julho 30, 2004

AMALIA RODRIGUES NA MADEIRA

O meu saudoso avô da Ponta do Pargo, e o meu também saudoso pai, que Deus os tenha em sua Santa Glória, e muitas outras pessoas da época, sempre contaram excitados, como quem conta algo de muito especial, guardado carinhosamente nas suas memórias, sem hipótese de olvido, aquele dia especial de 1950, em que Amália, pela primeira vez se apresentara na Madeira, para vários concertos- Um para o "povo" no Parque Natural da Cidade, outro no Teatro , outro para a "nata" madeirense, na Quinta da Vigia, na altura, sede do Casino da Madeira, antiga residência da Imperatriz D. Amélia, mais tarde sede do estabelecimento de ensino, onde leccionei durante largos anos - o Conservatório de Musica - e hoje, a residência oficial do Presidente do Governo Regional.
Narravam entusiasmados, que Amália, na força dos seus vinte e nove anos, cantou sem microfone, no Teatro Baltazar Dias. À actuação nos Jardins da Quinta da Vigia ( na altura o Parque Natural da Cidade, hoje, todo o perímetro que vai da Residência Oficial do Presidente do Governo, até à parte de baixo, do Parque de Santa Catarina ), conta-se que lá estavam mais de 4.000 pessoas.
E ainda mais marcante, a actuação imprevista de Amália, na varanda dum restaurante da rua Dr. Fernão de Ornelas, na altura, a maior rua da cidade, que se encontrava pejada de gente, só para ver a cara da Diva. Alguém "pôs a correr", que Amália lá se encontrava a almoçar, e pouco a pouco, a informação boca a boca, foi atraindo para a rua, milhares de madeirenses, que timidamente,chamavam por Amália. Foi então que, a Diva assomou à varanda, e da multidão, soaram vários pedidos, para que cantasse. Rezam as narrativas, de gente da época, onde se incluem o meu pai e o meu avô, que Amália, chamou os seus musicos, e , ali mesmo, dum balcão da Rua Dr. Fernão de Ornelas, cantou, igualmente sem microfone, durante mais de uma hora. Sem temer que o publico deixasse de acorrer ao grande concerto ao ar livre, que tinha marcado para o dia seguinte.
Contam os que lá estavam, que quem se encontrava mais distante, no fundo da rua, ouvia perfeitamente a voz possante e maravilhosa do Monstro da Canção Nacional.
E curiosa foi, a actuação da Diva, no Teatro, em que, vendidos todos os ingressos, exigiu ao empresário que deixasse entrar as pessoas que estavam na rua, e que não tinham conseguido adquirir o bilhete - em numero possível, para, em segurança, assistirem de pé, nas coxias do teatro, ao recital. Contam eles, que nunca o Teatro Madeirense terá tido tanta gente.
Retalhos duma carreira gloriosa, em que a Ilha da Madeira, também quiz participar, se bem que muito modestamente, a ver pelos grandes e numerosos momentos duma Amália, que cantou nos quatro cantos do mundo, sempre com um sucesso, que hoje, já pouco existe, nos artistas de craveira mundial, que arrastam multidões, mas não conseguem atingir o coração das gentes, o amor das pessoas.
Amália regressaria à Madeira mais vezes; inaugurou o Hotel Sheraton nos anos setenta, encheu o Estádio dos Barreiros, no início dos anos oitenta, galvanizou o publico, e entusiasmou a Imprensa madeirense, com o seu espectáculo fabuloso, no Centro de Congressos da Madeira, a convite da organização dos Festivais do Outono, no final da década de oitenta.
Lembro-me que, aquando da sua actuação no estádio de futebol, o movimento e a azáfama era tanta, como em dia de jogo do Marítimo. Fôra a primeira vez, que via a Amália, na minha terra. Já a conhecia. Já houvera assistido a concertos seus, em Itália e em França. Recordo com tanta ternura, que a Diva, deslocou-se para o ensaio de som, durante a tarde, a bordo do meu modesto VW Carocha, que eu tinha na altura, e que destoava tanto da sumptuosa entrada do Hotel Savoy, onde a cantora se hospedava. Houve até, da parte da organização um certo mal estar, pois tinham deixado um Mercedes à disposição da Diva. Eu, humildemente, até comentei com Amália, "gosto tanto que venha comigo, mas este meu carro, não está à sua altura". Amália, deu uma sonora gargalhada, tocou-me no braço, e ripostou : " Não diga disparates !"
Só sei que, esse VW Carocha, levou Amália no dia seguinte, a ver o pôr-do-sol no Pico do Areeiro, e tomamos chá tranquilamente, na Pousada , aquela que Paulo Portas decidiu mandar deitar abaixo, para colocar um radar. Lembro-me do casal holandês, que timidamente se acercou de nós, e disse-nos que, nunca tinham visto uma pessoa tão parecida com a "big star" Amália Rodrigues. Amália não me deixou responder, e disparou - " Oh I Know, everybody tells me that !" E não terminando por ali, ainda " teve a lata ", de perguntar aos turistas, se gostavam de Amália Rodrigues. " Oh we love her. We saw her yesterday, in the stadium. It was outstanding." Amália acrescentaria sorrindo - "I love her too, very much !". Fartámo-nos de rir, já dentro do carro, descendo o promontório, rumo ao Funchal. " Ainda bem que você não se desmanchou " - dizia-me a Mulher Portuguesa mais célebre do século XX, divertida, com a sua pequena traquinice.
A pousada ainda lá está. Ainda vou lá lanchar, às vezes. É um local mágico para mim. Não se vê nenhuma casa ao alcance da nossa vista. Só o céu, o mar ao longe, e o nevoeiro "rasteiro", qual algodão puro, abaixo de nós.
A Pousada , tem os dias contados. Estupidamente. Troca-se um ponto turístico, por um radar militar. São decisões destas, que me provocam asco. Repugnância. Por gente como Paulo Portas. Por gente que nos governa, sem que no entanto, tenham sido submetidos a uma eleição democrática. E nâo há ninguém que o demova. Nem as opiniões abalizadas de geógrafos, ecologistas, e técnicos de Turismo. E já ouve alguém, com propriedade, a referir-se ao perigo das radiações. Contudo, o Governo Central está irredutível. A Pousada vai abaixo.
Ainda bem que tive oportunidade de mostrar a Amália, um sítio onde o ar, é do mais puro que há. Ainda bem que Amália poude tomar chá comigo, na Pousada do Pico do Areeiro. Daqui a uns meses, isso seria impossivel...

Publicado por Valéria Mendez em julho 30, 2004 04:13 AM
Comentários

Bela crónica, Valéria de memória plena.
Um abraço.

PS: Não ligue a ladaínhas...

Afixado por: LE. em julho 30, 2004 11:56 AM

Querida Valéria não sabia ainda da sua volta. Espero ue as suas férias tenham sido excelentes. Desejo-lhe um excelente regresso! Mais uma vez brinda-nos com uma excelente cronica! Beijinhos. Continuação de um excelente fim de semana

Afixado por: Maria Branco em julho 31, 2004 10:55 PM

Querida Valéria, como madeirense de gema que eu sou, também me repugna a decisão de Portas em construir o estúpido radar no Areeiro. E mais me repugna a subserviência do nosso Governo Regional, que só é patriota quando não é preciso.

A propósito, deixei uma mensagem para si no meu blogue A Bomba (www.a-bomba.blogspot.com).

Beijinhos,

Flávio

Afixado por: Flávio em agosto 1, 2004 01:48 AM

Olá Valéria, este post tem um carácter histórico impressionante. Parabéns. Gostaria que, se pudesse, confirmasse-me,por favor, se a varanda em que Amália cantou ao povo madeirense era na Rua Dr. Fernão de Ornelas ou na Rua 31 de Janeiro, no primeiro andar de uma associação chamada «A Nau Sem Rumo», pois tenho um testemunho nesse sentido. Um abraço para si de um Pássaro que mudou de endereço.

resposta de Valeria Mendez- Oh meu Amigo, tem toda a razão, só que a varanda dava ( e dá) para o inicio da Rua Dr Fernão Ornelas. Hoje existe lá um bar chamado de Miraflores, sem o requinte de outrora...

Afixado por: Pássaro Distante em agosto 1, 2004 10:22 PM

Um Beijinho,

Sónia

Afixado por: Sónia Pereira em agosto 1, 2004 11:21 PM

Os pequenos para se sentirem grandes, têm de destruir o mundo.
Vê Hitler…

Afixado por: jgonçalves em agosto 1, 2004 11:29 PM

Adorei ler essa crônica sua...! Realmente é horrível destruirem um lugar, que como você diz, é tão bonito para construírem um radar militar!
Beijos!*^^*

Afixado por: Carina em agosto 2, 2004 04:09 AM

A Amália sempre linda dentro da sua imensa simplicidade.

Afixado por: Alex Cruz deMalta em agosto 2, 2004 05:53 AM

Obrigado pelo seu esclarecimento, cara Valéria. O meu novo endereço é: http://seteoficios.festim.net Um abraço para si do Pássaro Distante

Afixado por: Pássaro Distante em agosto 2, 2004 10:13 AM

Em boa hora deixou o seu endereço no blog da minha querida amiga Maria.
Ríquíssimo recanto este!
Vou ocupar um tempo por aqui.
Deixo-lhe um beijo, com toda a admiração.

Afixado por: Cris em agosto 2, 2004 04:15 PM

Cara Amiga Valéria

Eu não tenho muito tempo para visitar Blogs, por isso faço-o esporadicamente. Desta vez calhou a vez do seu!
A senhora é muito modesta em relação a si própria. Ouvi-a cantar um dia destes na Madeira, mas não sabia quem era. Só na viagem para Lisboa é que me disseram o seu nome e, através de uma pesquisa pela Net, é que cheguei aqui. Está sempre a endeusar os outros fadistas e esquece-se de si. Eu considero-a uma das melhores fadistas que ouvi até hoje. A sua voz é a chamada "cristalina - ópeacea" (termo usado na ópera). Foi ela que prendeu a minha atenção (estava num jantar de negócios). Lembrei-me dela durante a viagem para Lisboa. Qualquer dia eecrevo um artigo sobre a senhora e envio-lhe para o publicar no seu Blog. Assim, não poderão acusá-la de narcisismo, e terá a homenagem que merece. Costuma vir cantar ao Continente?

Um grande beijinho
De um novo grande Admirador

Manuel de Vasconcelos

RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ:
Prezado Amigo- É sempre bom ouvir elogios, mas por certo , estes foram o fruto da sua bondade. E quanto à análise que faz da minha voz, olhe que eu não acho que seja nada cristalina, mesmo sendo "opiacea", termo que desconhecia, apesar de ter estudado História da Musica. Alguém me disse um dia, que a minha voz, é mais jazzistica que fadista, dado ser grave, com alguns laivos de "mezzo-soprano"pelo meio, se bem que, para mim, este termo seja inadequado.
De qualquer forma,agradeço sentidamente as suas palavras.
E de vez em quando vou ao Continente, a programas de TV ou a alguns espectaculos para os quais sou convidada...
Um abraço.

Afixado por: Manuel de Vasconcelos em agosto 2, 2004 04:54 PM

Fiquei cheio de inveja do chá que tomaste com a Amália :-)
Adoro ler as tuas crónicas (se me é permitido o tutear), e é com enorme prazer que visito este blog. É fascinante ver alguém escrever tão bem sobre o fado e com conhecimento de causa. Aprendo sempre alguma coisa de cada vez que aqui passo

Na reformulação do meu blog, inaugurei uma coluna para os meus blogs favoritos e para que se tornem de leitura (mais) habitual o "fadista valéris mendez" faz, inevitavelmente, parte dos primeiros linkados.

Afixado por: mago em agosto 2, 2004 05:50 PM

Uma consolação: A pousada foi devidamente homenageada nas suas palavras.

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em agosto 2, 2004 11:20 PM

Cara Amiga Valéria

Foi com enorme prazer que recebi a sua resposta. Quanto ao termo que usei para definir a sua voz, não tem nada de científico, não é uma métrica definida, mas uma medida, digamos, popular. O colega que ia comigo no avião é um fã do fado e foi ele que utilizou essa expressão. Eu limitei-me a fixa-la, pois aquele termo correspondia ao que eu tinha ouvido, mas não conseguia exprimir em palavras.
É uma excelente fadista! Já gravou algum disco?

Um beijinho dum ADMIRADOR

Manuel de Vasconcelos

RESPOSTA DE VALERIA MENDEZ
Sempre a sua bondade !
(Gravei nos anos oitenta um vinil, só com inéditos,e daí para cá mais nada, porque recuso-me a ter de pagar a produção do disco. Prefiro gastar o dinheiro, numa viagem, por exemplo. Ou então gastar o dinheiro, para custear a minha deslocação para um País qualquer, que me convide para actuar, mas que não possa pagar as deslocações. Isso sim, dá-me prazer. Os empresários não têm culpa, de eu ser teimosa, e persistir em viver na Madeira, um pouco longe de tudo, tornando bastante onerosas as despesas com viagens. Mas vale a pena, porque aqui, vivo sem stress. E para mim a qualidade de vida, é o mais importante. Sou também muito preguiçosa, e tenho um estilo de vida em que só faço o que me dá prazer. Não, que eu não possua reportório inédito para um disco, creio que até daria para uns dois albuns, tenho inclusivé um tema de Amália completamente inédito, que Ela me deu, e um poema do David Mourão Ferreira, que me foi oferecido pelo próprio. Tenho também ,coisas feitas por mim, por um musico madeirense conhecido, enfim... A SIC e a RTP têm gravados alguns trechos do meu reportório, em programas que efectuei nessas estações. É interessante cantar um inédito ao vivo, e ver a reacção do publico. Cantar uma coisa da Amália, ou de outro artista, é diferente, porque quase sempre o publico aplaude a "memória" que tem da letra, da musica, da interpretação do artista criador, e claro está, se alguem estiver a cantar um trecho do reportório da Amália, ficará sempre em desvantagem, pois será impossível ultrapassar o GENIO. E depois, como dizia o MAESTRO António Vitorino de Almeida, em relação às pessoas que imitam a Amália, "os homens que imitam as ondas , dão cambalhotas"! Cantar ao vivo dá-me prazer, mesmo assim há que ver os sítios... Cantar num estudio, ter de ir a Lisboa só para isso, é-me muito cansativo, para além de dispendioso. Não tenho ambições...mas qualquer dia aparece um CD. Já tenho 4 masters gravados, prontos para irem para a fábrica, mas faltam ainda uns 6 ou 8.)
Um abraço

Afixado por: Manuel de Vasconcelos em agosto 3, 2004 07:30 PM