O lançamento da EMI, duma colectânea de Marchas Populares de AMÁLIA RODRIGUES veio aguçar o meu espírito, para uma breve análise sobre essa cultura popular lisboeta, que de tão arreigada, sobreviveu a décadas de aculturações várias, e até, ultrapassou as fronteiras de Olíssipo, para se tornarem manifestações possíveis, em sítios tão díspares, como a cidade do Porto ou mesmo Funchal, onde as marchas também assumem especial importância.
Um certo olhar de soslaio das "intelligentsias" culturais, verso as marchas populares, levou até certo ponto, um descair de qualidade poético-musical, nas ultimas duas décadas. No fundo, uma visão novo-riquista de muitos intelectuais ou pseudo-intelectuais, que após a Revolução de Abril, deixaram de dar às marchas, o seu contributo e atenção. Disparates como 'alienação popular' e 'populismo intelectual', foram algumas das explicações apresentadas para esse divórcio, que ainda hoje se faz sentir.
Lisboa, é das poucas cidades do mundo, onde uma manifestação popular assume um cariz cultural, no domínio da musica, da poesia, da representação cénica. O Fado, como estilo musical, teve essa mesma base popular, e hoje, sobretudo graças a Amália Rodrigues, assumiu um papel preponderante na divulgação da Grande Poesia, prova de que afinal o Povo, não é assim tão estupido como muitos o querem pintar, e é capaz de vibrar com um poema elaborado dum Alexandre O'Neil ou dum David Mourão Ferreira. Percebi isso, quando um dia, calcorreando a Lisboa Antiga, ouvi uma vendedeira de fruta cantar fabulosamente, a "Gaivota" de O' Neil.
Quantas cidades e quantos países no mundo, se podem gabar de ter uma tão activa produção cultural, tendo como base de partida, a criatividade popular ?
As Marchas de Lisboa, que todo o fadista que se preze também canta, tiveram desde os anos 30 até meados de 70, a colaboração das elites culturais, a ver pelos nomes que figuram na feitura das mesmas. Nomes como o maestro Frederico de Freitas (nome incontornável da Musica Clássica), do maestro Nóbrega e Sousa, autor de muitos êxitos dos mais variados nomes da Canção Portuguesa, Ferrer Trindade, o génio que compôs a Canção do Mar (Solidão), Raul Ferrão, um dos ícones da composição musical portuguesa, autor do célebre "Coimbra"(April in Portugal), Raúl Portela, Amadeu do Vale, César d' Oliveira, são só alguns dos nomes presentes na feitura de muitas marchas, dos diversos Bairros Populares. Era um tempo, em que os intelectuais sabiam "subir ao Povo", como dizia o Poeta Pedro Homem de Mello.
Hoje, infelizmente, as elites culturais acham-se demasiado importantes para dar o seu contributo a essa forma tão genuína e popular de Cultura...
Quem escutar esta 'nova' colectânea de Amália, poderá deliciar-se com as marchas populares, duma época em que um Frederico de Freitas, conhecia o verdadeiro significado da palavra Cultura, e assim contribuía para um apuramento da estética.
Talvez, por que hoje, tal fenómeno não se verifique, se encontre explicação plausível para o retumbante sucesso que, nos nossos dias, a chamada musica 'pimba', obtém junto das massas populares...
E vc despertou em mim o interesse em ouvir essas marchas de Amalia.
Afixado por: Antonio em junho 17, 2005 05:32 PME pimba!
Tomem lá que é para o almoço...
Gostei do post.
Um abraço de amizade.
FÚ
Venho agradecer-lhe os seus simpáticos comentários
que, são, no conjunto com outros o exilir desta minha caminhada.
Efectivamente fiz anos ontem embora tenha comemorado hoje com a família mais próxima. Já são muitos mas é
como digo nas quadras que a mim próprio dediquei, não lhes sinto o peso. Farei por ignorá-los enquanto sentir que a minha capacidade de discernimento não se sentir afectada. Mais uma vez lhe agradeço as suas palavras de estímulo. Com um abraço do Raul
Mais uma bela, informativa e esclarecedora crônica; as nossas letras musicais têm grande valor poético e literário; também no Brasil grandes poetas foram musicados ou escreveram especialmente para músicas, e letristas são grandes poetas.
Afixado por: Manoel Carlos em junho 19, 2005 02:53 AMBom dia.
Faz tempo que não ouvia ninguém falar de Frederico de Freitas e/ou de Raúl Ferrão.
Como diz, e muito bem, são nomes incontornáveis. Pena é que estejam no esquecimento geral duma Cultura que sei ainda ter acérrimos defensores nos vários bairros por onde já passei. Sempre por "carolice" pois os apoios cada vez são menos.
Um bom domingo.
Afixado por: eduardo em junho 19, 2005 08:50 AMEste escrito é verdadeiramente uma resposta, não um comentário a este seu post pelo qual, já agora, aproveito para a cumprimentar baste somente lembrar tantos e tão importantes nomes esquecidos das artes portuguesas.
Acerca dos fados, para além do que a Valéria escreveu no seu post de 25 de Fev. do ano passado, as informações que tenho disponíveis não são muitas, mas creio que sem erros... O Fado Puxavante é um fado de Quadras e a música é da autoria de Joaquim Campos Silva; o Fado Triplicado é um fado de Sextilhas e a música é da autoria de José Marques. Quanto à razão dos nomes atribuídos, nada sei dizer. De qualquer modo, destes fados também se tratará, por certo, na tal colecção "Fados de A a Z"; aguardemos a ver se é dada essa explicação....
Até breve
Maravilha...
Um beijo, BShell
Mais uma pérola com que a Valéria nos presenteia. Aproveito para cumprimentá-la e desejar-lhe uma excelente semana.
Afixado por: Passaro Distante em junho 21, 2005 10:39 AMOlá valéria:
não podia estar mais de acordo consigo. como sabe, esta tem sido a minha luta, dar dignidade ao que smpre a teve, mas por causa de uns pesudo-intelectuais de merda, acabou por ir perdendo viço e cor.
é o que se passa nas marchas populares e por querer que elas voltem a ter o brilho de antigamente, há já três anos que escrevo as marchas da bica, no ano passado escrevi também as do beato mas não foi uma experiência tão agradável. Mas o meu empenho tem sido bem tratado e acabo de vencer pelo terceiro ano consecutivo o prémio de melhor letra. digo isto não por vaidade, mas para ver se estimulo outros poetas jovens, outros compositores da minha geração a darem o seu contributo para este fenómeno que ultrapassa muitíssimo o cariz cultural só quem as vive sabe da importância social das marchas em bairros degradados, pobres, onde a juventude anda meio perdida e se reúne durante meses, noite após noite, para levar um bocadinho de alegria à avenida da liberdade. este ano tive o privilégio de desfilar como padrinho da marcha e é verdadeiramente uma energia contagiante que nos faz descer a avenida!
este ano,a câmara teve a feliz ideia de gravar um cd com as marchas de todos os bairros. ainda não ouvi mas será editado nos próximos dias. eu tive a sorte de que a minha marcha que se chama "Lisboa renascida" e tem música de Joaquim de Brito, fosse gravada por uma senhora de quem eu gosto muito - Maria José Valério! E gosto muito porque ela é, seguramente, a melhor pessoa que eu encontrei no meio artístico. Um coração de ouro e uma personalidade cativante. Só em Portugal é que uma madeixa de cabelo é mais comentada do que aquilo que o artista faz!
abraços
tiago
Afixado por: tiago torres da silva em junho 26, 2005 10:51 PM