Há momentos na vida de qualquer artista, que por distracção ou alheamento, se tornam momentos hilariantes. Ridiculos. Cómicos. Ainda hoje, choro a rir de alguns que "passaram por mim". Este é um deles:
Encontrava-me no palco do Centro Português de Caracas. Duas mil pessoas, ouviam em silêncio o trinar das guitarras, e as palavras por mim cantadas, dum grande Poeta Português : Alexandre O'Neil.
Era um Fado do reportório de Amália, denso, profundo, rico em imagens poéticas, e por vezes, o meu braço esquerdo entrava numa coreografia sem plano, à deriva. Ora a mão se abria e apontava para o céu, ora estava quieta, como que à espera do tal grito, da tal nota, que a faria de novo bailar.
Eu cantava:
" Que perfeito coração,
no meu peito bateria..."
E foi então que o caldo se entornou. Precisamente, na melismática da palavra "...bateria", tive aquele impulso breve, porém firme, de levantar o braço, mão aberta, frente para o publico, de costas para a cara do... guitarrista. Que acabava de levar, perante duas mil pessoas, uma valente e ruidosa bofetada, fazendo-o quase tombar para trás, tudo isto, claro está, amplificado pelo microfone, que "servia" a guitarra do "pobre" musico. Os outros musicos continuavam a tocar, e eu, perante uma assistência em delírio, rindo-se desalmadamente, tive de encontrar uma saída para aquela desgraça. Disparei :"Olhem, foi uma cena fadista, resolvida à bofetada". Vejam como é verdade. Depois na segunda parte eu canto a "Gaivota" do O'Neil outra vez..."
E lá continuei com o fado tradicional, que rezava assim:
" Amo o homem a meu jeito
Valente, como os que são
Tem tatuagem no peito,
e lá dentro um coração...
...Dizem porque me bateu
o seu amor é postiço,
Bate naquilo que é seu
Ninguém tem nada com isso !"
Normalmente, não canto este fado. A letra é horrível. Mas há gente que gosta. E foi assim, que acabei por "remediar" a cena hilariante que provoquei. Diz o musico, que ainda hoje, sente o "encaixe" daquela bofetada...
Percalços do palco...
Publicado por Valéria Mendez em outubro 1, 2004 03:33 AMVenho com regularidade ao teu blog, embora nunca tenha deixado comentário.
Sem dúvida que me consegues surpreender. Os teus textos sobre o médio oriente são algo que considero de precioso. Sem direito a desculpa é também o facto de ainda não ter arranjado tempo para te linkar no meu blog. Apenas posso dizer que não sei como fazer ... mas não posso ser desculpada por não te ter feito ainda referência.
abraço
PS: quanto aos 40 anos, minha cara amiga, já passaram há algum tempo, estou próximo da próxima década. Mais velha?, sim, mais objectiva? sim, mais consciente de necessidade de não alinhar pelo discurso vigente? sim. Com medo da morte? não. Tantos têm sido os meus mortos que nada me aflige, mesmo que não acreditando na vida para além dela.
Afixado por: GIN em outubro 1, 2004 10:56 AMÉ caso para dizer que foi uma latada inocentemente aplicada mas que contribuiu para melhorar a coreografia, que se calhar ensaiada não teria tanto sucesso.Claro que estou gracejando com o acontecimento que não foi nada agradável para os intervenientes. Um abraço do Raúl
Afixado por: congeminações em outubro 1, 2004 08:04 PMSó mesmo a Valéria para me fazer sorrir de bochecha a bochecha!
Beijinhos do seu conterrâneo,
Flávio
Afixado por: Flávio em outubro 1, 2004 09:41 PM
Um Abraço para si!
Manuel de Vasconcelos
Afixado por: Manuel de Vasconcelos em outubro 1, 2004 10:53 PMFartei-me de rir.Acontece cada uma.
Afixado por: Debora Santos em outubro 2, 2004 08:35 PM(risos)
Não sei o que foi pior a bofetada ou a canção :))))
Esta é uma cena antológica.
E, o que é delicioso, muito bem relatada.
podia ter sido uma bofetada sem mão...mas, esta foi mesmo. Ainda bem que não fechou o punho!
Coitado do guitarrista!
mas, às vezes fazemos o que não queremos, não é?
camentario de valeria Mendez:
Pode crer, amigo, pode crer...