dezembro 05, 2004

NUM BAR GAY DE PARIS, ou " Il faut que je me suicide..."

Cheguei já atrasada, com os dois musicos que me acompanhavam. O Eric, que conhecera na " Association EDITH PIAF ", havia-me convidado para dar um recital de Fado, à meia-noite em ponto, no bar de Montparnasse, de que era sócio-gerente.
Faltavam dez minutos, e ainda não me tinha arranjado. Dei um jeitinho ao cabelo, pus um trapinho preto curto, um xaile muito grande, e " ála " ! Já passavam quinze minutos da hora marcada, quando os guitarristas executavam uma variação de Carlos Paredes, e logo a seguir entrava eu, com um fado muito a propósito : "Meia noite e uma guitarra" de Álvaro Duarte Simões, musica e letra.
O recinto era relativamente pequeno, muito bem decorado, um foco de luz branca iluminava o pequeno palco "bordeaux", onde já houvera desfilado alguns nomes de peso, entre eles a luso-francesa Linda de Suza, e um famoso transformista parisiense, que travestido de Piaf, fazia o "playback" da Voz da França. Era meia noite e tal, e ali estava eu, pela primeira vez, cantando num bar gay de culto.
Nunca houvera estado num bar gay. Mas tinha curiosidade. Era um mundo estranho para mim. Tinha alguns colegas gays, e amigos, só tinha um, mas não havia nunca motivo para falarmos disso. Era simplesmente um amigo. O resto, seria de somenos importancia.
O recital avançava com muita receptividade, dado o silêncio absoluto que se fazia sentir. Extraordinário para um ambiente de bar, cogitava...
Terminei a minha apresentação, com um tema em francês; era a minha maneira de lhes dizer "Merci". Não havia um só português na sala, excepto nós os três no palco. Agradeci, pediram um "encore", satisfi-los com outro trecho na lingua de Molière, desta vez uma reposição para fado, do tema de Bécaud, "L'important c'est la rose". Aplaudiram imenso, "exigiram" que regressasse à cena, e desta feita, mesmo para terminar, lá lhes ensinei a trautear o "Bailinho da Madeira", explicando que se tratava duma espécie de "hino", da ilha onde havia nascido. E foi bonito de se ver, aquele grupo de pé, cantando o "lá lá lá", do refrão da criação mais emblemática da genial figura de proa da cena madeirense, que foi Maximiano de Sousa, ou simplesmente Max.
Já no camarim, o Eric veio cumprimentar-me, e perguntar se não poderia "repetir a dose" na semana seguinte. É que as pessoas tinham gostado. Fico sempre muito feliz quando me dizem isto. Aceitei, e anuí igualmente ao convite do Eric para um "champagne" no bar; já agora, gostaria de ver melhor, as pessoas que me tinham aplaudido...
Havia muita gente, quase todos homens, desde jovens a homens grisalhos, diversamente vestidos, uns muito exuberantes e andrógenos, outros que passariam muito bem, pelo bancário que nos atende, por detrás de um balcão, muito formais nos seus fatos clássicos em tons escuros. Aqui e ali, havia algumas mulheres conversando animadamente, espantosamente bem vestidas, não faltando também alguns casais hétero, "bailando pegados",ao som da voz de Aznavour, "...que c'est triste, Venise...", colocada estratégicamente pelo DJ de serviço, convidando os presentes ao romance.
A um canto, junto ao bar, um rapaz lá para os seus vinte anos, e um homem muito acima dos cinquenta, trocavam beijos impressionantes, quase que arrancavam a seiva furiosamente, numa paixão desenfreada e louca. Nunca houvera presenciado um beijo assim. Afinal, não passo duma "provinciana", que "cora" por tudo e por nada. Nada condizente com a minha condição de artista, e de "viajada" - fama que me precede, dadas as apresentaçôes que fazem de mim, aludindo ao facto de ter estado em sítios tão díspares e estranhos, como Sana'a ou Reykiavick. Ao meu lado, dois tipos novos, excessivamente maquilhados, contavam um ao outro, " leurs misères ". A certa altura, um disse ao outro: " Il faut que je me suicide... !". Parei de conversar com o Eric, e olhei para os dois. Um deles, esboçou-me um sorriso, e de chôfre, perguntou-me: " E você, o que pensa do suicidio ?"- Sem me deixar responder, disparou com convicção - " Para mim são herois, aqueles que têm coragem de se suicidar, de terminar uma angustia, de apagar uma vida que não querem viver ".
Não fui capaz de abrir a boca.
Vim para o hotel, pensando no desabafo daquele jovem excessivamente maquilhado. Afinal, o desespero, é o pai e a mãe desses "herois"...
Será que, ao invés da maioria judaico-cristã que classifica o suicidio de pecado - falta de coragem para assumir as agruras da vida - os suicidas serão mesmo herois corajosos, porque inconformados com o seu destino ?
Fiquei na duvida. Até Hoje...

Publicado por Valéria Mendez em dezembro 5, 2004 01:41 PM
Comentários

Você narra tao bem as situações que eu sinto-me imeditamente transportado para o interior do cenário, parabéns.
Quanto à pergunta, é bastante pertinente e quem é que já não a colocou a si próprio? Mas igualmente como você, nunca achei a resposta.
Muitos êxitos

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em dezembro 5, 2004 03:05 PM

...na impossibilidade de viajar, a valéria faz-nos a amabilidade de viajar por nós...e de nos contar...Paris é sempre Paris e é como se estivesse também por aí com xaile e fado e amigos em suicidio...
Um abraço do Morfeu

Afixado por: morfeu em dezembro 5, 2004 04:55 PM

Sem dúvida que é como o Zeca diz a leitura deste post transporta-nos para essa sua noite memorável
que lhe valeu ter sido novamente convidada para uma nova actuação, sinal que além de saber cantar
também encanta quem a escuta, parabéns pois por isso. Quanto à pergunta já a fiz a mim próprio mais que uma vez e confesso umas vezes acho que é um acto de cobardia de quem não tem coragem de enfrentar as dificuldades da vida mas também já o
o tenho classificado como um acto de coragem, porque eu por exemplo tenho a certeza que não seria capaz de cometer o suicidio. Com um abraço do Raul

Afixado por: congeminações em dezembro 5, 2004 06:03 PM

Grande reentrada. Parabéns..
Um texto muito realista.
Estranhas as vidas por detrás das máscaras...

um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica.weblog.com.pt em dezembro 5, 2004 06:51 PM

É mesmo a famosa valéria? Responda, por favor

Afixado por: descendente luminosa em dezembro 5, 2004 06:55 PM

Valéria, querida! Confesso que ainda ão li o teu post...mas vim a correr porque há semanas que tento encontrar-te em vão...Já estava a começar de desesperar...Sempre o mesmo site e sempre a mesma mensagem, dia após-dia! Mas agora que te "Vejo" quero que saibas que (egoísticamente) me fizeste falta, muita falta. Quis desabafar, quis chorar e tu não estavas...

Vou ter de colocar o jantar ba mesa mas assim que puder,...volto. Fiquei muito feliz por restares outra vez connosco, Obrigada, amiga! Da WB e Mocho.Um abraço e um beijo.

Afixado por: whiteball em dezembro 5, 2004 08:15 PM

Confirmado que sim, é a famosa fadista, queria pedir-lhe uma entrevista. Por favor, envie-me um mail com a resposta! :) obrigada

Afixado por: descendente luminosa em dezembro 5, 2004 09:24 PM

Detido o comboio na gare, eis que me apeio, estendo as pernas e reflicto, sobre o que acabei de viver neste post da Valéria. Deitando um último olhar à torre de Montparnasse
penso para comigo, são uns fracos, que se enchem de coragem, para não lutarem pela vida!
Obrigado Valéria, pela narrativa.

Afixado por: jgonçalves em dezembro 5, 2004 10:18 PM

ora seja bem-regressada! este post faz-me responder-lhe ao comentário que deixou no meu blog. todos podemos fazer alguma coisa para acabar com as discriminações, todas as discriminações. eu posso escrever, você pode e deve cantar. sempre que canta o mundo fica um pouco mais belo e o belo, como diz o lobo antunes, eterniza-se no mundo... essa eternidade do belo proclama o amor que é o avesso de todas as discriminações!

Afixado por: tiago torres da silva em dezembro 5, 2004 11:18 PM

Teste aos comentários em MT 3.11

Afixado por: paulo em dezembro 6, 2004 05:39 PM

Mais uma historia girissima e que põe um problema muito grave, o do suicidio.Eu concordo por exemplo com a eutanasia.Acho que devemos ter possibilidade de optar,sobretudo os que sofrem. Desde esta Londres fria nesta altura do ano, recebe um beijo duma madeirense tua admiradora,
Débora

Afixado por: Debora Santos em dezembro 7, 2004 12:39 PM

A maior parte das pessoas não compreende a diferença entre SER triste e ESTAR triste!...

Afixado por: blueshell em dezembro 8, 2004 08:54 PM

Achei delicioso ter respondido ao apelo da minha descendente luminosa! :) :)
A Inês tem 12 anitos e gosta imenso de a ler!
Abraço

Afixado por: António em dezembro 9, 2004 01:59 AM

Olá Valeria,

Mais uma vez parabens pelo seu texto. Mantenho o meu pedido, por favor, conceda-me uma entrevista para o jornal. Pelos vistos já concedeu uma a descendente luminosa, agora, poderia ser a minha vez. Contacte-me. Beijos,

yvette Vieira

Afixado por: yvy em dezembro 9, 2004 02:34 PM

Um regresso que não podia ser mais auspicioso
com um magnífico texto de uma história real.
Grato pela "viagem".

Os meus cumprimentos.

Afixado por: eduardo em dezembro 9, 2004 04:54 PM

Concordo plenamente com o Zeca!

Afixado por: Roxy em dezembro 10, 2004 02:11 AM

a vida tem coisas estranhas

Afixado por: oisaubeau em dezembro 10, 2004 10:15 AM

Um beijo e bom fds. WB

Afixado por: whiteball em dezembro 10, 2004 01:27 PM
Afixado por: em dezembro 10, 2004 07:58 PM

Up's! Casa nova? Sim senhora! Gosto.

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em dezembro 11, 2004 03:33 AM

Você precisa escrever um livro de memórias.
Além da narrativa muito boa, há a perspicaz observação do que a cerca.
Tendo protagonizado coisas memoráveis, o livro será um sucesso de crítica e público.

Afixado por: Manoel Carlos em dezembro 11, 2004 10:24 PM


Afixado por: em dezembro 13, 2004 10:54 AM

Sobre o assunto (suicídio), preciso falar com você. Mas não aqui. Moro no Brasil, não te conheço, mas queria te passar minhas reflexões feitas ao longo de uma vida que ainda é vida (coisas muito pessoais). Se fizer a gentileza de me contatar por e-mail, falaremos a respeito. Espero. (ATENÇÃO! O nome é falso, mas você saberá o real.)

Afixado por: Rosa em dezembro 24, 2004 07:50 PM

Uma história muito interessante, com uma narrativa soberba, Parabéns.
Talvez nem toda a gente a entenda plenamente, o que a sua história tem, para mim, de brilhante é o facto de começar com uma coincidência (ou não)e acabar com outra, ou seja: Começou o seu recital à meia noite com o fado "Meia Noite e uma Guitarra" de Álvaro Duarte Simões. Acabou, questionada pela sua opinão sobre o suicídio... Saberiam esses gays franceses que Álvaro Duarte Simões se suicidou ?

Afixado por: Carlos Santos em fevereiro 27, 2005 05:20 PM