setembro 20, 2005

O Fantasma do 'Castello' (2)

..." Mio amor' mio amor',
mio corpo in morimento
mia voce perduta,
nel suo triste lamento..."
Meu Amor, Meu Amor, Mio Amor'
Ary dos Santos, Pallavicini,Alain
Oulman

Fixara-me nos olhos duma velha senhora, de porte distinto, que me escutava neste fado, em versão italiana, como se o soubesse de cor. Por vezes, os seus lábios acompanhavam-me nos versos do Ary, vertidos para Italiano. Eu sabia que, naquele momento, cantava para ela. No final, os aplausos da senhora de porte distinto, confirmaram-me a suspeita. Esta seria, por certo, uma das canções da sua vida. Fazia parte do segundo e ultimo album cantado em Italiano, da grande Amália. Gravado em 1977.
Era o primeiro trecho com musica de Alain Oulman, que cantara nessa noite. E a importancia do nome, justificava dois ou três bis.
Continuei o alinhamento previsto. Alceste já entoava a melodia seguinte, enquanto eu apresentava o tema que se seguiria:
" Sabem, nos anos sessenta, Amália Rodrigues num concerto em Roma, falava do que têm os Portugueses: A melancolia, o sentido aventureiro das Descobertas, a sublimação da tristeza pelo canto do Fado, grandes Poetas, Camões, Régio, Pessoa...e também, a alegria simples e genuína das festas dos Santos Populares. A certa altura, alguém da plateia gritou : ' E Salazar!!! '
E rematou Amália: ' E siamo tristi...'
Por essa altura, o seu maior compositor, Alain Oulman, fôra preso pela policia secreta do estado, acusado de actividades subversivas. O disco de Amália ' Abandono ', caíra nas garras da censura. Amália não se calou. Moveu mundos e fundos, e conseguiu que libertassem Alain. E sublinhou que não compreendia que houvessem proibido o ' Abandono '- um lindo fado de amor. Amor pela Liberdade. Que diz mais ou menos isto : ' Per il tuo libero pensiero / lontan' ti furono apprigionar'...' E soava mais ou menos assim:"

' Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar
tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar...
E apenas ouves o vento
e apenas ouves o mar. '
Abandono
David Mourão-Ferreira, Alain Oulman

Outra melodia do célebre compositor se seguiria, desta feita para um poema da brasileira Cecília Meirelles.
"Le mani che vi porto, As mãos que trago. Sono sempre le stesse mani che portono tristezza, passione, amore, e son quelle stesse mani, che ti diranno se vengono da funerali, oppure di feste... que te dirão se vêm de mortes ou de festas"- procurei explicar aos presentes, o contéudo do poema, enquanto o piano viajava pela melodia inebriante de Oulman.

"...As mãos que trago
as mãos são estas,
elas sózinhas te dirão
se vêm de mortes, ou de festas,
Meu coração, meu coração.
Tal como sou,não te convido
a ires para onde eu fôr.
Tudo o que eu tenho é,
haver sofrido,
pelo meu sonho alto e perdido
e o encantamento arrependido
de meu amor, de meu amor. "
As mãos que trago
Cecília Meirelles, Alain Oulman

A 'serata' estava perto do fim. Depois de passear-me pelo ' Ay mourir pour toi', que Charles Aznavour escreveu para Amália, e depois de me aventurar pela simplicidade díficil da escrita da grande Diva, em títulos como ' Estranha forma de vida ' ou ' O Fado chora-se bem '. Deste ultimo, não pude deixar de narrar um episódio por mim vivido numa rádio da Palestina, e que teve como 'protagonistas', este mesmo fado de Amália, e o sentimento de tristeza e de solidão duma mulher palestiniana, sofrida de dor( Leia, p.f. AQUI e ainda AQUI ), que sem saber a tradução do poema de Amália, expressou-se, tal qual Ela,ao lhe perguntarem como se sentia :
Moro "numa rua escura,
de tristeza e amargura,
de angustia e solidão"

Fôra mais uma 'serata' por mim vivida, bebida, amada. Mais um ,dos poucos momentos felizes da minha vida, que isto de ser feliz é coisa utópica. A felicidade mede-se pela quantidade de momentos felizes que creditamos na conta da nossa Memória. E creio que, será o somatório desses créditos, a unica coisa palpável e importante, que levaremos desta vida, quando 'da lei da morte' nos libertarmos...
Estava cansada. Quase exausta. Contudo, era um cansaço bom, um cansaço acompanhado duma certa euforia por haverem tido a amabilidade de gostarem de mim.
Despedi-me da velha senhora de porte distinto, que já sabia ser duma tradicional familia de produtores de vinho "Chianti", e que simpáticamente me contara que assistira a sete recitais de Amália Rodrigues, e que ainda guardava religiosamente o album em vinil, que incluía o 'Mio Amor', Mio Amor', o seu tema preferido do reportório 'della Regina del Fado'.
Estes momentos de conversa depois dos espectáculos, são sempre muito especiais para mim. E dão-me sempre um subido prazer. É tão bom, falar com gente , que é gente...
Agora, esperava-me um banho de canela e jasmim. Para relaxar. E pensar na noite que Deus me houvera oferecido.
E, inusitadamente, fruto de sugestão , da Fé, ou da evidência, esperava-me também, de alguma maneira, o fantasma do 'Castello'...
( Continua )

Publicado por Valéria Mendez em setembro 20, 2005 01:37 AM
Comentários

Ainda bem cara amiga que o fantasma do "Castelo" não passa disso mesmo, pois pelo que aqui descreve dá para entender que viveu momentos extraordinários
de prazer numa sã convivência com a anfitriã. Com um abraço do Raul

Afixado por: congeminações em setembro 20, 2005 11:55 AM

Epopeia fantástica que nos prende, pelo inusitado, pela alegria, pela paixão à arte que é o fado.

Afixado por: jgonçalves em setembro 21, 2005 12:17 AM

Esta coisa da simplicidade, tem que se lhe diga. Lembro-me que, quando era miúda, a minha tia avó me ensinar, dizendo "Uma senhora deve ser simples..." E, de facto, se olharmos para os que são verdadeiramente VIPS, há neles uma sofisticação simples e dificilmente imitável...tal como teria a senhora de porte distinto que a escutava. A simplicidade é apanágio do que tem verdadeiramente qualidade, do que não precisa de mais condimentos para ser bom - de um cozido à portuguesa a um texto de Eça...
Provavelmente é essa mesma simplicidade que me faz admirá-la desde o primeiro contacto, desde logo pela apresentação que de si mesma faz, também pelos seus comentários, que espelham a avaliação que faz dos outros e finalmente pelos seus textos tão maravilhosamente despretenciosos.
Bem haja pela simplicidade difícil de ser autêntica !

Afixado por: MLeiria em setembro 21, 2005 08:32 AM

Pois! Quando se escreve assim, fica-se... sei lá!
Magnífico!

Voltei ao TADECHUVA, em www.tadechuva.weblog.com.pt

Aquele Abração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em setembro 23, 2005 04:49 PM

Ora, pois, pois. Você foi matreira. Fez-nos ler duas crônicas e o fantasma ainda não apareceu; não importa, você tem uma imensa habilidade de narrar os recitais, faz sentirmo-nos numa tertúlia.

Afixado por: Manoel Carlos em setembro 24, 2005 06:27 AM

Como sempre lindo! obrigado pelas suas palavras, foram muito importantes para mim. beijo

Afixado por: elsita em setembro 26, 2005 01:58 PM

Vi a Valeria uma só vez a cantar no programa do Herman e imaginei o seu espectaculo por com esta sua forma brilhante de narração. Gostei muito.

Afixado por: Antonio em setembro 28, 2005 08:39 PM