maio 06, 2004

Passagem para Aman (2)Inclui um site sobre a grande cantora árabe WARDA

Passagem para Aman (1)- Ver Arquivo, 13 de Novembro de 2003.

Havia actuado numa conferência para universitários jordanos. Georges Moustaki fora vedeta. A minha presença devia-se unicamente ao facto, de haver sido voluntária num campo de refugiados palestinianos,e claro está, de pertencer ao Comité Francês para a Libertação da Palestina. É na Jordânia onde existem um maior numero de refugiados palestinianos. Mais de 50% da população é de origem palestiniana. É também um país islamico, com uma saudável convivência com o Ocidente. Afinal, a Jordânia teve uma Rainha americana. Com tudo o que daí pode advir. Existe, claro está, uma vivência tradicionalista, sem contudo se cair nos exageros "talibânicos". Não há porém, a tentação de se imitar as democracias ocidentais. Essa fórmula, não cabe na quadratura sociológica das civilizações árabes. Só quem não conheça o mundo árabe, é que pode gratuitamente, querer que sejam implantadas democracias do tipo europeu. O que não significa ,que se deva apoiar ditaduras. Não vislumbro para um futuro próximo, a separação total, entre a crença religiosa e o Estado. Mesmo sendo o Estado laico, este não poderá ( nem deverá) ignorar a religião. Sob pena de simplesmente, os governos não funcionarem.

Na penultima noite da minha estada em Aman, foi-nos sugerido, conhecermos a animação cultural da cidade. E segundo os nossos anfitriões, tinhamos uma bela oportunidade de assistir a um recital de uma diva, que apesar de ser natural da Argélia, houvera-se tornado numa vedeta muito respeitada, em todo o mundo árabe. Milhões de discos vendidos, concertos esgotados desde a sua terra natal ao Qatar, e até o Olympia de Paris já a havia consagrado vedeta do music hall árabe. Aceitamos, entusiamados, a sugestão.
A sala estava repleta de homens e mulheres, vestidos sumptuosamente com trajes de cerimónia. As mulheres então, eram duma sofisticação incrível, algumas com véus transparentes, debroados a ouro ou prata. Um autêntico cenário das mil e uma noites. No palco, sem qualquer apresentação surge-nos uma orquestra com vários alaúdes, um piano, vários violinos, instrumentos de percussão, entoando uma lenta melodia. Silêncio absoluto. A harmonia da musica árabe é qualquer coisa de transcendente. Mil imagens perspassam o meu espírito. Georges Moustaki, a dois lugares afastado de mim, está em transe. De olhos fechados. Sem que possamos adivinhar, surge-nos a voz de W A R D A. Velada. Um foco de luz ilumina uma bela mulher, vestida de rôxo, que avança lentamente para a boca de cena. A voz ,torna-se pouco a pouco ,vibrante. Forte. Requebrada. O requebro vai do grave ao agudo, duma forma a que a composição musical ocidental, desconhece o caminho. Depois há um grito. Como que movidos por uma mola, a plateia levanta-se em furor. Aplaude. Lança palavras que não entendo. A voz torna-se doce, vai devagar percorrendo um caminho descendente, até terminar num sussurro. A cançâo termina. Novamente a plateia é invadida por uma corrente eléctrica, que as impele ao aplauso. Há mulheres que choram. Há homens que abençoam a cantora em nome de Allah. O delírio. E nós, atordoados, olhamo-nos e olhamos aquela mulher- majestade, que agradece silenciosamente. O espectáculo foi todo assim. A cantora, ao efectuar uma variação melismática, era sempre interrompida pelos gritos e aplausos da assistência. Passada a surpresa, nós também já pareciamos pertencer àquela cultura. No fim, o respeito da diva para com a diva maior. Percebo que anuncia que vai cantar um tema de OUM KOULTHOUM, a diva das divas, a mãe de todos os cantores árabes ( Ver por favor a minha crónica sobre Oum Koulthoum, no Arquivo de 21 de Setembro de 2003).
A voz entoa "Al Atlal" da diva das divas. Warda, é interrompida pelos aplausos ainda mais delirantes. Há quem se ajoelhe, e agradeça a Allah a benção de ouvir uma canção da DIVA DAS DIVAS. E, surpreendentemente, no fim ,há o silêncio. Absoluto. Intemporal. Percebo que Warda reza por Oum Koulthoum. Fecha-se o pano. A orquestra entoa baixinho o refrão da ultima melodia. Warda desaparece de cena. Sem aplausos. O recital terminou. Não fomos capazes de nos levantarmos da poltrona. Ficamos ali, como que a digerir o que houveramos presenciado. Moustaki olhou para mim, e sentenciou: " Acabamos de assistir a um momento mágico." Eu, só pude esboçar um sorriso.

Publicado por Valéria Mendez em maio 6, 2004 02:08 AM
Comentários

Querida Valeria, sinto ter conhecido contigo a uma pessoa... grande, nel sentido da palabra grande quando é aplicada ao ser duma pessoa: grandes experienças, grandes acontecimentos na vida, grandes conhecimentos das pessoas, uma pessoa viajada, cheia de lembranças extraordinarias. Estou terrivelmente contente de ter conhecido este sitio e a voçé a través dele.
Com os meus comprimentos!!!!!!!

Afixado por: odyseo em maio 6, 2004 08:13 AM

Um texto impressionante...
Abraço, WB

Afixado por: whiteball em maio 6, 2004 01:00 PM

É magnífico podermos usufruir desses momentos mágicos na nossa vida. Acredito que é para tal que nos é dado o dom da vida.
Temos que o aproveitar bem.
Bjs,

Afixado por: Rui em maio 7, 2004 11:14 AM

Voltei...para reler o texto e apreciá-lo, desta vez, sem pressa! É que em cada leitura que faço me apercebo de sentidos que antes me tinham escapado; acontece-me isto em qualquer leitura...
Abraço, WB

Afixado por: whiteball em maio 7, 2004 06:54 PM

Obrigado pela partilha .

Afixado por: FINÚRIAS em maio 7, 2004 08:19 PM

Grato pela solidariedade manifestada, espero voltar em breve ao vosso convívio.

Afixado por: vmar em maio 9, 2004 12:18 AM

É a primeira vez que consigo visitar o seu blog. Já tinha tentado, mas não foi possível (sem saber os motivos), aceder.
Não estou aqui para comentar os seu texto, porque estou sem tempo para ler com calma. Mas voltarei aqui com esse propósito.
Estou hoje aqui para lhe agradecer as palavras de apoio que me deixou.
Muito obrigado.

Afixado por: Dom Quixote em maio 10, 2004 10:42 AM