COMEMOROU-SE, A 6 DE SETEMBRO, O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE PEDRO HOMEM DE MELLO. UM NOME INCONTORNÁVEL NA POESIA PORTUGUESA DO SECULO XX. UM DOS POETAS DE AMÁLIA.
Não pretendendo arvorar-me em "ensaísta", terei no entanto, de apontar algumas das palavras do Poeta, e de analisá-las a meu modo, tal qual, eu o vejo, e sinto.
Portugal, durante a maior parte da vida do Poeta, apresentava-se com laivos de negro. O cinzento da saudade dos emigrantes que partiam, a negritude das vidas povoadas de mágoas, pela morte, ou pela ausência dum filho, partido para uma guerra sem sentido, em terras da Mãe África. Pelo exílio de outros, que eram castigados pelo seu livre pensamento. No poema "Gondarém", Pedro Homem de Mello, cantava assim:
"...NUMA BANDA A ESPANHA MORTA,
NOUTRA PORTUGAL SOMBRIO
ENTR' AMBOS GALOPA UM RIO
QUE NÃO PÁRA À MINHA PORTA.
E GRITO, GRITO:ACUDI-ME,
GANHEI DOR. BUSQUEI PRAZER
E SINTO QUE VOU MORRER
NA PRÓPRIA PÁTRIA DO CRIME..."
(musicado por Alain Oulman, Album: "Cantigas Numa Língua Antiga", Amália Rodrigues)
O amor profundo à terra, às tradições populares, o Poeta cantou com enlevo. Um amor puro aos rios, aos prados, às gentes. Vemo-lo, em "Havemos de ir a Viana":
"...SE O MEU SANGUE NÃO ME ENGANA,
COMO ENGANA A FANTASIA,
HAVEMOS DE IR A VIANA,
OH MEU AMOR DE ALGUM DIA...
PARTAMOS DE FLOR AO PEITO,
QUE O AMOR É COMO O VENTO
QUEM PÁRA, PERDE-LHE O JEITO,
E MORRE A TODO O MOMENTO...
CIGANOS VERDES CIGANOS,
DEIXAI-ME COM ESTA CRENÇA:
OS PECADOS TÊM VINTE ANOS,
E O REMORSO TEM OITENTA..."
(musicado por Alain Oulman, Album "Com que voz", Amália Rodrigues)
E ainda, fazendo uma ode, à cultura popular, transbordante de amor à Terra e às Gentes, em "Canção de Viana":
"...VIREI COSTAS À GALIZA,
VOLTEI-ME ANTES PARA O MAR
SANTA MARTA,SAIAS NEGRAS,
TEM VIDRILHOS DE LUAR.
DANCEI A GOTA EM CARREÇO,
O VERDE GAIO, EM AFIFE,
DANCEI-O, DEVAGARINHO,
COMO A LEI MANDA BAILAR,
COMO A LEI MANDA BAILAR,
DANCEI EM VILA, A TIRANA,
E DANCEI EM TODO O MINHO,
E QUEM DIZ MINHO,DIZ VIANA..."
(musicado por Alain Oulman, Album "Cantigas Numa Lingua Antiga", Amália Rodrigues)
O Povo, essa entidade tão amada pelo Poeta. A lucidez porém, da rigidez, da austeridade, um amor para além da razão. Um sentimento de pertença.
"POVO QUE LAVAS NO RIO,
QUE TALHAS COM O TEU MACHADO,
AS TÁBUAS DO MEU CAIXÃO...
AROMAS, DE URZE E DE LAMA
DORMI COM ELES NA CAMA,
TIVE A MESMA CONDIÇÃO...
POVO, POVO, EU TE PERTENÇO
DESTE-ME ALTURAS DE INCENSO
MAS A TUA VIDA, NÃO!..."
(adaptado por Amália, à musica do Fado Tradicional, conhecido por " Fado Vitória ", composto pelo antigo fadista, Joaquim Campos, Albuns: "Abandono" / "Encontro-Amália e Don Byas", Amália Rodrigues)
A Solidão do Poeta. O retrato de alguém que, apesar da sua altíssima formação académica, dos seus convívios cosmopolitas, com gente das Artes e das Letras, mantém uma certa " ruralidade " e " isolacionismo ", perante a urbe, que amedronta e atrai. A Pureza dos versos de " Fria Claridade ", retrata-nos esse homem, só, no meio de tanta gente.
"...NO MEIO DA CLARIDADE,
DAQUELE TÃO TRISTE DIA,
GRANDE,GRANDE, ERA A CIDADE
E NINGUÉM ME CONHECIA..."
(Adaptado por Amália, a uma musica do Fado Tradicional, composto por José Marques do Amaral, Album " Maldição ", Amália Rodrigues)
O Medo do desterro. O Pavor de perder o Amor das Gentes. O Poeta faz uma "Prece":
"...TALVEZ QUE EU MORRA NA RUA
INVIA POR MIM, DE REPENTE
EM NOITE FRIA E SEM LUA
IRMÃ DAS PEDRAS DA RUA,
PISADAS, POR TODA A GENTE.
TALVEZ QUE EU MORRA ENTRE GRADES,
NO MEIO DUMA PRISÃO,
E QUE O MUNDO, ALÉM DAS GRADES
VENHA ESQUECER AS SAUDADES
QUE ROEM, MEU CORAÇÃO..."
Contudo, e apesar dos pesares, a Magnânimidade do Poeta, perante a sociedade que o envolve. O amor do Poeta, sem condição, rendido, prostrado aos pés do seu país. O seu ultimo desejo. Mesmo que essa Pátria lhe tenha sido adversa. Sombria. Inferimo-lo, no mesmo poema.
"...TALVEZ QUE EU MORRA NO LEITO,
ONDE A MORTE É NATURAL
AS MÃOS EM CRUZ, SOBRE O PEITO.
DAS MÃOS DE DEUS, TUDO ACEITO,
MAS QUE EU MORRA, EM PORTUGAL !"
(musicado por Alain Oulman, ultimo Poema de Pedro Homem de Mello, gravado por Amália, em 1991, no seu derradeiro album de originais: "Obsessão")
Pedro Homem de Mello foi isto. É isto.
Resta-me apenas recordar que, o Poeta, ao ouvir alguém na sua terra natal, cantar o "Fria Claridade", acompanhando Amália pela rádio, declarou publicamente, sentir-se feliz e honrado por, a sua poesia, " ter finalmente, subido ao Povo. "
Por vezes, quando cometo a insanidade do atrevimento que me acolhe, de cantar os versos deste sublime Poeta, uma lágrima teimosa, persiste em sair das algemas do meu olhar. Obrigada, Pedro Homem de Mello. E Obrigada, Amália, que contribuiste para a sua maior visibilidade.
Os dois estarão, neste momento, em tertulias mil, por entre uma "Canção de Viana" ou um "Cuidei que tinha morrido", cantado por Amália ao rigoroso, quiçá acompanhada pela guitarra do Armandinho, que tal como quando ouviu a Diva, pela primeira vez no Retiro da Severa, exclamará atónito: "Mas que linda voz!"
A Morte, essa terrível e inefável fronteira, não me parece assim tão tenebrosa, quando penso na possibilidade de juntar-me a essas tertulias mil, na Eternidade da Alma...
Apetece-me cantar:
"... Ciganos verdes, ciganos
Deixai-me com esta crença
Os pecados têm vinte anos,
e o remorso tem oitenta."
Proféticamente ou não, Amália morreria aos 79 anos. Sem chegar aos oitenta. Sem " Remorso". Creio mesmo firmemente, sem quaisquer razões para o sentir.
Venho felciitá-la por este post interessante, uma vez mais e dizer-lhe que vir aqui é uma constante aprendizagem. Espero que esteja tudo bem consigo e deixo-lhe um abraço. Pássaro Distante
Afixado por: Pássaro Distante em setembro 8, 2004 02:59 PMRemorso? Não, claro que não!
Além de que esses nomes farão parte da nossa existência, sempre!Abraço, WB
Uma homenagem muito justa ao homem e ao poeta.
Um abraço,
Francisco Nunes
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IP: 82.154.22.67
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DATE: 09/08/2004 10:01:17 PM
Boa homenagem...
Quero deixar um abraço de boas vindas à Valéria e aos comentários que estão de novo disponiveis... :-)
resposta de Valeria Mendez:
Obrigada por se ter lembrado de mim.
Valeria
Gostei muito e aprendi mais um pouco.
Afixado por: Debora em setembro 9, 2004 12:54 PMPor acaso tenho o CD ENCONTRO,da Amalia, que inclui o 'Povo que lavas no rio', um poema e uma interpretação que considero do melhor que existe em termos poeticos e musicais,no mundo.
Afixado por: Observer em setembro 9, 2004 12:58 PMUma Bela Homenagem !
Afixado por: Finurias em setembro 9, 2004 04:12 PMEu visitei a Ponta do Pargo quando estive de passagem pela Ilha (2 dias). Nada mais! Tenho de perguntar ao meu colega qual é o nome do sítio onde a ouvi cantar. Ele está no Japão e eu vou ter lá uma reunião dentro de semanas. Não me leve a mal, por amor de Deus!
Um Abraço
Manuel de Vasconcelos
Afixado por: Manuel de Vasconcelos em setembro 9, 2004 10:14 PMQuerida amiga Valéria Mendez,
Finalmente regressada da Beira Alta, eu que julgava que estava plena de harmonia, encontro este belo estudo sobre a Poesia de Pedro Homem de Mello.
Um abraço de Parabéns.
Sempre tão firme o seu canto, sempre tão bela a maneira como nos prende.
AMIGA SEMPRE.
ALUENA
Um a saudação fraterna para ti!
Afixado por: Carlos Tavares em setembro 10, 2004 04:11 PMConheço alguns dos versos de Pedro Homem de Melo,e sempre gostei muito, em especial o Povo que lavas no rio. A Valéria é uma enciclopedia.Aprende-se sempre consigo.
Afixado por: Carla Patricia Nobrega em setembro 10, 2004 07:25 PMDescobri o seu blog, numa pesquiza da Google sobre artistas Portugueses, e fiquei maravilhada com os poucos textos que consegui ler, em especial as suas crónicas sobre as suas deslocações ao Medio Oriente. Depois de os ler, veio-me logo à lembrança um programa da Sic- o "às duas por três", onde a Valeria se apresentou há uns meses. Liguei logo o nome à pessoa. E tenho que dizer-lhe que gostei bastante da sua actuação, assim como da entrevista.
Sou de Viana, e gostei imenso desta sua análise ao poeta Pedro Homem de Melo, que aprecio muito. Já visitou Viana?
Há uns cinco anos, visitei a Madeira, e fiquei no Hotel Quinta Splendida.Foram sete dias muito bonitos, visitei vários sitios,desci de cesto, o Caminho do Monte-uma experiencia fabulosa.
Para si, muitas felicitações, e espero vê-la em breve, quem sabe aqui em Viana, num qualquer espectaculo musical.
Realmente uma homenagem merecida a MAIS UM dos esquecidos deste país. Obrigado Valéria!
Um abração do
Zecatelhado
Grande Poeta!
Madeira, Madeira!
Há 5 dias que estou em trânsito no meu veleiro ("O Sirius II) desde a Horta até ao Funchal, e é a primeira vez que consigo ligação a um site via GPS. Imaginem qual a palavra mágica que conseguiu fazer a ligação? "Fado", "Fado"...no GOOGLE. E este foi o site que abriui à 10ª tentativa! E vejam a coincidência: é de alguém da Madeira! Devo demorar 3 dias e é a primeira vez que vou à Madeira. Indiquem-me um sítio onde se coma bem, o ambiente seja calmo e informal...e onde se cante fado. Será pedir muito?
Raul Moreira, mais conhecido por "Monas" na Comunidade Lusa do Canadá.
Tenho de ir para o leme introduzir novas coordenadas no Piloto Automático!
Afixado por: Raul Moreira em setembro 12, 2004 08:10 PMValéria minha querida, que bom que voltaste, já sentia saudades dos teus textos. Este ultimo posto está magnífico, meus sinceros e efusivos parabéns! Um beijo com carinho. Andréa.
Afixado por: Andréa Motta em setembro 12, 2004 09:17 PMOlá Valéria!
Que palavras ou adjectivos seriam necessários para puder descrever o teu trabalho com a devida justiça? Eu não consigo, portanto, fico por aqui.
Em Primeiro, quero pedir desculpa por estar a usar o "post" do "grande" Pedro Homem de Mello para te comunicar uma coisa que nada tem a haver com o poeta.
O mês passado tive oportunidade de conhecer algumas pessoas na minha visita a Barcelona, com as quais muito aprendi, entre elas encontra-se Motasem Abukhalaf, um jovem Palestiniano com quem troquei algumas ideias, e que, de resto me deixou uma enorme vontade em descobrir e aprender mais sobre a sua cultura, foi assim que encontrei este magnifico "Blog", que adorava fazer chegar a Motasem, mas ele infelizmente não entende o Português.
Tinha tanta coisa para te dizer... desde que li as tuas primeiras palavras não consegui mais parar de ler as crónicas, ou melhor, parei quando não tinha mais para ler... vou ficar atento e à espera de mais.
Cumprimentos.
Bruno Monteiro.
Esses poemas são maravilhosos!!! Quando entro no seu blog sempre levo comigo mais algum conhecimento. É incrível!
Fico muito feliz com a sua volta.
Grandes beijos!!!*^^*
Olá Valéria. Grande 'post'. Ainda me lembro de o ver na TV com aquela sua voz e sotaque característico a nos falar de poesia e folclore.
Obrigado por no-lo recordar.
Afixado por: PortoCroft em setembro 14, 2004 01:40 AMSó não digo que esta postagem foi uma aula porque a carga emotiva que ela transmite transcende a qualquer exposição didática.
Afixado por: Manoel Carlos em setembro 14, 2004 02:06 AM
Lendo isto, até apetece ouvir e descobrir o Poeta!
Querida Valeria é realmente um prazer le-la, o que já não fazia à algum tempo! Mas cá estou para por a minha leitura em dia! Desejo-lhe uma semana feliz! Beijinhos
Afixado por: Maria Branco em setembro 19, 2004 10:58 PMExtra-post magnífico ( + 1 )
Obrigado pelo seu excelente e doce comentário ao jantar dos blogues.
Aquele abração do
Zecatelhado
Eu sou de Afife, ando no rancho de afife. E O rancho de Afife teve enserido nas comoração do centenário de Pedro Homem de Mello. Gostava de agradecer por nos terem convidado. Beijos e comprimentos
Afixado por: susana em outubro 1, 2004 09:45 AMO Pedro Homem de Mello foi provavelmente o maior poeta do fado. É a erudição feita povo.
Já agora, uma pormenor que pouco conhecem. A Amália enganou-se no poema Fria Claridade (foi a única vez que se enganou, apesar de no Fado Português ter alterado inconscientemente um verso que que deu cabo da rima mas que não mudou o sentido como neste caso).
Em todos os meus sentidos
Tive presságios de adeus
E aqueles olhos tão lindos
Afastaram-se dos meus
O segundo verso foi cantado "Tive presságios de Deus" e fez lei. Toda a gente canta assim. Mas o original faz muito mais sentido.
Afixado por: Fernando em outubro 5, 2004 09:44 AMSendo do Porto (Foz), e filha de uma senhora que teve como professor (Escola Filipa de Vilhena) o Poeta Pedro Homem de Mello, e ouvindo em casa as ''aventuras'' passadas nessa escola e na pastelaria onde estava todos os dias com os alunos na Praça dos Aliados, smepre me despertou curiusidade mais tarde lê-lo. Poemas preferidos: ''Há uma Rosa na Manhã Agreste'', ''O Jardim de São Lázaro'', ''Aquela Praia'', etc. Há muito que procuro a reedição de Bodas Vermelhas. Como se pode conseguir.
Parabéns pela sua apreciação do Poeta.
Maria do Carmo Brandão
(Sobrinha neta de Raúl Germano Brandão)
Pedro Homem de Melo, foi mais um dos Homens de
" Amália " Tive a sorte de ouvir a última música que o Alain Oulman fez para um Poema deste Poeta
" Padroeira " no último concerto em Dezembro 1994
no Coliseu em Lisboa. " Está gravado em estudio "
" Parabens e obrigado AMALIA e aos Poetas Portugueses "