outubro 10, 2004

Vestal

No palco, quatro musicos.
Uma mulher de negro e vermelho, qual stendhaliana aparição, faz esvoaçar o seu xaile, a " Lágrima " verte dor e pranto. Provoca-nos espanto. Dir-se-ia, estarmos presentes a uma Vestal. Deusa de Portugal, Sacerdotiza do Mundo, " por vontade de Deus ", cantando ao "Povo que lava(s) no rio ", ansiando "...ir a Viana ", num canto simples de Afife.
A Mulher, ora triste ora alegre, num 'nonsense' genial, confessa-nos, que foi " ao mar buscar sardinhas ", para dar ao seu amor, e jocosamente pergunta: "É ou não é ? ". Saindo deste encarnado alegrete, recorda-se dos infindáveis mistérios da Morte, pede-nos " Silencio. Do Silencio faz-se um grito...deixai-me chorar um pouco. " Do Grito ao espanto, a Vestal avança. Agora é Mãe, daqui a pouco menina, cantando uma cantiga de roda, saltitando pelos prados verdes. Pureza. E logo transfigura-se. Surge-nos uma velhinha, com 'estórias' mil para contar, como aquela " Carmencita, a cigana mais bonita, do que um sonho, uma visão ". Depois, a velhinha desfia-nos a sua vetusta sabedoria, lembrando-nos carinhosamente que " breve desfaz-se uma vida honrada e boa, ninguém sabe quando nasce, pr' ó que nasce uma pessoa." E aconselha, qual doce avózinha que, "o preciso é ser-se forte, ser-se forte e não ter medo, porque na verdade a Sorte, como a Morte, chega sempre tarde ou cedo ". E de novo, a alquimia da Deusa faz a Magia, e num ápice, revela-se Mulher no Verão da vida, sensual, voluptuosa, apaixonada e voluntariosa, uma varina, com " movimentos de gato ", trazendo " na canastra, a caravela, no coração a fragata ". E já no fim da linha, a voluptuosidade, dá lugar à lucidez. Pergunta subitamente " ao vento que passa, notícias " do seu País. "O vento, cala a desgraça, o vento nada " lhe diz. E, como a desventura não pode, nem deve ser alimento, regressa a rapariga gaiata,de pés descalços, bailando o Malhão, convidando as gentes, a " comer e beber, ó trintintim passear na rua ".
O Povo, acabada a Aula de Vida, perspassadas as alegrias, as desventuras, a negritude da Lucidez, insiste em não querer apartar-se da Sua presença . No intimo de cada um, uma pergunta assome ao espírito. O que fará correr aquela Mulher sem idade, o que fará cantar aquela Voz, de Todos Nós ?
Sem que ninguém lhe houvera perguntado, a Vestal responde-nos : " Foi Deus. "

vALÉRIA mENDEZ " Impressões de uma Noite com AMÁLIA, no COLISEU DOS RECREIOS, LISBOA "

(ESTE SERIA O TEXTO QUE EU APRESENTARIA AO PEQUENO CONCURSO, NÃO FORA EU A AUTORA DA IDEIA.)

Publicado por Valéria Mendez em outubro 10, 2004 06:23 AM
Comentários

Bom dia, D. Valéria.
Este texto original fez com que relesse os fados dela. Copiei por si a ideia e deixo uma pequena "miscelanea" de outros fados.

" Mas ela de tão estouvada
Canta num beco de Alfama
Como uma rosa de fogo
A arder no meu coração
Alguns afirmam ser verdade
Que a Rita gosta do Chico
Só à mãe dela é que não
Nesse triste respirar
Que nunca refez esses amores
E de tanto chorar fez saudade
Nunca tarde e a más horas
Por ti morro e ninguém sabe
Meu amor porque demoras "

A propósito deste Amália - 5 Anos de Saudade recebi um e-mail de Itália (veja só onde o pequeno concurso já chegou) de Caio Roberto a pedir a letra do fado Triste Sina. No mês que vem realizam uma festa onde uma portuguesa vai cantar fados de Amália e gostariam que esse fizesse parte. Ainda só lhes mandei a música porque a letra - já rabusquei quase tudo - não encontro.
A D. Valéria pode ajudar?

Os meus cumprimentos.

RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ:
OLHE ANIFGO EU JÁ AJUDEI MAS COMETI UM ERRO.COLOQUEI A RESPOSTA AO SEU PEDIDO NO BLOG www.fadoepoesia.blogspot.com PENSANDO QUE ERA O SEU. COMO NÃO TENHO PACHORRA DE REPETIR TUDO, FAÇA O FAVOR DE LÁ IR VER O MEU COMENTA´RIO. OBRIGADA

Afixado por: eduardo em outubro 10, 2004 03:41 PM


Um texto belíssimo.

Afixado por: Katia em outubro 10, 2004 06:36 PM

Olá Valéria:

O amor que sentimos pela Amália seria suficiente para o nosso convívio, mas, graças a Deus não é só isso.
Se quiser que eu lhe envie o disco da maria João Quadros envie uma morada para o meu e-mail de forma a que eu lho possa enviar. Ou se quiser ela vai amanhã cantar ao "Às duas por três" pode falar-lhe em directo da falta de distribuição insular.
Quanto ao seu conselho que agradeço, acho que talvez não fosse o melhor para mim. Eu trabalho tanto em Portugal como no Brasil, por isso fui aconselhado a não usar um blog que terminasse em pt ou em br para alargar a comunicação.
No entanto como gostaria de ser lido por mais gente e não percebo nada de fazer links ou qualquer outra forma de publicitar o meu blog, peço-lhe que diga aos seus amigos para darem lá uma espreitadela. EU também vou começar a fazer isso com os meus amigos e, grão agrão, talvez seja possível que meia dúzia de pessoas se interessem pelas letras que escrevi.
Muito obrigado por tudo e fico com muita curiosidade de a ouvir cantar. Espero que isso aconteça em breve
um abraço

tiago

Afixado por: tiago torres da silva em outubro 11, 2004 12:07 AM

Amiga Valéria!
Do texto destaco:
"E de novo, a alquimia da Deusa faz a Magia, e num ápice, revela-se Mulher no Verão da vida, sensual, voluptuosa, apaixonada e voluntariosa, uma varina, com " movimentos de gato ", trazendo " na canastra, a caravela, no coração a fragata ".
É ASSIM QUE EU VEJO E SINTO "A DIVA".
Bjs.

Afixado por: ALUENA em outubro 11, 2004 12:27 AM

Olá, querida Valéria!

Era só para dizer, a respeito da grande Amália, que fiquei radiante com a homenagem que o Canal 1 da RTP prestou à nossa diva: os espectáculos, as entrevistas e sobretudo aquele magnífico programa com outro gigante, infelizmente também já falecido prematuramente, que foi o nosso querido Fernando Pessa.

Para um miúdo da minha idade, que não pôde conhecer a fundo toda a carreira da Amália, esta programação da RTP1 foi um achado!

Ainda a propósito de Amália Rodrigues, a Valéria conhece o novo disco dos Clã, chamado 'Rosa Carne'? O álbum é excelente e uma das suas canções, 'Competência para Amar', presta uma homenagem à Amália e contém um dos seus versos por ela imortalizados: «não queiras gostar de mim».

A respeito deste verso, tinha 3 perguntas a colocar à Valéria:

a) De que canção da Amália foram retirados (perdoe-me a ignorância, Valéria!)?

RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ: fORAM RETIRADOS DO FADO 'NEM AS PAREDES CONFESSO', DA AUTORIA DO NOSSO MADEIRENSE MAX(A MUSICA) E DE ARTUR RIBEIRO(LETRA)

b) «Não queiras gostar de mim»! Que verso tão encantador, mas ao mesmo tempo tão triste, desesperado mesmo! Concorda que os grandes artistas são pessoas irremediavelmente tristes?

RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ: NÃO, OS GRANDES ARTISTAS NÃO SÃO NECESSÁRIAMENTE TRISTES, MAS SERÃO NECESSÁRIAMENTE LUCIDOS.E SE ALGUEM É LUCIDO, NÃO PODE SER MUITO ALEGRE COM O MUNDO COMO ANDA. A AMALIA ERA ALTÉ MUITO ALEGRE, CONTAVA ANEDOTAS, GOSTAVA DE DANÇAR, DAVA TUDO POR UMA RIJA DISCUSSÃO SOBRE POLITICA, ERA UMA OPTIMA CONVERSADORA. CONTUDO ESSA SUA FACETA DE LUCIDA, ATÉ O ULTIMO DIA DE SUA VIDA, 'PUXAVA'PELA TRISTEZA, PELA INCAPACIDADE DE MELHORAR O MUNDO, PELA SOLIDÃO A QUE SOMOS VOTADOS, MEMSO RODEADOS DE TANTA GENTE, PELA INCOMPREENSÃO, ETC. A TRISTEZA DE AMALIA É A TRISTEZA DA LUCIDEZ.MAIS NADA...

c) Será que Amália, sendo uma grande artista, era também uma pessoa triste (apesar do seu notável sentido de humor)?

RESPOSTA DE VALEIRA MENDEZ:PARECE QUE RESPONDI NA ULTIMA ALINEA.AMALIA ERA TRISTE, POR MUITO LUCIDA QUE ERA. E TINHA MOMENTOS DE ALEGRIA RETUMBANTE. "VEJA LÁ RECEBI TANTOS PREMIOS, TANTO APLAUSO, ANDAMOS TODOS A FAZER ESTAS COISAS TODAS, OPARA ACABARMOS TODOS ALI, NAQUELA TRISTEZA", DIZIA UMA VEZ AMALIA A PROPOSITO DA MORTE. "DESDE QUE EXISTE MORTE, IMEDIATAMENTE,A VIDA É ABSURDA", OUTRA FRASE LAPIDAR DE AMALIA, QUE NOS MOSTRA A TAL LUCIDEZ DE QUE LHE FALEI.


Beijinhos e obrigado!

Afixado por: Flávio em outubro 11, 2004 01:18 AM

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Afixado por: B em outubro 11, 2004 12:49 PM