outubro 16, 2005

Dissonâncias do Fado ou Fados do Fado ?

Há pouco, ao ler uma declaração do fadista Paulo Bragança, que considera Nick Cave um grande fadista, lembrei-me subitamente da eterna discussão, em relação ao Fado e à sua definição. Há os que afirmam que Fado é Fado, tal qual Mozart é Mozart, e não se pode, ou não se deve alterar. Dizem-no os puristas.
Contudo, se atentarmos ao facto de que o Fado é uma Canção Urbana, a Urbe, enquanto tal , está em constante transformação, e por arrastamento, tudo o que vive na Urbe, sofre as correspondentes alterações do Tempo.
Ninguém, na Argentina, contesta Piazzola por ter adicionado ao Tango, outros elementos musicais e harmónicos. Ninguém no Brasil, acusa Tom Jobim, de ter emprestado ao Samba, um certo 'swingar' jazzistico que lhe é característico. Assim como, ninguém em França, acusa Patricia Kaas, que ter desvirtuado a 'Chanson Française', muito estruturada ao estilo de Edith Piaf.
Sendo assim, terão os puristas do Fado razão para tanto alarde?
Vejamos então:
Amália Rodrigues, quando nos anos 40, apresenta as musicas de Frederico Valério como Fado, e acompanhadas à guitarra portuguesa, suscita logo nos seus colegas e alguns críticos, uma reacção de negação. "Aquilo é tudo menos Fado" - afirmavam os puristas. Já nos anos 60, surgem os novos temas de Amália, compostos por Alain Oulman, que provocaram um chorrilho de críticas, algumas delas vindas de certos sectores académicos. Dizia-se que Amália tinha abandonado o Fado definitivamente. Um soneto de Camões, um poema de O' Neil ou de Régio, musicados por Alain Oulman, era tudo menos Fado. Mesmo que a guitarra portuguesa assentasse como uma luva nessas criações. Nesta altura, já os temas de Frederico Valério, eram considerados unânimemente como Fado, e Amália surgia agora com uma dissonância de estilo. Debates na TV, artigos e crónicas de jornais, programas de rádio, debatiam este chamado 'novo fado' de Amália. Os velhos do Restelo imprimiam por essas ocasiões, todo o seu destilar de veneno contra a inovação. O Fado era Fado. Ponto e basta.
Passados todos estes anos, vejo (ouço) boquiaberta, alguns desses velhos do Restelo do sector profissional fadista, todos pimpões e muito frescos para a idade ( Graças a Deus! ), apresentarem-se nos mais variados programas de televisão, cantando "Gaivota" de O'Neil e Oulman, ou "Maria Lisboa" de David Mourão-Ferreira e Oulman, como se de fado puro se tratasse. Conclui-se portanto , que passado todo este tempo, já os temas de Alain merecem figurar na galeria do Fado. Então, em que ficamos?
O que acontece hoje, neste inicio de novo século, é que, o Fado que é Fado, e considerado enquanto tal, continua a ser o Fado de Amália. Não existe um novo Fado. Nem um Fado Novo. Existe Fado, que por vezes, e em certas épocas, foi abençoado com o talento de alguns. Nada mais.
No século XXI, porventura aparecerão outros Valérios, outros Oulmans, outros Alberto Janes, que porão sem qualquer dúvida os cabelos em pé aos puristas, mas que serão os responsáveis pelo futuro da Saudade. Se não aparecerem, resta-nos pois explorar o manancial de criatividade daqueles que, no século XX, emprestaram ao Fado um cartão de identidade, que é a identidade de toda uma Cultura, que passa, sem qualquer dúvida, pela Literatura Poética, de grande tradição na Lusofonia.
Pois cá para mim, Camões foi um grande fadista, tal qual a brasileira Cecília Meirelles o foi- E foram-no, porque tiveram Amália para viver neles. E o resto, o resto meus caros amigos, são cantigas... E que Cantigas!
Experimentem fazer este exercício simples de análise: Peguem nos textos que Sinatra, Piaf ou Ella cantaram. Chegarão sem dúvida à conclusão de que posssuem uma qualidade imensa. Agora, analisem bem os textos que Amália cantou. Vêm a diferença? Não há dúvida de que a Poesia foi o grande Motor do Fado. E de Amália. Um dos pratos fortes de Portugal. Para além da magia da guitarra portuguesa. Unica. Esta autenticidade, vivida em dissonancias de estilo, que Amália encarnou, só terá paralelo, no exemplo artístico de outra grande deusa. A dos árabes : Oum Koulthoum.

Publicado por Valéria Mendez em outubro 16, 2005 09:12 PM
Comentários

Cronica bem estruturada e melhor fundamentada

Afixado por: Antonio Pires da Fonseca em outubro 17, 2005 12:28 AM

Olá amiga. Venho agradecer-lhe por ter assinado a petição que coloquei online, contribuindo assim para que possamos tentar mudar a actual Lei Eleitoral. Com um abraço do Raul

Afixado por: congeminações em outubro 19, 2005 05:05 PM

realmente quando analisamos o reportorio gravado e de palco das novas fadistas,chegamos a conclusao de que sao autenticas compilacoes do reportorio gravado da Amalia.

Afixado por: luis em outubro 20, 2005 06:32 PM

Belo texto com o qual concordo plenamente.
Uma boa semana pata si.
Aquele @bração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em outubro 22, 2005 01:37 PM

Ao longo dos últimos vinte anos tenho defendido as ideias que aqui assinala. Não só os poemas mas também a utilização de outros instrumentos como violino, acordeão, saxofone, flauta, desde que que sejam integrados por gente com que sabe o que faz, e desde que se mantenha a guitarra e a viola.

Afixado por: Valentim Filipe em novembro 7, 2005 12:39 PM

Valéria,

Sou brasileiro, e desde criança adoro o fado. Achei muito interessante sua análise sobre as dissonâncias do fado, e muito bem lembrado o caso Piazzola e Tom Jobim. Na realidade, a bossa nova não é um samba apenas com swing, mas trouxe novas informações, eu diria, até sociológicas, para a música brasileira, como você bem sabe, é uma música que fala da gente da zona sul, classe média, enquanto o samba era a voz do morro, onde moram as classes de renda baixa. Então, a bossa nova (leia-se Jobim), veio contribuir muito mais com novos elementos sociológicos, do que propriamente artísticos musicais. Mas, o mais importante é que a música de Jobim é Jobim, não tem comparação com outro artista. Aqui, em outros tempos, discutia-se se as dissonâncias da múica de Jobim seria ou não uma invenção brasileira. Imagine se tem sentido essa discussão? Os puristas acusavam que a dissonância jobiniana já se encontrava na música norte-americana. Uma grande perda de tempo, o que o nosso grande maestro Tom Jobim fez, foi além disso, foi criar uma musicalidade nacional. Acho que tínhamos inveja do fado, por isso criamos a bossa nova. Na minha visão de brasileiro, nunca sei se o fado é português ou se Portugal é que se fez em fado, tamanha a identificação dessa música extraordinária, com seu povo, suas casas, suas ruas. Não há música no mundo que emocione mais do que o fado. Eu confesso que não sei fazer distinção entre os vários ritmos e estilos da música portuguêsa, quando estou me referindo ao fado, estou falando ao mesmo tempo de "Lisboa Antiga" e "Casa Portuguêsa", é claro que sei que são estilos tão diferentes, mas eu sinto o fado em todo o cantar do povo português.

Um dia, conheci pela Internet uma bela poesia de um poeta português, extraordinário, José-Augusto de Carvalho. Sou músico, e gostei tanto do poema dele que compus um tema instrumental para sua poesia "Agora". Mostrei a ele na ocasião, e fiz uma página para essa poesia e o meu tema musical. Acho que essa composição, "Onde Será o Alentejo?" é uma música brasileira, afinal eu sou brasileiro, mas gostaria muito de saber de você, Valéria, se posso chamar essa minha canção de fado. É um tema musical muito simples, mas fiz na intencão que ela tivesse a alma de Portugal, de tanto que gosto da música desse povo. Para conhecê-la, visite a página abaixo:
www.umcaminho.rg3.net

Gostei muito do seu blog, dos comentários dos internautas, vou voltar sempre.

Um abraço,
Ivan Siqueira
expecta@uol.com.br

Afixado por: Ivan Siqueira em dezembro 2, 2005 02:56 PM