza fez questão de nos acompanhar até Catalnissetta,na Sicilia. Foram mais de três horas, depois do trajecto de "overcraft",entre Reggio C. e Messina,na Sicilia, onde penetrámos no interior da ilha, atravessando toda a zona montanhosa de Enna, descendo até o vale,e depois subindo um pouco até Catalnissetta,no centro da Velha Ilha... (CONTINUA)

Publicado por Valéria Mendez em 01:59 AM | Comentários (3)