abril 20, 2005

O VELHO FADO -Crónica de TIAGO TORRES DA SILVA, no "Jornal de Letras "

"Não se ouve falar de outra coisa que não seja o Novo Fado , seja lá isso o que for. Todos os dias nasce uma Amália nova. Todos os dias, os jornais publicam novidades sobre a ultima nova Amália. A musica portuguesa internacionaliza-se. Pelo menos é o que dizem os jornais. Podem os Madredeus ou a Maria João dar a volta ao mundo, que isso não é grande notícia...mas basta uma destas meninas ir cantar a Badajoz para a imprensa a tratar como uma estrela internacional, não lhe dando tempo de crescer e amadurecer a sua arte, o seu canto.
Ao fim de um ou dois discos, já se escrevem livros sobre estas cantoras que, na sua maioria são de grande qualidade e estão a ser vítimas de uma exploração indecente por parte da imprensa. Neste frenesim que atravessa o Fado, esquece-se uma geraçâo inteira de fadistas que, ainda no activo, ficou esmagada entre a Amália e as amaliazinhas. Uma geração que se formou longe dos protótipos e das imitações, que afirmou um Fado próprio, e que manteve o vigor das noites fadistas, onde o canto é um reduto de comunicação verdadeira...Falo da Beatriz da Conceição e da Tereza Tarouca, do João Ferreira Rosa e da Maria João Quadros, da Manuela Cavaco e da Maria da Fé, do António Pelarigo, da Tereza Siqueira, e de tantos outros que, por tuta e meia, arrancam a voz das entranhas todas as noites nos restaurantes de Alfama, nas esquinas do Campo de Santana, nos Santuários do Bairro Alto.
Toda a gente diz que o fado não se aprende nem se ensina. Isso é verdade para todas as artes, mas,para todas as artes e em especial para o fado, tem de haver uma passagem de testemunho.
O lugar onde hoje me apraz mais ver essa mistura de gerações fadistas a receberem e transmitirem saberes antigos, melodias esquecidas, gestos encaixilhados no tempo, é a " Mesa de Frades ", um lugar mínimo ali na rua dos Remédios, em Alfama, lugar que outrora foi uma capela onde, na mesma noite, é possível ouvir a Beatriz da Conceição que eu digo ser uma verdadeira poetisa nos novos sentidos que dá às palavras que canta com uma alma fadista como já não há, a Joana Amendoeira que é linda, canta cada vez melhor e é um coração de ouro, a Maria João Quadros onde raça e sentido musical são sinónimos, os manos Pedro e Hélder Moutinho que, no sector masculino, são do melhor que há por aí, a par do Miguel Ramos, que de vez em quando também aparece e que tem um dos timbres mais belos que já escutei no fado.
Aparecem sempre uns amadores também, e se a festa está rija, fecham-se as portas e fica-se até às tantas a ouvir a Ana Maria - a unica fadista negra que conheço - que de tanta voz que tem, acaba sempre por ouvir que não devia estar a cantar num espaço tão pequeno:
-"Tu tens voz é para o Coliseu !"
Ali, é fado fado ! Com um ambiente onde toda a gente se conhece e onde quando chega um forasteiro, não tarda dez minutos para se sentir da família, tal é a gentileza dos donos da casa.
Há quem diga que este é o Velho Fado, seja lá o que isso for ! Eu não sei o que é novo e o que é velho - sei o que é Fado, e sei que no Fado há que ser autêntico.
Não é preciso ser novo...nem velho !"

TIAGO TORRES DA SILVA, in JL-Jornal de Letras,Artes e Ideias, de 30 de Março/2005
(Post autorizado pelo Autor)



Publicado por Valéria Mendez em abril 20, 2005 10:17 PM
Comentários

Vendo bem este texto retrata bem o momento actual do fado

Afixado por: Antonio em abril 21, 2005 01:12 AM

Belo artigo do Tiago, sim senhor. 1000% (não é gralha, é mesmo 1000%) de acordo.

Afixado por: Fernando em abril 21, 2005 03:26 AM

Gostei muito da cronica do sr .Tiago que nao conhecia porque aqui em Londres estamos um pouco arredados do que se passa em Portugal,mas sei quem e a fadista Teresa Tarouca e a Beatriz da Conceicao que admiro imenso e tenho dois discos delas em vinil que guardo religiosamente

Afixado por: Debora Santos em abril 21, 2005 06:58 PM

Fados que convencem e pouco vendem
Fados que muito vendem e pouco convencem

Afixado por: jgonçalves em abril 21, 2005 10:35 PM

Mas a grande Amalia muito vendeu e muito convenceu e sem precisar de estrategias de marketing como a baralhada da Marisa por exemplo...

Afixado por: Bola em abril 22, 2005 03:36 AM

Venho agradecer-lhe a oportunidade de visitar Tiago Torres e Silva, cujo blog é simplesmente fantástico. Venho perguntar-lhe porque é que nós, madeirenses, que vivemos tanto de saudade quanto de fado, não temos um recanto onde possamos passar noites em claro a cantar e a declamar? Um abraço para si do Pássaro Distante.
P.S. - Tenho uma novidade para si

Afixado por: Passaro Distante em abril 22, 2005 02:58 PM

Una cronica muy bem escrita porque diz a verdade sobre a musica portuguesa.Aqui en Venezuela tenemos respecto por os artistas que deran su talento a cultura do pais, em Portugal muitos artistas son olvidados e hay otros mais jovenes que alcanzam a fama rapido, sin que tenham valor.Creo ser esto que señor Tiago critica.
(me desculpa meu portugues mas sou fila de madeirenses escrivo mal el idioma de mis padres)
E gracias Valeria porque me ayudas tambien tu a aprender Portugues con tus historias de maravilha !
Y QUANDO VUELVES A VENEZUELA?

Afixado por: Maribel em abril 23, 2005 05:16 AM

Cara Valéria, possivelmente editarei este ano um livro de poesia, depois de ser desafiado a tal. um dos poemas, que já conhece (POvo que Matas o Rio) pretendo homenageá-la e lavra o meu protesto pelo facto de a amiga ser ostracizada na sua própria Ilha. Se para tal me permitir, é claro. Um abraço
P.S. Acabou por não me responder à questão que lhe deixei no comentário anterior...

Afixado por: Passaro Distante em abril 23, 2005 10:46 AM

Repito-me: gosto de te ler..
Um beijo cheio de cravos lindos. BShell

Afixado por: blueshell em abril 23, 2005 05:06 PM

O fado sem querer exagerar, faz parte da nossa identidade, por isso está sempre presente na nossa
cultura, independentemente de se modernizar. Com um abraço do Raul

Afixado por: congeminações em abril 23, 2005 05:55 PM

Subscrevo inteiramente o que foi dito pelo autor da cronica.

Afixado por: Rui em abril 23, 2005 10:49 PM

Belíssimo artigo do sr. Tiago, que não conheço, mas que me deu imenso prazer ler.

Aquele abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zé doTelhado em abril 23, 2005 10:58 PM

São os efeitos do marketing a fazerem-se sentir. Cada vez mais se vende a imagem dos fadistas, sobretudo das jovens talentosas que aliam geralmente a beleza, à sensibilidade e inteligência, algumas criando forte empatia com o público. Porém, não esqueçamos as gerações anteriores. Foram elas que herdaram o espírito do fado. Sou especial apreciador de Cristina Branco, Joana Amendoeira e de Mafalda Arnauth

Afixado por: Duarte em abril 24, 2005 04:02 PM

Quanto à crônica Fado, Futebol e Fátima.
Concordo com tudo o que você disse.
No Brasil, tentaram fazer o mesmo com Pelé.
Amália ainda é a voz do fado; o fado ainda é a música portuguesa.

Afixado por: Manoel Carlos em abril 25, 2005 04:14 AM

É um bom artigo sim sr. Só que apenas fala de Fado de Lisboa e não o de Coimbra que eu toco e admiro.. O pior é que pode nascer novas Amalias.. Mas não nascem novos guitarristas como Paredes e afins..

1 Beijo Valeria :)

Afixado por: Bruno em maio 12, 2005 04:09 AM