junho 17, 2004

NO IÉMEN - SALVA POR UM CARTÃO ( 2 )

A mãe de Karim, era uma senhora muito doce. Nunca querera sair definitivamente de Sana`a, e ali vivia, com o irmão do meu amigo iémenita, casado oficialmente com três mulheres. Eu, era hóspede da casa. Respirava-se um ambiente harmónico. Cada mulher, tinha o seu quarto, e o marido das três, possuia também o seu aposento. No quarto dele, só entravam para fazer as lides domésticas. O marido, decidia, se dormiria só, ou se escolheria passar a noite, no quarto de uma de suas esposas. Nunca, sob hipótese alguma, a mulher, tomaria a iniciativa de dormir com o marido. Seria uma heresia.
O meu amigo Karim, iria ausentar-se durante todo o dia, para uma reunião importante de negócios. Eu ficaria em casa, com a sua mãe, e as três cunhadas. Mas, lá para depois do almoço, arranjei um pretexto, e decidi aventurar-me sózinha na cidade da Rainha de Sabá, não sem antes, ouvir um chorrilho de protestos, em Inglês, das mulheres : Que era perigoso uma estrangeira sózinha na rua, e loura, ainda por cima !
Tive então, uma brilhante ideia - Levaria umas vestes tradicionais, de cabeça e cara cobertas...
Havia já, cerca de duas horas, que passeava a pé, deslumbrada com o fervilhar da cidade. Passara por ruas e ruelas, tomara um chá de menta e incenso, num daqueles vendedores ambulantes, que serviam chá e bolos secos; e sem saber como, entrara num mercado popular, numa zona de edificações ancestrais, onde os sons do muézin, recitando o Corão, do alto de um minarete, as crianças brincando, o rodopio dos vendedores e compradores de bugigangas, tecidos, pães e bolos secos, incensos, mirras, vasos espantosos, estarreciam-me de prazer.
Um vendedor de tecidos, de repente, abordou-me, mostrando uma peça, dum verde que nunca tinha visto. Não sabendo expressar-me no seu idioma, tirei alguns rials iémenitas da carteira, o homem abanou a cabeça, falando, gesticulando, acenando que não; decidi então, dar-lhe mais uma nota, sem reparar na quantia. O homem, arregalou os olhos, deu-me, em vez duma, duas peças de tecido, e começou a falar com um camarada da banca ao lado, apontando para mim. Percebi que tinha dado dinheiro a mais. Lembrei-me que os Árabes, fazem do comércio, a arte da argumentação. Todo o cliente regateia, e o negociante argumenta. Faz parte do modus-vivendi. Eu não havia regateado. Era suspeito.
Nesta altura, uma mulher vestida como eu, toca-me no braço, e fala, movimenta os braços, sem que eu entendesse, fosse o que fosse. Comecei a ficar aflita. Não sabia o que dizer, como dizer, e o que fazer. Atrás da mulher, surgiram uns quatro ou cinco miudos, e outros dois rapazes, que acompanhavam a mulher, nas observações que faziam sobre mim...
Já agastada, sem saber ao certo, o que diziam e pretendiam, decidi, pôr cobro ao "tumulto", e falei em Inglês, que era estrangeira. Um dos adolescentes, num Inglês razoável, perguntou-me : " E o que faz uma estrangeira sózinha neste bairro ? Onde moras ? Estás num Hotel ? " - " Não, estou em casa dum amigo, vosso conterrâneo ", retorqui eu bem alto. "Amigo ? ", gritou o rapaz, sorrindo matreiramente. " E onde está ele ? Que queres tu daqui ? ", inquiria o jovem, com ar de poucos amigos. Entretanto, disse qualquer coisa aos outros, a mulher abriu os braços pr`ó céu, e o rapaz, com um dedo em riste para mim, gritava - " Que Allah te perdoe ! Tu és uma mulher perdida !"
Neste momento, já eu caminhava a passos largos, com a pequena turba atrás de mim...
(CONTINUA)

Publicado por Valéria Mendez em junho 17, 2004 03:57 AM
Comentários

Está excelente a narrativa.
Apesar da situação dramática, até por saber que o desfecho não foi dos piores, dá-me vontade de rir.
Quisera apreciar a cena, ao vivo. :)

Afixado por: Manoel Carlos em junho 17, 2004 05:24 AM

Bonita historia excelentemente narrada, com tensão dramática.
Tens de ter mais cuitado nesses paises!!
Saludos!!

Afixado por: odyseo em junho 17, 2004 08:24 AM

Ah, que corajosa você foi e ainda bem que teve sorte, porque nesses países é realmente perigoso uma mulher andar sózinha. Aprecio muitas coisas na cultura árabe, mas não suporto a forma machista e ignorante como as mulheres são tratadas na maioria desses países (Apesar de em Portugal ainda termos tb mt para progredir nessa área!). Conheci jovens do Iemen na minha juventude e sempre foram simpaticos comigo, mas realmente vivem num país que assusta em termos de direitos humanos o que mt lamento, eu que tenho sempre defendido com veemência a igualdade de direitos e deveres entre todas as pessoas, independentemente do sexo e orientação sexual, religião, origem étnica, etc...etc.. Um dia bem feliz.

Afixado por: Ludovina em junho 17, 2004 10:15 AM

Valéria: o quê cargas d'água significa "ir para guionista de TV"? Desculpe-me, é que so brasileiro e este "guionista" me deixou confuso!

Afixado por: Rafael Reinehr em junho 17, 2004 11:52 AM

" Que Allah te perdoe ! Tu és uma mulher perdida !"

ahahahahahahahahahahah...

Que mentalidades.

Afixado por: PortoCroft em junho 17, 2004 01:37 PM

Olá amiga fadista Valéria.Excelente escolha literária.Chico Xavier consegue transmitir a verdade em um tom passivo e ao mesmo tempo esclarecedor.Com relação ao post o Iémen assim como a cultura árabe são bastante interessantes salientando apenas o lado machista da questão.Não só o Iémen mas tem muitos paises por ai com falsa liberdade de expressão e de vida.Muita paz e luz e tenha uma boa leitura.

Afixado por: Hélices da Alma em junho 17, 2004 02:31 PM

Gostei muito, 'mulher perdida...' :-))
Excelente narrativa, Valéria.

Afixado por: LE. em junho 17, 2004 03:03 PM

A aventura é cheia de perigos.
A vida, é que não deve ser impulsiva.
Há que compatibilizar as duas, sob pena de
uma se sobrepor à outra.

Afixado por: jgonçalves em junho 17, 2004 11:31 PM

Apesar de extensa para um blog,gostei da história em si,ex-celentemente narrada.Grande experiência vivencional num país árabe em que as mulheres não têm validade,são simplesmente codificadas.Beijo amigo inté!!!!!!!!!!!!!

Afixado por: wirel_2112 em junho 17, 2004 11:43 PM

Olá amiga Valeria, este texto fez-me lembrar um livro que li...a princesa Sultana.Posso confessar que foi um dos livros que mais me prendeu a atenção nos ultimos tempos.Um beijinho grande para si ;)

Afixado por: Lara em junho 18, 2004 06:30 AM

Olá! Gosto bastante do teu site apesar de o meu e o teu serem bastante diferentes! Tenho todo o gosto em receber comentários sejam de quem forem! Muito obrigada e volta lá sempre que puderes...

Afixado por: Débora em junho 18, 2004 08:53 AM

Uma escrita cuidada! Com conteúdo. De que gosto.

Afixado por: nikonman em junho 18, 2004 09:53 AM

Querida Valéria, Obrigada por esta magnifica narrativa... prendeu-me, e despertou-me a curiosidade! Um dia muito feliz, para si!! Beijinhos

Afixado por: Maria em junho 18, 2004 11:33 AM

Olá, voei até aqui por um comentário seu no escrever por escrever. E em boa hora o fiz pois descobri a sua deliciosa homepage! Os meus parabéns. Há entre nós algo em comum, o gosto pelo fado. Deixo-lhe os meus melhores cumprimentos madeirenses e votos de um até breve. Do Pássaro Distante

Afixado por: Pássaro Distante em junho 18, 2004 01:19 PM

Cara Valéria, volto cá com a finalidade de agradecer as suas gentis palavras no meu cantinho, ficando muito satisfeito por saber que gostou do que viu.

Afixado por: Pássaro Distante em junho 18, 2004 04:09 PM

Cara Valéria, é a primeira conterrânea que encontro nesta virtualidade... :-) . despeço-me endereçando-lhe os meus melhores cumprimentos e com votos de muitas felicidades para a sua carreira artística.

Afixado por: Pássaro Distante em junho 18, 2004 05:16 PM