Andei uma semana toda, a fazer de cicerone, a um caro ex-colega da faculdade, dos meus tempos de estudante em Perugia, Itália. O Per, a quem já fiz alusão noutros posts, professor da Universidade de Uppsalla, foi já responsável por duas deslocações artísticas que fiz à Suécia, que me deram subido prazer.
Coube-me agora, retribuir as repetidas gentilezas daquele caro amigo, e mostrar-lhe um pouco da minha terra, sem no entanto, deixar de seguir o ritmo diário da minha vida. E esse ritmo, passa sempre por tentar minimizar o drama de inumeros gatinhos abandonados, um pouco por toda a ilha. É o caso dum grupo de cerca de quarenta, deixados à mercê do destino junto a uma praia da ilha, é o caso doutro grupo de gatos, cruelmente lançados a uma ribeira, e outros tantos que fui detectando, nos meus passeios pela beleza duma terra, que passa unicamente pela paisagem. Não se poderá dizer o mesmo de muitos dos seus habitantes, energumenos sem um mínimo de compaixâo, que, cobardemente, abandonam os animais domésticos, sem um mínimo de sentido ético e moral.
É esta a verdadeira Madeira - uma ilha, cuja beleza é inversamente proporcional à qualidade humana de muitos dos seus habitantes - gente sem escrúpulos, sem cultura, sem educação, autênticos selvagens, que apenas aprenderam a conduzir um carro, ou a usar o duche na sua casa de banho.
Chegara a vez, de ajudar os gatos da ribeira. A Dra. Ana, exímia professora desta terra, com o seu sentido prático, e a sua sensibilidade extrema, havia conseguido um esquema, para fazer chegar a comida aos gatinhos da ribeira. Um tabuleiro em metal, amarrado a uma corda com a altura exacta da profundidade da ribeira, e assim, eu, ela, e mais outro senhor, também professor, lá vamos indo regularmente à ponte que atravessa a ribeira, içamos o tabuleiro, enchemo-lo com ração para gatos, e fazemo-lo descer lentamente, até que, chegado ao fundo, logo se pode ver, um grupo de gatinhos esfomeados, acercarem-se da nossa "prenda", e matarem a fome, ávidamente...
O meu amigo Per, mal queria acreditar. Na Suécia, se alguém abandona um animal, terá forçosamente problemas com a Polícia. As associações de protecção à vida animal, têm na Suécia, meios incomparávelmente superiores, e a população possui um sentido ético de excepção. O meu amigo sueco não parava de comentar : "Como é possivel, que num país europeu, em pleno século XXI, ainda hajam pessoas como estas, capazes de tamanha crueldade?"
Fiquei envergonhada.
Contudo, tive de admitir. Infelizmente, vivo numa terra, onde a ética, a sensibilidade, andam muito por baixo. São mentes mediavais a viverem na época da cibernautica. E o pior, é a cara de alguns transeuntes, que ao verem a nossa acção, nos olham de soslaio, como se eles é que estivessem a ter um comportamento social adequado, e nós, a prevaricarmos ou a comportarmo-nos menos bem. É esta a verdadeira Madeira. A Madeira, que eu tive profunda vergonha de mostrar ao meu amigo da Suécia.
Até me fazem um favor, alguns agentes culturais (?) desta região, ignorarem-me pura e simplesmente. A verdade, é que não teria prazer algum em cantar os nossos Poetas, para semelhante bando de energumenos, pirosos e analfabetos. Não é por acaso que a iliteracia nesta terra é gritante. Por aqui, o que vale é o cimento e o carro que se tem. É esta a nova Madeira. Que pena. E que contraste, em relaçâo à superioridade da beleza da sua Natureza.
Vale-nos pois, a presença civilizacional dos turistas, e a clara clivagem dalguns cidadãos madeirenses, que se recusam a aceitar a falta de civismo de certa massa "brega", "boçal" e "pirosa", que grassa na chamada "Pérola do Atlântico".
Ainda bem que não faz parte dos fanáticos ilhéus de mente toldada. E repare cara amiga nem sequer me refiro aos energúmenos que como refere neste post são a vergonha dessa pérola. Sempre disse que tinhamos um País cujo modelo deveriamos seguir e referindo-me à Suécia, não porque conheça esse País mas por ter visto alguns documentários que retratam a sua vida social que é no mínimo invejável. Tenho amigos que me dizem, então se aquilo é assim tão bom porquê que se registam lá tantos suicídios, argumentando dever-se tal ao facto da sua população ter a vida demasiado facilitada pelos governantes. Não sei qual a causa nem sequer se lá se registam mais suicídios que em Portugal, mas não me parece que o facto dos suecos terem um excelente nível de vida os desmotive e os leve a pôr fim à sua existência. Com um abraço do Raul
Afixado por: congeminações em agosto 21, 2005 05:10 PM...porque dos gatos se trata, a única maneira será, seria educar as pessoas para a realidade "gatos", seja, controlar o seu nascimento, porque de facto, em zonas rurais e não só, há habitos ancestrais um tanto ou quanto bárbaros...assim só pela pedagogia será possível...não me atrevo a tratar excessivamente mal pessoas que atavicamente praticam por ignorância determinados actos...só pela sensibilidade é que nos tornamos capazes de ter uma perspectiva diferente...
Um abraço e viva a Madeira na sua enorme beleza...apesar de tudo....
uMorfeu
Infelizmente, o que se passa na "Pérola do Atlântico", passa-se de igual modo no Continente.
Durante todo o ano, mas principalmente na época de férias, há imensos animais abandonados, sobretudo gatos e cães. Nunca entendi o motivo que leva a saloiada a ir comprar um animal ( por vezes bem caro)para depois o abandonar, nem sequer sendo sensíveis àquele olhar que dói de ternura... A maior parte desta malta, promovidos a civilizados à custa do vil metal, sabe-se lá ganho de que modo, são basicamente uns cretinos selvagens que abandonam e maltratam os velhos e os animais, mas também maltratam as crianças e as mulheres e não têm o mínimo respeito pela Natureza nem por nada. Veja-se o caso gravíssimo da destruição quase total da nossa floresta, sabendo-se que os fogos, na sua grande parte, são de origem criminosa.
Eu também vou fazendo o que posso pelos animais sem dono, mas o problema fundamental é mesmo continuar a haver quem os abandone.
Um abraço para si, cara Valéria, amiga dos nossos amigos mais indefesos.
tambem tenho vergonha desses madeirenses.
Desde Londres,
Kisses for my favourite Madeira singer
See you...in September!
Debora
Cara Valéria, agradeço o post que colocou no blogue que criei com dois colegas, pois assim fiquei a conhecer o seu - que já tem 3 anos, parabéns. Pelo que li, parece-me uma pessoa de coragem e espírito forte, gostaria de ter um pedacinho da sua formação e cultura geral. Infelizmente não aprecio muito o fado, mas louvo-a por dar continuidade a uma arte tão antiga e genuinamente portuguesa.
Fico feliz por saber que se sensibiliza com a mesma coisa que eu: o abandono de animais. É cada vez mais uma realidade, porém em relação à qual ninguém que tem poder e legitimidade para agir faz algo eficaz. Uma legislação justa e de mão pesada devia ser aplicada a quem abandona animais ou ou maltrata. Não é só na Madeira que isso acontece, aqui no continente também é cada vez mais irónica aquela frase: «O Homem é um animal racional», porque quem é racional não desrespeita o direito à vida que os animais têm.
Os meus mais sinceros cumprimentos***
Esse é um flagelo que vem alastrando grosseiramente.
A Madeira não é excepção, infelizmente…
Olá Valéria,
Primeiro que tudo obrigada pelo seu comentário no meu blog. Segundo, apesar de não ser apreciadora do Fado, admiro quem o faz viver e predurar; especialmente quando penso em Amália.
Sobre os gatos abandonados; infelizmente isso não é esclusivo só ai da Ilha. Aqui, especialmente agora em altura de férias é algo de banal e preocupante. Portugal continua com a mesma mentalidade retrógada do tempo dos nossos avós e bisavós. Algumas mentes já estáo a desabruchar e a evoluir; mas a maioria continua inerte e adormecida para com a sorte dos animais. Digo isto, porque também sou sensivel a esta situação; pois tenho 4 gatas em casa.
Já estamos no séc.XXI e não no tempo dos astrolopitecos... Para quando a evolução global? Gostaria de saber!!!
Um abraço e até breve!
Afixado por: Sandra Dourado (Constelação2004) em agosto 22, 2005 12:16 AMPois a mim, o que me choca ainda mais é como é que há gente que é capaz de abandonar crianças indefesas, acabadas de nascer, como se de uns gatos vadios se tratassem.
E, esta situação tanto acontece na Madeira como no resto do País! Essa gente nem energumera consegue ser: são autênticos coisas nojentas...
Cara Valéria, obrigado pelo seus post no meu blog, não quero de todo provocar um ataque cardiaco em si (pois seria uma perda inrreparável para todos nós), mas gosto do corpo humano (masculino de preferencia), que quer...
Espero um dia poder visitar a sua ilha pois tenho um grande amigo que vive no Funchal e que tem aquele grande coração de que alguns madeirenses só são capazes de ter e bem que gostaria de a conheçer pessoalmente, um abraço JB
Madame,
Não quer deslocar-se ao continente no fim de semana de 1 e 2 de Setembro e fugir daí? Temos festa no Motel!!
O professor Darcy Ribeiro, quando falava da mercantilização de nossa sociedade, com conseqüente perda dos valores éticos, se referia ao fato de só ter valor o que signifique valor pecuniário; o exemplo dele é que não se vê vaca, cabra ou porco abandanodos, em compensação, gatos, cachorros e crianças...
Afixado por: Manoel Carlos em agosto 24, 2005 07:42 PMCara amiga:
claro que Deus gosta de toda a gente e é exactamente isso que eu quero dizer com a crónica do JL. seguramente, eu estou-Lhe muito grato peloa dons que me deu e sei que a Ele os devo.
a intenção daquela crónica é só lembrar as passoas que aqueles que se julgam donos de Deus e que decidem "de quem Deus gosta ou não gosta" são, provavelmente, os que mais afastados estão d'Ele.
Infelizmente, no interior das religiões há muita gente assim, que não acredita do meu Deus que é todo amor, dádiva e compaixão.
fiquei preocupado, porque me pareceu pelo seu post que não estava clara esta mensagem. se não ficou suficientemente clara, peço desculpa.
um abraço
tiago
Voltarei para ler e reler este post. A minha disponibilidade n e a que este post merece, mas a leitura na diagonal das criticas explicitas ao ilheu madeirense, sao por mim largamente subscritas. Penso o mesmo, e n seria capaz de traduzi-lo de forma tao lucida e contundente. Sou um madeirense que sente magoa e sufoco de viver nesta terra de gentes tao vis.
Desculpe a ausencia de acentuacao, onde me encontro ela n existe.
Um abraco
É verdade que os madeirenses são atrasados em matéria de respeito pelos animais, mas valha-nos ao menos a atenuante de não termos espectáculos de touradas na nossa ilha.
Afixado por: Flávio em agosto 29, 2005 05:29 PMCusta-me imenso ter de concordar consigo acerca deste assunto...mas não é só o abandono insensível dos animais que aflige esta terra...acho que no passado não eramos assim...lembro-me de em criança passear pelo campo e as pessoas eram diferentes...duma pureza que infelizmente hoje não encontro em lado nenhum...como costumo dizer "tá tudo contaminado"
Descobri o seu Blog...gostei!
Tem toda a razao e a dra Ana e voce para mim sao heroinas
Afixado por: MAdeirense nao residente em setembro 3, 2005 12:52 AMConcordo com tudo o que disse
Afixado por: Agata em setembro 3, 2005 11:53 PMTRUZ!...TRUZ!...TRUZ!................
VALÉEEEEEEEEEEEEEEEEEERIA!
Então, foi de férias?
Espero que esteja tudo bem.
Para dizer que tenho sentido a sua falta.
Até breve.
Regressadinho de férias aqui estou de novo na luta.
Um abração do
Zecatelhado
bem-vinda! como diz o povo, quem é vivo, sempre aparece. já estava preocupado com a sua ausência. no próximo dia 20 vou para o brasil e fico por lá uma temporada, mas continuamos à distância dum mail.
grande abraço
tiago
Adorei tudo o que li aqui, virei aqui mais vezes com certeza... muito obrigado pelas tuas palavras ditas aqui...
Elsita
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Afixado por: vioxx lawyer em setembro 24, 2005 12:00 AM