dezembro 17, 2004

UM FIASCO EM PALCO, OU " O HOMEM DORMINDO NO CHÃO "


UM SANTO E FELIZ NATAL, PARA TODOS QUANTOS ME TÊM FEITO O FAVOR DE LER AS MINHAS CRÓNICAS. O POST DE HOJE, CONSIDEREM-NO COMO A MINHA HUMILDE "PRENDA" DE NATAL. UMA "PRENDA" VIVIDA. SOFRIDA.
POR FAVOR...SEJAM FELIZES !

Chovia torrencialmente. Faltavam pouquíssimos dias para o Natal. O táxi, avançava cautelosamente pela Lisboa Antiga. De quando em vez, um vulto encapuzado corria frente ao automóvel, como parecendo escapar a uma perseguição invisível. Por entre a névoa, descortinei as letras de néon do Café-Concerto. Paguei ao motorista, desejei-lhe um Feliz Natal, e corri em direcção à porta.
Num recanto do passeio, na entrada de uma boutique de moda, chamou-me à atenção, um vulto deitado, embrulhado num cobertor aos quadrados, sobre uns cartões. Ignorando a chuva, parei. O alto astral que me acompanhava, baixou à estaca zero. Devagar, dirigi-me à porta do Café-Concerto. Iria, dentro de minutos, ali actuar pela primeira vez, acompanhada por um monstro da guitarra clássica - O Professor Martinho d' Assunção, que magistralmente, acompanhou Amália no seu album de originais, de 1977, "Cantigas numa Lingua Antiga". Os outros dois musicos, que me acompanhariam, também me esperavam.
Revimos o alinhamento do recital. Fi-lo maquinalmente. O meu espírito, tinha perdido o brilho que eventualmente houvera demonstrado nos ensaios, nessa mesma tarde. Aquele vulto prostrado no chão, era mais forte que a minha Voz. O célebre Professor, alertou-me para o facto de, possívelmente, eu não estar a sentir-me bem. Nem tive energia para lhe responder.
Chegada a hora, avançamos. Por ironia do destino, estava acordado que o primeiro tema, seria uma musica do Professor Martinho d' Assunção, e um poema de Ary, "Demos as mãos". O texto falava de solidariedade. Creio que nunca cantei tão mal como naquela fatídica noite. Tudo me parecia inutil. Ali estava eu, com uns sapatos de vinte contos, e ali mesmo ao lado, um ser humano dormia ao relento, na quadra do Natal. Não fazia sentido, estar para ali a cantar. Afigurava-se-me mesmo, ridiculo.
A minha 'performance' continuou, sem brilho, apenas debitando palavras que nem "ouvia", como se me limitasse a dizer uma qualquer sucessão de numeros. O publico já se havia apercebido disso, e voltara a conversar animadamente, alguns ignorando pura e simplesmente a minha presença. Ao voltar-me para trás, senti a "aflição" dos musicos, que procuravam heroicamente salvar a situação, com acordes inesperados. Inovadores. E eu, continuava a cantar(?), como um "robot". Os meus olhos, só viam o homen dormindo no chão.
No final, uns muito débeis e indiferentes aplausos. Agradeci com a cabeça, e fugi para o espaço que servia de camarim. Os musicos, estupefactos, enchiam-me de perguntas. Onde estava a Voz que haviam escutado no ensaio ? Onde estava o artista que meses antes, haviam visto no Teatro Maria Matos, acompanhada pelo saudoso Alcino Frazão, e que tinha feito levantar a plateia, no final da sua actuação ? Limitei-me a pedir desculpa.
O gerente, sem proferir uma palavra, entregou-me os vinte contos do 'cachet'. Agradeci-lhe. Despedi-me rápidamente dos musicos, pedi para me chamarem um táxi. Estava consciente que ali, nunca mais cantaria. Ao escapulir-me porta fora, ainda ouvi a voz do gerente, a dizer ao Professor Martinho d' Assunção : " Então é aquilo que você me trouxe...?"
Não consegui ouvir o resto.
O frio, parecia-me agora mais cortante, intenso. Queria tanto estar em casa,junto dos meus, com os gatos, os cães... Queria desaparecer dali. Definitivamente, não havia nascido para ser artista. Faltava-me o "estôfo". Aquelas "estórias" de profissionalismo de grandes vedetas, que actuaram no dia da morte do pai, da mãe, etc, punham-me a léguas de distância, da fibra que é preciso ter, para se ser artista. Eu não era assim. Queria ser. Mas não conseguia sê-lo.
O táxi chegou. Olhei o vulto. Como um autómato, acerquei-me dele, toquei-lhe com a minha mão. Era um homem velho, de aparencia horrível. Dir-se-ia que todos os dramas da vida, haviam-se personificado, naquele rosto sulcado de levadas mil, que vislumbrava, à medida que o néon "piscava", como que desafiando a noite. Sem me deter, sussurrei-lhe : " Olhe, pegue isto, use-o para o seu bem ", metendo os vinte contos que um minuto antes tinha recebido, e mais duas notas de dez contos que tinha na carteira. Ficara com cinco contos. Dava para o táxi. O homem que dormia no chão, olhou o dinheiro, olhou para mim de olhos esbugalhados. Apertei-lhe a mão. Não me atrevi a desejar-lhe um Feliz Natal.
Já no táxi, rodando na madrugada de Lisboa, não conseguia exorcizar aquele rosto da minha mente. Sentia-me culpada. De ter aqueles sapatos. De ir para um Hotel de 4 estrelas. Sentia-me culpada por ter uma casa confortável. Por ter um carro. Por ter comido aqueles pasteizinhos de Bélém, nessa mesma tarde. Por viver.
Nunca mais recebi nenhum convite do Professor Martinho d' Assunção. Compreensívelmente.
O grande músico e compositor, já não se encontra entre nós. Deus o tenha em sua Santa Luz.

Publicado por Valéria Mendez em dezembro 17, 2004 06:17 AM
Comentários

Os grandes homens nunca desaparecem...

Afixado por: Recorrente em dezembro 17, 2004 09:36 PM

Uma história linda...cheia de ternura! Bjs, WB

Afixado por: whiteball em dezembro 17, 2004 09:38 PM

Realidades...que magoam, que deixam marcas...Jinho, BShell

Afixado por: BlueShell em dezembro 17, 2004 09:39 PM

Sensível, honesto e comovente depoimento.

Afixado por: Manoel Carlos em dezembro 18, 2004 03:45 AM

Amiga, este episódio que narrou neste post fez
com que a consideração que me merecia atingisse
o cume. São exemplos como ao seu de solidariedade
para com os mais necessitados que cada vez mais faltam no nosso País. Um forte abraço com emoção
do Raul

Afixado por: congeminações em dezembro 18, 2004 03:10 PM

Só para pedir desculpa pela falta de militância activa nas visitas a esta casa; É que o tempo tem sido tão curtinho...

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em dezembro 18, 2004 08:00 PM

Finalmente o Mundo Élico associa-se às crónicas da Fadista.
Obrigado pelos votos de Boas Festas que retribuo.

Afixado por: Anjo élico em dezembro 19, 2004 05:10 PM

Há passos dados, na incerteza da caminhada, que nos empurram para as vicissitudes da vida, que muitos já não têm.
A reter, a realidade que nos diz, que o valor, mede-se mais por aquilo que realizamos de bem com a nossa consciência.


Afixado por: jose gonçalves em dezembro 19, 2004 06:53 PM

Tu tens um “dom”. Já sabes qual é?
Jinho, BSHell

Afixado por: blueshell em dezembro 20, 2004 12:09 AM

... Um feliz Natal! :))

Afixado por: AmigaTeatro em dezembro 20, 2004 01:10 PM

Venho agradecer o seu comovente presente de Natal e retribuir com um gesto pessoal, poiis sempre que me lembro e saúdo Amália Rodrigues no meu cantinho não posso deixar de me recordar de si e de saudá-la. Um abraço do Pássaro Distante

Afixado por: Passaro Distante em dezembro 20, 2004 03:08 PM

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO 2005!!!!!

Afixado por: João Maria em dezembro 20, 2004 04:41 PM

Obrigado pela prenda, querida Valéria!

Afixado por: Flávio em dezembro 20, 2004 05:39 PM

Voltei, para desejar um abençoado Natal...Jinho, BShell

Afixado por: blueshell em dezembro 20, 2004 06:15 PM

Viva.
Só estou aqui para desejar-lhe boas festas.
Um bom ano de 2005 para si Valéria.
Continue a brindar-nos com música e palavras.

Afixado por: Dom Quixote em dezembro 23, 2004 03:21 PM

Este seu post é lindo. E vc toca num ponto fundamental. Não é só a voz, não é só o talento... é preciso estofo para se ser artista.
bom, seja como for, o que importa é que os deuses têm tantas formas de nos ensinar... basta que queiramos aprender.
Feliz NAtal para si, valéria e para os seus fiéis leitores e que 2005 seja o primeiro de muitos anos felizes
ah, e continuo à espera!

Afixado por: tiago torres da silva em dezembro 23, 2004 11:37 PM

Valéria,
aqui deixo os votos para que passe um bom Natal e que o 2005 seja um bom ano para si e para todos os que lhe são queridos.

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em dezembro 24, 2004 02:08 AM

Um bom Natal e desejos de um ano de 2005 com mais... o que desejar...
Abraços, Valéria.

Afixado por: LE. em dezembro 24, 2004 11:58 AM

Um Bom Natal e um óptimo Ano Novo são os desejos da Verdade da Mentira.

Afixado por: vmar em dezembro 24, 2004 10:47 PM

Bom Ano de 2005, D. Valéria.

Com os meus cumprimentos.

Afixado por: eduardo em dezembro 25, 2004 05:30 PM

Amiga, venho trazer, de novo, apenas um enorme beijo e o desejo de que esta quadra esteja a ser vivida intensamente e com uma enorme felicidade! jinhos, Bs

Afixado por: blueshell em dezembro 26, 2004 04:04 PM

Espero que tenhas tido um bom Natal e que festejes o novo ano com muita felicidade!

Afixado por: Hugo em dezembro 27, 2004 02:23 AM

Boa Passagem de Ano...e que tenhámos um melhor Ano !

Afixado por: finurias em dezembro 29, 2004 03:44 PM

Embora a máscara do blog ajude a enfrentar e a dizer mais facilmente, como escudo de salvaguarda, devo dizer que poucos têm a coragem de expor os seus fracassos ( ou talvez não...) e o gesto solidário com o desconhecido tambem. Às vezes acordamos de repente e ficamos assustados com a vida... amanhã será melhor!

Afixado por: hammer em dezembro 29, 2004 07:11 PM

Um feliz 2005 para si! Que nunca perca a sua voz!
beijinhos

Afixado por: descendente luminosa em dezembro 31, 2004 02:59 PM

Um execelente ano de 2005 para ti Valéria.

Forte abraço
cachucho

Afixado por: cachucho em dezembro 31, 2004 05:26 PM

Vim desejar-te um bom ano de 2005
abraço

Afixado por: GIN em dezembro 31, 2004 07:52 PM

Um feliz 2005 aqui para esta casinha.
Haja paz, amor, solidariedade entre os homens de boa-vontade.
Tudo de BOM para ti.

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em janeiro 1, 2005 11:15 PM

Passei apenas para deixar um beijo, BShell

Afixado por: BlueShell em janeiro 6, 2005 10:03 PM

Cara Valéria, espero que esteja bem e que tenha entrado no novo ano com o pé direito. Espero que neste todos os seus propósitos pessoais e profissionais tenham plena satisfação e permita-me que lhe deixe um apelo: se perspectivar actuar na nossa Ilha por favor tenha a bondade de me informar, pois gostaria muito de a ouvir cantar. Um abraço do Pássaro Distante

Afixado por: Passaro Distante em janeiro 7, 2005 11:57 AM

Por onde anda que não há quem lhe ponha a vista em cima? dê notícias! abraço

Afixado por: tiago torres da silva em janeiro 7, 2005 08:29 PM

Desejo um 2005 de muitas realizações, em um ambiente de paz e felicidade, com muita saúde.

Afixado por: Manoel Carlos em janeiro 11, 2005 12:58 AM

Venho só deixar um beijo e o meu muito obrigada por tudo! BShell

Afixado por: blueshell em janeiro 14, 2005 02:24 AM

Amiga Valéria, por onde andas que nada dizes neste teu blog?...
espero que esteja tudo bem contigo,
um abraço do Vitor, um beijo meu

Afixado por: Ana em janeiro 14, 2005 02:47 PM

mais uma vez: ondanda?

Afixado por: tiago torres da silva em janeiro 24, 2005 06:46 PM

Em busca de atualização, deixo o abraço agrestino.

Afixado por: Manoel Carlos em janeiro 25, 2005 02:05 AM

Ah fadista...

Embora não exista fado na Embaixada de Zurugoa, tertulia existe sim senhor e com fartura.

Convido V. Exas a visitar a Embaixada de Zurugoa:

http://zurugoa.blogspot.com

Salut

Afixado por: Bandido Original em janeiro 25, 2005 06:06 PM