Georges Moustaki, Collette Magny, Sarah Alexander, Mohammed Bhar, e eu, haviamos actuado no final da manifestação da Peace Now, junto às vetustas muralhas da cidade velha de Jerusalém. Vários nomes da política israelita de centro e esquerda, e diversas personalidades da vida publica palestiniana, tinham ali discursado perante a mole imensa de gente ,que ali estava de mãos dadas pela Paz. À noite, no Hotel St Georges, o Embaixador Francês em Israel, oferecia um jantar aos activistas, artistas e personalidades que tinham emprestado o seu nome , pela Paz no Médio-Oriente. Na minha mesa, concentravam-se os artistas convidados. Ao meu lado, Georges Moustaki- Um homem deslumbrante, que nos regalou com a sua sabedoria e peripécias de "chanteur engagé". Dizia Moustaki, que "a canção de intervenção é muito mais do que uma arma,é o processo mais criativo de subliminarmente fazer emergir das massas,o desejo pelo exercício da liberdade e do respeito pelos Direitos Humanos ". A noite foi profícua em intervenções informais, porém sempre dum aguçado espírito de observação da realidade. Lá para o final do jantar, os artistas presentes deram um ar de sua graça, interpretando algumas canções . Georges Moustaki presenteou-nos com algumas das suas baladas, sempre cheias de simbolismo e de mensagem. Chegada a minha vez, pedi desculpa a Moustaki pela audácia, peguei na minha guitarra, e comecei a cantar as primeiras notas de" Ma liberté", um poema do baladeiro francês, mas adaptado a uma musica de minha autoria. No final ,Moustaki agradeceu-me por me ter lembrado daquele seu poema ,segundo ele " esquecido". Collette Magny disse-nos também, que tinha sido um momento estranho ,e ao mesmo tempo universal-a fusão entre o poema dum baladeiro ,e uma cantora de fado. Foi um dos raros momentos preciosos ,do meu percurso como artista. Nunca gravei essa canção. As editoras dizem que não sao lucrativas as peças do meu reportório. Não sou ambiciosa. Canto porque gosto de Poesia. Houve quem dissesse o mesmo a José Afonso ou a Adriano Correia de Oliveira. É assim certa " intelligentsia" do meu país.Mas o que interessa, é viver. Sem amarras, sem ter de fazer concessões, sem vender os nossos ideais. A riqueza ,é só um bem material. E eu, só preciso dumas roupas para vestir e dum pouco de pão para comer. . .
Um estúpido acidente de viação,decepou-lhe a vida aos 27 anos. Era irmão do fadista Carlos Zel, também já falecido. Acompanhou-o durante anos. Foi musico privativo de Paulo de Carvalho, e de Hermínia Silva, nos ultimos anos da sua carreira. Era um virtuoso da guitarra portuguesa, um rapaz simples e culto. Atencioso, e duma educação esmerada. Um "gentlemen". Foi também o meu guitarrista, durante mais de um ano, sempre que cantava no continente português. Esteve ao meu lado no Coliseu, no Teatro Maria Matos, no Luísa Todi de Setubal, etc. Fez também comigo um programa para a RTP-Madeira, gravado numa unidade hoteleira do Funchal. Cantar, acompanhada por Alcino Frazão, era um momento de prazer. Ele ensinava-me a cantar. Poucas vezes me senti tão à vontade em palco. O Alcino estava sempre atento ao meu improviso, às minhas inflexões de voz, às minhas paragens, ao exercício da criação. Lembro-me que, uma noite no Maria Matos, decidi à ultima da hora ,cantar o "Amor`dammi quel fazzollettino", uma peça da musica popular italiana. No camarim, dei-lhe umas dicas sobre a musica. Pu-lo à vontade, e disse-lhe que se não quizesse, eu cantaria um dos três temas que estavam previstos no alinhamento. O Alcino retorquiu que, se eu achava que devia cantar aquilo, faria o seu melhor. O Mário Pacheco, exímio musico que tocava com ele, concordou. Repetimos umas quatro vezes a canção, e minutos depois, estavamos no palco . Foi fenomenal. O publico acabou por aprender o refrão, e acompanhou-me num " lá lá lá " delicioso. No final, o Alcino, na sua simplicidade confessou-me: "Parece que me saí bem." "Bem? "- disse-lhe eu. "Tu foste fantástico !" Ao que ele rematou- " Ainda vamos estar os dois no palco do Olympia ! " Ainda hoje, os meus olhos traem-me, quando penso no Alcino. Que merda que é, por vezes, esta vida. Eu sei que nunca mais voltarás a tocar para mim o " Amor`dammi quel fazzollettino ", mas estarás sempre no meu coração. Ainda agora ouvi uma das tuas variações, numa reedição de um dos teus discos...
Havia acabado de cumprir 17 anos, e encontrava-me em Perugia, cidade etrusca muito bela, fervilhando de estudantes universitários, das variadíssimas instituições de Ensino Superior. Em Perugia, não há possibilidade de não se encontrar seja que curso fôr, de Medicina a Astronomia, há cursos para todos os gostos e feitios. É uma cidade velha com gente nova, vinda dos quatro cantos de Itália, e do Mundo. Há americanos,franceses,brasileiros,palestinianos,sauditas,japoneses,filipinos, enfim, até do Vanuatu encontrei um rapaz, que tinha vindo cursar Biologia. Da pequena varanda da Casa dello Studente,na via Fortebraccio, estendia-se à minha frente uma rua sinuosa,por entre os edificios milenares e medievais, e lá no cimo da rua, quase como um promontório, lá estava a Capela Redonda, com mais de seiscentos anos. Um dia ,decidi percorrer a rua que dava acesso à Capela que me fascinava, e lá chegada, entrei. A frescura no interior da capela, transportou-me para um bem estar físico e espiritual surpreendentes, contrastando com o calor insuportável daquele fim de verão na Umbria italiana.Não havia ninguem na Capela. Era grande, redonda, com belissimas imagens e frescos de Madonnas, Santos e Cristos crucificados. Aproximei-me do altar, lindo, cheio de embutidos e madeiras ricamente trabalhadas e pintadas a folhas de ouro. Quase sem querer;porventura o meu espirito decidiu comemorar aquele momento especial, e em vez de uma oração, comecei gradualmente a vocalizar as primeiras notas do fado de Amália, "Foi Deus".Sem me aperceber do volume da minha voz que ecoava pela capela, cantei o fado todo, tal como um canto gregoriano. Ao terminar o fado, alguém atrás de mim, batia palmas. Virei-me, envergonhada; era um padre, de hábito franciscano até aos pés, ainda jovem,com uns olhos muito negros. " Não se acanhe, este foi um momento de oração muito belo. Você cantou uma canção de Amália Rodrigues,não foi ? Que bela ! " Só sei que ,passadas duas horas, é que saí da Capela, depois de uma longa e interessante conversa com o padre da Capela, que também tinha ido ao recente concerto que Amália havia dado em Perugia. Falamos da sua paixão por S. Francesco d`Assisi, ele perguntou-me coisas sobre Portugal e Amália ,e falou-me da sua vocação. Ficamos amigos. Sei que, há cerca de um ano, ele estava de serviço num Convento em Napoles. Pelo menos uma vez por ano, no Natal, recebo sempre do Padre Altieri, um pequeno cartão. De vez em quando, até lhe envio um CD de Amália, que ele esfusiantemente me agradece. Que lindos foram os meus dezassete anos ! Apesar dos pesares...
O Teatro Baltazar Dias, no Funchal, acolheu há dois anos, uma homenagem a Amália, pela brasileira Bibi Ferreira, actriz e cantora de 83 anos, que surpreendentemente mostrou uma genica espantosa, interpretando um rosário de fados da diva portuguesa, intercalados com momentos de representação, desfiando algumas das etapas da carreira de Amália, como cantora e actriz. Carlos Gonçalves, o célebre guitarrista e compositor de vários sucessos de Amália, entre eles "Lágrima", um poema da propria fadista, foi o responsável pela direcção musical do show de Bibi Ferreira, que entoando os fados de Amália com sotaque luso, conseguiu por vezes uma aproximação cénica da diva portuguesa, de forma algo inesperada. No final do recital, tive oportunidade de conversar longamente com Bibi, e de elogiá-la pelo vigor demonstrado. Fiquei sabendo que Edith Piaf e Amália ,são as suas grandes referências em termos de Music-hall internacional,e que o seu espectáculo , "Amália", percorreu várias cidades do Brasil e também Lisboa ,Paris e Madrid. Um encontro bastante profícuo para mim, com Bibi Ferreira, a pioneira do Teatro Musicado no Brasil, hoje perpétuado por esse outro nome grande dos palcos , Marília Pêra, que recentemente esteve em Lisboa, para evocar Ary Barroso.
Arafat foi o leader eleito democráticamente pelo povo da Palestina. O governo de Ariel Sharon, pretende a sua expulsão do território palestiniano. O Direito Internacional e as Nações Unidas reconhecem Yasser Arafat como o leader da Autoridade Palestiniana. Como poderá Sharon pretender desafiar as decisões democráticias de um povo, desafiando a Legalidade Internacional ? Como poderá o mentecapto Bush, ter dois pesos, duas medidas, quando um Chefe de Estado não acata as resoluções da ONU ? Fora esta atitude perpetrada ,por parte dalgum estado árabe, os USA ,arvorar-se-iam em defensores da Legalidade Internacional, e possivelmente teriam adoptado medidas drásticas para a defender. Perguntaria agora, porque razão Bush não exige de seu "colega" Sharon, a reposição dessa Legalidade ? Pois é- dois pesos, duas medidas ! Por essas e por outras, é que tragédias como o 11 de Setembro ocorrem, criando um mundo cada vez mais inseguro,e humanamente injusto . E de quem será a culpa ?
Dizia-me há dias,num comentário,a amiga Xinha ,que a vontade de matar e de fazer sofrer, depende das circunstâncias. "Sou contra a pena de morte, mas se alguem matar o meu filho, eu mato-o." Nesta simples frase jaz todo o complexo fenómeno do terrorismo no Médio Oriente. Na minha recente deslocação a Israel e à Palestina, tive ocasião de visitar uma família de palestinianos, cujo filho de 14 anos, havia sido preso durante uma rusga, nos arredores de Jerusalem. Ficou detido uma semana. Nesses intermináveis dias, o Ahmed foi confrontado com um interrogatório bastante denso,por parte de militares israelitas, que queriam por força, que o adolescente lhes revelasse os nomes dum certo grupo de rapazes ,que revivendo diáriamente a intifada, haviam incendiado um carro dum colono judeu. Ahmed, na sua bravura, nada adiantou. O colono em questão, havia uma vez dado um tiro de caçadeira a um dos seus primos, uma criança de 8 anos, só porque tinha entrado no quintal do judeu, para resgatar uma bola que, inadvertidamente ,ali tinha entrado. Essa criança, teve mesmo de ser operada, devido a essa agressão. O colono não sofreu consequências de espécie alguma. Para cúmulo da situação, o tal colono ocupava agora, uma pequena parcela de terreno confiscada aos pais do miudo.Ahmed sabia de tudo isso. Disse-me também que sabia que não era correcto incendiarem-se os carros. Mas também me disse que, o seu pai estava morto, resultado dum ataque dum helicoptero israelita, quando se encontrava a trabalhar em Ramallah. O que era um carro, frente a uma vida ? E foi então que a mãe do Ahmed lhe pediu para tirar a t-shirt que trazia vestida. O que os meus olhos viram jamais esquecerão: as costas do rapaz estavam literalmente esfaceladas, haviam ruas profundas na sua pele, rasgos de queimaduras, as suas costas pareciam uma parede feita de tijolo, plena de sulcos impensáveis. O Ahmed nem pestanejou, ao ver a minha expressão de horror e indignação. Apenas disse: " Eles fizeram-me isto com um ferro quente. Queriam os nomes, mas nunca abri a boca. Nem que me matassem ! " Creio que nem preciso me alongar mais em análises pouco profícuas. Perspassa-me contudo um pensamento - Que tipo de juventude está criando Israel,para fazer com que um soldado de 20 e poucos anos se predisponha a tais barbaridades ? Aonde é que estão os terroristas ? Será que estão só do lado de fora da barricada ? Mais uma vez, tenho de compreender a cruel alegria das caras de muitos muçulmanos, ao verem Nova Iorque chorar as suas vítimas. Dizia-me a mãe de Ahmed- " Eles agora que sintam na pele, o meu sofrimento ! " Pois é. Quem poderá contra-argumentar ?
Passara-se quatro meses,depois da nossa ida à Montaña de Sorte, nos arredores da cidade de Barquisimeto, Venezuela. Nunca mais haviamos pronunciado uma palavra sequer sobre o sucedido com o nosso colega musico. Encontrava-me com ele, sempre que necessário,e a nossa agenda nos exigia. Desta vez ,eu e o mesmo grupo de musicos,haviamo-nos deslocado a uma unidade hoteleira dos Açores, para dois recitais. Falávamos muito, trocávamos ideias sobre este ou aquele andamento,desta ou daquela canção,discorriamos um pouco sobre politica, sobre Arte, enfim, falávamos de tudo menos da situação do filho do Manuel. Se ele se calava, o mais correcto era não tocar no assunto. Todavia, no meio dum pequeno ensaio num dos nossos quartos do hotel,na fabulosa ilha de S. Miguel,o Manuel parou de tocar,olhou para nós os dois,e novamente de olhos ceguinhos de choro, quebrou o tabu,e disse-nos: " Vocês lembram-se daquilo ?". Ele nem precisou especificar.Nós sabiamos de que falava ! Olhem, estou tão feliz, estou muito esperançado,o meu filho finalmente aceitou internar-se para uma desintoxicação. Eu fiz "as coisas " que " ela "me disse,mas não posso dizer a ninguem o que fiz. Abraçamo-nos os três . Entre lágrimas contidas, ele discorria sobre o passado-" sabem, era um inferno,ele até o carro dele vendeu por 300 contos,um carro que valia uns 1.500 contos no mínimo. Era um inferno, a minha mulher nem um ferro de engomar podia ter. Tinhamos de trancar tudo ! Há já uma semana que ele está internado. Desculpem, eu não me ter aberto com vocês, mas só falar disso me doi..." Nós compreendiamo-lo. Desejamos-lhe boa sorte... Passados seis meses da saída da clínica,o filho do Manuel veio um dia com o pai,a uma noite de Fado,perto do sítio onde moravam.O Manuel transbordava de felicidade,de braço dado com o filho,nessa noite chorámos os quatro de alegria." Desde que fui internado,nunca mais toquei naquela merda",desabafou -nos o rapaz.Parecia que a sua vida tinha entrado nos eixos,retomara o seu antigo trabalho,e já estava pensando em comprar um carrito. À despedida, o Manuel disse-me ao ouvido- " a Valéria lembra-se da india ? Ela prometeu ,e cumpriu." Eu abracei-o e só pude balbuciar um " Graças a Deus." Só sei que agora,quando me desloco a Caracas,e passo por exemplo perto da Universidade ,onde está uma das estátuas de Maria Lionza, já não sorrio, nem acho graça, às pessoas que vejo acenderem-lhe velas,oferecerem-lhe flores e fumarem os seus " puros ",à volta do monumento. Sigo o meu caminho, pedindo mentalmente à India, que lá do campo étereo onde se encontre,ajude aquelas almas de fé. Sinceramente. Intrigada e inconformada por não ter encontrado na minha mente e na minha formação científica ,alguma explicação racional para todo este episódio, regressei um ano depois à Montaña de Sorte,afim de tentar encontrar pistas que saciassem a minha sede de conhecimento. Mas ,sobre o segundo e ultimo encontro que tive com " la bruja mayor " será preciso mais um bom tempo de reflexão e de escrita, que nesta ocasião não me é possivel efectuar. Neste momento, em Setembro de 2003, a velha senhora india, segundo me disseram, já passou para a dimensão do espírito. Viveu físicamente neste planeta quase cem anos. Dizem que morreu, dormindo. Uma morte Santa, conforme afirmam os seus seguidores...
MONTAÑA DE SORTE ( ciudad BARQUISIMETO, Venezuela ) "Kongo,Konguito,kongo de verdad,venid a la tierra hacer caridad..." Chegaramos de jipe,depois de mais de oito horas de viagem ,desde Caracas. Havia, dois dias antes, actuado no Centro Português da capital Venezuelana, e uns amigos luso-venezuelanos haviam-me prometido esta viagem, depois duma interessante conversa sobre antropologia cultural e as tradições espiritualistas latino-americanas, assunto que me apaixonava desde há vários anos. Já houvera estado em Barquisimeto,cidade do interior da Venezuela,muito plana,sem grandes arranha-céus, de clima muito quente, equatorial,porém pouco humido,contráriamente à maioria das cidades daquele país,onde a humidade parece que nos entranha na pele,fazendo dos banhos frios, um prazer indescrítivel. A viagem de carro, desde Caracas ,tinha sido apaixonante e algo perigosa, dando-nos um perfeito portrait fiel da verdadeira Venezuela.Imaginem um carro com vinte anos, onde cada arranhadela, cada mossa na chaparia, parecem reliquias guardadas com esmero. Foram carros assim que encontramos nas "autopistas", muitos parados na berma, de capot aberto com um homem debruçado no motor, qual mãe, atenciosamente cuidando dos achaques de seu filho doente.Os semáforos,existem; contudo parece que lá estão como elemento decorativo,pois ninguem repara neles,e para avançar, só basta a atenção dos condutores,que rápidamente decidem abrandar ou seguir em frente,estando vermelho ou não, esses " postes decorativos ".Para aceder à Montaña de Sorte, haviamos atravessado Barquisimeto duma ponta a outra, onde podiamos observar ainda as construções da ocupação espanhola do século XIX, com as suas grandes casas quadradas,abertas ao meio,deixando em espaço aberto os seus pátios, com jardins e a tradicional fonte no meio deles, abastecedora do precioso liquido cristalino. Entraramos num autentico labirinto ascendente, de terra batida, dentro duma luxuriante vegetação, dum verde escuro deslumbrante.À medida que subiamos a encosta, a temperatura tornava-se mais amena,e nesta altura já haviamos desligado o ar condicionado do jipe e abriramos as janelas,para inspirar aquele ar revigorador e refrescante. Ao chegarmos a um planalto,várias cabanas de colmo e de madeira surgiram ante os nossos olhos, e algumas pessoas sentadas à volta de pequenos altares,construídos em pedra, de onde sobressaiam velas acesas,copos com bebidas dentro, frutas e pratos com comidas variadas, fumando charutos ao som de batuques " santeros ", para chamar os espíritos. O local tinha uma magia especial. Todos vinham " fazer trabalhos de santeria ". Na cabana maior, uma estatueta de " Maria Lionza ",uma india que, segundo a lenda, viveu no século XVI, e possuia dons extraordinários. Maria Lionza é uma autentica instituição religiosa na Venezuela. Não é raro vermos, mesmo em pleno centro da cidade de Caracas, pessoas depositando flores e fumando charutos junto às duas principais estátuas da india, mandadas erigir pelo governo venezuelano. Maria Lionza é apresentada, cavalgando nua sobre uma onça,e são vários milhares ,os relatos de "visões " das aparições milagrosas daquele icone pagão,em terras de Simon Bolivar. Segundo a "santeria", Maria Lionza viveu numa tribo,ladeada pelo vigoroso cacique Guaicaipuro,indio guerreiro,e pelo feiticeiro Negro Felipe que conhecia as artes esotéricas como ninguem.Para compreendermos a importancia deste trio na sociedade venezuelana do século XX, refiro só como exemplo o facto de ,em plena Caracas haver ruas,avenidas, mercados que ostentam os seus nomes. O mercado Guaicaipuro é deles um exemplo, onde podemos todos os dias ver alguns dos nossos emigrantes, venderem as suas frutas, legumes, carnes e flores. Junto ao altar exterior da cabana maior,uma velha india chamou-me à atenção,pela sua cara marcada pelas rugas impressionantes,e ao mesmo tempo pela agilidade com que bailava , à volta das velas, fumando seu charuto e bebendo "caña",uma aguadente de cana de açucar. De vez em quando parava junto a uma pessoa,e falava-lhe,dando conselhos e apontando "soluções " para os seus problemas. Acercamo-nos e sentamo-nos no chão. Alguem me sussurrou ao ouvido, ela é a " bruja mayor " e tem mais de 90 anos.Depois de muitas orações, cânticos e charutos consumidos,inicia-se o ritual da incorporação. A velha senta-se no chão,os olhos quase soltam-se de suas orbitas,e já possuida por algo que não consigo explicar face à minha formação cultural europeia,começa a proferir palavras imperceptíveis. Alguem diz, " é o Negro Felipe.Hoje é o Negro que nos vem visitar ! " Todos os presentes, fumando seus charutos, o saudam : " Bienvenido Negro. Aqui estamos fumando nuestros puros en tu honor ! " A velha india, transfigurada,e com voz masculina,cavernosa e lenta,responde."Ustedes han pedido caridad.Aqui estoy ! ",sentando-se no chão,junto ao altar.A maioria das pessoas levantaram-se,puseram-se em fila,e durante cerca de quase quatro horas,o Negro incorporado na velha senhora, atendeu todo o tipo de gente, cada qual com seu problema,o tratamento médico que não estava a resultar,o marido que a tinha trocado por uma " chica" mais jovem, os negócios que corriam mal e até um noto ex-ministro,que a maioria das pessoas reconheceu,lá estava ,sabe Deus porque razão. A nossa presença ali não se prendia com algum problema palpável. Tinhamos curiosidade. No entanto, e talvez levado pela atmosfera algo invulgar, um dos meus musicos,levantou-se e aproximou-se da india,já lá para o final. Tácitamente, juntamo-nos a ele na " consulta ". Sem que alguem tivesse proferido uma palavra, a velha india,com voz masculina de venerando velho,olhou fixamente o guitarrista e disse: "Hijo mio. Yo sé que tu sufres por tu muchacho. Mira ! Yo te voy ayudar. Te voy a enseñar algo y solo tu tienes que hacerlo sin decir a nadié,y vas a ver, tu hijo dejará la heroina. Por favor,hermanos,yo quiero hablar solito con vuestro amigo! "Nesta altura os olhos do meu amigo musico estavam marejados de lágrimas. Ficaramos petríficados ! Como autómatos,desviamo-nos do altar, e deixamo-los em conferência imperceptível durante cerca de quinze minutos.Nem eu ,nem o outro guitarrista que nos acompanhava, sabiamos desse problema. O Manuel (nome ficticio,por razões óbvias) era um homem calado,muito simpático e atencioso, mas muito reservado.Nunca nos falara de si ou da sua família,e nós respeitavamo-lo. Já tinha estado em muitos sítios com ele,em Lisboa,no Coliseu e no Teatro Maria Matos, em Setubal no Luisa Todi,em diversas unidades hoteleiras na Madeira,e em quase todas as digressões à Venezuela e França,sempre que os nossos empregadores artísticos disponibilizassem meios para um acompanhamento ao vivo,sem aquela treta dos playbacks instrumentais que retiram muito à essencia duma boa performance. Quinze minutos depois, o Manuel aproximou-se de nós,ainda de olhos vidrados,e só foi capaz de balbuciar-nos duas palavras : "É verdade." Durante toda a viagem de regresso, não pronunciamos uma palavra sequer sobre o sucedido. Ninguém era capaz de dizer fosse o que fosse. A minha cabeça deambulava, procurava encontrar uma explicação racional para tudo isto. Como é que alguem do interior duma Venezuela tribal e ancestral sabia que o meu guitarrista tinha um filho heroinómano ? Tudo isto desafiava qualquer lógica ou premissa cientifica. Regressamos a Caracas, calados, pensativos e atónitos...
Em Maio deste ano , recebi da SIC Televisão dois convites, para actuar em dois dos talk-shows de maior audiencia daquela estação.Como artista profissional , as aparições televisivas são muito importantes,pois dão-nos a conhecer a um publico mais vasto, trazendo-nos algumas benesses ,entre as quais, as de partilhar com um numeroso grupo de pessoas o nosso trabalho e, por vezes, as nossas opiniões e vivências.Foi o que aconteceu em "Às 2 por 3",apresentado por Fernanda Freitas, e "HermanSic",apresentado por Herman José.No primeiro, tive direito a uma entrevista de dez minutos e duas canções, e no ultimo,falei uns vinte minutos e interpretei um só fado.Vinte minutos em TV é muito:pode-se falar de nós, mas sobretudo falar do que se pensa;e sem querermos,tornamo-nos em "opinion makers" junto daqueles que por qualquer motivo se identificaram connosco, a proposito de uma frase, duma canção ou dum desabafo.É por isso,que considero que ser-se artista envolve uma grande responsabilidade social,dado que temos mais oportunidades de comunicar,e essa comunicação tem a obrigação ,de ser honesta e didáctica,abrangente e cultural. Jacques Brel ,dizia muito acertadamente-"nesta profissão,vale tudo menos fazer batota." O Herman, para além dum grande entertainer, é um entrevistador de eleição. Sabe deixar falar quando vê que o convidado tem estaleca para isso,e sabe intervir no momento e altura certas ,e extrair daí o momento de seriedade,de introspecção, de análise ,de comicidade ,ou de "non sense", em conformidade com os contéudos extravasados pelos entrevistados. No meu caso, aproveito sempre estas minhas exposições mediáticas , para tentar ser sempre um pouco pedagógica em relação às coisas em que acredito,mas com o Herman é impossivel levar o tempo todo a falar de coisas sérias,por isso, e a propósito duma modelo que havia participado antes de mim,num sketch apresentativo dum disco de David Fonseca, tive de desabafar com o amigo Herman,a minha frustração em não ser uma loura de arrasar,daquelas de fazer parar o trânsito.Infelizmente ,não devo nada à beleza,e nunca fiz plásticas para tentar melhorar o meu aspecto.A minha passagem por uma sala de cirurgia, deveu-se unica e exclusivamente à deficiência com que nasci. Mas ,a verdade é que,continuei eu a dizer na entrevista," fico roída de inveja,quando vejo uma daquelas louras fulminantes,e uma data de cachorrinhos de língua de fora atrás delas.Ah, eu vendia a alma ao diabo para ser assim ! " A esta altura,estavamos já na parte final da entrevista,e mentalmente implorei que o Herman não caísse na asneira de tentar ser agradável,e me mandasse um piropo, para eu não me sentir assim tão feia.Disse-lhe logo-" Olhe que eu tenho espelhos em casa..." Foi logo que o Herman do alto da sua sensibilidade,me disse com um ar invulgarmente sério: "...mas sabe, com você,depois de cinco minutos de conversa, vêmo-la logo com outros olhos ;agora percebo porque a Amália a incluiu no seu grupo restricto de amigos.A Amália adorava rodear-se de gente inteligente. E ,a inteligencia faz as pessoas bonitas. " Bom...Exageros à parte,agradeço ao Herman o elogio. Mas temo que agora,eu vá estragar tudo; é que cá no fundo,continuo roida de dores de cotovelo das barbies todas,até mesmo duma miss colombiana que conheci ,e que acreditava que Portugal se situasse geográficamente no sul do Brasil. É que o raio dos homens não conseguiam disfarçar aqueles olhares lânguidos de desejo...Oh pá,não tenho culpa ! Rasgo-me de inveja.Rais`ma partam!
Existirá alguem no mundo ,que nunca passou por uma perda ? Não, é claro que não. Não há nada pior do que levar uma grande tareia do destino,e a unica coisa que nos resta, é crescer com esse sofrimento. Nas cartas do tarot, a perda é representada pelo arcano numero 16 - A Torre. Dizem os tarologos e esotéricos,que a palavra-chave é "abrir a mente ",e crescer com ela. Os judeus dizem que as perdas,ou um periodo de anti-sorte ,é necessário na vida de todas as pessoas, pois faz com que as suas reservas de sorte fiquem sempre bem cheias. A perda,para o perdedor ,é terrivel ;para o vencedor é apenas mais uma etapa de vida. Quem vive a vida com riscos, como todos os seres humanos, não pode se abalar com problemas diários. A vida, se for levada dessa forma,pode tornar-se intolerável. Acabamos por criar o nosso inferno. Refira-se que inferno vem de " inferi" ,mundo inferior. Devemos sempre pensar de forma instintiva. Afinal,quando o diabo fecha uma porta, Deus abre-nos dez à escolha. É tudo uma questão do " S "- De crise,retire-se o " S " , e terá CRIE ! É esta a alquimia verdadeira. Ela começa no plano mental. O homem molda-se consoante os seus pensamentos. A qualidade desses pensamentos determina a forma, a precisão, a nitidez e os contornos. Por isso,para superar melhor a dor da perda, o melhor é mesmo entrar nela, bem fundo. Sem analgésicos. Podemos chorar, conversar com um amigo, gritar...o que interessa, é libertar essa emoção. Diz-se que os olhos são o espelho da alma.Pois bem, lavemo-la, chorando. Será bem melhor do que arranjar umas ulcerazitas nervosas. Por tudo isto,chorei, gritei, desesperei-me, barafustei com a perda. Com a morte, essa terrivel e inefável fronteira. Contudo, eis-me aqui, mais forte, mais preparada para ajudar os outros. Assim Deus também me ajude !
Agradeço.Porventura não serei merecedora,todavia as crónicas que escrevo são profundamente vivenciadas,e embora aleatorias do ponto de vista cronológico,são narrativas de compassos de vida vivida,sem qualquer subterfugio,nem sequer o de esconder-me debaixo dum qualquer nick anónimo. Obrigada por dizerem que eu existo ,no PORTUGAL VINTE VALORES!
Havia participado num programa da RTP-Madeira,onde cantara uma musica de Carlos Paredes. Antes disso, tinha pedido autorização ao Mestre para fazê-lo. E ,por escrito ,Carlos Paredes respondeu-me ,dizendo-se " honrado pela minha escolha ". Ficara siderada. Eu, uma zé-ningém,e o Carlos Paredes dizia-se honrado. Meu Deus. Parecia quase hesesia. Feito o programa, tive o cuidado de lhe enviar um video com o mesmo. Semanas mais tarde,recebia um cartão dizendo-me que quando eu fosse a Lisboa, não me esquecesse de lhe telefonar. Fiquei feliz. Tempos depois desloquei-me à capital,afim de participar numa gala no Coliseu dos Recreios. Telefonei ao Mestre.E ele,com a sua humildade,convidou-me para sua casa. E lá fui eu,no dia seguinte tomar chá com Carlos Paredes. Disse-me ele, "sabe, fiquei feliz por me ter cantado." Conversámos um bom bocado da tarde sobre Portugal e a Musica, o Fado e as Gentes,e vim com a mais absoluta certeza de que houvera tomado chá com um génio. Não só da Musica e da guitarra portuguesa. Um génio da humanidade.À despedida, o Mestre disse quase ao ouvido: " Sabe uma coisa ? Eu sou o Carlos,e você é a Valéria. Simplesmente. Adeus ,e seja feliz ! " Fora um dos mais belos dias da minha existência. Nunca deixei de cantar essa musica. Nunca deixarei. Mesmo que a voz me doa.
Há muitos anos que a conheço. É uma das melhores cantoras israelitas. A sua posição de crítica face à politica do seu país, valeu-lhe muitos obstáculos e contratempos na sua vida pessoal e artística. Actualmente vive em Paris. Teve a garra de ,por várias vezes, nos anos noventa ,cantar em manifestações pela paz,e pela libertação da Palestina. A frontalidade valeu-lhe o exílio forçado pelo "democrático" governo de Israel. Dizia-me ela,há meses,em Paris, do alto das suas vivencias,que o seu país é a " unica ditadura claramente patrocinada pelo Ocidente",e classificou o "Likud"(Partido de direita)-de um bando de mafiosos fumdamentalistas muito mais perigosos que o Hezbollah ou as Brigadas de Al Aqsa. Efectivamente,os dois pesos-duas medidas que os USA assumem,face ao conflito israelo-arabe ,só agrava a insegurança mundial, dando origem à consumação de actos terroristas perpetrados por gente que se vê injustiçada e com um sentimento de abandono e incompreensão por parte daqueles que se arvoram em defensores do direito democrático e da justiça social. De novo, a falta de análise da História,e a ignorancia da repetição dos Seus erros. Pela coragem de Sarah Alexander, pelo humanismo das suas posições, e pelo seu talento e Arte ,termino com um "Viva Israel " e um "Viva Palestina". As ditaduras castradoras, não são representativas dos seus povos. No Portugal de Salazar,que comparado com o Israel actual,não passava de um
"projecto" de ditadura, nasceram mentes livres, como Manuel Alegre, Ary dos Santos, Alexandre O`Neil, Mário Soares, Mário Viegas, David Mourão-Ferreira,e tantos, tantos outros nomes que cumpriram Portugal !
Em Israel, dos 13.000 advogados existentes, só uma dezena aceita a defesa dos prisioneiros politicos palestinianos,ou aceitam a acusação dum hebreu .Desde denuncias de assassinatos de crianças de 10,12 e 14 anos até demolições ilegais de casas,passando por fogo-posto em casas e propriedades de palestinianos,bastonadas,ou simples prisão por cantar em publico canções revolucionárias,só dez advogados israelitas trabalham para a defesa dos direitos do homem,em terras hebraicas.Nem as Universidades locais nem a Ordem dos Advogados se pronuncia sobre a situação da justiça legal israelita.Como os Palestinianos só podem deslocar-se às cidades puramente judaicas como Tel Aviv ou Haifa,com uma autorização especial do estado,que raramente é concedida,assiste-se pois a um abandono dos prisioneiros árabes e a uma completa desresponsabilização dos actos criminosos perpetrados pelos judeus à vida e bens dos palestinos.Assim sendo,legitimam as violações dos direitos humanos duma forma clamorosa,permitindo que se assassine um jovem de 12 anos só porque imbuído de ódio fulgurante para com os israelitas,por lhe terem tirado a casa e assassinado o pai ,decidiu jogar umas pedras do alto de uma muralha da cidade velha de Jerusalem,para um carro patrulha dos militares hebreus.Este jovem chamava-se Shawnah ! Era inteligente e sagaz ! O seu idolo era Arafat ! Quem o educava era uma das organizações de solidariedade existentes em Israel ! Falava inglês fluentemente ! Eu enviava, cada mês, 60 euros que comtribuiam para a sua subsistencia ! Eu conhecia Shawnah ! Disse-lhe há cerca de um ano que estudasse muito,que esquecesse o rancor,porque ele faria parte duma nova Palestina,ao que ele me respondeu -" TU TENS DE VIR CANTAR AQUI,NO DIA EM QUE FORMOS LIVRES ! " Foi o convite mais bonito que tive em toda a minha vida ! Infelizmente, mesmo que eu vá festejar a independencia da Palestina, o menino de olhos azeitona e cabelo preto de brilho ofuscante ,não poderá escutar-me ! Olho para a sua fotografia,quero chorar e não consigo,leio e releio a carta da ONG que eu apoiava,e que me fez chegar a triste e demolidora notícia
E como pode esse mentecapto cocainómano,foleiro e desprezivel,que ganhou quiçá com batota, as eleições presidenciais dos USA ,afirmar que é anti- terrorista ? E o terrorismo de estado que vigora em Israel ? ah...pois é ,esse não conta ! Como não contam as milhares de vidas destroçadas por um Knesset absurdo no século XXI.
À medida que a noite avançava, mais me era impossivel fazer-me entender, dado que o alcool abundante e a musica de discoteca onde imperavam os Rickys Martins e as Shakiras, se tornavam galopantemente os reis da festa. Foi então que me fizeram a mais descarada e perturbante proposta,da forma mais natural do mundo. O tal filho do conhecido fazendeiro da zona de Cartagena ,rapaz para os seus trinta anos,do alto das suas botas de cowboy,pegou-me pelo braço ,e disse-me com um ar muito normal -"Mira,puedes servirte!", apontando para a mesa dele,a um canto da sala. Eu ,como sou pitosga e não uso lentes de contacto, olhei para a mesa,vi uns copos ,umas garrafas de whisky,um recipiente com gelo contendo uma garrafa de champagne,umas coca-colas e um recipiente de vidro contendo umas palhinhas.Não vislumbrei mais nada. Sentei-me a seu lado,aceitando o amável convite, e foi então que discerni a um canto da mesa,um vidro transparente,redondo,e sobre o vidro,uns quantos riscos dum pó branco, e de quando em vez , umas pessoas acercavam-se da mesa,pegavam numa palhinha,e snifavam ávidamente o " pó talco" com uma expressão de prazer desconcertante! Fiquei sem palavras ! Eu só tinha visto aquilo em filmes! "Dios Mio! " A Q U I L O E R A C O C A Quase como movida por uma mola invisível,levantei-me, e tentando não deixar transparecer a minha estupefacção,numa cena digna duma Greta Garbo, olhei fixamente o meu anfitrião ocasional e titubiei um " Ah Muchas Gracias,peró quiero acostarme temprano; por la mañana quiero salir un poco, hacer unas compritas.Gracias! Ha sido un placer ! ",e qual vampiro fugindo dos primeiros raios de sol , escapuli-me pela porta do elevador, rumo ao meu quarto. As outras três noites não foram muito diferentes.Diferentes foram algumas das caras! Os aplausos foram iguais! A fauna semelhante ! A coca também !!! Já no avião ,de regresso à capital da Republica Bolivariana de Venezuela,peguei num jornal,e na secção "Bogotà por la noche",lá estava um pequeno artigo ilustrado com uma fotografia minha em plena actuação,que dizia assim ..." un show de fado,la musica folk de Portugal,lleno de cambiantes melodicos que nos hizo transportar a ciertos elementos de otros tipos musicales como el tango y la ranchera mejicana.Una cantante de la Comunidad Portuguesa de Venezuela,que después de haber cambiado de sexo,es un nombre muy apreciado junto a los portugueses en tierra de Simon Bolivar." Arrependi-me de ter falado tanto de Portugal e do fado,e de não ter explicado melhor que não pertenço à comunidade portuguesa da Venezuela,sou sim uma artista que visitou algumas vezes essa mesma comunidade;e que não mudei de sexo.Isso fazem-no os transexuais,num acto doloroso ,cheio de coragem para atingirem as suas realizações. Fiz, isso sim, uma operação de reajustamento sexual, por ter nascido com carecteristicas de hermafroditismo;cirurgia essa muito vulgar na actualidade,em recem-nascidos,que tiveram a má fortuna de virem ao mundo com essa mal-formação genital. Enfim.Pensando melhor,não seria importante esta explicação. Importante é viver ! Com saúde ! O resto são detalhes. Mesmo que esses detalhes sejam a causa de muitas lágrimas. As lágrimas são água do nosso sentir. Felizmente tudo isso são águas passadas ! Contudo,nós somos um todo,somos também o fruto dos nossos passados.Felizmente para uns,e infelizmente para outros. É o Karma, destino traçado, má fortuna. PRONTO!LÁ ESTOU EU A FALAR DE FADO.DESCULPEM! SÓ PODE SER DEFORMAÇÃO PROFISSIONAL...
Por vezes,a vida dá-nos bizarras experiencias.Delas extraímos ensinamentos ou tombamos na mais absoluta tragédia.Tudo depende.De nós,das circunstancias,do nosso anjo da guarda,de Deus ou do Diabo,enfim,nunca saberei defenir.A verdade é que ,o caminho da vida, oferece-nos vivencias que por alguma força ou razão,potenciamos o nosso livre-arbítrio e tomamos um rumo. Encontrava-me em Caracas,Venezuela.Terminara um contracto de quinze dias num conhecido local nocturno,e tinha decidido ali ficar mais um tempo para dedicá-lo a familiares que me eram caros e que há longos anos haviam escolhido a terra de Simon Bolivar,como país de acolhimento.Inesperadamente,um agente artístico de origem lusa,encontrou-me no bar do Centro Portugês e falou-me dum Hotel em Bogotà,Colombia,que talvez fosse receptivo à presença duma fadista,dado que,sendo um cinco estrelas,tinha uma animação cultural internacional.Nunca havia estado na Colombia.Eu estava ali mesmo,em Caracas.Respondi-lhe um " porque não?" ,e entreguei-lhe um video acompanhado do meu curriculo artístico,para que os fizesse chegar ao director da unidade hoteleira colombiana.Três semanas mais tarde,tomava o avião para Bogotà. A capital da Colombia é ainda mais anárquica que Caracas,ninguem respeita os sinais de transito,os carros são ainda piores,contrastando com algumas "bombas" que nos fazem mover a cabeça.Há uma espécie de Bogotà cosmopolita e uma outra Bogotà real,onde se vê a olhos claros,traficantes e agiotas,"cambios de moneda" em banquinhos de madeira à beira da estrada,vendedores de esmeraldas,ouro,prata movendo-se por entre as arcadas dum monumento antigo,jovens num sem nada fazer asfixiante,fumando coisas inomináveis,e aqui e ali,uma seringa rasgando o braço de alguem sentado na escadaria de uma igreja,ali mesmo, ao alcance da vista de toda a gente.Existe ainda a Bogotà completamente proibida,a dos "cierros",onde ninguem pôe os pés,sob pena de sair dentro de um caixão.Esta Bogotà só a vemos ao longe... O Hotel era um edificio moderno na Bogotà dos ricos.Na porta do mesmo,dois homens armados com metralhadoras.Não eram policias,nem soldados. Eram simples seguranças contractados. Dir-se-ia que a cidade estava em guerra. O interior do Hotel era igual a tantos outros. Era um cinco estrelas com comodidades dum quatro estrelas português. O quarto era amplo,e tinha ar condicionado.Graças a Deus! Nessa mesma noite, daria o primeiro dos quatro concertos agendados.Tomei um banho e fui "ensaiar" o som,coisa que qualquer artista que se preze,deverá sempre fazer,evitando assim confrangedoras situações no decorrer do " Live". Entreguei ao técnico, neste caso um DJ ,os CDs com o alinhamento dos playbacks instrumentais já defenidos.Iniciaria com "Coimbra",seguindo-se "Estranha forma de vida", duas canções em inglês,outras duas em castelhano,e a finalizar mais quatro fados com acompanhamento à orquestra,préviamento gravados em Portugal. O mal destas digressões é ,dizem,a falta de dinheiro para o acompanhamento ao vivo,que no caso do Fado,retira ao artista grande parte da magia do espectaculo. Aqui ,eu tinha de dar tudo. A musica era ouvida,porém não "vista". Fazia toda a diferença! Este seria pois um concerto sem musicos, de musica ligeira e não um recital de Fado,pomposamente anunciado no atrio do hotel: " Quatro noches de FADO-El folk de Portugal." Haveria sim cheirinhos de fado,em trechos como Lágrima e Solidão(Canção do Mar),onde se ouviria uma linha melodica de guitarra portuguesa,nos arranjos de estudio dos meus playbacks instrumentais. Depois do jantar, às 23 h em ponto ,entro em cena aberta,numa sala onde estão umas quatrocentas pessoas,todas exuberantes e algo pirosas,nos seus brilhos " de lamé " exagerados. Ninguem me apresentou. Apareci no palco ao som do Fado Coimbra(Abril em Portugal),provocando alguns( poucos) aplausos. À medida que o espectaculo foi avançando, ainda consegui uma interessante participação do publico, trauteando alguns refrões,e batendo palmas nas melodias mais ritmadas.No final,os aplausos foram mais calorosos. Parece que gostaram.Graças a Deus ! O director do hotel,pedui-me no final,que se fosse de minha vontade,teria todo o prazer de me apresentar a algumas pessoas da assistência. E lá fui eu,sorrindo e cumprimentando o tal senhor dono da empresa X,o senhor apresentador da Televisão muito famoso,a ex.Miss Colombia Y, o Embaixador não-sei-quantos de Puerto Rico, o filho do fazendeiro fulano-de-tal ; enfim,uma data de gente que tinham tanto de pirosos,quanto de novos-ricos.Alguns nem sabiam onde ficava Portugal,a ex-Miss acreditava que a terra de Camões ficava no sul do Brasil (!!!) e havia um outro que acreditava que Portugal fosse uma provincia de Espanha( se calhar até é,observando melhor as prateleiras das superfícies comerciais portuguesas!!!) . Passei parte da noite a tentar ser agradável e a falar um pouco do meu país.Pelo menos a minha presença ali havia de ter servido para saberem que Portugal é um país independente,europeu,e com uma história de oitocentos anos cheia de riqueza e de aventura.Falei-lhes de Vasco da Gama,de Colombo,de Pedro Alvares Cabral e quase uma hora depois,apercebi-me de que a finalidade principal da minha presença tinha sido mais pedagógica que artística! Se nove ou dez pessoas aprenderam algo comigo,já me dava por satisfeita!
Amigos leitores e camaradas de escrita-Comentem,por favor ,os meus textos.Eles são todos crónicas vivenciadas ao mais alto grau,porém temo que as minhas capacidades de comunicação escrita não sejam as melhores,e cumpram o objectivo pretendido:dar às pessoas a perfeita consciencia daquilo que quero transmitir um dia,quando eu fôr grande,em forma de livro.Tenham lá pena de mim,e comentem,critiquem....digam um olá!Mas por favor,digam algo!