O Alfa Romeo Spider do Alceste, rodava deliciosamente por entre o verde profundo, da estrada que serpenteia a montanha que aninha há séculos o 'Castello dell' Oscano' , hoje transformado em estância turística de Perugia, a cidade etrusca da província de Umbria , o lugar onde vivi aquilo que está mais perto da felicidade.
E o 'Castello' ali estava, imperturbável, sereno, cheio de mistérios e de encantamento. Sempre gentil, Alceste, pegou na minha pequena mala, e lá nos dirigimos à recepção. O tempo havia parado. À porta, o 'maggiordomo' impecávelmente aprumado, esboçou desta vez um sorriso, contrastando com a rigidez do nosso primeiro encontro.
" Tomei a liberdade de lhe reservar o mesmo quarto do ano passado, lembra-se ? " - anunciou o mordomo, mesmo antes de ter tempo de lhe retribuir a 'buona sera'.
Olhei para o Alceste, fixei os olhos impenetráveis do misterioso mordomo, e disparei: " Ah , 'grazie mille', pelo menos agora, estarei prevenida ", retorqui-lhe sarcásticamente, lembrando-me da 'estória' que ele me havia narrado, mesmo à hora da partida, aquando da minha ultima estadia no 'Castello'. Disse-me o desconcertante mordomo, que ali vivera uma criada, que fôra assassinada pela duqueza, sua ama, que houvera descoberto o 'affair' entre o duque, seu esposo, e a formosa serva. E reza a lenda que, ainda hoje, o fantasma da serva ali permanece, olhando pela janela, os jardins, onde vivera momentos de paixão arrebatadora com o jovem duque.
Alceste, o pianista da casa, meu amigo há longos anos, que quase sempre, fez o favor de me acompanhar nos espectáculos que fiz em Itália ( artista pobre não tem hipótese de se fazer acompanhar pela sua banda privativa ), não deixou de dar uma sonora gargalhada. "Lá estão vocês com essa 'storietta' de fantasmas e almas penadas!"
E lá subi as escadas, 'vigiada' pelas expressões de mistério, dos quadros que ornamentavam as paredes, e ao cimo, quase que jurava que os lábios do duque,desenhados com mestria por um pintor da época, se haviam quase imperceptívelmente mexido, esboçando um irónico sorriso. Meneei a cabeça,pensei cá para mim que estava a 'variar',olhei para o mordomo que seguia à minha frente, e lá entrei no quarto da serva assassinada.
Tinha de me apressar. Alceste esperava-me para o ensaio geral, onde definiriamos o alinhamento dos concertos, que teriam lugar na sala 'da pranzo' Turandot, precisamente durante o Jantar dos próximos seis dias.
Alceste conhecia o meu reportório, que era, sem tirar nem pôr, alguns dos 'hits' de Amália Rodrigues, que eu fazia sempre questão de interpretar, com a particularidade de o fazer, sem a presença da guitarra portuguesa, e sim, com o acompanhamento unico do 'pianoforte' de Alceste, exímio musico, e especial admirador de Amália.
Tudo ficara pré-delineado. A audiência era geralmente composta por gente duma certa classe social, apreciadora da boa musica, conhecedores e frequentadores assíduos de grandes concertos em Viena, Salzburgo, Milão ou Florença. Eu não podia falhar. Sobretudo, porque não sei cantar. Limito-me a dizer, cantando, os poemas, numa linha de musica. Valer-me-iam, as harmonias do Alceste, e uma certa nostalgia que Amália Rodrigues deixara na mente daquelas pessoas...
Havia, no dia anterior, actuado em Florença, no 'Centro Lorenzo de' Medici', igualmente acompanhada pelo Alceste, e a plateia jovem, composta por estudantes universitários que frequentavam cursos de Verão, tinha sido generosamente receptiva ao meu espectáculo de 45 minutos, tendo em conta que, no ultimo fim de semana, tinham estado perante uma cantora lírica do Conservatório de Florença.(...)
( Continua )
Aqui estou a desejar-lhe de novo as boas vindas uma vez que já nos habituou a estes interregnos blogosféricos por razões de cumprimento dos seus compromissos artísticos. E fico satisfeito porque tudo correu bem a avaliar pelos aplausos que arrebatou o que contraria a sua expressão de que não canta Amália cita os seus versos.Com um abraço do Raul
Afixado por: congeminações em setembro 13, 2005 03:12 PMEpopeia modesta e em simultâneo descritivamente rica.
Minha amiga “continua…” a invadir-nos de prazer com a tua modéstia, com a bela prosa, já que não podemos aquilatar o canto.
Uma prosa arrebatadora, rica, intensa, que fascina e nos guia como a voz que diz não possuir, mas que na humildade da artista, indicia todo o seu encanto e faz do seu invulgar sentir, o legítimo testemunhar de uma expressão portuguesa única que o fado representa.
Suponho que é deliciante ouvi-la, uma vez que sou um privilegiado por lê-la.
Abraço
Um grande abraço para a minha amiga,e grato por partilhar estas suas descrições e vivências que me lembram os filmes do Visconti...
Morfeu
Antes de mais, os meus agradecimentos pelo seus comentários que, como de costume, me incentivam a continuar a escrever assiduamente no meu blog. O site é fruto da minha admiração e grande amizade por Berta Cardoso; pena que o problema com o som não esteja ainda totalmente resolvido...
Acerca deste seu post, ainda não tinha comentado porque estava à espera da continuação e estou curiosíssima pelo que se segue...
Por hoje, quero unicamente acrescentar o seguinte: cada vez aprecio mais a Valéria que se manifesta nesta nossas comunicações bloguistícas.Tenho mesmo que a conhecer pessoalmente; nem que tenha que ir à Madeira!...
Mal posso esperar pelo resto...
Afixado por: Joana Lemos em setembro 17, 2005 01:43 AMvc tem de escrever um livro de memorias!
Afixado por: Antonio em setembro 20, 2005 03:14 AM