junho 02, 2005

De novo a "minha" Promenade des Anglais


Os lugares da nossa juventude são sempre marcantes. Sobretudo, se deles guardamos todo um manancial de aprendizagens, sensações, cheiros e sons. O meu percurso universitário passou por duas cidades europeias, que ficarão para sempre eternizadas no meu espírito. A primeira, Perugia, cidade etrusca com os seus monumentos milenares, e a segunda, Nice, a pérola da Côte d'Azur francesa, a cidade da 'Promenade des Anglais', onde eu passava os meus tempos de ócio, saboreando um refinado 'marron glacé', numa esplanada frente ao Negresco.
Foram belos e mágicos, os meus dias na 'Faculté de Lettres et Sciences Humaines' da Universidade de Nice. Tão significativos que, ainda hoje, retenho as aulas de Madame Planche, de Literatura Contemporânea, senhora muito distinta, "parisienne" no modo de vestir e agir, que logo à entrada, nos fez rir com a sua apresentação algo invulgar:
"Bonjour, je m'appelle Alice Planche et commme vous voyez, je suis tout à fait comme une planche."
Foi a graça que desopilou todos os presentes, intimidados com uma mulher que arrastava consigo, o peso de ter sido figura de destaque do Ministério da Cultura, e autora de diversos ensaios literários.

Desta vez, a minha deslocação à Nice do sec. XXI, prendia-se com um convite, para participar nas actividades culturais da faculdade, onde um dia estivera sentada a beber ensinamentos que me faziam viajar no tempo e no espaço. Tratava-se dum regresso, do qual Madame Planche era a principal responsável. Eu nunca perdera de vista a elegante senhora; onde quer que me encontrasse, enviava -lhe sempre um pequeno postal, dando-lhe conhecimento do meu percurso de vida. O departamento de Literatura organizava todos os anos, algumas actividades culturais, colóquios, conferências, exposições, e também alguns espectáculos com artistas das mais variadas proveniências. Georges Brassens, Jacques Higelin, Georges Moustaki, Barbara, Carlos Paredes, Milva, foram alguns dos nomes que por lá passaram, mostrando a sua Arte Maior. Desta vez, seria a Valéria Mendez. Apenas e tão sómente, porque fôra uma antiga aluna. Entre a minha pessoa e esses artistas, não são possíveis quaisquer paralelos. A minha presença ali, devia-se unica e exclusivamente à boa vontade de Madame Planche.

Faltavam poucos minutos para eu entrar em cena. No palco da Aula Magna, dois grandes 'bouquets ' de flores à boca de cena, um 'slide' projectado com a fotografia de Amália Rodrigues, e um outro representando uma guitarra portuguesa.
Os musicos tocavam uma variação introdutória. O crescendo final ia-se acentuando, e eu, atrás das cortinas, com as pernas a tremerem-me, com a boca seca, como se de repente, as glândulas salivares deixassem de existir. Faço sinal a alguém que me dê um copo de água. Ainda não tinha terminado de sorver frenéticamente o líquido, quando ouço os aplausos. A variação terminara. Agora tinha de ser. E lá entrei de microfone na mão, qual Marie Antoinette dirigindo-se para o cadafalso.

As guitarras arrastam a melodia do primeiro tema - um original de Carlos Gonçalves, o exímio guitarrista de Amália, que compôs, entre outros, o célebre sucesso da Diva - 'Lágrima'. Trata-se dum poema de António de Sousa, que Amália cantou duas ou três vezes em cena aberta, mas que nunca gravou.

"Tive uma rosa de fogo
a arder no meu coração
ganhei meu destino ao jogo
em dias que já lá vão..."

A minha voz grave procura os caminhos do poema. Fico com a impressão que não sai. Aproveito uma intervenção instrumental entre duas quadras para me recompôr. E lá recomeço. Pouco a pouco, vou perdendo os nervos, e sou assaltada pelo prazer. Tenho quase duas mil pessoas à minha frente. Todas a olharem para mim...
E como por magia, isso deixa de ser relevante...E viajo no poema. À minha maneira... Mesmo com a pouca voz que Deus me deu.
E vieram outros fados, outros tributos. A Amália, a Paredes, ao Marceneiro. E falei da Poesia - o desplante dum Ary, a resistência dum Manuel Alegre, o existencialismo dum Pessoa, a imagética dum David Mourão Ferreira. Ao cantar 'à janela de Lisboa',senti a falta dum quadro de Maluda, ali mesmo no palco.
A certa altura, por entre a penumbra da sala, reconheci na primeira fila, Madame Planche. Esqueci-me da minha condição fadista, e dediquei-lhe as palavras do seu poeta preferido : Paul Éluard.
"Il ya des mots qui font vivre,
et ce sont des mots innocents..."

Estreava-me assim como declamadora...E teve o seu encanto, dizer as palavras dum poeta francês, ao som duma variação improvisada de guitarra portuguesa. No final, desço as escadinhas do palco. O foco de luz branca segue-me. Preciso abraçar Madame Planche. A mesma distinção, a mesma elegância, a mesma finura de trato. Apenas com mais sabedoria no seu rosto.
"Merci Valéria, pour ton fado."
Chegara a hora de partir. Jamais conseguiria 'timing' tão perfeito. Agradeci. Anunciei uma peça do folclore do norte de Portugal -Um Malhão. E foi delicioso ver e ouvir toda aquela gente a bater palmas ao som da genuina musica do povo de Portugal.

Fôra uma 'soirée' perfeita. Pelo menos para mim. Estava exausta, com o rimel a esborratar-me os olhos (nunca me vou habituar a ele!), os cabelos desalinhados de tanto bailar. Estava (ainda mais) rouca. Contudo, feliz. Acabava de viver mais um momento de felicidade. Que a vida é mesmo assim, e ninguém diga que é feliz a tempo inteiro. Pelo menos, quando temos a lucidez por companheira. É já muito bom, podermos disfrutar alguns momentos felizes. Depois, há a tal saudade, bem portuguesa, para perpétuar esse momento.

A ensombrar essa recordação, a notícia de que Madame Planche não está muito bem de saúde. Os seus oitenta anos pesam já no seu viver. Fico pr'àqui a pensar no quão efémera é esta vida. Há pessoas que deveriam ser imunes ao Tempo. De tão felizes que fazem os outros. Quero de novo falar com Madame Planche. No pique do Verão, vou estar em Florença. Tenho de ganhar pelo menos um dia, para ir até Menton, ali mesmo pertinho do Mónaco, onde reside a minha querida professora. Preciso de novo dizer-lhe da sua importância para todos nós, que tivémos a honra de beber as suas palavras. Preciso de novo oferecer-lhe um bouquet de rosas brancas, as suas predilectas...

Publicado por Valéria Mendez em junho 2, 2005 08:13 PM
Comentários

valéria, para quando as tuas memórias (vivências) em livro? toda a tua escrita está envolta num ambiente cultural excepcional e de grande riqueza humana.

abraço

Afixado por: fernando esteves pinto em junho 2, 2005 10:38 PM

Vc tem muito talento.Sabia?

Afixado por: Antonio em junho 2, 2005 10:49 PM

Pois é, Valéria. Tantas e tão interessantes carruagens de memórias. Quanto à escrita de um livro, acho uma optima ideia!

Considero, no entanto, que não só da vivência de uma viajante deveriam tocar as palavras dessa obra. Não só resultaria pesado e cansativo, como ficaria falho das restantes cores da sua criadora. Gostava de ver escritas as viagens interiores que faz. As estranhas formas de chegar ao essencial e ao divino através de um charuto. A crítica acutilante sinceridade e o humor que aplica a si e aos outros. Para um livro considero que deveria arriscar mais, para algo mais importante e único.

Afixado por: Bernardo Mendonça em junho 3, 2005 02:02 PM

A tua vida dava mesmo um livro,mas um disco neste momento seria otimo!Gostaria de poder oferecer aos meus amigos aqui em Londres,um CD da artista que mais admiro da minha Madeira

Afixado por: Debora Santos em junho 4, 2005 02:31 AM

Tive o grato prazer de a conhecer por fotografia através da revista do "Expresso" na qual concede
uma entrevista falando óbviamente do tema que lhe é muito grato e que tão bem sabe defender. Com um abraço do Raul

Afixado por: congeminações em junho 5, 2005 01:30 PM

Na próxima sexta-feira, vou ao lançamento do 1º disco de uma nova fadista que foi minha aluna...`A medida que envelhecemos, é interessante ir acompanhando o percurso daqueles que ajudámos a formar e é verdadeiramente reconfortante quando, da parte deles, sentimos esse carinho que tão bem descreve, relativamente a Mme Planche...
Gostaria de saber se tem algum disco gravado, pedindo desde já desculpa pela minha ignorância. Gostava de a ouvir.
Qtº à B.Cardoso, espero brevemente poder fazer-lhe uma surpresa.
Um abraço.

Afixado por: MLeiria em junho 5, 2005 08:16 PM

Vi-a no Expresso! ;-)
Esperamos por si in the usual place: "madeira"

Afixado por: Pruz. em junho 6, 2005 06:06 AM

O silêncio deixa-me ileso, e que importância tem? Se assim tu vês em mim alguém melhor que alguém. Sei que minto pois o que sinto não é diferente de ti. Não cedo. Este segredo é frágil e é meu. Eu não sei tanto sobre tanta coisa que às vezes tenho medo de dizer aquelas coisas que fazem chorar. Quem te disse coisas tristes não é igual a mim . Sim , eu sei que choro , mas eu posso querer diferente para ti . Eu não sei tanto sobre tanta coisa que ás vezes tenho medo de dizer aquelas coisas que fazem chorar . E não me perguntes nada. Eu não sei dizer ...

Afixado por: Gigantic Dwarf em junho 6, 2005 02:41 PM

Não pude deixar de me emocionar com este belíssimo post, cara amiga Valéria. A forma (e o conteúdo) com que descreve as suas vivências é, simplesmente, fascinante. Um abraço comovido deste seu leitor assíduo que, uma vez mais, reitera o desejo de a poder ouvir cantar em solo madeirense...

Afixado por: Passaro Distante em junho 6, 2005 04:50 PM

Ha muito tempo vi-a no Herman e achei-a fascinante.Depois de ler esta cronica ainda fiquei mais fascinado

Afixado por: Pedro Passos em junho 7, 2005 10:48 PM

Já tinha saudades de te ler... Obrigada!

Beijufas, BShell

Afixado por: BlueShell em junho 7, 2005 11:57 PM

Bom dia, D. Valéria.
Para um indivíduo como eu, que pouco mais passou para além do Campo de Santana, viajar consigo torna-se de tal forma empolgante que até parece que estive lá. Assim, lado a lado de todas essas figuras marcantes duma época que não é só minha.
É que, em menor escala, também tive a "minha Madame Planche" e também adorava rosas brancas.

Afixado por: eduardo em junho 9, 2005 08:47 AM

Tenho uma filha que se formou na Université de Nice Sophia-Antípolis e reside em Mônaco, talvez ela tenha visto o espetáculo.
Imagino que tenha sido sublime.
Embora inexorável, é triste ver o envelhecimento dos grandes amigos, e até o nosso próprio.

Afixado por: Manoel Carlos em junho 9, 2005 07:32 PM

Você é uma mulher que escreve com EXCELÊNCIA. Já o tinha dito mas repito-o.
Vi o Expresso e fiquei orgulhoso.

Um GRANDE abração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em junho 10, 2005 11:28 AM

Olá!
Na rondinha do costume aos meus blogues favoritos, aproveito para lhe desejar um bom fim de semana.

Aquele abração

Afixado por: zecatelhado em junho 12, 2005 10:08 PM

Having problems with an at-risk youth or a troubled teen? Maybe it's time you consider tough love measures. Boarding schools, group homes, teen juvenile boot camps and military schools are all options parents have used to to get their troubled teens back on track. Don't tolerate teen drug abuse another day. Send them off to a private military school where they can get the help they need.

http://www.able-militaryschools.com
http://www.able-militaryschools.com
http://www.military-schools-advisor.com
http://www.military-schools-advisor.com Afixado por: military schools em julho 9, 2005 07:10 AM