Aquele banho de imersão, com imensos paus de canela e flores de jasmim, transportava-me quase a um sono letárgico, depois da 'serata' musical. O 'Castello', punha sempre à disposição dos seus hóspedes, umas saquetas para banhos de aromaterapia, para cada dia da semana. Havia saquetas com pétalas de rosas, de alecrim e eucalipto, enfim, cada dia da semana era um banho diferente, original, delicioso.
Estávamos no dia da canela e do jasmim. Dizia o prospecto , que este banho favoreceria a 'limpeza espiritual', de quem eventualmente tivesse 'caminhos fechados' para o bom discernimento nos negócios e na comunicação em geral. As rosas eram para 'abrir caminhos' no amor, e o alecrim era o mais indicado para a cura do chamado 'male d'occhio', o famoso mau olhado, muito tradicional também no nosso país.
No meio da letargia a que me tinha submetido, a minha mente começara a lembrar-se da estória do fantasma, que me houvera sido narrada pelo circunspecto mordomo do castelo. O amor clandestino entre a serva e o seu amo, terminado abruptamente, pelo crime duma duqueza enfurecida pelo despeito. De olhos fechados, porventura sugestionada pelo dramatismo da lenda, via claramente a figura de alguém muito jovem, de cabelos louros compridos, muito lisos, caindo em cascata sobre as costas, emoldurando uma face de tez muito clara.
Perturbada, abri os olhos. A visão desaparecera. Sorri, troçando de mim mesma, e voltei a mergulhar naquele umbral de sono. A figura da jovem mulher regressara, agora mais nítida, tendo como pano de fundo, as grades da janela do quarto. Via-a de perfil, ostentando uma rosa vermelha na mão. Pareceu-me ouvir um soluço. Inquietei-me. Abri os olhos de novo. " Mas que raio, Valéria, como podes ser tão sugestionável?", murmurei entre dentes.
Decidira pôr termo ao banho de canela e jsmim. Ainda meio atordoada com a 'visão' que tivera durante o banho, levantei-me, coloquei uma toalha à volta do corpo, e outra na cabeça, saí da casa de banho, e dirigi-me ao quarto. Olhei a janela, que minutos antes, servira de moldura da 'assombração', que os mecanismos da minha mente haviam fabricado. Sentei-me no leito. Pensei cá para os meus botões, que tudo não passara duma construção mental. Afinal, quando lemos um livro, se o autor tiver o talento necessário, conseguimos imaginar pela narração, paisagens e quadros de vida, com uma nitidez impressionante. Fôra por certo, o que se passara.
Ainda embrenhada no turbilhão de pensamentos, e com os traços do rosto da jovem na minha mente, apercebi-me então duma coisa extraordinária. O cheiro. O perfume suave e inebriante a rosas, invadiam o meu quarto. Olhei em redor. Não havia rosas em nenhuma jarra. E no entanto, eu acabava de tomar um banho de canela e jasmim. Era mais do que natural que o cheiro da canela inundasse o aposento. Levantei-me. Dirigi-me de novo à casa de banho. A água de canela e jasmim ainda lá estava. Não a houvera despejado. E não obstante isso, o descomcertante olor a rosas inundava também o pequeno compartimento. O inusitado da situação inquietava-me o espirito. Baralhava-me. De onde viria, aquele suave perfume, que pareceria querer cobrir o meu corpo, e todos os meus sentidos ?
Abri a porta do quarto, que dava para um longo corredor, e espreitei. Por debaixo de alguns quadros nas paredes brancas, pequenas luzes mortiças colocadas sobre mesas enfeitadas com estatuetas de santos. Nem uma jarra com rosas. Um pouco mais além, descortinei um arranjo de flores secas.
Voltei a fechar a porta. Agarrei nos meus cigarros, acendi um, e dirigi-me à janela. Lá fora, o néon do pequeno lago, emprestava à paisagem do jardim desenhado com mestria, canteiros de formas circulares, e pequenas alamedas circundantes, que faziam as delicias de quem passeava por entre as plantas cuidadas com esmero. Ao sentar-me de novo sobre a cama, e ainda um pouco atordoada com o mistério do suave perfume a rosas, apercebo-me de que agora, do meu corpo exala o perfume a canela e jasmim. Levanto-me atabalhoadamente, dou uns passos pelo quarto, e só o olor a canela preenche os meus sentidos. Abro a porta da casa de banho. Ainda é mais forte, o olor a canela com um travo a jasmim. Quase a correr, retorno ao quarto, e é sempre a canela e o jasmim que preenchem a atmosfera da divisão. O suave olor a rosas desaparecera. Como que por magia. Estava agora, quase zangada comigo mesma. Mas, como poderia eu ter sentido aquele perfume a rosas? Ou então, de onde houvera surgido ? E se surgiu, como desaparecera abruptamente ?
Escorreguei sob os lençois de seda, tentando perceber racionalmente o sucedido.
Sem conseguir uma explicação plausível que me acalmasse, estendi a mão até à mesa de cabeceira, liguei a televisão. Já eram quatro da manhã. A RAI emitia um velho recital da célebre Ornella Vanoni.
Recordo-me ainda de, antes de adormecer, ouvir já numa longínqua matriz, a voz de Ornella ,cantando uma belissima balada. "...uno solo di noi due..."
(FIM)
Pois é! Vivemos com tanta coisa inexplicável e, contudo, habitualmente presumimos ter para tudo uma explicação científica... Quem nos dera que o nosso saber fosse pelo menos tanto quanto a nossa presunção. Só o sábio aceita a sua condição de ignorante e tem a humildade suficiente para aceitar também aquilo que é, mesmo que inexplicável.
Não sei se é o sonho que comanda a vida ou o inverso; pouco importa. Para que a vida tenha cor,importa vivenciar situações limite como a descrita e ter a coragem de partilhá-la.
É por estas e por outras que, de facto, a admiro.
O êxtase e a leve sonolência, provocados pela maravilha do lugar e pelos fulgores do dia, associados ao tal banho relaxante ou até inebriante, podem afinal não ser a justificação para os tais odores.
Afixado por: jgonçalves em setembro 30, 2005 11:16 AMPrimeiro tenho de te agradecer o cha que tomei em tua casa, que amavel foste em convidar-me.
Depois quero dizer que ca estou em londres de novo para mais um longo ano de trabalho...e como ja sabia desta historia pois ma contaste, apenas te desejo muita saude e sorte, e ca estou desejando ler mais cronicas da tua rica vida.
beijos
desde Londres
Debora
Cada post escrito por si representa mais uma página
do livro da sua vida descrito com um entusiasmo invejável. Grato pela sua visita com um abraço do Raul
Bom dia.
As nossas mentes são um turbilhão de casos complexos e indecifráveis. E quem não terá uma história semelhante para contar? Não com tanta beleza textual, pois parece que a estou a companhar na narrativa pela deambulação de todos os compartimentos do Castello. Tanto, que até a mim me pareceu ouvir a voz de Ornella.
"Afinal, quando lemos um livro, se o autor tiver o talento necessário, conseguimos imaginar pela narração, paisagens e quadros de vida, com uma nitidez impressionante."
Você tem razão, graças à sua magistral crônica, transportei-me ao Castelo, vi e senti o que você narrou.
Adorei a sua história, Valéria! Fez-me recordar aquelas curas que a minha falecida avó da Ilha da Madeira fazia com alecrim queimado, cujas cinzas eram depois atiradas a uma das nossas levadas.
Beijinhos!
Flávio
Afixado por: Flávio em outubro 3, 2005 02:42 PMDeliciei-me com esta história, com mais esta memória a juntar à sua vida repleta de vivências intensas. O domínio da narrativa aliado a uma criatividade invulgar, tornam muito apetecível a leitura dos seus textos e reproduzem com clareza esses momentos.
Um beijo
Cara Valéria, venho saudá-la neste meu regresso após as férias, esperando que esteja tudo bem consigo, e deixar-lhe o meu abraço e admiração. Pássaro Distante
Afixado por: Passaro Distante em outubro 4, 2005 02:57 PME que tal começar a pensar em publicar umas coisas? Mais uma vez digo: Você tem um talento inato para cativar os leitores e escreve lindamente.
Fico à espera de mais coisas.
Aquele abração do
Zecatelhado
bem estruturado na imaginação.
Afixado por: hammer em outubro 10, 2005 09:44 AMBela história Valéria!
Afixado por: amnésia em outubro 13, 2005 02:49 PM