maio 12, 2004

TAXI DRIVER

Havia pisado de novo, o aeroporto de Maiquetia. Desta vez, os meus tios e primos, tinham vindo receber-me ao Aeroporto Internacional de CARACAS. Deslocava-me pela enésima vez, àquele país sul-americano, desta feita, com uma colega, artista natural do Barreiro, a castiça fadista, Daniela Maria. Tinhamos agendados alguns espectáculos na capital bolivariana, para além de alguns convites de Centros Portugueses em Toromo, Maracay e Barquisimeto. Não podiamos também faltar, ao restaurante Auto Rancho de Caracas, que até tinha o luxo de possuir uma fadista residente, e dois guitarristas, a tempo inteiro, local muito "in" da capital venezuelana. Lá para o final da digressão, recebemos um convite dum conhecido "night-club", da Avenida Francisco Miranda, o " El Palacio Imperial ", um verdadeiro LIDO , à escala latino-americana, com um grupo de bailarinas, e uma pequena orquestra. Tudo muito AZUCAR, cheio de merengues e salsas, mas muito profissional, desde a qualidade dos camarins, ao serviço de cocktails, com uma clientela sofisticada, de naturais, e alguns ( pouquíssimos) turistas.
Como estávamos, eu e a Daniela Maria, hospedadas num hotel em Altamira, chamamos um táxi, e de sacola ao ombro, lá rumamos nós, no banco de trás duma banheira de fabrico americano, toda chinca-choça, de estofos rotos, uma porta metida a dentro que não abria, e um capot de cor diferente do resto do veículo, tudo muito condizente, com o retrato característico duma metropole sul-americana.
Iamos a meio da viagem quando, a minha colega interpelou-me ,a propósito do contéudo da nossa sacola, advertindo-me - "Oxalá não te tenhas esquecido do secador, sempre fazia jeito p`ra dar um jeitinho ao cabelo, com a escova." Acto contínuo, peguei na mala, abri-a,e apalpando o seu interior, lá dei com o secador de viagem, retirei-o, e empunhando-o na minha mão direita, mostrei-o à Daniela. Num ápice, o táxi trava violentamente no meio da estrada, eu e a minha colega, somos impelidas para a frente, batendo com a cabeça nos encostos dos bancos dianteiros, e quando olhamos para a frente, ainda vimos o nosso "taxi-driver", correndo desalmadamente, pela rua acima, o táxi parado a meio da via, de porta aberta, e nós, incrédulas, completamente parvas com a situação. Ainda dentro do táxi, gritamos - " Señor, por favor pare, que pasa con usted?" Como um raio de luz, e numa fracção de segundos, olhando para a minha mão, que ainda empunhava o bendito secador, a minha mente iluminou-se ! O secador era preto, pequeno, era noite, o homem se calhar pensou que era outra coisa. Saí do táxi, e mostrando o secador ao homem, aos gritos berrei- " Señor, por favor, esto es un secador de pelo. Por favor mire, mire ! " Já a uma considerável distância, o homem olha para trás, verifica porventura a veracidade do que lhe estou a gritar, e pouco a pouco, a medo,e muito lentamente retorna ao carro, olhando fixamente o secador. Por fim, a criatura viu que se havia enganado, rimos imenso, e lá andámos até o nosso destino, com o nosso motorista de táxi, a contar-nos episódios de " atracos", feitos por homens, mulheres, adolescentes...
Acabámos por fazer do nosso "chauffeur" de ocasião, nosso convidado especial no " El Palacio Imperial ", e em cena aberta, entre uma canção e um fado, contei aos presentes, a aventura de duas fadistas portuguesas, que, em plena Caracas, meteram tanto medo a um motorista de táxi, ao ponto dele fugir,e abandonar o seu instrumento de trabalho.
Foi um verdadeiro momento de humor e boa disposição. A verdade é que, sendo Caracas, uma das mais inseguras capitais do mundo, nunca fui, por graça Divina, vítima de violência ; todavia, cometi a proeza de assustar visceralmente um venezuelano de 54 anos, táxista há longo tempo, e habituado às vicissitudes da insegurança vigente na sua cidade.
Regressei a Portugal, interrogando-me, se não teria tido mais sucesso numa vida de "fora-da-lei", tal o " talento" que tive, em inadvertidamente, haver convencido alguém de que ,eu era , uma potencial agente do crime !? Há cá cada uma.... AHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHHA !!!

Publicado por Valéria Mendez em maio 12, 2004 02:52 AM
Comentários

:) sempre ouvi dizer que os taxistas em Caracas também não são flor que se cheire.

P.S. Já coloquei o poste sebre a Tradisom

Afixado por: amnésia em maio 12, 2004 10:01 AM

Valeria no site da Tradisom na secção "catálogo" há uma colecção de CDs que é capaz de te interessar, Chama-se "Arquivos do Fado" e são as gravações mais antigas que há de fado com gravações que remontam a 1904.

Afixado por: amnésia em maio 12, 2004 12:55 PM

História cómica esta. No entanto penso que por cá o secador não teria tanto sucesso, pelo menos por enquanto. E espero que assim continue por muitos anos, para nosso descanso.

Afixado por: vmar em maio 13, 2004 12:12 AM