Há três anos, estive em Paris para uma série de espectáculos em bares, associações culturais, 'cafés-concerts', o circuito habitual dos artistas sem nome. Um desses concertos (o que me deixou melhor recordação), foi num conhecido night-club 'gay' da noite parisiense, a que já fiz referência num 'post' anterior .
Iniciei o recital, conforme se pode ler no texto em arquivo, com "Meia noite e uma guitarra", sucesso de Amália, gravado em 1968, no triplo platina "Vou dar de beber à dor".
As coincidências quase subliminares sempre me impressionaram, e diria que, cabalísticamente, até poderão eventualmente serem passíveis dum estudo dos 'experts' na matéria. Efectivamente, o tema que referi, da autoria de Álvaro Duarte Simões, autor de meia duzia de êxitos de Amália Rodrigues,seria coincidentemente, um presságio para o que se passou posteriormente. É que Álvaro Duarte Simões, a meio duma vida por viver, decidiu pôr termo à angustia que o consumia. Nunca se soube a razão efectiva do acto. Alguns afirmaram na altura, ter que ver com a sua homossexualidade, vivida numa época em que o estigma era ainda superior ao que se vive nos nossos dias.
Ainda em conformidade com o que já escrevi, assisti no final do meu espectáculo, a uma conversa entre duas pessoas, visando o suicidio, e impressionada fiquei, com a declaração despudorada de alguém que afirmava veementemente : "Preciso suicidar-me..."
Chegou-me ontem a notícia via 'email', que um dos sócios-gerentes do local, o Eric, que me havia convidado para lá cantar por três vezes, adiantou-se a Deus e ao Destino, e da lei da morte se auto-libertou.
Nada me faria supôr que o Eric, na casa dos quarenta, homem da noite de Paris, aparentemente sem problemas de maior, de boa situação financeira e saúde de ferro, cometeria tal acto de coragem ou cobardia, segundo as diversas opiniões vigentes. Ao primeiro olhar, Eric não tinha problemas. Era um homossexual assumido, empresário de sucesso, e vivia numa cidade onde a homofobia e a discriminação são, creio eu, quasí inexistentes.
Eu não conhecia muito bem o Eric. Só tive espaço para dois dedos de conversa no final dos meus concertos, mas pelo que constatei, nada me faria prever esse final trágico. Homem bonito, sempre bem vestido, de trato fino e duma cultura geral interessante, aparentemente de bem com a vida.
Fiquei triste. Nunca mais me servirás um 'champagne', ao redor duma boa conversa. E eu , que amei ter cantado nos teus domínios.
"Au revoir", Eric.
Possívelmente já estarás ao lado da Edith Piaf, que tanto idolatravas...
Sobre a temática da solidão e do suicidio, o poeta Reinaldo Ferreira ( filho do conhecido "Reporter X", autor do célebre hit de Amália,"Casa Portuguesa") escreveu estas palavras, que Alain Oulman musicou, e Amália cantou, em 1966:
"QUEM DORME À NOITE COMIGO
É MEU SEGREDO,
MAS SE INSISTIREM LHES DIGO,
O MEDO MORA COMIGO,
MAS SÓ O MEDO, MAS SÓ O MEDO.
E CEDO PORQUE ME EMBALA
NUM VAI-VEM DE SOLIDÃO,
É COM SILÊNCIO QUE FALA.
COM VOZ DE MÓVEL QUE ESTALA
E NOS PERTURBA A RAZÃO.
GRITAR, QUEM PODE SALVAR-ME
DO QUE ESTÁ DENTRO DE MIM,
GOSTAVA ATÉ DE MATAR-ME,
MAS EU SEI, QUE ELE HÁ-DE ESPERAR-ME,
AO PÉ DA PONTE DO FIM."
"Medo", Reinaldo Ferreira
(in: cd "Segredo", Amália Rodrigues, EMI)
Sobressai-me sempre a terrível dúvida, até hoje sem resposta: Será o suicidio um acto de coragem, ou pelo contrário, apenas revelará fraqueza de espírito, ou até mesmo, cobardia?
Que responda quem souber!
Eu creio que nunca o poderei dizer...
Descobri o seu blog por acaso pesquisando textos sobre Fado. Li algumas coisas que escreveu e concordo com a maioria.Em relação ao assunto em epigrafe, respondo-lhe-São cobardes e pronto!Só admito a eutanasia por doença fisica sem qualquer cura. Quanto ao caso que narra,é evidente que o tal seu antigo "contractador" não era feliz sendo homosexual. Nâo se aceitava talvez, porque sabia no fundo que praticava actos contra-natura.
Comecei há muito tempo um blog, que indico aqui "vivasalazar.blogspot.com", mas só escrevi um texto, e depois não tive paciencia para mais.Um dia talvez o recomece. Felicito-a pela quantidade de posts que escreveu. Voltarei depois para ler um pouco mais.
Exceto para os arrogantes donos da verdade, é quase impossível responder a pergunta que encerra a postagem.
Contudo, atualmente já se trata com mais conhecimento a depressão.
A propósito, sugiro a leitura de um pungente depoimento sobre o tema em:
http://www.verbeat.org/blogs/linguademariposa/
Cobardia por não afrontar o desafio de viver.
Coragem por enfrentar o fim da vida.
Olá boa amiga!
A narrativa é triste e por aqui me fico. Respeito pelas atitudes dos outros, mesmo que nos custem a entender.
Tenha uma boa semana.
Um abração do
Zecatelhado
Cara Valéria, saber se é medo ou coragem é recorrer à velha teoria, a propósito do champagne que referiu no seu post, do copo meio cheio ou meio vazio...
Vai ao festival de jazz que começa mais logo? Espero que sim. Se for avise pois teria muito gosto em conhecê-la pessoalmente.
Um abraço do seu amigo Pássaro Distante
Olá Valéria Querida! Coloquei uma modestíssima homenagem à nossa Amália - uma cantora que, graças em boa medida à Valéria, começo agora a re-descobrir - no meu A Bomba, onde incluí um link a este seu blogue.
O suicídio assusta-me. Não condeno moralmente ninguém, claro, - quem sou eu para isso? - mas acho que é um equívoco terrível. Tenho uma amiga ligada ao espiritismo que diz que as almas dos suicidas sofrem atrozmente no além. Verdade ou patranha? Mais uma vez, quem sou eu para julgar...
Afixado por: Flávio em julho 7, 2005 12:50 PMQuerida Valeria-Mil obrigadas pelo seu email preocupada comigo.(ja respondi) Gracas a Deus nao me aconteceu nada, o ambiente esta estranho, triste.
Desde Londres,
beijo
Debora
Ah e nem comentei o seu texto-tambem não consigo responder a questao.
Desejo-lhe uma excelente digressão e novos posts com "estórias" da mesma, pois delicio-me sempre com os seus textos, cara Valéria. Pelo menos vamo-nos cruzar na via rápida, já que estou no Caniçal e vou sair daqui a pouco do trabalho... com vontade de parar pelo aeroporto... :) Um abraço e volte logo pois deixa saudades
Afixado por: Passaro Distante em julho 8, 2005 05:12 PMBelo poema!
Pois é, a vida, por vezes, é tão madrasta que só apetece a morte... Também já me apeteceu, mas feliz ou infelizmente, ainda estou aqui para dizer que não tive coragem de mergulhar no desconhecido...ou não fui suficientemente cobarde, sei lá!
Um abraço
MLeiria
Este problema tem sido abordado por especialistas e leigos na matéria e julgo que não existe consenso
para as razões que levam um ser humano tomar uma tal decisão. Por acaso há dias falando com uns amigos sobre este assunto e colocado perante a possibilidade de num momento de profundo desespero ser capaz de por termo à vida a minha resposta foi imediata. Não seria capaz. Classificar isto de acto de cobardia não me parece correcto. Talvez se ajuste
mais falta de coragem que pode não querer significar
a mesma coisa. Com um abraço do Raul
Já pode vir comentar ao Limite. Agora os comentários entram bem.
Um abração do
Zecatelhado
Fui buscar o album d eAMália para voltar a ouvir o "Medo".É uma interpretação fantástica! E sobre o tema, quem sou eu para julgar os outros? Interessante foi a coincidencia de ter começado a sua sessão de Fado, com Alvaro Duarte Simoões, que eu francamente não sabia que se tinha suicidado.
Afixado por: Antonio em julho 10, 2005 04:43 PMCara Valéria, não sei se já ouviu falar no orkut. É uma comunidade virtual onde temos oportunidade de trocar impressões e de fazer novos amigos, além de criar comunidades subordinadas às mais diversas temáticas. Pois bem, eu criei, em sua homenagem, a comunidade «Valéria Mendez Fadista». Está neste endereço e espero que goste:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3330216
Um abraço do seu amigo Pássaro Distante
Em meu blog estou lançando a campanha "onde está Érika Vander?" Tenho um bilhete escrito de próprio punho pela poeta Cora Coralina em 1981, no qual a destinatária é Érika Vander. Trata-se de uma preciosidade. Veja mais detalhes em: http://ricardo.senna.blog.uol.com.br
Ajude-me, publique se puder, divulgue, visite...
tb eu n/ consigo responder a essa pergunta!
Curioso esse seu show em Paris!!E assustadoras coincidencias!
Eu apetece-me desaaaaappppaaaaaaareeeeecccceeeer todo o santo dia... percebo bem essa frase!
Afixado por: O Prusidente da Junta em julho 22, 2005 06:41 AMoi! gostava saber s tem 1 orkut?? tem?? manda-me 1 mail a diser como posso fazer 1???
1000Brigadas
MkIkA
Merck & Co. Hit with $253 Million Verdict in First Vioxx Lawsuit to go to Trial
Afixado por: vioxx em agosto 26, 2005 06:40 PM