maio 31, 2004

Cantando um Fado, na distante JERUSALÉM...

O carro rodava, pelas vetustas ruelas da velha Jerusalém, em direcção ao bonito Teatro Al Hakawathi, o Teatro Nacional Palestiniano. Nawzad, tinha vindo buscar-me ao hotel. Ele, era um dos operacionais do Al Fatah. Rapaz lindo, maravilhoso, originário de Gaza, muito moreno, cabelo curto, preto, asa de corvo, vestido com jeans e T shirt branca, deixando antever uns bicepes estonteantes. Nawzad, era meu conhecido de longa data, já tinhamos atravessado o deserto do Neguev, com destino à Jordânia, e eu, já conhecia a sua comovente "estória" - os pais possuiam uma propriedade agrícola, que fora confiscada pelo estado de Israel, e agora, viviam pobremente, numa casa em Gaza, com os seus dois irmãos mais novos. Ele havia, desde os 16 anos de idade, frequentado as escolas do Al Fatah, falava fluentemente Inglês e Francês, e (infelizmente) sabia mais de armas que um general português. Era um moço franco, muito puro de coração, e nós, já haviamos tido longas conversas sobre a vida, e os mistérios da existência. Tinhamos uma espécie de romance platónico, eu, deliciada pela sua pureza e beleza física, e ele, porventura envolvido pela minha capacidade de ouvir, e de compreender. A Vida deu-me isso - uma disponibilidade imensa para ouvir o outro, e entender o intimo de cada um. Isso, creio que aprendi com Amália, nas longas noites de tertúlia, ouvindo-a, e Ela, escutando o desfiar do meu rosário de penas. Amália, mais que ninguém, entendia lucidamente, todas as dissonâncias do Espírito. No grupo do Al Fatah, e por brincadeira, referiam-se a mim e ao Nawzad, como "amigos especiais", mas como a moral vigente é muito rigorosa, todo o mundo sabia, que eramos simplesmente muito amigos. E quantas aventuras houveramos passado juntos !
Com estas deambulações, eis-nos chegados ao Teatro. Faltava pouco para o espectáculo. Nele, participariam a vedeta francesa Collette Magny, Sarah Alexander, uma cantora judia, que havia feito questão, em manifestar-se contra a política do seu governo, o Grupo de Danças e Cantares Etnicos da Palestina, o cantor argelino Mohamed Bhar, um grupo coral de crianças palestinianas, e eu.
Dirigi-me ao camarim, arrumei-me eu própria, vesti uma tunica preta, pus o lenço palestino ao pescoço, e uma hora depois, encontrava-me no palco, interpretando dois fados de Amália, e um tema de minha autoria, dedicado à Palestina, cuja tradução para árabe, aparecia no plasma atrás de mim. Foi, perdoem-me a imodéstia, um sucesso. Recebi, sem sombra de dúvida, a maior ovação da minha vida. Chorei em cena aberta, e mandei um recado ( em inglês, pois não sei falar hebraico, nem árabe ) aos senhores de Israel - ..." que pena que alguns dos nossos irmãos judeus, não tenham aprendido a lição de História, e agora, repitam tristemente os mesmos processos, de que foram vítimas, nos tempos de Hitler. O Homem só evolui, quando compreende a História, e não repete os seus erros !" Dito isto, mais uma chuva de palmas, encheu o velho teatro Al Hakawathi, de Jerusalém Oriental.
Eu sei, que aquela gente aplaudiu a activista, e não a artista, mas de qualquer forma, senti-me nessa noite, uma pequena vedeta.
Já no camarim, dava uma entrevista para uma Rádio Jordana, onde tentei sempre simplificar todo este "imbroglio" político, repetindo que os homens, não têm o direito, de serem senhores dos seus semelhantes, e que o problema palestiniano só será resolvido, não só quando pararem as acções de guerrilha e de luta, mas também quando os USA e Israel, se capacitarem que, a Ocupação vigente é ilegal, quer do ponto de vista do Direito Internacional, quer do ponto de vista do "bom senso", pois afinal, esta política de hipocrisia, só está "fabricando" mais ódios, e maior insegurança a nível mundial. Hoje, chego à conclusão de que, chegou-se ao tempo, em que o Ocidente, deverá questionar-se sobre as razões dos atentados terroristas, e do ódio que é preciso "mastigar", para planificar atentados como o 11 de Setembro. Se o Mundo se debruçar sobre isso, depressa a Paz, será palavra vivida, naquela sangrenta terra do Médio-Oriente.

Publicado por Valéria Mendez em maio 31, 2004 03:12 AM
Comentários

Concordo contigo na razão do odio nessa terra onde as duas comunidades, israeli e palestiniana poderiam convivir em paz.
Beijos!!

Afixado por: odyseo em maio 31, 2004 07:36 AM

Paz, é algo que jamais se conseguirá para Israel/ Palestina...os Senhores do Mundo não permitem. O povo é instigado por ambas as partes com mestria...se esse mesmo povo parece um pouco pra pensar, veria que a Paz se encontrava bem perto. Mas enfim é a Vontade dos Povos !

Mais uma bela escrita !

Afixado por: Finurias em maio 31, 2004 01:20 PM

mais tarde ou mais cedo a paz vai ser uma realidade no médio oriente. as pessoas hão-de cansar-se da morte e da violência. valéria hás-de contar-nos mais sobre o "romance platónico" com o jovem da Fatah. ;-) beijinho

Afixado por: Francisco Curate em maio 31, 2004 11:14 PM

Valéria,
obrigado pelo empenho que pões em defender uma causa que achas justa.
Contrasta com a passividade e o egoismo que reina hoje em dia. É com orgulho que descubro que aqui em Portugal há pessoas que se preocupam com isso.

Afixado por: Cristina Branco em junho 1, 2004 01:01 AM

Taí um espetáculo que gostaria de ter assistido. deve ter sido emocionante.
Certamente o seu ato de solidariedade pesou, mas você sabe, no íntimo, que a fadista também foi aplaudida.

Afixado por: Manoel Carlos em junho 5, 2004 03:45 AM