dezembro 12, 2004

FADO NA SALA " DA PRANZO " DUM CASTELO ASSOMBRADO

O final da minha adolescência, principios da minha juventude ( Oh giovinezza bella e perduta ! ), foram passados em Perugia, velha cidade etrusca, no centro da Umbria italiana, pejada de História e tradição. Os meus nostálgicos "pensieri", vão sempre para os fins de tarde, nas esplanadas do Corso Vannucci, a avenida principal da cidade, e para as aulas de alguns professores, que ainda hoje, me fazem voar em pensamento. Que belas palestras, as do Prof. Armando Biselli, de Literatura Italiana, que nos punha por vezes, a lágrima ao canto do olho, com as suas sentimentais análises a tramas, como "I promessi sposi" de Alessandro Manzoni, grande escritor italiano. E que " buffe " (cómicas), eram as tiradas da "Professoressa Pagnotta", de "Storia della Communicazione", que por entre exposições brilhantes da matéria, lá nos ia narrando as suas aventuras amorosas, que acabavam sempre em melodramas de rir até às lágrimas, por entre jeitos e trejeitos, muito próprios da zona, de onde era natural : "La bella Napoli"!
Enfim...recordações que nunca morrem, e que me fazem, qual autómato, agarrar todas as oportunidades de me deslocar novamente, àquelas paragens da minha "vecchia giovinnezza".
E foi assim que lá fui eu, animar os Jantares do velho " Castello dell' Oscano ", durante uma semana.
Por entre o encanto do verde dos arredores de Perugia, a 7 Km do centro da cidade histórica, ergue-se o "Castello", imponente e austero, que outrora fora salvo da ruina, pela familia austro-tirolesa Telfner. Hoje, transformado em "Residência de Época", acolhe os seus distintos hóspedes, numa atmosfera carregada de sugestão e fascínio, sentindo-se eles mesmos, autênticos duques e condes, principes e princesas, passeando nos seus soberbos jardins, e plácidamente, lendo as obras centenárias, das duas preciosas bibliotecas do "Castello".
Nas Sala "Da Pranzo" Turandot, descobrem os sabores da cozinha tradicional da Umbria, por entre as cartas de vinhos especiais da zona. Seria aí que, durante uma semana, faria uma sessão especial de Fado, desta vez acompanhada ao piano, pelo meu colega e amigo Alceste, cumplice destas minhas deslocações ao Centro de Itália.
Entro no "hall", nada parecido com uma recepção de hotel, e sou dirigida a um dos quartos, por um mordomo, daqueles "suspeitos", de bigode e ar sisudo, muito nobre no porte, parco em palavras. Nas paredes, quadros de família, pequenos "bibelots" espalhados em mesas de canto, estatuetas religiosas, vasos com flores frescas, tudo como se a nobreza antiga, ainda habitasse o "Castello". Por momentos, senti o calafrio dum qualquer personagem de Agatha Christie, temendo que o sombrio mordomo me apunhalasse pelas costas.
" Ecco la vostra camera . Buona Sera. ", disse-me o mordomo, retirando-se com uma vénia, sem esperar qualquer tipo de "mancia" (gorgeta). Aprendi depois, que por ali, não havia hábito de dar gorgetas. Se o quizéssemos fazer, fá-lo-iamos no final da estadia, na recepção.
O Alceste, exímio pianista diplomado pelo Conservatório de Verona, já conhecia o meu reportório. Afinal, não era a primeira vez que me acompanhava, em Itália. E já o tinha levado a conhecer Amália Rodrigues, na sua casa de Lisboa, onde o musico tinha vindo de propósito, para as celebrações dos cinquenta anos de carreira, no Coliseu dos Recreios. Alceste havia-se apaixonado por Amália, quando a vira pela primeira vez, nos anos setenta, no velho teatro da cidade de Verona. Encontrámo-nos logo a seguir ao almoço, para uma "passagem" pelos temas escolhidos, nunca é demais ensaiarmos, e especialmente naquele momento em que, havia já um ano que não trabalhávamos juntos.
Chegara a hora do Jantar. O circunspecto mordomo bateu à porta do meu quarto, avisando-me de que, dentro de cinco minutos, deveria iniciar o meu recital.
Depois duma introdução ao piano, umas "variações" do célebre tema amaliano "Coimbra" (April in Portugal), a "Public Relations" da casa, fez uma breve apresentação, enquanto o piano do Alceste já entoava as primeiras notas de "Nem às paredes confesso", o trecho que eu havia escolhido para iniciar a sessão. Cantar musicas de Max, em especial a sua obra "fadista", era sempre para mim, um momento particular. Os hóspedes, eram na sua maioria alemães, mas também havia franceses, ingleses e italianos, que depois soube, serem gente endinheirada de Milão. Terminei o trecho de Max e Artur Ribeiro, e dirigi-me a eles, em Italiano, Francês e Inglês, pedindo desculpa aos alemães, por não saber expressar-me no seu idioma, dizendo-lhes que, em alemão, só saberia pronunciar algumas palavras irrepetíveis, e quando muito, "volkswagen" ou "liebe". Com esta "tirada", consegui retirar ao ambiente, um pouco do formalismo que se respirava, fazendo rir os presentes. Já mais para o final, até consegui que se levantassem, e bailassem um Malhão, terminando com uma canção napolitana, em homenagem à cultura italiana, e ao poeta Jacopo da Todi, autor do poema da Canção, que muito aprecio. Nas noites seguintes, tudo foi mais fácil, apesar de irem aparecendo "caras novas", nos Jantares do "Castello". Foram uns dias fenomenais, plenos de bucólicas "passeggiate" pelos jardins, algumas horas de ócio, nas bibliotecas fantásticas do "Castello", e uma ou outra voltinha de carro com Alceste, que amávelmente, me fazia rever os lugares da minha "lontana giovinnezza".
Chegara a hora de partir. O meu amigo pianista, fez questão de levar-me até à estação, a fim de que eu pudesse seguir até Roma, onde "apanharia" o avião, para Lisboa.
O soturno mordomo, acompanhou-me até ao carro do Alceste, e abrindo pela primeira vez uma excepção, ao dirigir-me mais do que duas palavras, inquiriu-me, duma forma muito séria e grave : "Mas, desculpe, você nunca sentiu nada de anormal no seu quarto, por tarde-a-noite ? ". " Como assim ?", perguntei eu, sem perceber. No mesmo tom de voz grave, o mordomo explicou sorumbáticamente: " Ah, sabe ? O seu quarto, foi habitado no século XVIII, pela criada dos Senhores, e ela foi amante do Duque. A Duqueza, ao descobrir, envenenou-a com cianeto. E diz-se que, ainda hoje, a alma da serva , paira na janela do quarto, olhando o jardim, esperando a visita do Duque,seu amante."
Estupefacta, fixei os olhos negros do mordomo, e retorqui-lhe: " Ah, e só agora, é que você me conta isso. Bom...não faz mal...é que os fantasmas e eu, sabe ? Somos "unha com carne". "Ciao, e arriverderLa !"
"ArrivederLa, Signora !" - despediu-se o mordomo, desta vez, com um unico e subtil sorriso.

Já falei com Alceste no "messenger". Parece que, em 2005, o "Castello dell' Oscano", quer-me lá de novo. Pode ser que, desta vez, veja o fantasma...
Mal posso esperar...
Adoro estas "estorias" de almas penadas...

Publicado por Valéria Mendez em dezembro 12, 2004 06:21 AM
Comentários

Olá, outra vez! Desta vez, passei por cá para a desafiar. Para a questionar com a seguinte pergunta: O que é para si ter um blog?

Responda (se quiser, claro!) para descendente_luminosa@hotmail.com

'Brigada,
beijinhos

Afixado por: descendente luminosa em dezembro 12, 2004 10:29 AM

Bela história e bizarra experiência...a doce Itàlia tem destas coisas ...a língua cantante e magnífica, a história, a gastronomia...as pessoas encantadoras...que continua seguramente a haver...boas experiências a tuas amiga valéria...
Um abraço com auguri de sucessos...
Morfeu

Afixado por: morfeu em dezembro 12, 2004 11:22 AM

E recordações que, de algum modo nos comovem.... Beijo, WB

Afixado por: whiteball em dezembro 13, 2004 12:33 AM

Amanhã(hoje) é o meu dia de folga. Já estive a ver a gravação em DVD que fiz da tua canção Os Gatos, que passou na RTP Internacional, já estive a ouvir musica portguesa,um cd da Amália, o
"Segredo", já estive a ler os sites de vários jornais portugueses, e como não podia deixar de ser, estou aqui deslumbrada com as tuas experiencias de vida. Adorei esta tua narrativa. Muito engraçada. Tens de vir a Londres. Dizem que por aqui também há uns castelos assombrados... hi hi hi, sempre podias visitá-los. Agora fora de brincadeiras, para quando uma vinda tua até Londres para cantares para nós?
Beijos
Débora

Afixado por: Debora Santos em dezembro 13, 2004 02:52 AM

Visto que, sim, o endereço que lhe dei não "funcemina", envie o seu texto para nekas_pn@hotmail.com

Cá o espero, beijinhos

Afixado por: descendente luminosa em dezembro 13, 2004 08:13 AM

Uma narração muito bem escrita, e uma carreira de fadista muito interessante, é o que me apraz dizer ao ler alguns posts do seu blog.
Uma saudação especial duma grande apreciadora de Fado
Mª do Carmo


Afixado por: Maria do Carmo em dezembro 13, 2004 10:53 AM

Sim, certas recordações nunca morrem...
Jinho, BShell

Afixado por: BlueShell em dezembro 14, 2004 06:34 PM

Gostei (ponto).

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em dezembro 15, 2004 12:20 AM

Obrigada, Valéria amiga, pelas palavras de conforto. Ainda estou de pé...quanto mais cansada estou ...mais a minha cabeça recusa "apagar" a luz...na almofada..
Beijo. WB

Afixado por: whiteball em dezembro 15, 2004 02:27 AM

A blueshell não conseguiu um link para o "descanto" e pediu-me para te agradecer as palavras que deixaste lá no Blueshell. Ela é amiga. Beijo de nós duas...WB, BShell

Afixado por: whiteball em dezembro 15, 2004 02:53 AM

Há quem viva por ver os outros viver.A minha amiga vive intensamente.Parabens.

Afixado por: Vitor Prada em dezembro 15, 2004 05:09 PM

Há já muito tempo que não passava por cá, e vejo que tenho prdido muita coisa.As suas historias de vida são incriveis.

Afixado por: Susana em dezembro 15, 2004 05:10 PM

Boa tarde Valéria e lá apareceste na minha oficina...gracia tanta! E por Itália ( Verona, veneza, Milão...) por lá passei e as recordaçõs vêm ao de cimo pela beleza e pela arte.
Quanto aos fantasmas, não te preocupes e se quiseres leva daqui alguns e atira-os a um poço romano ou às catacumbas!

Afixado por: hammer em dezembro 15, 2004 06:06 PM

Olá amiga. Venho agradecer-lhe a referencia elogiosa que me deixou bem como os votos natalícios, reformulando-os para si. Quanto ao post. Se recordar também não é viver, então vão vale a pena ter vivido.

Afixado por: congeminações em dezembro 15, 2004 10:07 PM

A desdita da serva poderia ser tema de um fado :c)
Valéria, estas suas memórias não podem ficar sem registro.
Sem demérito para a internet e a blogosfera, elas precisam ir para o papel.
Estou quase me elegendo sócio-fundador de um grupo neo-queremista a pressioná-la para publicar um livro de crônicas com uma seleção de maravilhosos relatos.

Afixado por: Manoel Carlos em dezembro 16, 2004 11:54 AM

Há algum tempo que não passava por aqui... gosto do novo visual aqui do blog :) É bom ver-te igual a ti mesma, Valéria.
Obrigada pela visita ao Void (à qual respondi). Um excelente Natal para ti também :))

Afixado por: Sandra em dezembro 16, 2004 02:38 PM

Não esquecerei :" Il Tempo Belo..." - e nos momentos difíceis repetirei para mim mesma. Obrigada, Valéria, muito obrigada!...Beijo,WB
(queria, precisava de te dizer uma coisa mas não pode ser aqui- tem de ser por E-mail...)

Afixado por: whiteball em dezembro 16, 2004 02:49 PM

Olá querida amiga,
Só posso desejar que tenha esse encontro com o tal fantasma e que seja um encontro suave.
AGORA MEUS VOTOS :::: Nós sempre estamos juntos ...
... para dividir as alegrias e as tristezas,
... para dar ou pedir apoio,
... para trocar idéias,
... para fazer planos.

Espero que também
estejamos juntos
para fazer o Natal
mais feliz do Mundo !!!
com carinho e gratidão.

Afixado por: ALUENA em dezembro 16, 2004 03:52 PM

Olá Valéria:

continuo ansiosamente à espera da sua cassete. todos os dias vou ao correio na esperança de encontrar a sua voz. olhe, dê-ma de presente de aniversário que eu estou quase a fazer 35!
vá, despache-se! os seus gatos são os que a simone canta? "gosto do gato/do gato gosto..."
beijos

Afixado por: tiago torres da silva em dezembro 17, 2004 01:08 AM

Saudoso, em busca de novos textos, deixo o abraço agrestino.

Afixado por: Manoel Carlos em janeiro 25, 2005 02:49 PM