maio 13, 2005

FADO À FORÇA NUM HOTEL DE JERUSALÉM ORIENTAL

A sala do National Hotel,de Jerusalém Oriental,estava pejada de homens e mulheres, todos ostentando o 'kafieh', o lenço palestino, ao pescoço. O encontro era clandestino. Haviam fortes indícios que, aquele encontro entre activistas do Al Fatah, jornalistas e activistas estrangeiros, poderia estar na mira do Mossad israelita.
A pressão, o medo e a revolta pairavam no ar.
O governo israelita houvera proibido concentrações publicas e privadas de teor político, e o 'Al Fatah' convocara aquele encontro, aproveitando a presença duma bateria de jornalistas franceses e italianos para, numa improvisada conferência de imprensa, apresentar fotografias, relatos narrados na primeira pessoa, e um video-amador, denunciando as atrocidades cometidas pelos militares judeus, em terras ocupadas da Palestina. Os sucessivos 'check-points' na Cisjordânia, inviabilizavam qualquer incursão dum estrangeiro a tais paragens.
Na altura, eu estava no Hotel, e havia há pouco, participado numa manifestação e num espectáculo, organizado pela 'Association France-Palestine', que conseguira, junto às vetustas muralhas da cidade velha, concentrar vários milhares de pessoas, que logo seriam dispersadas, pelas bombas de água e balas de borracha de Israel, impedindo o termino do evento, em Paz e segurança. Um exemplo da democracia do governo dos seguidores da Torah.
O encontro decorria normalmente, e a certa altura, alguém irrompe na sala, alarmando os presentes, com a notícia de que na rua, verificava-se um movimento de viaturas suspeitas. No momento, projectavam-se no plasma, slides com fotografias de meninos mortos, feridos, velhos prostrados junto de amontoados de cimento e pedras, logo após uma demolição da antiga casa duma familia palestiniana dos arredores de Jenin, que subitamente, vira-se sem lar e sem bens, fruto de mais uma criminosa instalação dum novo colonato judeu.
Instintivamente, e quase sem pensar, corri para o canto do bar, onde houvera depositado a minha velhinha guitarra portuguesa, que apesar de ser muito mal tocada por mim, havia-me acompanhado até tão distantes paragens. Tenho por hábito de, em todos os meus recitais,acompanhar-me a mim própria, num ou dois fados tradicionais, fazendo um pouco de pedagogia do Fado, explicando a base da Canção dos Bairros de Lisboa, o Mouraria, o Corrido e o Menor.
Num ápice, estava eu no pequeno palco da Sala do National Hotel, cantando o refrão do "Coimbra", como se estivesse em cena há já algum tempo. Entretanto, alguém houvera já desligado o plasma, e todos os presentes, em tácito acordo, já cantavam comigo o 'lá lá lá', do célebre 'standard' do Fado, que Amália internacionalizou nos anos 50.
Não havia ainda terminado o fado, quando, um grupo de homens à paisana, irrompia sala adentro, de forma truculenta e ameaçadora.
Continuei a cantar...
No fundo da sala, os caciques entreolharam-se, perscrutaram aquele grupo heterogéneo de palestinos e estrangeiros de diversas proveniências. Finalizei o "Coimbra", e em inglês e francês, anunciei, "para terminar o espectáculo", uma canção do folclore do Norte de Portugal, um Malhão, pedindo a colaboração de todos, marcando o ritmo com palmas.
A meio do Malhão, e apesar da adrenalina correr a mil nas minhas veias, tive uma enorme vontade de rir, quando olhei para o fundo da sala, e vi uma dúzia de caciques armados com pistolas à cintura, a baterem palmas, ao som dum Malhão português...
Passados uns minutos, o Director do Hotel, um palestiniano formado em Gestão Hoteleira na Suiça, conferenciava baixinho com o grupo. Afinal, aquela concentração de pessoas no hotel "não passava dum simples concerto duma cantora desconhecida, originária dum país chamado Portugal."
Acabaram por sair, sem incomodar nenhum dos presentes.
Mais tarde, soubemos que na rua encontravam-se vários carros militares, prontos para desancar em tudo e todos.
Depois do perigo passar, e duma apurada investigação nos arredores, levada a cabo por sete activistas estrangeiros, finalizava-se mais rápidamente do que estava previsto, o motivo real da reunião.
E foi então quando, recebi uma das maiores ovações da minha carreira, porventura a mais sentida, e bizarramente sem nada ter que ver com o Fado.
Um jovem palestino do Al Fatah, de lágrimas nos olhos, veio ter comigo, apertou-me a mão, e disse-me: "Tu hoje foste um de nós. Agora...tu és também palestiniana."
"Maktoub!"(estava escrito!), retorqui ao jovem, apertando-lhe a mão trémula.
Afinal, o "destino traçado", sentimento tão fadista e português, não estava assim tão longe do arábico sentir dos insondáveis mistérios da vida, dos povos distantes do Profeta...

Publicado por Valéria Mendez em maio 13, 2005 02:17 PM
Comentários

Um episodio digno duma grande artista!

Afixado por: Debora Santos em maio 13, 2005 07:10 PM

E não terá, de certo modo, uma réstia de descendência Árabe, o nosso fado?

Afixado por: jgonçalves em maio 13, 2005 10:55 PM

Venham comer bolinho hoje faço anos. BJKS amigos queridos.

Afixado por: ALUENA em maio 15, 2005 04:14 PM

Valéria querida!...
Pra ti amiga também o meu singelo poema.

A MESA está-se a compor,
Os amigos a chegar,
Cada um trás uma coisa
Para a festinha animar.

O Peter e o champagne
que não podia faltar.
Flores lindas e abraços
que continuam a entrar.

Marta foi a primeira,
telefonou-me pra acordar.
Maria Papoila, toda donairosa,
Menina Marota na terra e no mar.
BITU querida também veio à festa
Blueshell que encanto está a chegar.

Mafalda Freire, esta nova amiga,
Animaleja com ventos do sul
Estrela do mar alegrando a vida,
Daniel Aladiah amorosamente
Amita querida toda abilidosa,
Grilinha não falta abraço pra ti.

Vejam lá que sorte,
Vai haver Fadinhos
A nossa Valeria está também aqui
Sabe que eu gosto e vem cantar pra mim.

Que feliz que eu estou.
Vai chegar mais gente
A noite é uma festa
Obrigada amigos
Que grande presente.

Afixado por: ALUENA em maio 15, 2005 09:08 PM

A sua forma simples de escrever, fez-me "ver" a cena toda como num filme.

Afixado por: Antonio em maio 16, 2005 07:27 PM

De forma prática, a voz a serviço de uma causa.

Afixado por: Manoel Carlos em maio 17, 2005 02:54 AM

Valéria querida, mais uma crónica extraordinária! Obrigado! Moral da história: a música é uma linguagem universal com a capacidade mágica de unir até os povos mais desavindos. Beijinhos!

Afixado por: Flávio em maio 17, 2005 01:35 PM

Já agora, uma questão: uma vez que a Valéria conhece como ninguém essas paragens orientais, saberá por acaso de algum livro ou site sobre a cultura judaica que me possa recomendar? Estou a fazer um trabalho sobre o judaísmo e agradecia a ajuda, se for possível. Beijinhos!

Afixado por: Flávio em maio 17, 2005 01:38 PM

Cara Valéria, li este post acompanhado de teimosas lágrimas no rosto, como se estivesse a viver aquilo que tão bem relatou. Acho que devia enviar este post como «Carta do Leitor» para o Diário de Notícias... talvez a consciência de alguns se multiplique na consciência de muitos...
Quanto ao seu comentário no meu cantinho, que dizer? Apenas corar com os seus elogios e, modéstia à parte, repetir que deles não sou merecedor. Um abraço do seu amigo Pássaro Distante

Afixado por: Passaro Distante em maio 17, 2005 04:42 PM

Vc nem parece madeirense;desculpe porque quando vejo na TV alguem da Madeira nem sequer sabem exprimir-se e a senhora para alem de ser uma artista com substancia,sabe comunicar.Vi-a ha algum tempo na SIC e gostei.Mas uma coisa lhe digo:que pena tenho que viva nessa ilha e ainda por cima sem lhe darem o devido valor!

Afixado por: M.E.C. em maio 19, 2005 04:23 AM

Eu a pedir apenas algumas sugestões bibliográficas a respeito do judaísmo e a Querida Valéria presenteia-me com uma magnífica dissertação sobre o tema! Obrigado!! É aquela camaradagem e companheirismo de que só mesmo nós, os madeirenses, somos capazes. E agora, ao trabalho! Oxalá que este meu projecto sobre o judaísmo dê frutos. Se der, será uma pequena revolução no cinema português. Beijinhos, Valéria!

Afixado por: Flávio em maio 20, 2005 11:26 AM

Cara Valéria, aceitarei o seu repto assim que surja uma oportunidade. Gostaria muito de ouvi-la cantar o Fado... enquanto isso, convido-a a recordar «»Rosa da Madragoa», «vestida» com outras palavras deste seu amigo. Espero que goste. Um abraço e bom fim de semana. Pássaro Distante

Afixado por: Passaro Distante em maio 20, 2005 03:33 PM

Existem por ai vedetas que nao possuem metade da sua grandeza,nem podem contar coisas fantasticas como esta.

Afixado por: Peixoto em maio 22, 2005 04:14 AM

Valeria, Foi uma grnade honra receber a sua visita no Sítio da Saudade. É um privilégio poder ler estes episódios da sua vida. Beijo

Afixado por: Monalisa em maio 22, 2005 09:41 PM

Valeria!!!!!!
Lembras-te de mim,do Pastilhas? Ha muito que no te lia (nem te via). Foi necessario estar em Veneza para te encontrar e verificar que escreves sempre de forma e conteudo mais que perfeito.
Bacio

Afixado por: titas em maio 23, 2005 01:54 PM

Oh TITAS !!! Claro que me lembro de ti. Que bom! Já tinha pensado em ti, e nas opiniões que trocámos, e pensava no que seria feito da Titas!

E credimmi, tu stai in una città ché costituisce un incantesimo per me...Bellissima! Nel prossimo Estate andró a Firenze per fare due concerti...sarebbe bello che tu ci venissi...
E che fai a Venezia?
Vivi un romanzo d´amore?
Bacci tanti!
Valéria

Afixado por: Valeria Mendez em maio 23, 2005 05:38 PM

Querida Valéria, considere-se desde já convidada para o filme! Será uma honra e um prazer! Eu já produzi uma curta que contou com um elenco notável e música dos Clã, ainda que, infelizmente, o resultado final tenha acabado por ser uma grande m... Poderá ver do que se trata nas primeiras crónicas do meu blogue A Bomba. Quanto a este novo projecto, é um trabalho muito mais a sério e que só estará pronto lá para o ano.

Afixado por: Flávio em maio 23, 2005 06:33 PM

Cara Valéria, vim aqui na expectativa de ler mais uma apaixonante aventura sua e voltei a emocionar-me com este post maravilhoso. Um abraço do Pássaro Distante

Afixado por: Passaro Distante em maio 24, 2005 12:02 PM

Nunca poderia fazer ideia que aquela pessoa que me deu aulas de Italiano nos anos oitenta haveria de ter uma vida com tanta aventura! Sou o Ricardo Nunes a quem vc carinhosamente chamava de "piccolo Mastroiani"

Afixado por: Ricardo Nunes em maio 25, 2005 01:12 AM

estoria de excepção!
Mas, ainda de maior excepção é a sua aventura no Iémen, que você conta em quatro posts seguidos do mês de Junho de 2004. Sinceramente nem sabia nada sobre o Iemen nem da sua capital Sannaa.Aprendi hoje mais um pouco consigo.Mas sobretudo diverti-me com a sua aventura.


Afixado por: tina em maio 25, 2005 07:32 PM

Olá!
Agora estou em wwwlimite.blogspot.com

Aquele abração do
Semog

Afixado por: Semog em maio 28, 2005 09:49 PM

Cara Valéria,
não é uma pena que não haja nenhuma associação portuguesa (que eu saiba, mas diga-me se estiver enganada) de solidariedade com o povo palestiniano e que tenhamos de aderir a associações de outros países (mais "engagés") tal como a França ?
Um abraço,
Zuina

Afixado por: zuina em maio 29, 2005 05:37 PM

Tu es grande! Alertada pelo coment. da Tina fui ler a tua aventura no IEmen e achei o maximo.Li o artigo sobre ti no .Expresso e penso que merecias honras de capa!

Afixado por: Rita em maio 30, 2005 01:58 AM