outubro 06, 2005

AMALIA - Seis Anos de Saudade

No ano transacto, por esta altura, este blog promoveu um pequeno concurso literário em homenagem a Amália Rodrigues, que foi largamente participado. Muitos bloguistas e não só, escreveram poemas e textos sobre Amália, muitos deles, dignos de figurarem num livro-tributo à Diva de Portugal. Este ano, por impossibilidade da editora deste blog, não foi possível promover outra iniciativa do género. Isso implicaria ter de dispender o tempo que a homenageada e os possíveis concorrentes mereceriam. Dada a falta desse tempo indispensável, por ocasião de mais um aniversário da morte de Amália, este blog limita-se a transcrever três poemas de três grandes poetas do século XX português, num tributo sentido à Cantora, à Poetisa, à Artista e à Mulher que foi, é, e sempre será, Amália Rodrigues. A personalidade de maior prestígio do Portugal do século XX.

AMALIA

Eu já não sei, quando te ouço,
se como caracóis ou mastigo alecrim,
se me derramo pelo amor,
ou por um banco de jardim.
Se a gaivota voa fora ou voa dentro de mim,
se, coisa cantante,um sentimento pode
apodrecer ao sol,
se o desgosto é gosto, ou o gosto é desgosto,
se hei-de ir a Viana ou derivar por Lisboa,
até onde a voz se faz mais rouca.

Eu já nâo sei, quando te ouço,
que pedrinhas atirar e a que janelas,
que caretas fazer às feias, quer dizer,
às menos belas,
que mãos beijar, trincar, devorar
e que anéis cuspir para as valetas.

Eu já não sei, quando te ouço,
se trepe a estilita ou mergulhe num poço.

Eu já não sei, Amália,
donde vem, para onde vai, a tua voz,
que rapaz, que rapariga
estão prometidos, ( e tão sós! ) , na tua voz.

ALEXANDRE O' NEIL


RETRATO DE AMÁLIA

És filha de Camões, filha de Inês
assassinada voz de portuguesa
cantando a nossa imensa pequenez
com laranjas e gomos de tristeza.

É no claro Mondego dos teus olhos
que se debruça o mal da nossa mágoa.
Ao Tejo, dos teus gestos que se acolhe
o nosso coração a pulsar água.

Cantando, desatada de saudade,
choras um povo, cantas a balada
mais bonita que soa na cidade
de Lisboa, por ti, apaixonada.

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS


AMÁLIA

Na tua voz há tudo o que não há,
há tudo o que se diz e não se diz.
Há os sítios da saudade em tua voz,
o passado, o futuro, o nunca, o já,
há as sílabas da alma, e há um país.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Na tua voz embarca-se e não mais,
não mais senão o mar e a despedida,
há um rastro de naufrágio em tua voz
onde há navios a sair do cais,
nessa voz por mil vozes repartida.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau,
a Gaivota de O'Neil e o rio Tejo,
saudade de saudade em tua voz,
um eco de Camões e o escravo Jau,
amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

MANUEL ALEGRE

Publicado por Valéria Mendez em outubro 6, 2005 06:00 PM
Comentários

...E eu, perdoar-me-á também, só consigo pensar em Berta Cardoso enquanto se não lhe fizer justiça. Amália foi única como única foi Berta Cardoso e única foi Hermínia Silva...
Nada mais direi porque respeito o seu sentir e o sentimento das pessoas, para mim, é sagrado.
Vamos lá ouvir o fado ! Isso é que é importante e aglutinador.

Afixado por: MLeiria em outubro 6, 2005 08:04 PM

Fica o registo, que coisas há não se apagam da memória.

Afixado por: jgonçalves em outubro 6, 2005 10:45 PM

Há seis anos que a chama da vida de Amália se apagou, porém ela continua viva na memória dos que a amam e respeitam. A sua voz e os seus fados são uma importante herança cultural e musical que perdurarão sempre.
Cumprimentos, Isabel (o-velho.blogspot)

Afixado por: Isabel Fernandes em outubro 7, 2005 08:48 AM

Obrigada pelos poemas. :)

Afixado por: sonia em outubro 11, 2005 11:54 AM

Belos versos para uma musa sem par

Afixado por: Antonio Pires da Fonseca em outubro 13, 2005 12:41 AM

A Amália fica muito bem lembrada nestes poemas.

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em outubro 13, 2005 10:50 PM

Bem!
Nunca esqueço a data, por motivos óbvios: Faço anos nesse dia.

Aquele @abração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em outubro 15, 2005 04:56 PM

Uma bela homenagem A Amália Rodrigues, gosto muito de fado.

beijos
Flávio

Afixado por: Flávio Machado em outubro 17, 2005 11:23 PM

Sra.D.Valéria,
Será que não é já tempo de parar de explorar a memória de quem só lhe transmitiu amizade
( segundo a senhora ) e começar a trabalhar a sua carreira sem se debruçar sobre a vida de Amália.Acredite, está ficando cada vez mais ridículo.Quem mais fala sobre exploração é a primeira que mais o faz.Tenha dó!Se tem valor, vá em frente e faça o seu sucesso sozinha e se não tem pare de uma vez e dedique-se a outra coisa.
Com todo respeito
Diana
Fevereiro/21/2006.

Afixado por: Diana em fevereiro 21, 2006 07:35 PM