Não, caros amigos. Nunca tive o privilégio de estar frente a frente, com essa figura do meu imaginário.
Eu sou um animal feito de referências. Preciso delas, muito mais do que elas, alguma vez precisariam de mim. Alimento-me delas. Investigo-as até à exaustão, alinho-as no meu sentir, passam a fazer parte intrinseca de mim. Tornam-se depois, indispensáveis. Compreendidas. Amadas. MARLÈNE DIETRICH faz parte dessa galeria pessoal de eleitos. Pelo seu 'glamour' no cinema, mas sobretudo, pelo seu talento de cantora. Deliro com a tessitura da sua construção vocal, feita de graves intensos, e da sua forma genial de dizer as palavras, cantando.
Em 1987, encontrava-me em Paris, aproveitando o facto de Amália Rodrigues lá se encontrar, para uma temporada de oito concertos no Olympia. Numa das noites, depois do recital, eu e um grupo de acompanhantes de Amália fomos cear, como era hábito, a um restaurante perto da Opéra, que amávelmente, abria as suas portas depois da uma da manhã, exclusivamente para receber Amália e os seus convivas. Nessa noite, Amália, sempre interessante nos seus relatos de vida, recordou-se dum episódio envolvendo Marlène Dietrich. Numa das deslocações de Amália à Roménia, no dia anterior ao concerto de Amália, havia-se realizado um recital com Marlène Dietrich, pelo que o camarim encontrava-se ricamente decorado, de acordo com as exigências do "Anjo Azul". Vários espelhos a cobrirem as paredes e o tecto, uma passadeira vermelha, ladeada com flores da Holanda, até à boca de cena, um frigorifico com caviar, champanhe francês, frutos tropicais, um serviço de prata,diversos bules, com vários chás exóticos e medicinais, uma pequena aparelhagem de som para ensaio de vocalizes, assim como um circuito interno de televisão, para que a artista pudesse observar a sala,o movimento nos corredores do teatro, enfim...caprichos de vedeta. Amália discorria divertida, dizendo que daquela vez, sem querer, sentira-se ela própria, uma verdadeira star, comentando que, nunca tivera coragem de fazer qualquer exigência similar, dizia ela, por "timidez e vergonha". "Já o Coquatrix ( proprietário e director do Olympia ) insistia sempre comigo para que eu lhe pedisse o que me apetecesse, mas eu encolhia os ombros, sem saber o que dizer ", acrescentava Amália, confessando que nunca se habituou aos "tratamentos" de vedeta, que muita gente lhe quiz oferecer ao longo da vida.
A talho de foice, o Alain Oulman, o célebre compositor de Amália, comentou que Marlène Dietrich vivia perto dali, numa penthouse da Avenue Montaigne, nº 68, e que depois de ser ter retirado dos palcos, quase não recebia ninguém, com excepção para a filha, os médicos, os empregados, e quatro ou cinco amigos intimos.Dizia-se que, tinha apenas três empregadas particulares, e que o porteiro do prédio tinha ordens taxativas, para não deixar ninguem subir, sem autorização.
No dia seguinte, movida por um qualquer impulso incontrolável, desloquei-me a pé, até ao numero 68 da Avenue Montaigne, não sem antes passar por uma florista, e comprar um belíssimo bouquet.
Chegada à porta do prédio, entrei no hall, onde se encontravam dois homens - um segurança armado, e o porteiro com uma magnífica farda azul, de punhos dourados. Disse-lhe, que queria fazer chegar as flores a Madame Dietrich, acompanhadas dum pequeno cartão, que havia escrito na florista. O senhor, muito gentilmente, fez-me preencher uma espécie de ficha identificativa, e passou o ramo ao segurança, para verificá-lo. Subitamente, uma senhora, lá para os seus sessenta anos,carregando uma Louis Vuiton, aproximou-se da recepção, e imediatamente o segurança entregou-lhe o ramo. A senhora, leu a ficha de identificação apensa, olhou para mim, e perguntou-me num francês impecável, se o ramo era meu. Antes que eu pudesse responder, a senhora, num português bem nortenho, disparou: " Ah engraçado, então diga lá de onde 'b'ocê é, ai , o ramo é lindo, a Madame 'b'ai gostar muito, coitadinha, anda meio adoentada."
Fiquei siderada. Consegui balbuciar um - "obrigada, mas a senhora é...?". " Ah desculpe, eu sou uma das empregadas da Madame. Trabalho para ela, há mais de vinte anos. Pena que a Madame não receba ninguem, mas fique descansada que eu entrego o bouquet, e 'b'ou-lhe dizer, que é de alguém do meu país ". Ainda surpresa, agradeci-lhe muito, e emocionada com a coincidência, convidei-a para o ultimo recital de Amália, abusando da prerrogativa de possuir um "Passe-Partout", que me permitia fazer um convite por dia, para assistir ao concerto nos bastidores, dado que a sala estava já esgotada, há já alguns meses. A D. Maria José aceitou esfusiantemente o convite, combinamos a hora e o local onde nos encontrariamos, meia hora antes do espectáculo, e retirei-me.
E na hora e dia marcados, lá estava a D. Maria José, empregada de Marlène Dietrich há mais de vinte anos, a assistir nos bastidores do Olympia, a um concerto de Amália. Levei-a, no final do show, a conhecer Amália, que por sua vez, a convidou para juntar-se ao grupo da habitual ceia. Foi então, que revivemos mais uma vez, Marlène Dietrich, comentando a D. Maria José, que houvera dito à Madame que viria ao Olympia, ver a Amália, ao que Marlène Dietrich, a encarregou de ser portadora dum cartão, escrito pela propria, cumprimentando Amália, e recordando alguns encontros que tiveram no tempo em que, ela própria, também efectuava tournées pelo mundo. Amália, enviou pela D. Maria José um disco autografado, e um cartão com algumas palavras.
Dois meses mais tarde, quando fui pela manhã à minha caixa de correio, as minhas pernas tremeram, quando vi num envelope azul-céu, com letras gravadas a prata no lugar do remetente, o nome MARLÈNE DIETRICH. Tive de sentar-me, nos degraus da escada do meu quintal, e com as mãos a tremer, abri o envelope.
Lá dentro, estava uma fotografia da grande diva, e no verso, escrito à mão, uma só palavra. : " MERCI ". Assinado - " MARLÉNE DIETRICH ".
Sem dúvida que este post é bem demonstrativo do
seu entusiasmo quando se refere às suas referências artistas, que, como aliás frisa, não
as dispensa a titulo nenhum. Senti-me quase que envolvido pelo calor com que narrou este episódio
de uma das tourneés da diva Amália ao Olympia. Fique com um abraço do Raul
Olá, querida Valéria! Hoje, venho incomodá-la com mais questões sobre a nossa Amália. Há dias, reencontrei uma colega minha que, tal como a Amiga Valéria, é uma fã da Amália Rodrigues e grande especialista em fado. A respeito da nossa grande diva, essa minha colega contou-me, entre outras, duas coisas interessantes. Primeiro, as brilhantes actuações que Amália fazia no Bairro Alto, a título gracioso, em favor de crianças desprotegidas - o que, julgo eu, diz muito sobre a generoidade e carácter da fadista. Segundo, falou-me também de uma senhora chamada Helena Tavares, cujo talento suplantaria, na sua opinião, o da Amália, mas que foi injustamente esquecida. Gostaria de perguntar à Valéria se conhece essa Helena Tavares e se concorda com a opinião controversa da minha colega.
Beijinhos, Valéria!
RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ:
Conheço sim essa artista, a Helena Tavares, cujo principal exito foi "A rua dos meus ciumes" do maestro Frederico Valério. Era(é)-não sei se está viva ou não- uma grande fadista, mas temo não concordar com essa sua amiga, dado que a H. Tavares era uma fadista da linha tradicional do fado, se bem que tenha pontualmente feito alguma Revista no Parque Mayer, interpretando fados musicados. As fadistas da linha tradicional, por vontade ou impossibilidade proprias,quase nunca foram capazes de abordar o Fado nas suas diversas vertentes, incluindo a inovação da sua linha melódica e poética, e claro está, viveram enquadradas dentro dum estilo um tanto ou quanto espartano, do ponto de vista musical e poético.A Amália, era sobretudo uma cantora, que também cantava Fado, e para fazê-lo, teve de inovar o reportório, modificando os contéudos, imprimindo à guitarra portuguesa um caminho até então insuspeito.Lembro-lhe por exemplo, o grande escandalo no inicio dos anos 60, quando Amália decidu cantar Camões e outros poetas da chamada literatura clássica ou erudita.Certa "intelligentsia" criticou-a, porque o Fado, segundo eles, estava muito abaixo do nível dos poemas, e que portanto seria um sacrilégio, uma fadista cantar coisas mais elaboradas. Helena Tavares, ficou-se por esse fado menos "trabalhado",e Amália, porque a Voz o permitia, fez escola, e hoje, cantar-se O'Neil, Bernardim ou Camões, tendo como pano de fundo a guitarra portuguesa, é coisa banal entre a maioria dos fadistas. E depois, a Amália tinha uma extensão de voz, e uma sabedoria especial - provocada quiçá pelo convívio com intelectuais, sede de aprender, etc- que Helena Tavares nunca terá tido oportunidade de experimentar, se bem que considere que ela foi uma das vozes do Fado com especial distinção. Mas tivemos muitas, como o foram (e algumas ainda o são) Beatriz da Conceição, Argentina Santos, Fernanda Maria,Teresa Tarouca, Maria Teresa de Noronha,Maria da Fé, etc, que pelo seu talento, emprestaram ao Fado caminhos de qualidade e sucesso. Amália está para além delas. O Fado foi o seu veículo, mas a sua potencialidade artística levou-a para um outro fado- aquele que afinal singrou- o fado de linha amaliana. Se reparar, todas, mas todas as jovens fadistas, seguem o caminho amaliano, quer do ponto de vista da interpretação, da escolha de reportório, e até na apresentação cénica. O problema é que, algumas o estão conseguindo, outras, falta-lhes o essencial para iniciar a aventura-A Voz.
Sempre ao dispôr,
Valeria Mendez
Bom, tenho de dizer duas coisas:
- Já lhe disse mas volto a dizer: A sua forma de escrever é muito cativante. Fico colado ao monitor e não bato lá com o nariz por milímetros, eh,eh,eh!
- Volta a revelar neste texto a sua alma de pessoa boa e sensível, coisa cada vez mais rara nos dias que correm.
Um abração do
Zecatelhado
Oi, amiga Valéria...
ESTOU TRISTE: o domingo era o dia de nos reunirmos em família...
BShell
Experiências de vida que só vivendo se percebe, não é!? As coisas que parecem insignificantes têm um peso bem definido para cada um. Sei o que é gostar das coisas belas e simples da vida. Valha-nos essas pequenas " prendas" que ela nos dá.
um abraço!
Um apelo irresistível, que a conduziu até aquela casa, num gesto nobre e certamente despido de preconceitos. Uma vivência recheada de coisas simples que nos marcam para sempre.
É salutar ler estas histórias do seu quotidiano.
Já algumas vezes aconteceu ter deparado com referência a Valéria Mendez. Nunca calhou enviar qualquer comentário, o que faço agora, ao ler estes brilhantes relatos do convívio com Amália. Quero apenas informar que Helena Tavares faleceu há já bastantes anos, deixando contudo uma filha que interpretou já o papel de Maria Severa Onofriana no Teatro Maria Matos em Lisboa, tendo contracenado com Carlos Quintas e que é também ela cantora, dando pelo nome de Lena Coelho e sendo filha de um também grande actor de teatro português, que se distinguiu principalmente no Teatro de Revista e que se chamava Carlos Coelho.
Saudações fadistas
António Carlos
Valéria, nós somos muito esquisitos.
Você convivia intimamente com um monstro sagrado e se emocionou tanto com um cartão de Marléne Dietrich, evidentemente outro monstro sagrado.
Você se dá conta de quantas pessoas teriam a mesma reação sua caso houvessem recebido um cartão de Amália Rodrigues?
Provavelmente a nortenha (que convivia com Dietrich) deve ter se emocionado em ver e jantar com Amália a ponto de relatar à patroa a noite maravilhosa que você lhe proporcionou, desencadeando a gentileza do agradecimento.
um episodio cheio de glamour , Valeria.Adorei. Não conheço bem Marlene D. como cantora mas vou comprar algum CD para ouvir. Mais uma coisa que aprendi(vou aprender)
Afixado por: Debora Santos em fevereiro 15, 2005 05:06 PMUma bonita estória...fostei que a tivesse partilhado connosco...
Um abraço do Morfeu